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14 janeiro 2026

Era quase sol - último capítulo

Era quase sol, o senhor do negro chapéu, eram quase água as suas mãos melódicas nas lágrimas de cristo, fugia do destino, semeava ervilhas numa pequena folha de papel, amarrotada pela idade do infinito, e que talvez um dia, do outro lado do rio,

A cadeira de lona que o esperava,

Olhava-a e se sentava como se este fosse o seu último desejo antes de partir.

 

FIM

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

13 janeiro 2026

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.

À casa depois da chuva

À casa depois da chuva, que se sentava de pedra em pedra, e que sonhava, quase disfarçado de espuma, se levantava da terra e corria como um tolo, sabia que

Eu tinha acordado da sesta que a tarde desenhava no meu corpo, como se eu fosse uma escultura de vozes semeadas no trigo loiro da alvorada, a Teresa vasculhava nos meus livros réstios de traços deixados aqui e ali, de quando em quando, suspirava

Ele anda a trair-me só pode ele nunca escuta aquilo que eu digo…

Ergueu-se da chuva, sentou-se em cima de um punhado de sombra, e eu comecei a ouvir a sonolência de uma quase minha ausência de tudo.

Escutava a chuva, e pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca, ela

Não. Ele tem outra só pode ser.

E o barco às vezes era cinzento, depois descia a janela e quando poisava a âncora em cimento firme, os seus olhos eram azuis e o seu corpo quase que de um encarnado mais parecendo,

Desculpa? Eu tenho outra, outra quê?

Sabia que um dia tinha de partir, sabia que um dia tinha de deixar tudo, tudo

Olha, um poema dentro deste livro,

E tudo também pertencia em fazer acontecer, que a cada dia que acorda o sono, outro sono se deita, sobre o vento.

 

manhã ao acordar,

 

que te escreve no seio a ventura de os beijar, que te pincela o corpo de desejar, que te escreve no olhar.

que te quer a cada noite, mesmo sem luar,

que te desenha nos lábios o beijo, que te toca, e sente

a primavera de um abraço nas primeiras palavras do mar.

 

que te olha, e se pergunta, o que dizem os teus olhos,

que te escreve no silêncio, que te poema, que te sonha,

mesmo não sonhando, que te inventa na cama, enquanto da lua descem as maresias na mão da neblina.

 

que já foi menino, também menina, que foi poesia numa tarde junto ao rio, que te quer,

que te escreve, que te dá o luar e te é amar,

o que dizem os teus olhos que se pergunta…

a cada manhã ao acordar.

 

Acendeu um cigarro. Olhava pela janela da varanda os carros que vinham e os carros que iam, de vez em quando, olhava o aquário, e entre baforadas de pequenos silêncios, perguntava-se,

Partir e o que levaria apenas; um livro? Um pequeno poema?

Ou partiria apenas de mão vazias tal como tinha nascido, um dia, enquanto acordava o dia.

Ao outro dia deixaram de avistar o Artur e apenas o vento a sua falta sentia…

E pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca.

30 dezembro 2025

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Que tinha sido sua mãe, durante a noite, saía de casa e iluminada pelas estrelas de um amor mais dia do que o luar,

Colhia pétalas para semear no rosto de seu menino.

Levantava-se já o destemido vento, havia junto à ribeira uma cerejeira que escrevia poemas durante os finais de tarde, e nos olhos do menino, más as horas da tarde, um barco entrava-lhe janela adentro, homens fardados, mulheres despidas, despediam-se do marido e acordavam nos olhos de um amante, antes que fora também um menino, antes também uma pétala colocada pela mão de sua mãe.

Que lhe tinham roubado a apendicite quase aguda, que anos depois, sobre o Tua uma abelha acordou, e o menino

E a sua mãe, galgaram serra acima, depois do jantar, encostava o rosto à janela, ele já muito bêbado de tanta poesia,

Abre-lhe pausadamente as pernas, em pedaços de milímetros, calculou a distância mais curta, da terra ao céu,

E ela gemia, ele escrevia na nádega quase rouca de tanto uivar, que o orvalho lhe entrou sexo adentro,

Voou sobre o mar,

E sorriu de prazer.

