O mar
(a
pequenina bola de algodão)
No
mar. Embrulhada nas palavras, a pequenina bola de algodão saboreava as sílabas
do desejo, inventava paisagens perto de um rio, esquelético, frio e, ausente, a
pequenina bola de algodão sabia que um dia, do mar, o seu mar, regressaria a
paixão dos peixes, os poemas e, algo mais estranho do que simples palavras; a
ausência de.
Dormia
no sótão dos beijos, tinha sobre a cama algumas bonecas de trapos, a quem
diariamente, penteava como se fossem searas de trigo abraçadas ao vento, do
rio, o cheiro intenso a lágrimas de despedida, como quem parte e nunca mais
regressa, ao destino, fugia-lhe sempre que podia, pois da ausência, a ausência
escrevia nas suas mãos as tempestades de música, alguns desenhos e, livros.
No
mar. Sentava-se num rochedo de silêncio, desenhava na areia as paisagens
brancas da infância, pequenas luzes multicolores que habitavam do outro lado do
sótão, como as flores murchas de um jardim envelhecido. Todas as noites jazia
gritos nas janelas sombreadas da cidade dos vidros, adormecia agarrada aos
braços do poeta, enquanto ele, fumava cigarros invisíveis e, dos incêndios
clandestinos da manhã, outras gravuras se levantavam do chão; é tarde, meu amor
e, amanhã, sempre que possa, a lonjura da solidão será apenas uma fotografia,
velha e, ténue.
Velha
e rabugenta. No mar. do mar. a pequenina bola de algodão, todas as tardes,
banhava-se nos imperfeitos nevoeiros que longinquamente dormiam junto à tapada,
as árvores e, os pássaros, como eu, como ela, desvaneciam nas pedras murchas da
eira, quando o cereal já brincava e, meninos com uma bola, todos em calções,
atiravam máquinas em papel contra as paredes de tangerina. Tenho medo, dizia às
vezes a pequenina bola de algodão,
Do
mar?
Não.
No mar. Da noite cansada e vencida, das toalhas em desalinho sobre uma mesa
destruída pela idade e, a velha flor, essa, não tinha medo. Beijas-me?
No
mar?
Uma
canção de incenso escondida na noite.
E,
acordava a manhã nos teus braços de algodão. Uma canção, sempre a mesma,
ausentava-se da melodia e, em pequenos gritos, alguns, renascia das húmidas
tarde de Primavera.
Lembras-te
dos amargos lábios do poema?
Não
sei, meu amor.
Nunca soube o que
era o amor, acreditava nas gaivotas em papel da minha infância, recordo o
triciclo enferrujado, o boneco estúpido que apelidei de “chapelhudo” ..., que
parvalhão apelidava o seu fiel amigo de “chapelhudo”, eu, claro,
As palavras
misturadas entre orgasmos e flores, gemidos cirílicos suspensos nas andorinhas
em flor,
Eu?
Nunca,
O amor,
Poemas escritos
debaixo da embriaguez
Freguês?
Nem uma modinha
habita na minha algibeira, e o amor sossegado debaixo de uma mangueira,
crescia, brincava e...
Nunca,
E embrulhava-se na
timidez de um novo dia, e lentamente, os meus ossos alimentados pelos sulcos
solitários da noite, a barriga crescia-lhe, é menino? Menina?
Freguês?
Eu, simulador de
voo quando as estrelas dormem, e habita na minha algibeira uma película fina de
desejo,
O que é o
desejo...!
Não
Nunca soube o que
era o amor,
Não pai, não pode
ser,
A vida é viver, um
dia, dois dias, um quarto de dia..., percebes?
VIVER...
E amar?
