01 junho 2026

desencanto dos teus olhos

do alentado desalento desencanto dos teus olhos

se a vertigem o deixar, na procura e na distância

quando da lua a sonolência ausência da tua mão

em medo de me tocar

 

o medo dos teus lábios em me beijar

no círculo lunar e polar

no corrupio e sinistro do meu viver

neste abismo marítimo de existir e em te amar

 

sentido o vento fatiado sobre a espuma da voz

de ouvir-te gritar quando a noite é criança

e quando a noite é o sonhar

de uma lágrima em revolta

 

sentindo o fogo no abismo destino de brincar

se ao menos tivesse na cara uma mão para me acariciar

se ao menos existissem nas palavras

sementes para eu semear

 

para eu semear na terra desventrada

a tarde disfarçada e miserável areia de lançar contra a urze

o dia capaz de o ser, e de se erguer

acreditando na palavra

 

dispensando a fama e o viver

rejeitando a vida e rejeitando o ser

que os teus olhos na vertigem e em vertigem

desenham a raiz quadrada do amanhecer

 

01/06
05:17

31 maio 2026

O clitóris estrelar

Uma vagão de esperma na fúria janela da morte

Uma fome na cama e um hospício doente na fimbria urtiga do adeus

Os testículos estão contentes

Que do pénis ausente não sente

E sente o clitóris estrelar

 

Uma vagina em viagem e sem passaporte

Uma cama doente e que sente e que teima em não ter dentro dela o divã da espuma em pequenos Óis

 

O papiro e o gajo que se masturba em frente ao espelho

O gajo que embruxa e que bocha

A boca da noite

Na noite testicular de uma mão

 

A boca questiona-o e dizia-se o ventre desventrado

E que hoje sabe que tem no cu o diabo

E na barriga as amêndoas da primavera

Um comboio que não espera

 

A cama suja e derramada e sem nada sobre a tábua em lira de canto

A janela é hoje um vagão de esperma em fúria

Na fúria de uma janela sem arte nem sorte de morrer.

 

31/05
21:35

 

Até que o vento seja gente, que teima e que sente

E que mente

E se ausenta na denúncia de uma carta

Que o grito semeia na geada a sanzala da meia-noite

Que o diga o Diógenes mais Diógenes do universo centro e verso da galáxia de um adeus

Que se parte em pedaços a porcelanas

Que as ferragens são grana

E a rama do batatal alheio e concreto

No céu um outro olhar

Na terra uma divina canção e do meu eu

Sem nome

Sem fome como eu

Nos primeiros beijos da despedida

Sentida que o era ter e deixar de ser a algibeira de uma canoa

Que voava e que já não voa

Que doida é a igreja do meu sentir

Que doida é a tristeza do meu sorrir

Que tantas vezes são vezes sete vezes ao quadrado

Que a raiz cúbica não é hoje mais a solidão de uma lâmpada

Tejo

Ao longe te vejo e te quero nos braços

Tejo.

Que tanto eu de ti preciso.

A voz

A voz era erguida

Na curva viva da vida

A voz era sentida

Assistida e assumidamente perdida

 

A voz que era gigante

Tão o era como a morte de muita gente

Que vive e teima e que sente

A morte de outra tanta gente

 

A voz que mente

A voz que escreve na noz e em vós este meu ser ausente

De tão longe que vim e que fui e que sou um vidente

Na curva a última jangada para o além lactante

 

Amém menino

O néon quase a voz do destino

A voz era erguida no lamento do sino

Que a torre o tenha em descansado deus e tino

 

Que a voz era erguida

Na curva viva da vida

Que a voz sabia e percebia e que era também sentida

Na estrada da vida e na morte vida que viva.