Que foda.

O barco depois sentava-se sobre uma cadeira em tubo de ferro falsificado nas metrópoles longínquas de umas mamas mais olhos do que barriga, despia a saia,

E saía,

Que tinha como roupa uma fita parva enrolada ao sangue do peito, é alvorada, até à alvorada todos bebiam, e ninguém

Pagava nada. Oferta de sua excelência, o menino da mamã, depois ouvia-se o galgar dos sinos sobre a clareira de um abraço, o comboio quase em lágrimas, depois chovia, depois ela não queria, e eu quando queria, caía, e sobre o mar a ausência de um papagaio em papel, tão lindo, e tão alegre, como a sua mãe.

A ponte, sorria, subia até à lua, e ao outro dia, descia, em coma quase poético como de poético era a segunda rua depois do cemitério, do outro lado, alguém gritava

É hoje é hoje que acaba o mundo,

E depois da última foda da noite, levantou-se e o mundo acabou.

Fiquei eu, apenas eu neste labirinto de mediocridade de uma palavra ambulante, pretos em guerra, em guerra eu com as palavras,

E depois, a ponte sempre em transe, sempre em tesão, esperando que da outra margem,

Um rés-do-chão quase uma pequena lágrima escondida na areia. Era sábado, tal como hoje também é sábado, uma espingarda subia a calçada, desviava-se das sombras encontradas, às vezes sentava-se no passeio e via os musseques da infância, também eles desciam a calçada, tal como a espingarda, em lágrimas de sangue, na sua mão tinha a mão de sua mãe uma alcofa com o tecto pincelado de estrelas,

É para ti meu amor

E foi quando já depois de noite, o menino e sua mãe e o vento, depois dobrava a esquina, dizia palavrões ao vento

Vai trabalhar malandro

E despia-se sobre a mesa-de-cabeceira, ela abria a janela, fumava, fumava, e ele dançava, e ela

Despe-se pausadamente como um diamante à procura, também ele, do dedo de sua mãe, de preferência, com dinheiro, e

E que não, que nunca tinha ouvido falar, quanto mais, quanto mais, olha, outra espingarda, apressada

E ela olhava-o, depois a dança terminava, ela colava-lhe uma moeda de vinte e cinco escudos nos testículos, e ia embora até à outra margem, que por hoje ser sábado, o cacilheiro despedia-se da cachopa de uma sanzala entre capim e mabecos, um cacho de bananas sobre a mesa, maiores do que o menino, e sua mãe, de vez em quando, desenhava-lhe brincadeiras na palma de sua mão,

Abre é para ti

Porque o vento sempre lhe disse e dizia, menino

Olhe que um dia, o menino

Sozinho, sobre a toalha uma colher de sopa depois do jantar saneando que também é preciso ser o livro até que uma flor acorde na porta de uma palavra sempre que chovia o meu pai adormecia acreditando que a chuva é uma mulher nua,

Pai

Desculpa, pensei que hoje havia sobre a mesa uma fotografia e olha o que encontrei, uma bussola de ouro silêncio da vida de dois pequeninos peixes sedosos por sombra e por rimas e batidas de uma nova alvorada.

Depois a calçada fechava a janela, descia a persiana quase mais emperrada no vento do que todas as mandibulas de limalha sobrantes de tanto parafuso e de tanta porca que depois de ser noite, todos e todas, desciam até ao rio sonolento das pequenas migalhas sobre a aldeia, e sabia que um dia, e o vento viria,

E veio,

E veio hoje.