Não sei, meu pai,
não... sei,
O frio
entranhava-se-lhe nos ossos fictícios de pequenas partículas de desejo, António
inventava fogueiras no olhar, esfregava as mãos como se de um reza se tratasse,
mas não, a rua deserta deixava-lhe suspenso nos ombros um fino silêncio de
noite, imaginava vãos de escada em cada esquina, desenhava na geada pequenos
quadrados, depois, de pé ente pé saltitava como a queda de uma folha,
Um cigarro
adormecia-me a alma, reclamava ele quando dois adolescentes se abraçaram a ele
E ele?
Incrédulo,
Vocês. Aqui?
Sim, pá, nós aqui,
António florescia,
António corria calçada abaixo até ao rio, sorria... e regressava,
Não,
Não acredito que
os meus irmãos estejam aqui, comigo, só nós,
Não,
Um cigarro, tem
lume? Que não, que não,
Vocês aqui...
Meus Deus, tanta
solidão, frio, fome...,
Foste tu que
quiseste, ou não?
E António
fulminava o irmão Miguel com as pálpebras inchadas,
Eu é que quis...!
Quase como lâminas
afiadas, depois, o acordar da cidade, os primeiros automóveis do dia, depois os
últimos bêbados da noite, e depois
Não, não acredito,
Os Primeiros
cheiros de Lisboa,
O fumo argamassou
todas as palavras... Meus Deus, vocês aqui...
O amor é uma noite
escura, imagens tridimensionais vagueiam nos teus seios de Inverno, a geometria
do prazer inventa-se,
E transforma-se em
películas de desejo, o corpo vacila, sente a tempestade íngreme do desespero,
amanhã não há madrugada, amanhecer, horas, sorrisos... e beijos,
O amor?
Uma parábola
esquecida no mural de xisto junto ao rio, lá longe os barcos embalsados,
aqueles que ninguém ama, quer...
Geometria,
equações trigonométricas com odor a poesia
Possível
E, no entanto, o
amor é uma noite escura, sombria, habitada pelo medo da paixão, uma rua, uma
avenida... e embriagados transeuntes olhando monstras desertas, as insinuações
acomodadas do dia, sentado, de pé... correndo,
Escrevo palavras
para não morrer, e o amor é uma noite escura, imagens, retractos, e.… e quadros
desconexos,
Avenida,
Sem sentido,
Correndo
Possível?
Correndo sobre as
tempestades de areia, e acordo sobre a imensidão do impossível, dos amargos
lábios do poema,
Palavras,
Mortas...
encaixotadas nos teus lábios...
Vivíamos numa casa
adormecida, tão triste, meus Deus, e tão bela, escrevia nas paredes do quarto e
via as minhas palavras engolidas pela humidade, eu era uma criança, tinha
sonhos, e o eterno medo do silêncio, quando me deitava e antes de dar um beijo
de boa noite ao candeeiro... não rezava porque nunca rezei..., mas
Silêncio,
Mas sonhava,
desenhava figuras geométricas nos lençóis da tempestade, sacudia as infames
equações do orgasmo, e
Silêncio...
Que roupa vou
vestir amanhã, mãe?
Silêncio,
E depois dos
desejados sonhos do meu candeeiro
Porque nunca
rezei,
A noite finalmente
tomou conta de mim, abraçava-me, pegava-me na mão e levava-me até ao cais dos
assombrados marinheiros, os barcos em pequenas romarias à esplanada do sexo,
sentavam-me, olhavam a funcionária... e levantavam-se
Ela é muito gira,
Achas?
Gira Gira... é a
minha vizinha,
Como?
Silêncio,
Inventávamos
poemas no corpo embalsado que uma tia rica lhe tinha oferecido, coisas de
ricos,
Como?
Gira Gira...
Que roupa vou
vestir amanhã, mãe?
Silêncio,
São horas de
acordar, a noite camuflada nas ombreiras da solidão levita entre mim e o
espelho sifilítico da memória, sinto na minha algibeira a praia da infância,
olho nos teus olhos o medo de me perderes..., e sabes que nasci perdido, nasci
numa cidade de sombras, cacimbo e insónias,
Os teus gemidos,
Hoje?
