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01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05

30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04

11 abril 2026

A charrua (continuação)

Ai as andorinhas que do tempo não sabem o que fazer, e ele cantava esta triste melodia, que tinha trazido da noite anterior, da ponte pedonal em direcção ao universo, simples, mistificado quando uma abelha lhe segredava,

Olha que sim olha que sim

Que sim, olha que sim, a porta de entrada, quase cega, trôpega e quando se lhe pegava, ouviam-se minúsculos rangidos, quando os ossos já são papel e quando o papel, arde na escuridão da colmeia.

O mar revolto estava, tanto que estava que a Etelvina, descalça, saltou a janela e foi no abraço de um desconhecido,

Às vezes que eu penso,

E se eu, e se eu fosse no abraço de um desconhecido, como fez a Etelvina, como fez o João, trinta anos depois de ter nascido, inventava pequenas quadriculas no térreo chão do parque infantil, de nome apenas e sem uma única criança em brincadeira.

Se o João soubesse, que apenas a Etelvina o sabia, que quando regressava a casa, na mochila escondia, um pedaço de tempo, sem tempo algum e para nada.

 Como a vida era dura, para a Etelvina, como a vida foi dura, para o João,

Não me digas que só hoje descobriste que a nossa vizinha tem um gato, mais um vê lá

Já tinha poucos, ela, que

Havia vírgulas naqueles carris que em nada nos levavam, quase que sentíamos a chuva miudinha de uma chamada telefónica, que o telefone nunca ou quase que nunca acordava, daquele sono e daquela escuridão, tri trim trim

Sim, olhe que estão aqui a dizer que a menina Etelvina se afogou hoje muito manhã cedo, na praia dos triciclos,

Coitadinha, escrevia na sombra o pobre do João, depois também que mal tem ter ido nos braços do primeiro pingo de chuva da manhã, que até que eu acreditava que recebia cartas com listras negras, que eram puro engano e que para mim não o eram, nem o seriam,

 

11/04/2026, 12:18

(continua…)

A charrua

Tinha com ele todos os segredos da noite, e sempre que a charrua saía de casa para lavrar cada caderno, desbravar cada pedaço de sono, ou de insónia, ela sabia que a mão que lhe pegava, era mais frágil do que o vidro que a separa do destino

Pegaste nos meus óculos

Eu não, nem sequer os vi, nem a tua cara vi ainda hoje, procura em cima da secretária, ou na gaveta onde escondes as sílabas que depois noite dentro,

Semeias na algibeira de um adeus.

Quem sabe, quem sabe se um dia, olha

Olha, talvez amanhã, quem sabe

O cacto não tenha mais espinhos, nem o (cagado) peneiras no seu andar, quem sabe, quem sabe se amanhã o cágado comece a correr milhas submarinas em menos de um minuto, ou dois

Que depois a tia Adosinda esticada na cama, quase que voa contra o tapume da vizinha, que já se foi, e que se vem

A todas as sextas-feiras de primavera.

O carro lá ia, isto se diz, nem ia nem se vinha, e quando acordava, a tosse de sempre, o catarro, e a sonolência de não querer dormir, porque

Já procuraste na estante, às vezes

Perdia tudo, isto é, quase que não perdia, mas quando descia a noite sobre o alpendre, aí sim,

Sim, minha linda flor de lótus, o problema é mesmo a noite, ele se perde, e eu fico sem tino, desatinado, encurralado dentro de um círculo de luz, em tons de azul, e

Olha, afinal tinha-os na cara e procurava por eles

Coitado, coitado do Alfredo, que além de ser o Alfredo, é um gato pindérico, mesquinho, tão felino, como feio o é

Sempre o mesmo odor, sempre a rua a mesma, sempre o encarnado a vestir-se de néon menino, eu queria lá saber das vírgulas semeadas na lápide de uma meia-dúzia de malmequeres, tão amarelinhos, que às vezes e que tantas vezes

A febre, os vómitos, o sol

Dentro de um pacote de chocolate.

