27 junho 2026

No centro da cidade um grito

"E no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

 

(Al Berto – 1948-1997)

Não triste fiques, meu amor

Não triste fiques, meu amor

São tão lindos os teus olhos, tão lindos que parecem uma flor

Ou a lua em luar

Não triste fiques, meu amor

 

Vamos vencer, dos sonhos fazer

Não triste fiques, meu amor

Porque a janela se vai abrir

E na tua mão, outra flor vai nascer

 

27/06
12:18

Ao vento lamento

Ao vento lamento

A paz

E o encanto

Tendo em conta a sinfonia da mão

Tendo em conta

O pénis em tesão

Tendo em conta

O vento lavrado

Tendo em conta

A semente

E a árvore

E a equação

Ao vento lamento

No lamento de um coração

 

Ao vento lamento

Na chuva e na doença

Até que morte seja dia

Até que o vento o vença

Seja noite

E seja o lamento

Até que o vento lamento

Seja a espuma encardida

Seja o azulejo tão velhinho

Como o dia

E como a noite

Ou como a chuva

Na mão

Do vento lamento

 

Ao vento,

O lamento.

E o perdão.

 

27/06
03:53

já quase nada faz sentido, se o sentir existisse

e se vestisse

de nada sentir,

 

acontecem-me coisas estranhas, também é verdade que eu, às vezes,

sou estranho

mas desde que nasci, que sou um amontoado de acontecimentos,

de acasos no centro do caos

coisas, estranhas

 

quinta-feira quase fui meio-raptado, no entanto

entre uns e entre tantos

tinha, de, ser, eu

o escolhido

o feliz contemplado

 

e confesso que não gosto muito

de

ser

 

raptado.

 

coisas estranhas.

 

(já agora a raiz quadrada de -25 é igual a 5i)

 

27/06
03:44

À razão inversa na voz que semeia a espada

À razão inversa na voz que semeia a espada

Lavrada

É a terra madrasta

Na terra de nada

 

À terra todos os meus pecados e pertences

Na terra inversa da razão de uma espada

Traz a algibeira o rio

E a ribeira

 

A cabeça e o frio

O mar

E a luz que incendeia

A charrua

 

A charrua nua

Que desvesta a terra lavrada

E a terra semeada

Sempre que seja dia

 

Sempre que apenas seja um olhar de nada

À razão inversa da voz embriagada

Até mesmo a janela encerrada

E a porta mal fechada

 

À razão inversa na voz

Entre nós

O fio milimétrico na sombra em lareira

O corpo se estingue na razão inversa da voz

 

Até que o dia acorde na pétala flor de uma nuvem

Na razão inversa da voz

A voz

Até que seja dia

 

27/06
03:36

26 junho 2026

Pétalas aprisionadas

As pétalas estão aprisionadas, estão

Pétalas, nas lágrimas em viagem, são

Pétalas selvagens, são pétalas

Pétalas aprisionadas

 

26/06
22:04

Nos teus lábios eu te amo

Nos teus lábios eu te amo

Na tua boca eu me quero

E me deitava

E me leio

E desvaneio

 

Nos teus olhos eu me invento

Oiço o vento

Oiço o teu cabelo

Nos teus lábios eu te amo

E me escondo na solidão da noite

 

Nas tuas mãos eu deitava o meu rosto

Com gosto

Sem estar

Estando

Nos teus lábios eu te amo.

 

26/06
21:58