Palavras
travestidas de amor que os braços do prazer acariciam, amam, Hoje? Os teus
gemidos de prata rodopiando a lareira do amanhecer, vou à janela, e grito o teu
nome
Hoje?
Não existes, és
como a cidade da minha adolescência, sem horários, sem morada fixa, ou... ou
número de polícia, e as tuas cartas encontravam-me no amontoado de escombros
com cheiro a poesia,
Eu, eu tremia,
São horas de pegar
tua mão e beijá-la, como se beijam as cartas adornadas com corações e flores
perfumadas, e eu
A Poesia,
E eu igual ao
espelho que vive no meu quarto e me acompanha nas manhãs de Primavera,
O teu corpo sempre
igual, escultura abstrata da caligrafia envenenada pelo sexo embainhado nas
canções de viver,
A Poesia...!
Morreu,
E o poeta...
Partíamos sem
regresso, ouvia dos pulmões do paquete a respiração ofegante, a cidade
desembrulhava-se do silêncio do mar como um rebuçado acabado de atracar ao cais
da infância, só tínhamos um caixote com algumas recordações, retractos, poucos,
e roupas...
E o poeta?
Trapos, restos de
ossos, nas mãos o cansaço das sombras da aldeia acabada de se esconder dentro
da eira granítica da solidão,
Partíamos...
Sem regresso,
inventava a “mulher clitóris” e percebia que os Mão Morta pertenciam ao meu
futuro, e que um dia
O Poeta?
Morreu, e que um
dia mataria as horas e os minutos...
“mulher clitóris”,
O Rossio erguia-se
do manuscrito sem título, perdido, a morte disfarçada de cigarro, o Rossio
entranhava-se no meu peito, as Avenidas pertenciam-me, como todas as janelas
com fotografia para o mar,
A ponte,
O fumo vadio
galgando as minhas roupas como uma aranha sem nome, fios, pedaços de saliva e
gotículas de suor, a luz absorvida pelo teu corpo de naftalina, a gaveta do
guarda-fato sem nada guardar, esfomeado, húmido, este triste quarto despido dos
vidros e dos cortinados, frestas, sombras que um dia se ergueram durante a
noite e fugiram...
Regressar?
Partíamos...
Sem perceber o que
era a Saudade...
O sangue quando
disfarçado de texto, a ficção caminha nas veias quadrangulares da paixão, um
finíssimo raio de Sol acorrenta-se ao papel emagrecido que as noturnas cidades
constroem nas arestas do sofrimento, há dor, há pobreza...
O amor?
Uma parábola
esquecida no mural de xisto junto ao rio, lá longe os barcos embalsados,
aqueles que ninguém ama, quer...
E não quer,
O coração
apaixonado estoira, em pedaços de areia grita pelo regresso do mar, o mar
aflito, grita pelas palavras enclausuradas da solidão,
Quer, ter de
passear-se vestido com um lençol de medo, e as cornijas da insónia descendo até
às pálpebras dos candeeiros a petróleo, o medo, a noite que se come e ejacula
pequenas gotículas de silêncio, é tarde
Meu amor,
E amanhã o trim
trim do triste caixote de madeira...
Hoje não estou,
Mas sonhava,
desenhava figuras geométricas nos lençóis da tempestade, sacudia as infames
equações do orgasmo, e
Silêncio...
Que roupa vou
vestir amanhã, mãe?
Silêncio,
Trapos, restos de
ossos, nas mãos o cansaço das sombras da aldeia acabada de se esconder dentro
da eira granítica da solidão,
Partíamos...