As espingardas nunca mais foram vistas e observadas, e tão pouco o vento que hoje

Deixou de sentir o desejo quando percebeu que o barco tinha adormecido sobre a calçada,

Comadre amanhã posso ir

Que também havia na sanzala quem acreditasse no destino, que um dia, o sino

Tocava,

E um menino acordava, da cinza, vestia calções e calçava as sandálias em couro carcomidas pelos olhares nocturnos das mangas, que quando havia sol, deixavam os filhos entregues à sorte de uma semente,

E subiam até ao sótão,

A espingarda sabia, sabia que um dia, um dia o menino descia a janela e iria se esconder,

Nas asas de uma gaivota. Ouvia-se o vento nos braços deste barco, sobre a cabeça,

A ponte. E também tinham medo.

Que um dia o menino,

Acordasse.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva

 

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar

Como se a terra não rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo, pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.

Já viste o jornal, parece que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois

Os vinhedos, para fugirem ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,

Socalco abaixo,

E rio.

O dia nunca tinha horários, e mesmo assim

Desculpa, o que tenho eu ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,

E este rio de cabelos loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada

Que o Douro enlaça, que o Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao suor, e muitos deles

Nem o nome sabem desenhar,

Quanto mais, ler, quanto mais, sonhar.

Um dia percebeste que a saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra, de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada dia, o Douro ao outro dia,

Não é o Douro de ontem.

Pai, porque vais embora

O sino que desde que me lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma coisa,

Quando a única coisa que lhe devo é apenas,

O silêncio de uma estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria

Que o dia,

Tivesse vinte e sete horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.

Como assim pai

Olha, imagina dois pontos

O ponto (A) e o ponto (B)

Pode ser, mas porque não utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em vez de letras,

E depois pai

Imagina que há uma distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.

Imagina que um dia,

Um dia pai

Imagina que um dia nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,

Porque leu, porque alguém a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos rochedos mais belos da primeira página de um livro

Como assim pai

Aquele doce doirado navio de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.

Depois chega a casa já embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo rio, sempre o mesmo xisto,

Sempre a mesma saudade.

Depois chega a casa, maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela

E espera que amanhã acorde o dia, sempre o mesmo dia.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.


29 dezembro 2025

Uma calçada que também chorava

 

Um cacilheiro, mal-amado, no final da tarde inventava o sono, despedia-se dos amigos, subia, subia, subia as escadas até ao sótão mais próximo, batia à porta

E o vento o abraçava e o vento

Que às vezes também chorava, sabia que aquela tarde era a última tarde no último navio que todas as noites descia a calçada da Ajuda, disfarçava-se de soldado, escondia-se, por momentos, no olhar de um rio, quando ainda menino tinha dormido uma noite sob a ponte Dr. António de Oliveira Salazar quando regressava de África…

Olhava-a do pequenino quase nada silêncio de uma parada semeada de soldados parvos, que também eles desciam a calçada da Ajuda, que não os ajudava em nada,

E eles corriam, corriam, corriam até entrar no primeiro carro estacionado junto ao Palácio de Belém, abriam a porta, entravam e sentavam-se,

E uma mão procurava-lhes o sexo folgado, e depois

Depois uma boca descia, descia…

E um mar de espuma acordava, e o soldado, regressava ao quartel, feliz, tão feliz e com cinco mil escudos na algibeira; ah grande magala.

E a ponte lá estava, todas as noites, a mesma ponte, todas as noites, a descida, depois o silêncio, e mais

Muito mais tarde,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância!

Eu não sabia que autocarro da carreia era machimbombo, eu não sabia que havia um rio, também ele mistério, também ele a essência da noite, muito mais belo do que o belo Tejo.

E hoje quando olho para o Douro percebo, mas percebo o quê pai?

Se junto à noite, quando quase noite, os amontoados de sémen aos magotes procuravam o churrasco mais barato da calçada,

Aliás, todas as suas pedrinhas, cheiravam a frango assado, muito pobrezinho no aspecto e na ausência, quase sempre

Da fúria de uma mão e do odor a óleo talvez com alguns anos, que se deitava e acordava, sempre na mesma frigideira, sempre na mesma calçada.

