22 abril 2026

O sorriso da última noite

O sorriso da última noite
No olhar embrulhado do papel onde escrevo
Cada sombra é uma seara de desejo
Na vidraça de um pedaço de pão

Sobre a folha de papel se esconde
A tarde no silêncio dos meus poemas
Sinto que o sono é quase gelo
Sob o fogo do mar

O corpo é um guarda-chuva acorrentado
À mão de Deus que o livro seja a sepultura
Do verso
E do nome que me deram

E sei que o sorriso da última noite
Pertence ao tic-tac do relógio de sémen
Que da última noite sobrou
Na despedida da chuva

Também na lareira sem roupa
Outro corpo e outro relógio de sémen
Dançam sobre a maré
E nunca mais será primavera.

 

16 abril 2026

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12 abril 2026

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida, na amnésia repartida entre o frio, entre a vida e a morte, e uma estrela em delírio

que quase nada existe, em tudo aquilo que existe

e que resiste

e que persiste

na canção de uma lágrima

entre as espadas de uma mão e a mão empunhando uma espada em contramão

 

já nada quase a alegria de sentir e de ver, cada flor a crescer

cada flor a sorrir, e a brincar

que tanto escuro está, se o dia fosse só uma linha recta

e erecta, sem fim

quando quase o fim da vida

pertence à razão de acreditar

 

já nada quase o ser e o ter, o sentir, ter de esquecer

cada estrada palmilhada, cada estrada invertida

longínqua, e sofrida

que a vida á e só uma avenida, sem a saída

que a tristeza é o inverno

e o inferno a beleza

 

12/04/2026, 13:12

nunca tive tempo, andei sempre e sempre sempre dentro do vento

nunca tive tempo, andei sempre e sempre

sempre dentro do vento

e sempre, eu, sem tempo

há tanto tempo, que apenas sinto o corredor cada vez mais ínfimo e pequenino

há quanto tempo, eu te espero, meu destino

há quanto tempo, que fiquei sem tempo, e perdido no vento

ai se o tempo, sentisse aquilo que sinto (sento)

eu tinha tempo, tanto tempo

para quê?

se o tempo é de borla e é deus que o dá, dizem-no

oh,

e para que quero eu tempo, se pouco ou nada, tenho

para fazer neste tempo

se ao menos o tempo soubesse quanto ainda resta ao tempo,

 

para deixar de ser tempo, e ser apenas vento.

 

12/04/2026, 05:52

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê nem a sente, a mão

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê

nem a sente, a mão

a mão que a ama

a mão que lhe tocava, e na pedra, escrevia

se ao menos os lábios da pedra, sentissem

e vissem

a noite rasurada, a noite inventada

quando a noite sofria

quando a pedra, quando a pedra sonhada

como se ama uma pedra

quando a pedra é uma corrente de vento

é um fluido cansado, quase em explosão

quando o corpo é não

e o corpo da pedra, que é amada,

uma equação

ou nada.

 

12/04/2026, 05:43

11 abril 2026

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, que às vezes de ser tão sofrida

E a ingrime escadaria de acesso ao céu estrelar

A água a ferver, a febre a subir

E do outro lado do sítio, a camuflada pistola

Afoita, de peito feito contra a floresta

Que se afasta do sino, que se deita sobre o gelo

Que aquele corpo já não lhe pertence

Qual lhe pertencer

 

Está malfeito, e que é defeituoso

Como o são todos os corpos emprestados, uns dormem em vão

Do vão de uma escada, da umbreira de uma caneta

Apontada ao peito

Quase sem tinta, a mão que lhe pega

Essa, sem jeito

Jeito algum enquanto brincam os barquinhos

No infantil parque dos barquinhos de brincar

Mesmo, mesmo junto ao mar

Mesmo juntinho à rua que chateia

 

A pobre da Alzira, que vende borboletas pela rua aflorar

Que traz na saia a doçura de um olhar, e na mão

A tesoura de cortar, não

Não vai ela cortar as asinhas das pobres e tímidas borboletas

Da tesoura, com a tesoura ela irá cortar

As amarras de sombra que a prendem ao castelo

Ela irá libertar, e vender não mais

Todas as borboletas

E todos os pássaros com ou sem ais

Com ou sem sal

 

Mesmo à medida do freguês

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, mas o é

Tão viril, e que sofrida

Aquela velha lágrima vertida

Que o fogo apagou, e que a Alzira se apaixonou

Por um ramo de flores, vejam lá, senhores

Como o amor o é, e ele sabia, sabia-o

Que em cada madrugada mergulhada no sono

 

Uma janela se abria

E do vento sentia, o sorriso da Alzira

Mas o fogo acordou, e um belo dia, um dia

Partiu a Alzira em direcção ao nada, pouca coisa que levou

Tão pouca, como o é a primavera de um olhar

Mesmo nos seus braços, dos braços do seu mar

A maré dizente, entre lábios e sentidos pêsames da minha ausência

Descer o rio, e descer a madrugada

E descer do altar, e descer da lua

E à lua voltar.

 

11/04/2026, 22:25