Sem perceber
porquê,
Sete cabeças
perdidas, os teus olhos refletem a inocência da liberdade, tens no corpo a
inseminação das pálpebras de verniz, húmidas, lânguidas translações de
geometria, na tua boca a solução para todas as equações,
Ô amor,
Amar,
Desenhar no
alpendre as verdadeiras palavras, simples, comestíveis nas noites de insónia, o
caminho alicerça-se aos seus dedos, ele permanece impávido, incrédulo, com
todos os sorrisos das montanhas de sémen,
Não pago, não
quero saber da paixão, do amor proibido que só os lençóis de porcelana
conseguem desfrutar,
O amor,
O poeta,
As migalhas de
Deus descendo a calçada encarnada das escadas para o sótão, trazias no corpo as
flores mais belas dos jardins sem nome
O amor,
As janelas
fotocópias de mares e marés ensonadas, a carta envenenada sem remetente nos
candeeiros do Luar,
“A ponte,
O fumo vadio
galgando as minhas roupas como uma aranha sem nome, fios, pedaços de saliva e
gotículas de suor, a luz absorvida pelo teu corpo de naftalina, a gaveta do
guarda-fato sem nada guardar, esfomeado, húmido, este triste quarto despido dos
vidros e dos cortinados, frestas, sombras que um dia se ergueram durante a
noite e fugiram...
Regressar?
Partíamos...
Sem perceber o que
era a Saudade...”
Onde moras,
menino,
Perdi-me sem saber
o significado de saudade, Lisboa crucificava-me,
Abrias os
braços...
E pensava em ti...
As sombras, e
pensava em ti, meu amor, quando adormeciam as imagens lânguidas do sofrimento,
o vulcão das tuas coxas,
O regresso?
Nunca
As sombras, o
timbre fixo da foz espetada numa caixa de cartão, tinhas nas mãos a safira
paixão das noites em flor,
Nunca, nunca
conheci a tua pele, era sempre noite em nós, adormecíamos como dos corvos
suspensos na putrefação da insónia, cintilavam os teus seios nas pálpebras do
mal-me-quer adocicado, louco
Apaixonado, eu?
O corpo incha como
uma orquestra desafinada, os lençóis de linho misturados com os beijos noturnos
do sémen inventado pelos rochedos da memória, hoje há caracóis, sardinhas... os
monstros marinhos da tua língua, os teus seios abraçados a uma tela vazia,
branca, triste como as ruas da cidade do abismo,
Hoje?
O velho caixote em
madeira embrulhado com as comestíveis sereias de açúcar, a fotografia sempre
extinta no meu olhar, não
Existes?
Talvez...
Mas sonhava,
desenhava figuras geométricas nos lençóis da tempestade, sacudia as infames
equações do orgasmo, e
Silêncio...
Que roupa vou
vestir amanhã, mãe?
Silêncio,
E depois dos
desejados sonhos do meu candeeiro
Porque nunca
rezei,
Mãe...!
Navegas na morte,
habitam em ti as saudades da partida, o regresso sem saída, absorto,
infinitesimal adormecido numa lápide de sonho, partimos, chegamos, o frio
entranhou-se-nos nos ossos, esquecemos as palavras, e todos os momentos, a
loucura imaginária dos vinhedos escrevia nos rochedos... o xisto disfarçado de
“Alimento para Cães”, as ruas inúteis, fúteis, onde ”putas e drogados” dormiam
para fugirem ao vicio, a emigração dos corações de areia, a sedução, o prazer
quando o teu corpo balançava na alegria, o sótão vazio, o telhado encravado nas
ombreiras da paixão,
Amo-te, escreve
ela todos os dias no espelho embaciado,
Amas-me?
O que é o amor,
meu amor...
Palavras, poemas,
poetas... & mortos sem cabeça, Amas-me? O que é o amor, meu amor...
Pedra,
madeira...ou papel quadriculado,
Oiço
“Foda-se o amor”
E...
