Não sei porque fui buscar
o Lorca (Federico Garcia Lorca) para ler entre as minhas leituras de hoje. A outra
margem do mar, de António Lobo Antunes, e aqui, confesso, sinto este livro como
se fosse eu, eu à procura da outra margem do mar. um tipo, como diria o
Pacheco, que sente África e procura qualquer coisa,
Que talvez, amanhã
E estou a ler também a
bibliografia do Herberto Helder, e confesso,
Que Deus é um tipo
porreiro, que deus meteu dentro do meu corpo, o outro corpo, o do poeta, desse
tal de Francisco, um tipo (Pacheco) tolo e louco, e enquanto o gajo sonha com
as palavras, enquanto o gajo inventa borboletas nas paredes da aldeia, ela
sorria, como o vento, que sente, outro vento, um outro destino.
E não sei porque fui
buscar o Lorca, não sei, aliás,
Já quase, ontem, que de
nada sei.
E mesmo assim, finjo o saber.
A Vírgula acaba de tropeçar no terceiro degrau da escada que dá acesso ao
altar, sua excelência, que deus o tenha e o lá conserve, bateram à porta, abria
a janela,
E um petroleiro azul, com
olhos de menino, poisou na minha mão. Pensei. Coitado dele, quase espuma sobre
o mar.
Mas depois há um ponto de
interrogação, há uma linha de comboio, quase infinita e tão fina, como a chuva
de Setembro, que odeio, não a chuva, mas o mês de Setembro.
Que ser rico deve ser uma
chatice, e confesso-vos, não o queria ser, é muito tédio para nós. Eu e o
outro, o tal de poeta,
Coitado dele, sabem, é um
desgraçado, coitado, e odeio, odeio Setembro de 1971 e odeio Setembro de 2019. Odeio
21 de Setembro de 1971 e odeio 21 de Setembro de 2019,
E mesmo assim, finjo
Finjo que o sol me sorri,
e o sol coisa nenhuma, o sol nunca me sorri.
Não sei porque fui buscar
o Lorca. Mas senti uma vontade de o fazer, talvez porque me sinta só, talvez
porque os rios tenham deixado de correr para e o mar, vejam só
Agora sobem as montanhas
e querem atingir o céu. Meu deus que coisa estranha, o estranho e o pertencer, e
de nunca o ser.
Oiço música clássica,
também há poucos dias o comecei a fazer com mais intensidade, até no carro.
E tudo é estranho, aquela
sensação de que alguma coisa de muito importante e boa está para acontecer, é
estranho e de tão estranho, sinto-o, como se fosse o vento que me serrava com
as flechas do Marão à porta do Hotel Tocaio, às vezes por volta das cinco da
madrugada, frio e geada, e eu
Eu acreditava. E assim
fiz o 12º ano, todos os dias cerca de cem quilometro, percorridos em quatro
horas e mais alguns olhares das cachopas que já vinham de outros travesseios,
E eu sentia, e eu
sinto-o, quase chuva, quase sinto o oiro.
Poderia continuar por
aqui abaixo, ribeira acima, mas o palerma que me empresta o corpo quer
descansar, vejam só, descansar.
Se eu ao menos tivesse um
corpo só meu, descanar qual o quê…
E percebo que o Pacheco
está literalmente fodido, aliás
Ele ainda está uns muitos
degraus à minha verticalidade, eu ainda não sou o miserável do Pacheco, mas
para lá caminho, e se eu pudesse caminhar, eu caminhava sobre o gelo frio de
Janeiro, e dançava, e brincava.
Não sei porque o fui
buscar, mas apeteceu-me.
O Lorca fascina-me.
(04/09/2025), Alijó.
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