E eu noite adentro sentava-me debaixo de uma árvore, a árvore era também prisoneira tanto ou mais do que eu que até lhe colocaram um círculo em pedra à sua volta,

Não fosse ela pela calada da noite descer a calçada e perder-se nas ruelas do Bairro Alto, ou também divertir-se com os puxões de cabelo entre duas prostitutas em Cais do Sodré, que se diga, tal como eu, funcionárias do Ministério da Defesa. E eu sentado, contava as luzes que de electrão em electrão atravessavam a ponte e ao fim de alguns minutos percebia que não eram assim tantas.

Ao contrário do dia, que eram milhares, e sentado dento de quatro muros pincelados de um amarelo tão triste, tão triste que às vezes sentia as lágrimas de uma flor a descerem-me pela mão, e num caderninho escrevia poemas ao Tejo.

Mãe, estou bem!

E desde que aqui estou, ainda não sabendo muito bem onde estou, nunca vi ou ouvi um pássaro que seja nesta árvore que debaixo dela me sento e olho a ponte; verdade, pai…

E depois havia uma fotografia, um tipo triste, tão verde como verde era a chuva de Maio em corridas com uma espingarda na mão que apenas disparava às terças, quintas, e aos sábados vinha a casa matar saudades da mão e do pai, e depois…

Nos restantes dias caçava ratazanas durante a noite; e eram tantas, mãe,

Tantas eram que às vezes, às vezes acordávamos com os seus gritos e um fio de sangue desenhava-se em pequenos círculos no pavimento do corredor,

O Moreira,

Mais uma que deixou de nos chatear. Comemorávamos até que o vento nos tombava, e nós éramos apenas sombras dentro daquele quartel, e ao longe via-se a ponte e os carros,

Não te lembras, pai, dessa fotografia que anos e anos esteve suspensa na parede da nossa sala, e sabes,

poucos dias, não sei porquê, no entanto

Fi-la em pedacinhos, porque pai

Cansei-me de olhar para um gajo vestido de verde, com uma boina preta na cabeça quase nua, como a tua, anos mais tarde na luta contra o cancro. Cansei-me desse tipo vestido de verde com uma metralhadora na mão, sentado num carro de combate que por de trás das costas como silêncio de fundo tinha a ponte 25 de Abril,

E que durante a noite disparava apenas palavras contra um pequeno caderno, hoje uma lápide dentro de uma das gavetas da minha secretária.

 

Alijó, 11/04/2025


20 novembro 2025

De vez em quando

Aqui está o destino, que era uma vez, da última vez, quando a estrada galgou o mar, e quando os automóveis comeram o mar, era uma vez


Quando o silêncio de tanto o ser, o gradeamento da janela começou a verter lágrimas, juro, não era a fingir, era uma vez a raiz quadrada de vinte e cinco, que após ontem, hoje


Cinco.


Terceiro esquerdo, de alguidar na mão, entretinha-se durante a tarde a procurar barcos, bem lá no fundinho do alguidar, e às vezes


De vez em quando, era uma vez um circo, umas vezes pertencia e depois, despedia-me, depois era


Era uma vez de novamente readmitido, poeta cessante, roulotte quase a caminho da estrada, a lareira, quase apagada, era uma vez


Um barco, um barco tão lindo como mais lindo o era quando em criança, e uma vez


O barco foi ao fundo.


Dorme.


Era uma vez um barco tão dorminhoco, que era uma vez que


Ainda o hoje se deita e dorme dentro da noite.




08 outubro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

23 setembro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

A última porta da noite

 

A última porta da noite. Escondo os olhos na primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, lá dentro, alguns pertences dos meus pais, cartões de identidade, recordações que aos poucos vou deitando fora de mim, pertences esses que vão ficar esquecidos como um dia ficarão esquecidos todos os meus pertences; numa gaveta de uma distante mesinha-de-cabeceira.

