04 setembro 2025

E um petroleiro azul, com olhos de menino

 

Não sei porque fui buscar o Lorca (Federico Garcia Lorca) para ler entre as minhas leituras de hoje. A outra margem do mar, de António Lobo Antunes, e aqui, confesso, sinto este livro como se fosse eu, eu à procura da outra margem do mar. um tipo, como diria o Pacheco, que sente África e procura qualquer coisa,

Que talvez, amanhã

E estou a ler também a bibliografia do Herberto Helder, e confesso,

Que Deus é um tipo porreiro, que deus meteu dentro do meu corpo, o outro corpo, o do poeta, desse tal de Francisco, um tipo (Pacheco) tolo e louco, e enquanto o gajo sonha com as palavras, enquanto o gajo inventa borboletas nas paredes da aldeia, ela sorria, como o vento, que sente, outro vento, um outro destino.

E não sei porque fui buscar o Lorca, não sei, aliás,

Já quase, ontem, que de nada sei.

E mesmo assim, finjo o saber. A Vírgula acaba de tropeçar no terceiro degrau da escada que dá acesso ao altar, sua excelência, que deus o tenha e o lá conserve, bateram à porta, abria a janela,

E um petroleiro azul, com olhos de menino, poisou na minha mão. Pensei. Coitado dele, quase espuma sobre o mar.

Mas depois há um ponto de interrogação, há uma linha de comboio, quase infinita e tão fina, como a chuva de Setembro, que odeio, não a chuva, mas o mês de Setembro.

Que ser rico deve ser uma chatice, e confesso-vos, não o queria ser, é muito tédio para nós. Eu e o outro, o tal de poeta,

Coitado dele, sabem, é um desgraçado, coitado, e odeio, odeio Setembro de 1971 e odeio Setembro de 2019. Odeio 21 de Setembro de 1971 e odeio 21 de Setembro de 2019,

E mesmo assim, finjo

Finjo que o sol me sorri, e o sol coisa nenhuma, o sol nunca me sorri.

Não sei porque fui buscar o Lorca. Mas senti uma vontade de o fazer, talvez porque me sinta só, talvez porque os rios tenham deixado de correr para e o mar, vejam só

Agora sobem as montanhas e querem atingir o céu. Meu deus que coisa estranha, o estranho e o pertencer, e de nunca o ser.

Oiço música clássica, também há poucos dias o comecei a fazer com mais intensidade, até no carro.

E tudo é estranho, aquela sensação de que alguma coisa de muito importante e boa está para acontecer, é estranho e de tão estranho, sinto-o, como se fosse o vento que me serrava com as flechas do Marão à porta do Hotel Tocaio, às vezes por volta das cinco da madrugada, frio e geada, e eu

Eu acreditava. E assim fiz o 12º ano, todos os dias cerca de cem quilometro, percorridos em quatro horas e mais alguns olhares das cachopas que já vinham de outros travesseios,

E eu sentia, e eu sinto-o, quase chuva, quase sinto o oiro.

 

Poderia continuar por aqui abaixo, ribeira acima, mas o palerma que me empresta o corpo quer descansar, vejam só, descansar.

Se eu ao menos tivesse um corpo só meu, descanar qual o quê…

 

E percebo que o Pacheco está literalmente fodido, aliás

Ele ainda está uns muitos degraus à minha verticalidade, eu ainda não sou o miserável do Pacheco, mas para lá caminho, e se eu pudesse caminhar, eu caminhava sobre o gelo frio de Janeiro, e dançava, e brincava.

 

Não sei porque o fui buscar, mas apeteceu-me.

O Lorca fascina-me.

 

(04/09/2025), Alijó.

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