Tão belo como as
sandálias da infância... sonhadoras,
As tristes viagens
ao cacimbo da infância, o sombreado rosto no pavimento térreo e sem nome, a
mangueira no retracto do meu avô, de machimbombo na mão, abria-se o portão de
entrada, um beijo, infinitos abraços... e o sentar numa cadeira de vime,
O cansaço
disfarçado de saudade, a tela do silêncio em pequenos suspiros de amor, o sexo
mergulhado nas frestas do passado, a morte e a loucura, e uma equação
irresolúvel, menstruada nas sílabas da madrugada, não sei o significado desta
noite,
Faltam-me as
palavras,
E os desenhos,
Faltam-me as
palavras certas para a tua boca de verniz, e quanto aos desenhos
Uma porcaria,
Sem nexo, abstratos
como o teu sorriso, e tristes como o final da tarde junto ao rio, O Tejo
embriagado nos meus lábios, os esqueletos de palha ardendo na maré, e uma
porcaria
Os meus desenhos?
E tu,
Uma porcaria como
todas as porcarias da minha vida,
E tu,
A “Divina Comédia”
...
Entre as minhas
pálpebras de arroz,
Nasce o poema no
teu olhar, recomeçam as sagradas lâmpadas do fugitivo sem destino, imagino-me
um transeunte sem identificação, pátria... nasce o poema no teu olhar
cambaleando lâminas de azoto e perpétuas flores em papel, as lágrimas da
inocência impregnadas no teu rosto, sangrento, fulminantes palavras inscritas
na alvorada,
Amanhã regressarei
aos teus braços,
Não, não quero
Deus nas minhas mãos, não...
Braços,
A alvorada
inseminada na fala dos desassossegados orgasmos de plástico, a claridade
sideral poisa sobre os teus seios, meu amor,
E o amor?
Braços,
Palavras,
O corredor
embriagado de flores e árvores caducas, na algibeira um beijo e algumas
migalhas de suor que só o teu corpo sabe desenhar em mim, abri a janela, puxei
de um velho cigarro, a tosse, a idade da tosse... sobre os meus ombros,
Tens de deixar de
fumar...!
Nunca,
(Navegas na morte,
habitam em ti as saudades da partida, o regresso sem saída, absorto,
infinitesimal adormecido numa lápide de sonho, partimos, chegamos, o frio
entranhou-se-nos nos ossos, esquecemos as palavras, e todos os momentos, a
loucura imaginária dos vinhedos escrevia nos rochedos... o xisto disfarçado de
“Alimento para Cães”, as ruas inúteis, fúteis, onde ”putas e drogados” dormiam
para fugirem ao vicio, a emigração dos corações de areia, a sedução, o prazer
quando o teu corpo balançava na alegria, o sótão vazio, o telhado encravado nas
ombreiras da paixão,
Amo-te, escreve
ela todos os dias no espelho embaciado,
Amas-me?
O que é o amor,
meu amor...
Palavras, poemas,
poetas... & mortos sem cabeça, Amas-me? O que é o amor, meu amor...
Pedra,
madeira...ou papel quadriculado,
Oiço
“Foda-se o amor”)
Nunca oiço, as
tuas exclamações do prazer, e quando o teu corpo se desfaz em cinza, eu, sou
absorvido pelos teus olhos, navego desde que cheguei, dentro de um caixote em
madeira,
Alguns tarecos,
fotografias e fios de sémen ainda por descobrir, os calções emagrecidos na
madrugada, o desejo desenhado nas montanhas do “Adeus” ...
Até logo, meu
amor...
E nunca,
O que é o amor,
meu amor...
Os meus desenhos?
E tu,
Uma porcaria como
todas as porcarias da minha vida,
Estes desenhos sem
sentido, abstratos, doentes, malditos... sinto-o e finjo que ele não existe,
não o quero ver, não me apetece falar com ele, amanhece nos teus braços e não
me dou conta da liberdade das tuas mãos, das palavras dos teus lábios... e dos
teus beijos geométricos,
A rima é de quem a
trabalha,
Geométricas
cintilações de cianeto, o azoto e os cigarros,
E tu?
Amanhã amar-me-ás
como hoje?
