21 março 2026

porque te escondes, meu amor

porque te escondes, meu amor

se apenas sou um miserável, e faminto

e tudo o que te escrevo, é a verdade, porque eu não minto

como também não mentem, as pétalas de uma flor

 

porque te escondes, porque te vestes de vento

e quase sempre, voas sobre o meu silenciar

se eu apenas quero te tocar

e viver, e amar no teu pensamento

 

porque te escondes, meu amor

sabendo que o rio não se cansa de me esperar

e quando lá chegar, e quando lá me sentar e sem dor

 

pegar na tua mão, como que se ela fosse uma lágrima de alegria

ou uma criança junto ao mar

porque hoje, meu amor, hoje é o dia mundial da poesia.

 

Alijó, 21/03/2026 – 05:44

20 março 2026

água

água, o silêncio que habita na ardósia

que escreve sob a ponte o nome da chuva

e um guarda-chuva, preocupado

deitado, ou até sentado

 

quanto a mim, me vou

ir, partir deste inferno deserto que acorda e que morre

quando a espada se crava na terra

e a raiz do olhar

 

em lascas, finas como finas o ão

as poeiras da montanha, e o mar

mais azul, mais triste

porque a água é o silêncio que habita na ardósia.

 

Alijó, 20/03/2026

o que pensará a caneta do poeta, de tudo isto

o que pensará a caneta do poeta, de tudo isto

o que pensará a água que cai sobre as mãos do poeta, de tudo isto

o que pensará a chuva, sobre o poeta, e sobre a caneta do poeta

que hoje, que hoje triste acordou

porque está cansada, ou apenas

porque sonhou

que pensava

e afinal, e afinal é tudo uma falsa madrugada

 

e afinal é apenas uma caneta, uma caneta que deixou de acreditar

e de escrever, e de sentir

a noite

e o corpo a ferver

o que pensará a caneta do poeta

quando morrer

ou quando abrir a janela

e com a janela aberta, sentir no rosto o vento a sofrer.

 

Alijó, 20/03/2026, 05:37

19 março 2026

Há rios que não correm para o mar

(hoje disseram-me que tenho pancada; para essa pessoa vai este poema)


Há rios que não correm para o mar, há o arder do fogo que não se vê

Há silêncios que querem tudo dizer

E há dizeres que não precisam de silêncios para o ser

Há árvores que nunca ouviram a melodia de um pássaro

Há pássaros que nunca viram e

Sentiram o mar

Há mulheres que não sabem o nome da paixão

Ou até amar

E há gajos como eu, eu

Que tenho uma pancada do caralho

E tenho de vos aturar...


19/03/2026, 18:01


cartas

deixei de receber cartas

pouco me importa, na não importância de me escreverem

nunca recebi muitas cartas, algumas as escrevi

mas hoje, hoje não me apetece escrever cartas

e não tenho a quem escrever uma carta.

 

e mesmo que eu tivesse alguém para lhe escrever uma carta, o que poderia eu lhe escrever

ou dizer

dizer-lhe, e escrever-lhe

que nada tenho a dizer ou a escrever

a não ser, que tenho três peixes fantásticos

 

que há muito tempo a minha leitura se resume ao ler e reler, e voltar a ler (o antónio)

não sei porque o faço, mas sinto dentro mim uma janela

que sempre que estou perto dela, eu vejo e recebo o odor do mar

portanto, não me sinto cartas a quem as escrever

e ter

 

o que nunca tive, e que sempre tudo tive

que as minhas mãos brotam sangue, têm golpes, mas isso não me importa

porque já nada me importa

quando a eira de carvalhais agora é um amontoado de ervas, silvas, e pinheiros

e o meu corpo

 

em finas lâminas de lágrimas

e mil portas vão arder, das cartas que não escrevo

nas cartas a quem não tenho para escrever

e um dia, não sei quando nem me interessa saber, tal como as cartas a quem escrever

nem um filho(a) terei para numa lápide me escrever.

 

Alijó, 19/03/2026, 05:08

18 março 2026

Às vezes era a maré de um sonho, que pertenceu

Às vezes era a maré de um sonho, que pertenceu

Viveu, cresceu, e morreu

Às vezes, era um corpo sem sentido, sentindo o murmúrio de uma orquestra

Correndo, e voando

Sobre uma calçada de veneno, e cada pedrinha, cada cubinho

Eram só sombras e carreiros de utilização apenas por formigas, e por algumas prostitutas

 

Às vezes era a sonolência em triciclos de frio, e eu me sentava

E dormia, e não comia

E às vezes, eu sentia o odor de uma espada

Cravada

No peito

No coração da alvorada

 

Que quase sempre, ardia

Às vezes era a ilha que se afundava, e que me dizia

Que às vezes era a maré de um sonho, que pertenceu

Viveu, cresceu, e morreu

Antes de acordar o dia.

 

Alijó, 18/03/2026, 20:51

Sentia o entranhar da luz no feliz do espantalho

Sentia o entranhar da luz no feliz do espantalho

Da janela, ouvia-o, enquanto eu fumava, enquanto eu bebia

E do quarto do meio fazia, não um bordel, mas uma livraria

Que também olhava, o entranhar da luz

No doce e querido espantalho

 

Em seu redor, corpos esbeltos e finos como a seda, na outra árvore, às vezes chamava os pássaros, e eles ouviam o jasmim

Deitado junto à ribeira

Na penumbra, a estrela que é o cansaço, na primavera

Do mundo, no inicio da saudade

Mais uma fina e alegre mistura de argaço e

 

E também sabia o sentir de uma veia, quando de tão fina

Levitava, e semeava junto ao espantalho, outros espantalhos, que eu

Que todo o campo de milho, sentia vergonha

Quando acordava a noite no dia de ontem

E já era outro dia

 

A luz depois mergulhava em cada terrão de terra, quando pela manhã ficava húmida, mas juto à noite

Ouvia o perfume do espantalho, e sentia a sua mão

No meu rosto, no meu sexo

Um beijo se esfumava no rosto de um espelho

Que era prata, que era

 

A erecção da poesia, e sentia

A mão no peito que pertencia ao espantalho, o milho

Dançava, e se erguia, aos poucos, como se fossem gotículas de suor no corpo de uma laranja

A voz, no ouvido, tão doce como o doce espantalho

Derretendo-se num pedaço de chocolate, doce

 

 

Alijó, 18/03/2026, 20:03