cachimbo de água
poesia & arte
05 fevereiro 2026
aos poucos
aos poucos, tudo desaba
tudo, acaba
aos pouco, a vertigem de
um luar
que é o negro acordar
que aos poucos, em mim
morre e desaparece
que vive e que habita e
que envelhece
nas profundezas de um rio
quando a mão do poeta
treme de frio
quando a caneta é a
espada cravada
na luz de uma singela
madrugada
que aos poucos é a poeira
crepuscular
que aos poucos, desiste
de amar
05/02/2026, 15:47
03 fevereiro 2026
depois, talvez não
depois, talvez
não
e agora o que fazer, se o
tempo
parar, se o tempo morrer
mas às vezes, o tempo, o
tempo é sofrer
e sentir, sentir o tempo
na mão de escrever
procurar o amar, e saber
que o tempo não tem nome,
que o tempo sempre saberá
onde se esconde o alento,
que às vezes, que às vezes também não tem tempo, que às vezes ninguém tem, tem
tem outro sentimento
e tem um nome suspenso na
corda da morte, e quase não tem tempo
quase, quase que também
envergonhado, procura dentro do outro tempo
um quadro pincelado com
os sobejos do tempo
quando o tempo, ainda
pertencia à montanha do adeus
que deus o quis, porque
sim
não
andamos perdidos, num
falso tempo, curvilíneo, abstracto no silêncio de uma vírgula, se uma pedra for
capaz de arremessar contra mim,
a palavra enforcada na
árvore da despedida
e também eu, estou sem
tempo
aliás, desde que nasci,
nunca tive tempo
porque o tempo também é a
raiz
porque o tempo, o tempo
também é a fronteira que separa o calor, do frio,
que separa o cio, do rio
e que separa, a luz, do
vazio.
03/02/2026, 03:56
02 fevereiro 2026
o azul meteoro
será, o azul meteoro,
marte em mente, mente em lunar desperdício,
correr sobre um mar de
metástases, decadentes, proponentes
como um nome disfarçado
de ontem,
depois, será, o azul
vento, meteoro em mente, que sente
marte no destino
e amanhã?
será, o azul meteoro,
marte em mente, que mente em terra, em pedra e em areia,
faúlhas de tinta, da
chaminé de um caderno, em lambas e alfinetes dentados, em círculos, em rotação
em limalha cordial de uma
alheira, no prato incendiado e aprisionado e fodido
como uma lágrima depois
de libertada da seara madrugada
02/02/2026, 19:33
ele, ele matou-o
amanhã cedo será o início
de algo, algo
algo estranho no meu
intestino, 3 cm apenas, ou algo, muito
bom ou mau,
o pior será depois o
resultado, pois, há sempre um resultado,
sim,
não,
tal como a lógica, tal
como o código binário, 0 e 1, verdadeiro, falso
uma coisa é certa, mais
certo do que eu ser poeta, ou algo estranho
e a minha certeza é que
não terei o destino do meus pais; isso não.
um grama de heroa e eu
mato o gajo,
e na minha lápide, alguém
escreverá,
ele, ele matou-o.
02/02/2026, 19:11
há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima
há-de ser, depois foi
apenas um pequeno desejo, um longo silêncio
depois apeou-se a
lareira, e eu fiquei com frio
despido na maré de um
olhar
depois deixei de ter mar,
depois
há-de ser, se o vento me
trouxer a raiz cúbica de uma lágrima, e do cansaço, as pedras lançadas, as
veias quase em água, descendo o sangue às profundezas de um sorriso
depois, fiquei louco,
depois fui aprisionado a um pequenino raio de sol
e há-de vencer a luz, e
há-de crescer
na minha mão confusa, na
minha mão tão trémula como trémulo foi o meu sonhar, em sonhar um sonho vestido
de noite
quando ainda, havia na
claridade, um poema em construção
e uma secretária entupida
e recheada, de livros
e de folhas secas, folhas
que sobejaram de uma árvore, que foi tempestade e que hoje
e que hoje é amor
e é a cama que me aquece,
e abraça, e me toca
quando o meu corpo,
despido, e despedido
se enforca, e se demora,
numa vertida lágrima, e que o sono
seja novamente a tua mão,
no meu peito
02/02/2026, 06:10
01 fevereiro 2026
só um poeta enforcado
foi varanda, assassina
foi faca, mas antes foi
menina
é mulher, é flor em vento
laminar
foi lua e foi o luar
foi seara, literatura
foi poema e também foi
loucura
é mentira, é o destino
que o meu corpo de menino
seja uma sombra cansada e
sem amar
foi barcaça e foi aliança
que sente o acordar
e que foi também o sonho
tresloucado
que foi criança
e que hoje é só, só um
poeta enforcado
01/02/2026, 15:25