Às vezes sinto-me um cacilheiro desgovernado ou um machimbombo louco em andamento pelas ruas de uma cidade que nunca existiu, que eu nunca vi, que eu não conheço, e vestido de cacilheiro faço-me à vida, saio de casa, pego no terceiro ou quarto cigarro da manhã, encerro a última porta da noite, e depois de andar em círculos pelo rio, estaciono junto ao café e tomo o primeiro café do dia e fumo o quinto cigarro do dia e chego á triste conclusão que preferia ser um louco machimbombo conduzido por um louco, não em círculos pelo rio, mas em contramão pelas ruas de uma cidade que eu não conheço, nunca conheci e não quero conhecer.

O mar está revolto, meu amor e, não adianta esconder-me dessa cidade que não conheço, cidade maldita que me viu nascer e me abandonou, cidade que se ergue em mim todas as noite e que teimo em não regressar; sabes, meu amor, tenho medo dos machimbombos e dos loucos que passeiam os machimbombos por esta cidade em chamas, onde ao longe, sinto o cheiro dos meus quadros, metade em cinza, outra metade, embalsamados como se embalsamam os corpos das flores da Primavera.

E nesta cidade que eu não conheço, que nunca conheci, observo o miúdo que está sentado no portão de entrada de um quintal recheado de mangueiras e que às vezes me questiono que quintal será este, a quem pertenceria este quintal, que miúdo é este que teima em olhar as nuvens e espera pacientemente o regresso do avô Domingos, que pela mão passeia um velho machimbombo pela cidade, cidade que não conheço, cidade que nunca vi, cidade que não quero conhecer.

Mas meu amor, acabamos sempre por desconhecer as cidades. Transportamos ruas, ruelas, casas, casinhas, flores, cacilheiros, putas e marinheiros, mas nunca a saudade.

E da primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, após encerrar a última porta da noite, vem a mim o cheiro intenso da terra queimada, do cheiro do capim húmido, da tua agonia enquanto a morte não te levava, dos constantes pedidos a Deus para que através de um qualquer milagre te salvasse, mas tal como a cidade que me abandonou, que eu nunca conheci, que ainda hoje não conheço, também ele, também eu, sentamo-nos junto ao rio a olhar os machimbombos a desenhar círculos de sémen sobre os temidos lençóis que sobejaram da noite, que tal como a cidade, não me pertence e nunca me pertencerá.

Nunca serei dono da noite porque a noite é escura, porque a noite é fria, porque a noite sabe a morte e a uma cidade que se afunda nos três pilares em aço das pequenas mãos do silêncio; e hoje, queria ser como tu.

A última porta da noite.

E este machimbombo acorda-me durante a noite, pega na minha mão e leva-me em pequenos passeios por esta cidade que eu não conheço, que eu nunca conheci e que hoje sinto medo de recordar. Acordas-me sem perceberes que nunca adormeci antes de encerrar a última porta da noite, sem perceberes que dentro de mim habitam cacilheiros em papel, machimbombos de porcelana e flores de Inverno.

Que o fino fio de nylon que puxava o machimbombo hoje trago-o na algibeira conjuntamente com os cigarros, as chaves de casa e o endereço da terceira gaveta da tua mesinha-de-cabeceira. E em caso de endereço insuficiente, é favor devolver ao remetente…

Mas qual remetente?

Se esta cidade não existe, se esta cidade nunca existiu, se esta cidade é apenas uma velha fotografia que não sei porquê… está na gaveta da mesinha-de-cabeceira, e é pertence dos pertences deles.

Estes barcos chateiam-me. Estes barcos são agora sucata e vómitos de saudade, depois percebo que o silêncio é o construtor da última porta da noite que todos os dias encerro e que a todos os dias se abre; e que dos olhos acordaram as preguiçosas madrugadas onde uma janela se abre e que nunca mais se encerrará como se encerra a última porta da noite.

Desenho as estrelas nos teus olhos. Desenho as madrugadas nos teus lábios, e quando regressam a mim os machimbombos que deixei naquela cidade que nunca conheci e ainda hoje não conheço, percebo que sou um pedaço de aço nas mãos de um metalúrgico que não se cansa de escrever na escória do meu silêncio; aqui me perco onde guardo os teus lábios.