 

(continua…)

11/04/2026, 02:56

07 abril 2026

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem, éramos quase gente, no meio de tanta gente, e mesmo assim, sabíamos que do outro lado do mar havia um círculo de luz com olhos verdes,

Que do outro lado do mar,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância, porque

Que do outro lado do mar, outra casa, outra mulher

Outra rua, outro número de polícia,

E sabíamos, e tínhamos sempre na algibeira os fósforos, os cigarros, as cartas que escrevíamos, e havia do outro lado do mar

A voz,

E o silêncio de uma outra mulher, na ausência de uma espada, quando da calçada ele,

Cantava,

Sorria,

E que depois, fingia ser um verme, uma libélula friorenta, tão ciumenta como o eram todas as libélulas de todo aquele oceano de luz.

Cada sombra era uma janela, era um aquário com três peixes, alguns arbustos e quem sabe, até então desconhecido por toda aquela gente,

O vento,

Vestido de ave-maria, enfeitiçado pelo sorriso de um soldado, que se revoltava a cada ordem recebida, que fugia, e que

O comboio para Santa Apolónia parte daqui a cinco minutos, um relógio sofria, não dormia, e corria

A cada segundo de silêncio, que às vezes a espingarda do soldado lançava contra o muro, e também sabíamos que do outro lado do mar,

Os mabecos estavam felizes, tão

Que um dia o rapaz que se dizia filho do soba, que de nada lhe sobreva e acreditava, que a charrua pertencia à terra lavrada, que quando sentia a janela entreaberta,

Pulava o muro, e depois

Sentava-se junto ao rio, em pouca despedida.

Do céu recebíamos as moedas e conchinhas e marés de inverno, nas mãos calcinadas pelo frio gélido de uma certa madrugada, o assalto ao castelo, a ferrugem que nos olhava das vigas em aço, que no braço, de aço quase nenhum, como nós o éramos,

Quase anda, dentro de uma carruagem de gente, com gente tanta, que

Os soldados daí para cá passaram a ser gente, e então

A gente saía todas as noites, e todas as noites, a cada meia-luz, e a cada meia-noite, a carruagem percorria cada rua e ruela e calçada e ribeiro e ribeira e o rio, que brincavam junto ao Tejo, depois do outro lado do mar.

Um barco regressava das colónias, coitado

Tão cansado que ele estava, que já em casa, apenas um banho e um copo de leite e uma torrada e a leitura de um poema, o separavam da noite e de uma cama deitada, sobre um soalho ondulante, que às vezes era salgado, que às vezes

Pertencia ao destino.

O meu pai palmilhava cada lágrima do musseque, e com um pequeno cordel passeava uma camionete e eu passeava um triciclo sob o olhar atento das mangueiras e de uma parvalhão de um boneco e que quando chovia,

O barco acordava, atravessava o Tejo, e

Do outro lado do rio, numa outra cidade, numa outra rua, sem saída, às vezes

E a areia era tão fina e tão branca, e tão

Uma voz rouca emergia do fundo de todo aquele oceano de luz, e então ouvíamos, nós os soldados, e a restante gente, daquela louca carruagem,

Santa Apolónia.

Uma outra voz, essa no interior da carruagem,

Estamos fodidos; chegamos.

 

Alijó, 07/04/2026 – 03:32

07 março 2026

Ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite

Sempre me fascinou a noite, ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite, era quase dia depois de sobrevoar o mar das migalhas, junto à ilha, e eu escutava o silêncio nocturno da casa, a casa,

Assim começa um poema de AL Berto, e assim escreve Lobo Antunes, o António

Que a noite dos silêncios, não é mais do que pequenos e silenciados rugidos,

Uma migalha que ficou do jantar da noite passada, tal como ele, eu adorava escutar o ranger dos moveis, quando acordam e desenham na escuridão

Aquele ruido divino

Depois a porta que range, de afiados dentes e tão cansada como eu, hoje

De servir apenas para esconder qualquer coisa, não é para isso que serve uma porta?

