07 julho 2026

Que o tempo está bom, a água uma delícia,

Que o tempo está bom, a água uma delícia, que Pitágoras disse um dia aos seus netos que num triângulo rectângulo o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos,

Que o momento é igual à carga vezes o vão ao quadrado a dividir por oito,

Que tão breve não irá chover, e claro

Que se foda o Pitágoras, os netos e os catetos e o momento e o seno hiperbólico de X

A força da gravidade, por enquanto ainda não muito grave é igual a nove vírgula 8 metros por segundo quadrado, e se não existisse gravidade,

Como fodíamos nós?

 

O integral de X (d) X é igual a X ao quadrado a dividir por dois mais a respectiva constante de integração,

Um metro cúbico são mil litros, hoje ainda não ouvi o apito do cacilheiro em direcção ao Barreiro, talvez tenha ele falecido

Tanta gente que ultimamente tem morrido,

 

Por fim,

 

Só saio às vinte horas,

 

Que a velocidade da luz é igual a trezentos mil quilómetros por segundo,

Em física designada pela letra (C)

Que não sei quem é mais louco, eu ou o Óscar,

 

E que a força é igual à massa vezes a aceleração.

 

07/07
15:25

Seria o sofrido sentir

Seria o sofrido sentir

Que o tempo não ouvia

O vento sorrir

Que seria

 

O terceiro sentir

Uma pedra lançada ou um pinheiro

Cansado e sofrido e esquecido na madrugada

Que arde sem se ver no ser e no ir

 

Seria o sofrido sentir

Sentir o ver sentido

Que o tempo ajuda a esquecer

O sentido sofrido

 

Ou a vontade de morrer

Seria o sentido sofrer

Que sofrido o fora e no saber

A minha mão a arder.

 

07/07
15:00

Podia ser a chuva

Podia ser a chuva

Que abraça a seara

Numa noite ventosa,

Podia ser o frio

Que sem medo que sem tédio

Beija a montanha

E acaricia cada árvore e cada ribeira,

Podia ser a lua

E o luar

E a ponte pedonal,

O rio cansado

Eu podia ser

Uma estrela no céu,

Podia ser eu um verso

Sem palavras

E invisível ao coração alheio,

Podia ser um pinheiro

Balançando

A cada som ouvido,

Podia ser o destino

Sonhando de menino

Correndo na praia,

Podia ser o poeta

E a mangueira brincando

E a mangueira olhando,

O menino no chão desenhando

A medula espinhal do silêncio,

Podia ser uma porta

Uma janela

Ou até um pedacinho de vidro,

Podia ser um copo de vinho

Um cigarro

Ou um charro,

Podia ser o Mussulo

Procurando na chuva

Que abraça a seara

O livro,

Podia ser cada pedra de uma calçada

Tão calcada e cansada

Que à vezes pedia ajuda,

Podia ser o Tejo

E cacilheiro que ficou

Também à procura da chuva

O nome da chuva,

Podia ser uma equação complexa

Diferencial

Abstracta até,

Ordinária

Podia ser a teoria da relatividade

Ou a sexta dimensão,

Podia ser o pão

O campo de milho de Carvalhais

Ou a eira no granito aflito,

Podia ser um grito

Podia ser a chuva

Que abraça a seara,

 

Mas quis Deus que eu fosse apenas um abastecedor de combustíveis.

 

O7/07
05:24

Nunca nasceu o dia, que se cansava

E sentia 

Que nunca 

Teve na vida

Um dia com vida

Que o dia 

Quando o sentia 

O seu nome não o sabia 

E por isso, ele chorava 

 

Mas também chorava de alegria 

Quando num finíssimo fio de luz 

Lembra-se ele que chovia 

Quando num finíssimo fio de luz descobriu a poesia 

E a janela para um outro dia 

 

Sofria

Por uma terra que nunca lhe pertenceu 

E havia no dia 

Outro dia

E sentia 

Que nunca teve na vida

Um dia com vida.

 

07/07

00:20

05 julho 2026

A esperança é um erro.

 

(László Krasznahorkai, Nobel da literatura 2025)