(Percurso de
aproximadamente 3,5 Km)
Aquela rua já
não me pertence
Fechei todas as
janelas da casa
Matei as plantas
e a casa
E escondi todas
as fotografias dentro de uma caixa,
Aquela rua
deixou de ter estrelas
E só existe a
noite,
Aquela rua já
não me pertence,
E até as árvores
deixaram de respirar,
E todos os
pássaros
Deixaram de
brincar,
Aquela rua,
A minha rua,
Já não me
pertence…
Resta-me olhar a
lua.
Alijó,
06/12/2022
Francisco Luís
Fontinha
Nunca percebi o que fazem estes crucifixos suspensos nas feias paredes desta espelunca com clarabóia para a cidade, depois do sexo, quase sempre, um cigarro se suicidava no segundo andar e do quarto ao lado, em pequenas frases de final de tarde, chegavam-me os tristes gemidos dos corpos embebidos no fenol da solidão. Pela janela entreaberta, regressavam as dálias e margaridas que alguém esqueceu na paragem do autocarro.
Desenha-me!
Escrevo-te deste alegre
silêncio sabendo que tens na janela do teu olhar as sombras que dormem sobre
mim, escrevo-te deste longínquo continente para que percebas que enquanto estes
crucifixos habitarem esta espelunca, e quando me pedes para desenhar-te,
Invento as larvas que
roubam as palavras que semeio no teu peito, e nunca vais perceber porque
fugiram as acácias da minha mão.
Alegra-te meu rapaz,
Amanhã há caracóis.
E enquanto estes
crucifixos habitarem esta espelunca, o teu filho não saberá que nos barcos, um
dia, o pai escondeu as escadas de acesso ao sótão, depois, tínhamos de caminhar
até à estação mais próxima,
Estou grávida,
Ontem,
E víamos o sol a
esconder-se na montanha,
Pensas em quê?
Amanhã, filho…
E sabíamos que aquela
montanha tinha no peito o maior luar de Agosto, depois desenhava-te enquanto o
teu corpo se escondia nos cobertores do silêncio, e imagina, quando percebeu
que ia ser pai, puxou de um cigarro e em pequenos sorrisos,
Adormeceu na paragem do
autocarro,
O machimbombo afrouxou, e
num passo de esgrima, ficou acorrentado até aos dentes, nos braços, trazia as
cordas com que às vezes utilizava para subir à montanha, e desta, conseguia ver
o filho deitado sobre a cama rabugenta e infestada se sémen que da tarde tinha
adormecido sem compreender que alguns milímetros têm vida, como os pássaros,
como as dálias e as margaridas,
Sorrisos teus até aos
lábios.
Olhou-os e benzeu-se. E víamos
o sol a esconder-se na montanha, pensas em quê?
Amanhã, filho…
Em gritos, que não
pensava, que não sabia onde tinha esquecido os cigarros prateados e que às
vezes utilizava para carregar a espingarda da insónia, mas depois lembrou-se
que dos milímetros silêncios do filho, tinha escutado o uivo do Ujo, até que a
morte os levou para aquele triste e caquéctico sótão, onde além deles, habitavam
borboletas, ratazanas e teias-de-aranha…
Somos só nós a partir de
hoje,
E o pôr-do-sol deixará
nos teus olhos as estórias das noites junto ao rio, e o cansaço acorrentou-o à
ponte metálica que hoje dorme neste labirinto de livros, e nas pálpebras descobriu
as insónias da manhã,
Um dia, um dia descerão
dessa parede recheada de frestas todas as fotografias que deambulam pela casa,
e esse milímetro de vida,
Somos só nós a partir de
hoje e algumas teias-de-aranha,
Finou-se ao décimo quinto
dia.
Amanhã, filho…
Nunca percebi o que fazem
estes crucifixos suspensos nas feias paredes desta espelunca com clarabóia para
a cidade, mas sei que lá longe há um rio que nos olha e nos quer levar para o
mar.
E no mar, far-se-á homem
como todos os milímetros de vida.