E há sempre um remetente que nos espera, numa cidade que não conhecemos, numa cidade que inventamos para adormecer durante a noite e encerrar a última porta desta; e ele inventou o sono.

E das mangueiras do meu quintal apenas ficaram os teus braços; e as mãos com que afagavas o meu rosto…

E a última porta da noite.

04 setembro 2025

E um petroleiro azul, com olhos de menino

 

Não sei porque fui buscar o Lorca (Federico Garcia Lorca) para ler entre as minhas leituras de hoje. A outra margem do mar, de António Lobo Antunes, e aqui, confesso, sinto este livro como se fosse eu, eu à procura da outra margem do mar. um tipo, como diria o Pacheco, que sente África e procura qualquer coisa,

Que talvez, amanhã

E estou a ler também a bibliografia do Herberto Helder, e confesso,

Que Deus é um tipo porreiro, que deus meteu dentro do meu corpo, o outro corpo, o do poeta, desse tal de Francisco, um tipo (Pacheco) tolo e louco, e enquanto o gajo sonha com as palavras, enquanto o gajo inventa borboletas nas paredes da aldeia, ela sorria, como o vento, que sente, outro vento, um outro destino.

E não sei porque fui buscar o Lorca, não sei, aliás,

Já quase, ontem, que de nada sei.

E mesmo assim, finjo o saber. A Vírgula acaba de tropeçar no terceiro degrau da escada que dá acesso ao altar, sua excelência, que deus o tenha e o lá conserve, bateram à porta, abria a janela,

E um petroleiro azul, com olhos de menino, poisou na minha mão. Pensei. Coitado dele, quase espuma sobre o mar.

Mas depois há um ponto de interrogação, há uma linha de comboio, quase infinita e tão fina, como a chuva de Setembro, que odeio, não a chuva, mas o mês de Setembro.

Que ser rico deve ser uma chatice, e confesso-vos, não o queria ser, é muito tédio para nós. Eu e o outro, o tal de poeta,

Coitado dele, sabem, é um desgraçado, coitado, e odeio, odeio Setembro de 1971 e odeio Setembro de 2019. Odeio 21 de Setembro de 1971 e odeio 21 de Setembro de 2019,

E mesmo assim, finjo

Finjo que o sol me sorri, e o sol coisa nenhuma, o sol nunca me sorri.

Não sei porque fui buscar o Lorca. Mas senti uma vontade de o fazer, talvez porque me sinta só, talvez porque os rios tenham deixado de correr para e o mar, vejam só

Agora sobem as montanhas e querem atingir o céu. Meu deus que coisa estranha, o estranho e o pertencer, e de nunca o ser.

Oiço música clássica, também há poucos dias o comecei a fazer com mais intensidade, até no carro.

E tudo é estranho, aquela sensação de que alguma coisa de muito importante e boa está para acontecer, é estranho e de tão estranho, sinto-o, como se fosse o vento que me serrava com as flechas do Marão à porta do Hotel Tocaio, às vezes por volta das cinco da madrugada, frio e geada, e eu

Eu acreditava. E assim fiz o 12º ano, todos os dias cerca de cem quilometro, percorridos em quatro horas e mais alguns olhares das cachopas que já vinham de outros travesseios,

E eu sentia, e eu sinto-o, quase chuva, quase sinto o oiro.

 

Poderia continuar por aqui abaixo, ribeira acima, mas o palerma que me empresta o corpo quer descansar, vejam só, descansar.

Se eu ao menos tivesse um corpo só meu, descanar qual o quê…

 

E percebo que o Pacheco está literalmente fodido, aliás

Ele ainda está uns muitos degraus à minha verticalidade, eu ainda não sou o miserável do Pacheco, mas para lá caminho, e se eu pudesse caminhar, eu caminhava sobre o gelo frio de Janeiro, e dançava, e brincava.