Mas hoje... não
existe, um caixote em madeira, alguns tarecos e meia dúzia de fotografias,
Todas,
Todas a preto e
branco...
Partiram, levaram
o miúdo dos calões e o caixote em madeira,
Alguns tarecos,
pouca coisa e fotocópias de fotografias envenenadas pelo silêncio, na
algibeira, o amor, o desejo do mar, dos barcos e das coisas
Simples?
Os livros,
E das coisas sem
nome,
Sombras de
mangueira?
E beijos, das
coisas travestidas de saudade, dos livros lidos nas entranhas do desejo,
caminhávamos entre quatro círculos de luz, abraçavas-me como se abraçam os
pássaros, as acácias e os pindéricos cabelos de nata,
Amanhã amo-te...
Partiram, fugiram
das noites embriagadas com direito a limonada e a sexo, construíram cubatas nos
musseques da alegria, saltaram muros e muros, tinha medo das curvas da vida,
adivinhava os beijos como sendo abelhas em flor, sobre as casas sem nome, idade,
e
Sexo?
Só depois das
seis,
E sonhos, de um
dia regressar...
Regressar, mãe?
O texto escreve-se
no teu corpo, a partida pertence ao passado, triste, tão triste como fazer amor
num vão de escada,
Os gemidos,
Os silêncios
mergulhados na algibeira do cansaço, amanhã saberei se me pertences, maldito
caixote em madeira,
Alguns tarecos,
meia dúzia de fotocópias de fotografias,
O mar, mãe?
O mar.… morreu,
Como morrem todas
as coisas belas,
Sinto-me um
caixote em madeira, um socalco em lágrimas descendo até ao Douro, uma eira,
imaginada em Carvalhais – S. Pedro do Sul, sinto-me a noite vestida de negro,
abraçada aos meus sonhos, sem poder mais,
Amanhã, meu amor!
O circo, os
palhaços narcisados nas palavras escritas pelo fantasma do silêncio, a minha
vida uma “merda” comparada com a vida dos meus vizinhos, hoje sonhei que a
pobreza tinha morrido... como se a pobreza tenha morte... este momento
embriagado em poemas de amor,
Poder mais...
Os sorrisos, a
mentira do soneto sobre os ombros vergados de uma enxada, o cristal opaco que
sobressai nas fotografias de infância, a dor, e a doença
Sinto-me
E a doença
sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,
Sinto-me.… um
suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata,
e sapatos de ponta delgada,
Um café Doutor?
Café...
Faltam-me os
cigarros...
E a doença
sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,
Sinto-me.… um
suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata,
e sapatos de ponta delgada,
Faltam-me as tuas
mãos, mãe,
Café?
Viajo na tua saia
e percebo que não temos regresso, regressar é um suicídio sem palavras, uma
carta escrita, os motivos da tua ausência, as faltas da tua presença na Igreja,
sinto-me quando abres a janela do quarto e tenho a certeza de que estou vivo,
Bom dia, mãe...
Meu querido filho!
O livro cresce nas
ardósias cinzentas da memória,
Que és enigmático,
meu filho...
Que sim, minha
mãe,
Que sim,
Telefonaram da Rua
dos Mendigos?
Para mim, mãe?
A cidade
embriagada nas sandálias do pescador, o mar, sempre o apaixonado mar, a paixão
azul, do azul literário e poético..., sabes com é, mãe,
Pois,
Sei que sempre
sonhaste comigo,
Eu?
Sim, tu, mãe,
Quando dizias que
aos três anos de idade já voava...
Eles chegaram, o
caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos
verdes no vão de escada,
Foder num vão
escada, como fodem todas as palavras do poema...
Sabíamos que o
corpo não pertencia às nossas vidas,
Clandestino,
eréctil nas disciplinas do abismo, o poema esfomeado esperando o amante
suicidado,
amanhã, amanhã
nascerá um cansaço de medo no afastamento dos círculos das cidades embriagadas,
Sem iluminação,
sem mulheres ou bares para combater a distração, uns panfletos expostos na
parede xistosa,
Há Tripas,
O caixão dançava
no centro da sala de estar,
Confesso,
Nunca tinha
assistido à dança de um caixão...
