14 março 2026

se me pertencesse, o frio de uma lágrima

se me pertencesse, o frio de uma lágrima

na fria lágrima de uma mão, na folha cada que folheia

descobre a proibida palavra, que o vento envia, que semeia, o veneno

que se aperfeiçoa, e que dança

sobra a neve de um engano

 

que descobre o sono dentro de uma caneta, que escreve na chuva

e se me pertencesse, aquele outro frio, no destino rio

sentar-me e te olhar, do outro lado da margam

na esquina de luz crescente de um olhar

não te olhar

 

te ignorando, conversando com o meu outro esqueleto, vem

ao topo da montanha, vem também, pertencer a este frio, a este desdém

vem, vem também acariciar a pétala de cada flor que desenhei

quando ainda brincava na infinita madrugada

vestido de frio de uma lágrima.

 

14/03/2026, 22:12

Entre a poesia e a leitura – projecto do meu estúdio

 

Projecto de Francisco Luís Fontinha.

13 março 2026

Procuro o teu sexo neste emaranhado de papéis, tintas

Procuro o teu sexo neste emaranhado de papéis, tintas

Às telas dos teus seios, o fogo

Vírgula por vírgula, dia após dia, misericórdia, e miséria

A árvore do mar é quase gelo, a primeira primavera dos nossos sonhos, a água

A sílaba do mundo, o universo

Em verso

No encarnado destino

A não ser


Enquanto fui menino, também o fui enquanto voei, enquanto

A estrada era só um caminho, um ninho

As tuas palavras são as palavras da última paragem no silêncio dos meus poemas

Que arden no xisto de uma fotografia, a areia

A sul, um barco é quase o outro relógio que também foi a luz do clitóris, a janela, a migalha

A mesa despedida, nua, a

Tarde no teu ventre, sente

A gente.


13/03/2026, 22:08

Houve um pedestal antigo

Houve um pedestal antigo

Sobre o fogo da chuva amanhecer

Um corpo sem abrigo

Um corpo que vai morrer


Houve um rio que corria para o mar

Que de tanto correr se ficou a dormir

Se cansou de ver o luar

E se cansou de sorrir


Houve um pedestal sem abrigo

Na maré de um chorar

E o rio ficou amigo


Tão amigo que quis comer uma flor

E depois também quis comer o sonhar

Que Depois de comido ficou dor.


13/03/2926, 21:43 

12 março 2026

O sorriso de um relógio, se a noite o quiser

O sorriso de um relógio, se a noite o quiser

Construir na chuva o silêncio do tempo

Será o tempo leviano, quando a mão deseja escrever

Quando o fogo também é o tempo

E do vento, o sentir, o ter

Dentro do meu peito

A flor tarde do mar

E te amar


Te sentir na escuridão da última hora para o dia, hoje

A tarde já sonolenta, tão pequenina como se fosse só uma pétala de pão na esquina da morte

O sorriso de um relógio, no teu pulso, o pulsar do meu sexo, na outra margem do mar, do

E o cacimbo do meu sol dorme sobre a mesa

E da faca escorreu o sumo do teu clitóris que o vento semeou

Mas o vento se cansou, como me cansou

Quem sou

Ser um quase nada


O gasóleo irá aumentar, o sorriso de um relógio, ficará igual

Tal como o fogo do teu olhar, a jangada, da pedra

Lançada, ou púrpura

Ou também cansada, ou também morta

E morto eu me sinto, quando sentado na cama

Eu não te pertenço

Porque sou um relógio.

12/03/2026, 21:53


Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios

Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios, que o livro seja um pedaço de mão na algibeira do mar,

Porque o amar é uma seara de desejo na esquina do meu sol, quando dorme o corpo quase espuma,

Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios, que o diga o fogo que também era soldado, mas

A tarde é quase gelo,


Somos os passageiros de uma viagem sem regresso, barcos, sandálias de inverno comestíveis por uma lágrima, ao longe, sentir a tarde no toque da tua mão,

E o cansaço pincela os nossos corpos com a bala disparada pelos teus lábios,

Abraço-te, e sei que brevemente será primavera,

E todas as palavras serão o dia, e o dia, uma janela para o mar.


12/03/2926, 15:44


11 março 2026

Foi um pedaço de pedra sobre mim

Foi um pedaço de pedra sobre mim, que eu queria remisturar na ausência da última paragem do comboio, senti-me pão com queijo, porque talvez sejas um adendo filho, ou púrpura canção

Ou beijo camuflado cinzento da chuva alvorada,

Senti-me também, depois, pedaço de pedra, olfacto misterioso do mar, saber que não sou amado, que

Que cada sílaba do mundo é quase uma mão de Deus que o livro semeia no teu corpo,


E escrevo no fogo cada fotografia do meu âmbar que pertence ao jardim do castelo de mel,

E se uma abelha poisar no meu sonhar, talvez

O sul me traga a paixão de uma tarde junto à marina depois das árvores de papel, que tocavas e te masturbavas em frente ao espelho do meu olhar ,

A terrível sensação de estar dentro de ti, algemado à tua vagina,


E tão fina, que o era, cada janela do palacete, que cada vidro parecia a ejaculação da última figueira que ficou sentada no teu ventre,

Eu era o soldado mais feliz de todos os felizes soldados dos Lanceiros, e às vezes, sentia no meu sexo a mão alheia, uma calçada fria e mórbida,

E sabia que o teu corpo era uma vírgula, e

Foi um pedaço de pedra sobre mim.


11/03/2026, 22:02