 

31/05
21:15

Há quem parta e nunca mais regresse

Há quem parta e nunca mais regresse

Há quem regresse e deixe de ser pátria

Há quem durma na espuma

Há quem seja a melodia

 

O dia

Mas também há quem seja merda e trovoada

Há quem seja o que já o foi primavera

Há quem seja janela e lâmpada e vela

 

Há quem seja socalco e vinha

Há quem seja rio e moinho

Há quem seja o sangue

E o miolo do pão na mesa do vizinho

 

Há quem parta e reparta em forma de círculo

Há quem adivinhe o silêncio

Há quem saiba ler um olhar ou uma maré

Há quem seja árvore e barco e ralé

 

Há quem tenha fé e eu apenas gosto de café

Dispenso a fé

Há quem seja herege e beijo e Bispo de Viseu

Há quem seja camafeu

 

Há qume seja e há quem parta e não mais regresse

Há quem seja Zenão e há quem seja vómito sobre a mesa

Há quem seja a guerra e a fúria de um gato

Sentado na sanita do patrão

 

Há quem seja falso e aldrabão e há quem seja sexo

De mão em mão

Há quem não regresse e que parta e que esquece

Que há uma porta nua e em esperma claridade

 

Cada palavra escrita na divina cristandade e virgindade da gasolina

Há quem seja gasóleo e eléctrico

Há quem não necessite da formiga

 

E o açúcar a dançar de esmeralda em esmeralda

Há quem seja toalha e estojo de barba

Há quem seja comboio e ao mesmo tempo

Há quem seja velório e relógio de tempo

 

Há quem parta e não o saiba

Há quem destina e semeia a ventoinha de uma aldeia

Há que o seja quase que o foi como eu o fui

Há quem seja espingarda

 

Há quem seja farda

Há quem seja merda e mesmo assim não o saiba

Há quem seja sabonete nos braços de uma vagina

Há quem seja menina e flor ao amanhecer

 

Há quem seja a chuva

Há quem parta e há quem não regresse

Há quem seja novamente a uva

Há quem seja a areia dentro da cabeça

 

Há quem parta e seja

Há quem não regresse e que nunca tenha partido

Há quem saiba que o soubesse pensando que o sabia

Há quem seja o mijo e a adrenalina do dia e da urina

 

Há quem seja cigarro no cu de judas

Há quem seja dinheiro na vírgula de um engate

Há quem fosse urinol

E hoje dizem que é o sol

 

Houve quem fosse o poeta dos urinóis

Há quem seja hoje croquete e meia-dúzia de rissóis

Há quem seja carril deitado na estrada

Há quem seja a estrada

 

Há quem seja a corda e a bala

E a espada

Há quem seja a sebenta e o livro

Há quem seja a fogueira e a cegueira de uma alma

 

Há quem seja almofada

Há quem seja a cama

A cama cansada

Há quem seja a trigonometria de um grito

 

Há quem esteja aflito e hirto e fodido

 

Há quem seja o rio em fúria na curva da vida

Há quem seja avião

E há quem tenha SIDA

Há quem diga que eu sou tolo e louco

 

Há quem seja papel higiénico

Há quem seja terra e mar e vento

Há quem seja rolamento

Há quem seja veio e também o seja roda dentada

 

Há quem seja corrente de distribuição

Há quem seja moinho de vento

E cavalo e depois pão

E sonho que o seja

 

Há quem seja erva

Há quem seja ovelha e lesma e peixe amestrado

Há quem seja o pénis

Nos lábios de um drogado

 

Há quem seja pássaro e no entanto há quem seja minuta de contracto

Há quem seja Viriato

E há quem seja assobio e borato

E garganta no esperma da noite

 

Há quem seja oceano e fulano

E amigo do amigo do cigano

E há quem seja engano

Nos retalhos de um pano.

 

31/05
19:38

 

Quem me dera

Quem me dera que não houvesse tempo

Quem me dera que eu não tivesse mais tempo

Para ter tempo

Quem me dera que não houvesse noite

Que não houvesse sol

Quem me dera que não houvesse lua

Nem o dia

Nem a tristeza quem me dera

 

Quem o diria que eu um dia

Deixasse de ter tempo

E de ter dia

Quem me dera coisa pouca que eu tenha

Quem me dera que a luz fosse negra

Quem me dera que o verso morresse

E também ele o fosse como eu

Quem me dera que não houvesse tempo

 

31/05
18:45