Alijó, 18/10/2022
Francisco Luís Fontinha
(ficção)
Desta árvore onde me sento, não vejo o mar. Nesta árvore onde durmo e sonho, não vejo o mar. Nesta árvore onde poiso as minhas mãos frias e amarguradas, vejo o mar.
Serão os meus olhos as
janelas com fotografia para as infinitas tardes de Primavera? Sentado neste
cadeirão, enquanto pela janela chegam a mim as palavras que nunca te direi,
desisto de olhar-te, desisto de mentir-te; um dia, qualquer dia, perceberás que
os pássaros também choram.
Que as árvores também
choram. Que tu choravas enquanto eu desenhava em mim todas as lágrimas dos longínquos
coqueiros, que tu choravas enquanto eu semeava palavras nas tuas chagas.
Os pássaros também
choram. As flores, ao contrário dos pássaros, dançam, brincam, erguem-se até às
nuvens; os pássaros choram, as flores, as flores que tinhas sobre o peito, não
choravam, mas… voavam.
Voavam como voam hoje as
tristes equações do sono, voavam como voam hoje todas as manhãs sem poesia, do
corpo, do teu corpo, lanço sobre ele o poema em cio, vagueio e não choro,
levanto-me do chão, poiso a minha mão sobre os teus seios de amanhecer, e
acreditando que os meus poemas são as delícias do teu olhar, olhava-o,
colocava-lhe a mão sobre o débil peito e, cansei-me de desenhar palavras nas
tuas mãos. Seria melhor teres voado…
Desta árvore, observo-te.
Lanço sobre ti o silêncio, lanço sobre ti a espada do sonho e, não, não digas
que os pássaros não choram, porque os pássaros, como tu, também choram, também
brincam, também morrem.
E morrem de quê, meu
amor?
De alegria, minha
querida, morrem de alegria.
Como os poemas que te
escrevo.
Como os poemas que te
escrevo e guardo-os dentro da algibeira da insónia, e acredita que morrem de
alegria; e nas suas asas transportava uma manhã de Primavera.
Quanto tempo, doutor?
Duas semanas, duas
semanas,
Duas semanas poisado
sobre esta árvore à espera de que os pássaros chorem, à espera de que esta
mesma árvore, também ela, chore
De tristeza?
Não minha querida, de
alegria.
Um dia a casa despediu-se
dele. Enquanto voava pelo corredor, olhava todos os objectos, e ambos sabíamos
que nunca mais os olhava; e ambos sabíamos que o jardim que se despedia dele,
um dia, hoje, é apenas terreno agreste, é apenas pó.
E voaram, meu amor.
Os pássaros também
choram?
E as árvores, e as casas,
e este rio que te olha, e este mar que te banha quando a maré entra pela janela
e um orgasmo de palavras se abraça ao teu olhar. Depois, tivemos a visita das
sobejantes árvores onde podíamos ver as lindas manhãs de Primavera, como se a
Primavera naquela tarde fosse uma pedra mágica.
E depois, minha querida?
As tardes de ninguém,
Ouviam-se-lhe as
gargalhadas em despedida, mas o sono levou-a para os infinitos murmúrios da
solidão, e dizem que hoje vagueia pelas ruas da cidade em busca de pincelados
sorrisos.
Não sei, meu amor…
De tristeza?
Não minha querida, de
alegria.
E nunca percebemos porque
choram os pássaros; os pássaros da minha vida.
Alegria, meu amor?
E só quando as
fotografias estão em silêncio é que percebemos que os pássaros, as árvores, os
poemas, choram…
E os barcos, meu amor?
Esses, brincam nas minhas
mãos…
Alijó, 16/10/2022
Francisco Luís Fontinha
Não
tenho flores no meu jardim,
Não
tenho árvores no meu jardim,
Só
tenho pedras no meu jardim,
Só
tenho palavras no meu jardim.
O
meu jardim é um poejardim,
Tem
cabeça,
Tem
mãos,
E
as ditas pedras
Que
lanço contra as palavras,
As
palavras que o meu jardim dá…
Também
tenho no meu jardim lágrimas
E
sombras envenenadas.