 

Não sei porque o fui buscar, mas apeteceu-me.

O Lorca fascina-me.

 

(04/09/2025), Alijó.

21 junho 2025

A furgonete

A furgonete galgando cada pedra da calçada, e de cada pedra, um além-mar que se deita sobre as ondas do destino, o miúdo escuta a voz da mãe, encosta o búzio ao ouvido esquerdo, e enquanto desenha sorrisos com os dedos da mãozita direita, sente sobre os ombros o pássaro malmequer, destemido, de um sonho quase também destino, depois sentia que a janela tinha qualquer coisa estranha no olho esquerdo, e fodeu-a até acordar sobre o outro muro da sílaba também quase, melodia de uma manhã.

Não sou ninguém, acreditava a esfera cinzenta, que tinha quatro mãos, e aos sábados, dançava sobre a mesa de um bar, aos poucos, despia-se. Depois quando já nada pertencia ao seu corpo, chorava, lançava lágrimas para a plateia, o inverno tinha terminado, o sonho, era agora primavera, e nem a chuva sabia o nome da primeira lágrima da manhã, depois, depois chovia, e eu, eu subia à nuvem mais alta da aldeia, até que a morte chegava, e um dia, levou-a.

E um dia ele saberia que mais tarde ou mais cedo, depois do expediente, enquanto olhava para a furgonete galgando cada pedra da calçada, e de cada pedra, um além-mar que se deitava sobre as ondas do destino, o miúdo acordou, mal abriu os olhos logo cedo pela manhã, depois de alguém lá do prédio ter assassinado o amante, apenas porque

Despia-se lentamente, apenas porque o leão era o Rei da Selva, porque a mulher se tinha ausentado com o filho, que um dia voltaria, que depois haveria tiros, e de uma bala lançada contra o vento, o cabelo quase tocava o céu, apenas porque tinha deixado a janela mal fechada, apenas porque se tinha esquecido de um retracto dentro de um livro, entre duas páginas mortas, depois abria a janela, puxava de um cigarro, e olhava a selva, procurava o leão, e lentamente vociferava entre as pedras da calçada,

- leão, leãozinho onde estás tu, meu menino?

Que nunca tinha sido pai apenas por causa do destino. Quase acordou uma madrugada aos pés de nossa senhora de Fátima, e que vergonha, blasfémia, um poeta, um presidiário e uma puta, os três, bêbados, e dormindo aos pés da dita senhora de branco, descia a prata, entrava no nariz,

- zás, leãozinho, onde estás?

Aliás, nós somos todos malucos e tolos, somos destinos na voz de uma equação,

- no silêncio de uma sala quase envenenada de medos, perguntou o professor de cálculo: o que é isto? E isto era uma equação complexa, não muito para ele, mas era-o

E durantes alguns segundos, nem a abelha maia se conseguia ouvira, até que um gajo pede a palavra

E,

- professor, sim responde-lhe ele, isso é uma série de Taylor. Porra. O gajo acertou,

Ganhou uma viagem de ida, apenas, e foi até à nuvem mais distante da lua, e começou, durante a noite, a semear palavras nas asas de uma alvorada.

Nada dava certo. Durante a noite tentava remendar os cortinados já rotos das tempestades e dos olhares alheios, depois vinha o dia, e qualquer coisa, mesmo até o vento, rompia o cortinado, partia a vidraça, e encostava a cabecita à grade já tão cansada de abraçar cabeças de miúdos parvos, palermas, que quase nunca respondiam ao que lhe perguntavam.

Queres ir?

- não.

E foi, um dia.

Um dia serrou o tronco de uma árvores, depois foi serrando e aos poucos, todo o tronco se encontrava fatiado, quase pronto para a sandes, a fome não era muita, no entanto, tanto era o outro cansaço de uma lareira quase molhada, nas coxas também húmidas no clitóris de um verbo que incendiava a floresta.

- e pensava; o que me interessa a mim a série de Taylor?

Que se foda.