Depois, como ela nada tem para fazer do que esconder um compartimento e lá esconder, velharias & outras coisas mais, e também, corpos

E depois do meu corpo rodar trinta e cinco graus no sentido anti-horário, a cama acorda, e ainda sonolenta, finge que ontem ainda era tempo,

E que hoje,

Sem tempo, para ter tempo

E continua a noite, só, descalça, e lá fora outros silêncios ruídos, um automóvel com alguns dias de atraso, acorda a escura rua, depois o camião à procuras de sobras do dia de ontem, depois

Depois um pássaro não em silêncios ruídos, mas em alegres traços na tela da madrugada

Ah, e até o meu corpo, em quantas vezes, range, geme, e semeia sobre a lareira as lágrimas que só as estrelas o sentem, e eu, como sou uma estrela, também o sinto

Mas a noite é mágica, porque é silêncio, porque brevemente será Páscoa, e eu sou Ateu

Acredito no sorriso de um gato, preto, negro cada traço lançado contra o vento, e eu

E eu que sou o poeta, diria que a chuva é quase uma sílaba esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, acolá

Do outro lado do mar, do sítio mais parvo, tão parvo como abastecer o automóvel até que ele vomite gotículas de sémen, acreditando

E eu que sou Ateu, eu acredito

Que um dia vou gostar de gatos, que um dia o meu corpo vai deixar de ranger e de gemer, e ainda

Eu que sou Ateu, acredito

E ainda, este magnifico jerricã, pintado a encarnado desejo e com um poema de um tal de

Deixem lá o poema; e eu que sou Ateu, vou gostar de gatos, como será evidente

E amanhã à tarde, no meu milésimo abastecimento, oferecerei um pequeno e lindo

Jerricã em miniatura, com lantejoulas ao pescoço.

 

07/03/2026, 21:00

14 janeiro 2026

Era quase sol - último capítulo

Era quase sol, o senhor do negro chapéu, eram quase água as suas mãos melódicas nas lágrimas de cristo, fugia do destino, semeava ervilhas numa pequena folha de papel, amarrotada pela idade do infinito, e que talvez um dia, do outro lado do rio,

A cadeira de lona que o esperava,

Olhava-a e se sentava como se este fosse o seu último desejo antes de partir.

 

FIM

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

13 janeiro 2026

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.

À casa depois da chuva

À casa depois da chuva, que se sentava de pedra em pedra, e que sonhava, quase disfarçado de espuma, se levantava da terra e corria como um tolo, sabia que

Eu tinha acordado da sesta que a tarde desenhava no meu corpo, como se eu fosse uma escultura de vozes semeadas no trigo loiro da alvorada, a Teresa vasculhava nos meus livros réstios de traços deixados aqui e ali, de quando em quando, suspirava

Ele anda a trair-me só pode ele nunca escuta aquilo que eu digo…

Ergueu-se da chuva, sentou-se em cima de um punhado de sombra, e eu comecei a ouvir a sonolência de uma quase minha ausência de tudo.

Escutava a chuva, e pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca, ela

Não. Ele tem outra só pode ser.

E o barco às vezes era cinzento, depois descia a janela e quando poisava a âncora em cimento firme, os seus olhos eram azuis e o seu corpo quase que de um encarnado mais parecendo,

Desculpa? Eu tenho outra, outra quê?

Sabia que um dia tinha de partir, sabia que um dia tinha de deixar tudo, tudo

Olha, um poema dentro deste livro,

E tudo também pertencia em fazer acontecer, que a cada dia que acorda o sono, outro sono se deita, sobre o vento.

 

manhã ao acordar,

 

que te escreve no seio a ventura de os beijar, que te pincela o corpo de desejar, que te escreve no olhar.

que te quer a cada noite, mesmo sem luar,

que te desenha nos lábios o beijo, que te toca, e sente

a primavera de um abraço nas primeiras palavras do mar.

 

que te olha, e se pergunta, o que dizem os teus olhos,

que te escreve no silêncio, que te poema, que te sonha,

mesmo não sonhando, que te inventa na cama, enquanto da lua descem as maresias na mão da neblina.

