Levanta-se o vento, sabia
o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o
Que tinha sido sua mãe,
durante a noite, saía de casa e iluminada pelas estrelas de um amor mais dia do
que o luar,
Colhia pétalas para
semear no rosto de seu menino.
Levantava-se já o
destemido vento, havia junto à ribeira uma cerejeira que escrevia poemas
durante os finais de tarde, e nos olhos do menino, más as horas da tarde, um
barco entrava-lhe janela adentro, homens fardados, mulheres despidas,
despediam-se do marido e acordavam nos olhos de um amante, antes que fora
também um menino, antes também uma pétala colocada pela mão de sua mãe.
Que lhe tinham roubado a
apendicite quase aguda, que anos depois, sobre o Tua uma abelha acordou, e o
menino
E a sua mãe, galgaram
serra acima, depois do jantar, encostava o rosto à janela, ele já muito bêbado
de tanta poesia,
Abre-lhe pausadamente as
pernas, em pedaços de milímetros, calculou a distância mais curta, da terra ao
céu,
E ela gemia, ele escrevia
na nádega quase rouca de tanto uivar, que o orvalho lhe entrou sexo adentro,
Voou sobre o mar,
E sorriu de prazer.
Que foda.
O barco depois sentava-se
sobre uma cadeira em tubo de ferro falsificado nas metrópoles longínquas de
umas mamas mais olhos do que barriga, despia a saia,
E saía,
Que tinha como roupa uma
fita parva enrolada ao sangue do peito, é alvorada, até à alvorada todos
bebiam, e ninguém
Pagava nada. Oferta de
sua excelência, o menino da mamã, depois ouvia-se o galgar dos sinos sobre a
clareira de um abraço, o comboio quase em lágrimas, depois chovia, depois ela
não queria, e eu quando queria, caía, e sobre o mar a ausência de um papagaio
em papel, tão lindo, e tão alegre, como a sua mãe.
A ponte, sorria, subia
até à lua, e ao outro dia, descia, em coma quase poético como de poético era a
segunda rua depois do cemitério, do outro lado, alguém gritava
É hoje é hoje que acaba o
mundo,
E depois da última foda
da noite, levantou-se e o mundo acabou.
Fiquei eu, apenas eu
neste labirinto de mediocridade de uma palavra ambulante, pretos em guerra, em
guerra eu com as palavras,
E depois, a ponte sempre
em transe, sempre em tesão, esperando que da outra margem,
Um rés-do-chão quase uma
pequena lágrima escondida na areia. Era sábado, tal como hoje também é sábado,
uma espingarda subia a calçada, desviava-se das sombras encontradas, às vezes
sentava-se no passeio e via os musseques da infância, também eles desciam a
calçada, tal como a espingarda, em lágrimas de sangue, na sua mão tinha a mão
de sua mãe uma alcofa com o tecto pincelado de estrelas,
É para ti meu amor
E foi quando já depois de
noite, o menino e sua mãe e o vento, depois dobrava a esquina, dizia palavrões
ao vento
Vai trabalhar malandro
E despia-se sobre a
mesa-de-cabeceira, ela abria a janela, fumava, fumava, e ele dançava, e ela
Despe-se pausadamente
como um diamante à procura, também ele, do dedo de sua mãe, de preferência, com
dinheiro, e
E que não, que nunca
tinha ouvido falar, quanto mais, quanto mais, olha, outra espingarda, apressada
E ela olhava-o, depois a
dança terminava, ela colava-lhe uma moeda de vinte e cinco escudos nos
testículos, e ia embora até à outra margem, que por hoje ser sábado, o
cacilheiro despedia-se da cachopa de uma sanzala entre capim e mabecos, um
cacho de bananas sobre a mesa, maiores do que o menino, e sua mãe, de vez em
quando, desenhava-lhe brincadeiras na palma de sua mão,
Abre é para ti
Porque o vento sempre lhe
disse e dizia, menino
Olhe que um dia, o menino
Sozinho, sobre a toalha
uma colher de sopa depois do jantar saneando que também é preciso ser o livro
até que uma flor acorde na porta de uma palavra sempre que chovia o meu pai
adormecia acreditando que a chuva é uma mulher nua,
Pai
Desculpa, pensei que hoje
havia sobre a mesa uma fotografia e olha o que encontrei, uma bussola de ouro
silêncio da vida de dois pequeninos peixes sedosos por sombra e por rimas e
batidas de uma nova alvorada.
Depois a calçada fechava
a janela, descia a persiana quase mais emperrada no vento do que todas as mandibulas
de limalha sobrantes de tanto parafuso e de tanta porca que depois de ser
noite, todos e todas, desciam até ao rio sonolento das pequenas migalhas sobre
a aldeia, e sabia que um dia, e o vento viria,
E veio,
E veio hoje.
As espingardas nunca mais
foram vistas e observadas, e tão pouco o vento que hoje
Deixou de sentir o desejo
quando percebeu que o barco tinha adormecido sobre a calçada,
Comadre amanhã posso ir
Que também havia na
sanzala quem acreditasse no destino, que um dia, o sino
Tocava,
E um menino acordava, da
cinza, vestia calções e calçava as sandálias em couro carcomidas pelos olhares
nocturnos das mangas, que quando havia sol, deixavam os filhos entregues à
sorte de uma semente,
E subiam até ao sótão,
A espingarda sabia, sabia
que um dia, um dia o menino descia a janela e iria se esconder,
Nas asas de uma gaivota.
Ouvia-se o vento nos braços deste barco, sobre a cabeça,
A ponte. E também tinham
medo.
Que um dia o menino,
Acordasse.