Que as escadas que servem para subir ao céu, poderão um dia, não ser as escadas da decadência e de descida ao inferno, e o leão lá andava, e anda, perdido na selva, à procura de quem não anda, uma erva que morre, um pilar metálico que se ergue entre dois pénis estacionados junto ao museu dos coches, depois ia para casa resolver as equações, percebia-se a flexão junto ao seio esquerdo, depois ouviam-se os momentos flectores, e as flexas de uma vagina quase encurralada e prensada por uma bolha de cinco kilonewtons de argamassa para a dentadura. Chovia.

Chove.

A carroça dançava sobre a calçada, e quando o cavalo estancou repentinamente a marcha, olhou o relógio de bolso que fazia questão de deixar muito firme e claro

- é de ouro a corrente.

Do outro lado, ouvia

- que se foda.

Quero lá saber se do outro lado da lâmina da navalha está escrito o nome do último beijo do Outono; era sábado, e o rio nunca mais os viu.

02 junho 2025

Era uma vez um menino

Era uma vez um menino, era tão cedo, que ainda hoje

Acorda cedo, era uma vez um menino, encostou a cabeça aos poucos vidros que restavam da portada, uma das mãozitas encostou-a a um dos vidros, e a outra,

Com muito jeitinho, quase como por artes mágicas,

Conseguiu colocar os deditos finos e longos por entre um pequenino buraquinho

E começou a sentir o primeiro frio da sua vida; talvez, o primeiro orgasmo, aquela sensação estranha que se apoderava aos dedos, e aos poucos,

Ao resto do corpo.

O menino, não os seus primeiros desenhos, porque muito tempo antes já os fazia nas paredes dos quarto da sala do corredor,

E um dia, e um dia o diabo do rapaz até queria escrever na carta de condução do pai,

O avô domingos, achava piada, e aproveitava os dias de folga, de quando não andava a puxar um machimbombo pela mão, para dar mais uma demão de tinta, acreditando que um dia,

Um dia isto passa-lhe, o menino, com o inexplicável bafo da sua pequenina boca, que para ele era novo também e não o percebia, começou a desenhar o sol, começo a desenhar círculos, quadrados e olhava a rua quase nua, quase

E perdia-se nos poucos carros que passavam, e pequeninas folhas tão brancas como a lua, fortemente caiam e formavam no pavimento um lençol de flores imaginadas, por ele,

Mais branco do que a areia do Mussulo, mais branco do que o mar, quando da despedida, e mais branco, do que o silêncio.

O menino, sorria de contente, tirou a mão que tinha colocado no vidro, depois, com muito cuidado, a outra mão que tinha no pequeno buraco, aos poucos, porque achou piada, tirou a cabeça e abriu a portada, colou um dos pezitos sobre aquele manto fino e mais belo e mais branco,

Do que a lua quando tão bela, e sentiu-se a ser engolido por uma laje de granito, muito mais velha do que a rua onde tinha nascido.

Era uma vez, um menino, tão parvo, que de contente

Pegou numa caixa vazia, encheu-a com o máximo de flocos que pôde, às vezes, às vezes metia os deditos e espetava-os, e sentia talvez,

O segundo orgasmo da sua vida,

Mas o menino queria mais, dizia ao avô domingos que queria ser artista,

Artista meu filho isso é coisa que se se diga olha pede namoro à filha do tavares,

São dos mais ricos, cá da terra,

Depois retirou os deditos da caixa, e quase como estivesse a ser comandado por uma força externa, poisou-a carinhosamente sobre a braseira,

O menino sorria, corria pela sala que servia de tudo, e que era dividida por cortinados, até que

A braseira, quase num instante único,

Simplesmente, morreu.

Este, este foi talvez o primeiro desgosto do menino,

E só depois, e só depois lhe explicaram que toda aquela plenitude e magia e beleza,

Se apelidava de neve. E que como todas as coisas belas, às vezes, às vezes basta uma pequenina coisinha…

Para despareça para sempre.