 

que já foi menino, também menina, que foi poesia numa tarde junto ao rio, que te quer,

que te escreve, que te dá o luar e te é amar,

o que dizem os teus olhos que se pergunta…

a cada manhã ao acordar.

 

Acendeu um cigarro. Olhava pela janela da varanda os carros que vinham e os carros que iam, de vez em quando, olhava o aquário, e entre baforadas de pequenos silêncios, perguntava-se,

Partir e o que levaria apenas; um livro? Um pequeno poema?

Ou partiria apenas de mão vazias tal como tinha nascido, um dia, enquanto acordava o dia.

Ao outro dia deixaram de avistar o Artur e apenas o vento a sua falta sentia…

E pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca.

30 dezembro 2025

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Que tinha sido sua mãe, durante a noite, saía de casa e iluminada pelas estrelas de um amor mais dia do que o luar,

Colhia pétalas para semear no rosto de seu menino.

Levantava-se já o destemido vento, havia junto à ribeira uma cerejeira que escrevia poemas durante os finais de tarde, e nos olhos do menino, más as horas da tarde, um barco entrava-lhe janela adentro, homens fardados, mulheres despidas, despediam-se do marido e acordavam nos olhos de um amante, antes que fora também um menino, antes também uma pétala colocada pela mão de sua mãe.

Que lhe tinham roubado a apendicite quase aguda, que anos depois, sobre o Tua uma abelha acordou, e o menino

E a sua mãe, galgaram serra acima, depois do jantar, encostava o rosto à janela, ele já muito bêbado de tanta poesia,

Abre-lhe pausadamente as pernas, em pedaços de milímetros, calculou a distância mais curta, da terra ao céu,

E ela gemia, ele escrevia na nádega quase rouca de tanto uivar, que o orvalho lhe entrou sexo adentro,

Voou sobre o mar,

E sorriu de prazer.

Que foda.

O barco depois sentava-se sobre uma cadeira em tubo de ferro falsificado nas metrópoles longínquas de umas mamas mais olhos do que barriga, despia a saia,

E saía,

Que tinha como roupa uma fita parva enrolada ao sangue do peito, é alvorada, até à alvorada todos bebiam, e ninguém

Pagava nada. Oferta de sua excelência, o menino da mamã, depois ouvia-se o galgar dos sinos sobre a clareira de um abraço, o comboio quase em lágrimas, depois chovia, depois ela não queria, e eu quando queria, caía, e sobre o mar a ausência de um papagaio em papel, tão lindo, e tão alegre, como a sua mãe.

A ponte, sorria, subia até à lua, e ao outro dia, descia, em coma quase poético como de poético era a segunda rua depois do cemitério, do outro lado, alguém gritava

É hoje é hoje que acaba o mundo,

E depois da última foda da noite, levantou-se e o mundo acabou.

Fiquei eu, apenas eu neste labirinto de mediocridade de uma palavra ambulante, pretos em guerra, em guerra eu com as palavras,

E depois, a ponte sempre em transe, sempre em tesão, esperando que da outra margem,

Um rés-do-chão quase uma pequena lágrima escondida na areia. Era sábado, tal como hoje também é sábado, uma espingarda subia a calçada, desviava-se das sombras encontradas, às vezes sentava-se no passeio e via os musseques da infância, também eles desciam a calçada, tal como a espingarda, em lágrimas de sangue, na sua mão tinha a mão de sua mãe uma alcofa com o tecto pincelado de estrelas,

É para ti meu amor

E foi quando já depois de noite, o menino e sua mãe e o vento, depois dobrava a esquina, dizia palavrões ao vento

Vai trabalhar malandro

E despia-se sobre a mesa-de-cabeceira, ela abria a janela, fumava, fumava, e ele dançava, e ela

Despe-se pausadamente como um diamante à procura, também ele, do dedo de sua mãe, de preferência, com dinheiro, e

E que não, que nunca tinha ouvido falar, quanto mais, quanto mais, olha, outra espingarda, apressada

