04 junho 2026

Deito-me na divina vagina da noite

Deito-me e sinto a voz, a tua voz quase esfinge

Quando o infinito é o recomeçar e o acordar

De me sentar, e em te olhar

 

E em vez de te amar, eu preciso tanto de te odiar

E que me deito na divina vagina da noite

Fugindo do feitiço do teu olhar

E procurando o sorriso do mar

 

04/06
17:29

Talvez nunca te diga o nome daquele barco

Também porque quererias tu saber o nome daquele barco

Se nada de mim te interessa

Se nada do que tenho em nada ter te interessa

 

04/06
16:24

Voávamos nas margens infinitas de um olhar

Voávamos nas margens infinitas de um olhar

Capaz do louvor ardente em outras ruas e nomes

Os ausentes

Trabalhos

Incapaz de voar e de saber que há no silêncio de uma vírgula

A saliva do desejo em não o desejar

 

Na cama uma abelha acaricia o sexo de uma sombra

E têm os seios da sombra as aspas da madrugada

Que é a sebenta e que é a luz molhada

Que traz do mar

A triste estrela

E o fim de um olhar

 

E o que fazer com a janela que está encerrada

Na quase maré e incenso da boca

Que o sexo da sombra é o mergulho

No sangue oculto

Encarnado da abelha

Na esperma cama que a noite adivinha

 

04/06
10:27

Cada poema é uma cama envenenada na vagina da noite,

É uma gaivota entre as palavras e as aspas do mar, 

E é o silêncio de um olhar. 

Esse seu jeito

Esse seu jeito

De nenhum ter jeito

Vai o magma solar brotar

De seus seios envergonhados

Esse seu jeito

De nenhum jeito ter

De o mar

Ser as lágrimas de homens soldados

 

Vai o magma solar

Se erguer do escuro medo de uma tempestade

Mas há sempre outro mar

No mar da saudade

 

Esse seu jeito

De nenhum ter jeito

Que no mel dos seus lábios uma fogueira

Morre a cada beijo imaginário

E o infinito é o abismo e é a lareira

E o átomo do operário

Que traz ópio na algibeira

Sem saber

Que o amor

É a lágrima de uma ribeira

 

04/06
04:44

03 junho 2026

O poeta

O poeta nunca saberá porque chorava a Adosinda

O poeta nunca saberá porque versos lia a Adosinda

O poeta nunca saberá porque gosta Adosinda de ser fodia por trás

O poeta nunca saberá porque gosta da lua a Adosinda

O poeta nunca saberá a cor dos seios da Adosinda

O poeta nunca saberá porque morrem todas as Adosindas à nascença

O poeta nunca saberá porque são outras as lágrimas da Adosinda

 

03/06
23:00

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Sabia que eram escassas as migalhas

E eram lamentos

Os alimentos

E as esquecidas limalhas

 

E os aquecidos meteoros nos milhafres em ausência

As oliveiras e o centeio

O milho

A lavra quase safada

Na safadinha lua em luar

 

Que nós sentimos o vento entre os parêntesis curvos

Na sombra curvatura quase fruta calibrada e madrasta

Que a equação está quase resolvida

E que a solução

É uma noite perfeita e perdida

 

Que sente e sente a despedida

Em cada dia em cada mobília já sonolenta

Entre o eu e o eu

Que não sabe distinguir o veio do trigo

E de trigo estão eles conversados

 

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Sabia que eram escassas as migalhas

E trazia na saia

A sábia andorinha de luz

Que quando acordava sentia-se ventrada e amada

 

03/06
22:47