No
meu poejardim,
Brincam
crianças invisíveis, crianças mimadas,
Sentam-se
fotografias prateadas…
Não
tenho flores no meu jardim,
Mas
tenho no meu jardim, almas penadas.
No
meu triste poejardim,
Onde
aprendi a chorar…
É
sem dúvida um poejardim com janela para o mar.
Alijó,
10/10/2022
Francisco
Luís Fontinha
Converso
com estes cadáveres em fotografia
Que
durante a noite poisam sobre o meu peito,
Olho-os
e percebo que são poeira
E
que voam sobre o mar,
E
que nos seus lábios
Transportam
o Outono,
Converso
e escondo as minhas palavras
Nas
ardósias negras da manhã,
É
tão triste,
Que
os pássaros que deixaram de voar,
Hoje,
Sejam
apenas sombras suspensas nas árvores da saudade,
Converso
e sinto a luz que ilumina o sonho,
E
estes cadáveres são pequenos nada…
Olha…
Nem
flores conseguem ser,
Que
depois de cadáveres…
Habitam
nelas o lindo perfume da madrugada,
Nem
pedras sabem ser,
Porque
são apenas cadáveres em fotografia.
Alijó,
29/09/2022
Francisco
Luís Fontinha
Nasci, logo em seguida o meu pai inventou o sono e a paixão. Numa pequena caixa de sapatos, onde guardava as recordações da breve estadia no ex Congo Belga, fotografias e pedacinhos de saudade, colocou as minhas primeiras palavras; a cidade é o cansaço quando o transeunte tropeça na calçada que tem janela para o mar e onde muitos meninos brincavam com barcos em papel e nuvens coloridas e sanzalas de prata onde habitava o silêncio que transportava as pequenas palavras do menino…
É tão pequenino, senhora
enfermeira!
E diziam que voava em
todos os finais de tarde. Depois, de gatinhar em gatinhar, de sombra em sombra,
o dito menino começou a construir sorrisos nos lábios da mãe e a desenhar traquinices
no olhar do pai.
Tínhamos no quintal
galinhas, pombas e mangueiras, onde, debaixo destas, por vezes, dormiam os
sonhos que regressavam da baía depois de contornarem as palmeiras que hoje são
apenas cortinados entre o hoje e o ontem; eramos felizes.
Nasci, logo em seguida o
meu pai inventou o sono e a paixão, depois inventou a noite, as estrelas, os
musseques, as palavras, o cacimbo, o capim… e por último, o beijo. Sabia que um
dia, talvez ontem, talvez amanhã, nasceriam gladíolos pincelados de orvalho,
depois, quando acordasse o despertador que habita na mesinha-de-cabeceira, a
voz da tristeza iluminaria a secretária onde brincam, o meu pai e a minha mãe e
dizem-nos que é a vida.
É a morte, digo eu. As pombas
talvez ainda façam voos rasantes junto ao Grafanil, quanto às mangueiras, essas
coitadas, alguma mão as assassinou apenas porque em todos os finais de tarde,
junto à noite, davam guarita ao menino dos calções que passava as horas a
inventar minutos de silêncio para mais tarde guardar dentro da pequena caixa de
sapatos.
Fotografias e pedacinhos
de saudade, colocou as minhas primeiras palavras; a cidade é o cansaço quando o
transeunte tropeça na calçada que tem janela para o mar e onde muitos meninos
brincavam com barcos em papel e nuvens coloridas e sanzalas de prata onde
habitava o silêncio que transportava as pequenas palavras do menino porque
durante a noite o desenho acordava e de janela em janela e de palavra em
palavra todas as sombras… hoje fotografias.
Acordava a manhã e o meu
avô Domingo passeava um velho machimbombo pelas ruas de uma Luanda prisioneira,
hoje, de algumas fotografias e cintilantes recordações; hoje, apenas
recordações. A Luanda, o avô Domingos, o meu pai, a minha mãe, a minha avó e apenas
o triciclo com assento em madeira teima em durante a noite fazer alguns passeios
no tecto da alcofa onde antigamente a minha mãe desenhava o mar.
Inventou o sono e a
paixão.
Francisco Luís Fontinha
Alijó, 26/07/2022
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foto de: A&M ART and Photos
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