E ela olhava-o, depois a dança terminava, ela colava-lhe uma moeda de vinte e cinco escudos nos testículos, e ia embora até à outra margem, que por hoje ser sábado, o cacilheiro despedia-se da cachopa de uma sanzala entre capim e mabecos, um cacho de bananas sobre a mesa, maiores do que o menino, e sua mãe, de vez em quando, desenhava-lhe brincadeiras na palma de sua mão,

Abre é para ti

Porque o vento sempre lhe disse e dizia, menino

Olhe que um dia, o menino

Sozinho, sobre a toalha uma colher de sopa depois do jantar saneando que também é preciso ser o livro até que uma flor acorde na porta de uma palavra sempre que chovia o meu pai adormecia acreditando que a chuva é uma mulher nua,

Pai

Desculpa, pensei que hoje havia sobre a mesa uma fotografia e olha o que encontrei, uma bussola de ouro silêncio da vida de dois pequeninos peixes sedosos por sombra e por rimas e batidas de uma nova alvorada.

Depois a calçada fechava a janela, descia a persiana quase mais emperrada no vento do que todas as mandibulas de limalha sobrantes de tanto parafuso e de tanta porca que depois de ser noite, todos e todas, desciam até ao rio sonolento das pequenas migalhas sobre a aldeia, e sabia que um dia, e o vento viria,

E veio,

E veio hoje.

As espingardas nunca mais foram vistas e observadas, e tão pouco o vento que hoje

Deixou de sentir o desejo quando percebeu que o barco tinha adormecido sobre a calçada,

Comadre amanhã posso ir

Que também havia na sanzala quem acreditasse no destino, que um dia, o sino

Tocava,

E um menino acordava, da cinza, vestia calções e calçava as sandálias em couro carcomidas pelos olhares nocturnos das mangas, que quando havia sol, deixavam os filhos entregues à sorte de uma semente,

E subiam até ao sótão,

A espingarda sabia, sabia que um dia, um dia o menino descia a janela e iria se esconder,

Nas asas de uma gaivota. Ouvia-se o vento nos braços deste barco, sobre a cabeça,

A ponte. E também tinham medo.

Que um dia o menino,

Acordasse.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva

 

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar

Como se a terra não rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo, pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.

Já viste o jornal, parece que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois

Os vinhedos, para fugirem ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,

Socalco abaixo,

E rio.

O dia nunca tinha horários, e mesmo assim

Desculpa, o que tenho eu ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,

E este rio de cabelos loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada

Que o Douro enlaça, que o Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao suor, e muitos deles

Nem o nome sabem desenhar,

Quanto mais, ler, quanto mais, sonhar.

Um dia percebeste que a saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra, de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada dia, o Douro ao outro dia,

Não é o Douro de ontem.

Pai, porque vais embora

O sino que desde que me lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma coisa,

Quando a única coisa que lhe devo é apenas,

O silêncio de uma estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria

Que o dia,

Tivesse vinte e sete horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.

Como assim pai

Olha, imagina dois pontos

O ponto (A) e o ponto (B)

Pode ser, mas porque não utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em vez de letras,

E depois pai

Imagina que há uma distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.

Imagina que um dia,

Um dia pai

Imagina que um dia nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,

Porque leu, porque alguém a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos rochedos mais belos da primeira página de um livro

Como assim pai

Aquele doce doirado navio de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.

Depois chega a casa já embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo rio, sempre o mesmo xisto,

Sempre a mesma saudade.

Depois chega a casa, maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela

E espera que amanhã acorde o dia, sempre o mesmo dia.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.


29 dezembro 2025

Uma calçada que também chorava

 

Um cacilheiro, mal-amado, no final da tarde inventava o sono, despedia-se dos amigos, subia, subia, subia as escadas até ao sótão mais próximo, batia à porta

E o vento o abraçava e o vento

Que às vezes também chorava, sabia que aquela tarde era a última tarde no último navio que todas as noites descia a calçada da Ajuda, disfarçava-se de soldado, escondia-se, por momentos, no olhar de um rio, quando ainda menino tinha dormido uma noite sob a ponte Dr. António de Oliveira Salazar quando regressava de África…

Olhava-a do pequenino quase nada silêncio de uma parada semeada de soldados parvos, que também eles desciam a calçada da Ajuda, que não os ajudava em nada,

E eles corriam, corriam, corriam até entrar no primeiro carro estacionado junto ao Palácio de Belém, abriam a porta, entravam e sentavam-se,

E uma mão procurava-lhes o sexo folgado, e depois

Depois uma boca descia, descia…

E um mar de espuma acordava, e o soldado, regressava ao quartel, feliz, tão feliz e com cinco mil escudos na algibeira; ah grande magala.

E a ponte lá estava, todas as noites, a mesma ponte, todas as noites, a descida, depois o silêncio, e mais

Muito mais tarde,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância!

Eu não sabia que autocarro da carreia era machimbombo, eu não sabia que havia um rio, também ele mistério, também ele a essência da noite, muito mais belo do que o belo Tejo.

E hoje quando olho para o Douro percebo, mas percebo o quê pai?

Se junto à noite, quando quase noite, os amontoados de sémen aos magotes procuravam o churrasco mais barato da calçada,

Aliás, todas as suas pedrinhas, cheiravam a frango assado, muito pobrezinho no aspecto e na ausência, quase sempre

Da fúria de uma mão e do odor a óleo talvez com alguns anos, que se deitava e acordava, sempre na mesma frigideira, sempre na mesma calçada.

E eu noite adentro sentava-me debaixo de uma árvore, a árvore era também prisoneira tanto ou mais do que eu que até lhe colocaram um círculo em pedra à sua volta,

Não fosse ela pela calada da noite descer a calçada e perder-se nas ruelas do Bairro Alto, ou também divertir-se com os puxões de cabelo entre duas prostitutas em Cais do Sodré, que se diga, tal como eu, funcionárias do Ministério da Defesa. E eu sentado, contava as luzes que de electrão em electrão atravessavam a ponte e ao fim de alguns minutos percebia que não eram assim tantas.

Ao contrário do dia, que eram milhares, e sentado dento de quatro muros pincelados de um amarelo tão triste, tão triste que às vezes sentia as lágrimas de uma flor a descerem-me pela mão, e num caderninho escrevia poemas ao Tejo.

Mãe, estou bem!

E desde que aqui estou, ainda não sabendo muito bem onde estou, nunca vi ou ouvi um pássaro que seja nesta árvore que debaixo dela me sento e olho a ponte; verdade, pai…

E depois havia uma fotografia, um tipo triste, tão verde como verde era a chuva de Maio em corridas com uma espingarda na mão que apenas disparava às terças, quintas, e aos sábados vinha a casa matar saudades da mão e do pai, e depois…

Nos restantes dias caçava ratazanas durante a noite; e eram tantas, mãe,

Tantas eram que às vezes, às vezes acordávamos com os seus gritos e um fio de sangue desenhava-se em pequenos círculos no pavimento do corredor,

O Moreira,

Mais uma que deixou de nos chatear. Comemorávamos até que o vento nos tombava, e nós éramos apenas sombras dentro daquele quartel, e ao longe via-se a ponte e os carros,

Não te lembras, pai, dessa fotografia que anos e anos esteve suspensa na parede da nossa sala, e sabes,

poucos dias, não sei porquê, no entanto

Fi-la em pedacinhos, porque pai

Cansei-me de olhar para um gajo vestido de verde, com uma boina preta na cabeça quase nua, como a tua, anos mais tarde na luta contra o cancro. Cansei-me desse tipo vestido de verde com uma metralhadora na mão, sentado num carro de combate que por de trás das costas como silêncio de fundo tinha a ponte 25 de Abril,

E que durante a noite disparava apenas palavras contra um pequeno caderno, hoje uma lápide dentro de uma das gavetas da minha secretária.

 

Alijó, 11/04/2025