Já imaginaram o
dançar de um caixão?
Há tripas e...
Moelas,
A aldeia padece de
claridade, existem fios de escuridão nos telhados cansados das palhotas de
algodão,
Enigmático, eu?
Nunca tinha
assistido à dança de um caixão...
Já imaginaram o
dançar de um caixão?
Há tripas e...
Moelas,
E palavras sem
coração, sentia-me embriagado nas mãos do amanhecer, sentia-me um miúdo
encostado à sonolência da idade,
A aldeia em
chamas, os campos esbranquiçados na tela do desejo imaginavam canções de
moluscos e alguns grãos de areia,
O desenho teu na
cidade dos alicerces alienados, os bares em combustão, as miúdas dançando
canções de solidão,
Amas-me?
Que não,
Que a arte vive e
vai morrer no teu olhar,
Ouves-me?
E palavras sem
coração, avenidas nuas, travestidas de machimbombos reumáticos voando sobre a
cidade, eu... eu... adormecia,
Inventava beijos
nos teus braços, a minha primeira paixão, imaginava-te uma flor triste e
cansada, nos circos ambulantes da saudade,
Os sete orgasmos
do Mussulo, a liberdade sobre as palmeiras invisíveis que me atormentavam, como
campânulas de sofrimento, ao deitar, o caixão que dançava deixou de o fazer,
dificuldades com o cachê, dispensa de artistas e cadáveres de cera, um altar
recheado de almas, tantas almas como os versos do sem-abrigo quando sentado
numa cadeira apodrecida de um circo ambulante,
Quero ser artista,
mãe!
Nem penses...,
nem... penses...
Filho meu não é
artista!
Nunca,
Nunca, mãe?
Os sete, juntos, e
sós, no Mussulo era mais barato, a saia descaída, o soutien desenhado no peito
E...
Nunca, mãe?
Nunca,
Nunca
No peito uma
flecha de sémen rodopiando no gelo do ringue de patinagem... o belo, a dança...
e o corpo em pequenas rotações...
Os teus lábios
acorrentados aos meus beijos embriagados pelo desejo, não o sinto, o vulcão da
tua pele, não vejo o sorriso da tua mão, em vulcão, mergulhada nas palavras que
o silêncio desenha na melancolia,
É falso,
O dia disfarçado
de lápide, os outros destinos rejeitados pelo cacimbo, há uma fogueira no corpo
da sinfonia do amor,
É falso,
O falso prazer, a
liberdade to TEXAS e Cais do Sodré gingavam na penumbra salgada do abismo,
O querido dança?
Fumo,
É falso,
São falsas, os
textos a beleza e o amar, quando o amar pertence aos clandestinos eternos sonos
dos Narcisos de prata, o pilar central do orgasmo mergulhada entre duas
árvores,
Amar, amor,
Ao fundo os homens
calcetando labaredas em poesia adormecida... é falso, que o amor morra nas
planícies salgas do deserto...
Os outros, o
monstro das quatro cabeças brincando dentro de mim, saltava à corda, subia aos
pinheiros pintados em papel cenário..., e havia sempre um pigmentado sorriso
nos seus lábios, era Sexta-feira, daquelas Sextas-feiras que iluminam as
imagens a preto e branco, o sono, a agonia de olhar o mar desenhado numa das
paredes do quarto, escuro, ainda boiava a noite nas veias da adrenalina
constelação do amor, aquele amor inventado apenas para adormecer na poesia,
nada mais do que isso...
Isso o quê, meu
amor!
Os outros, o
monstro
Batem à porta,
Livros, livros nas
mãos cardume do carteiro, assine aqui se faz favor, assinei, foi-se embora,
escondido no arvoredo comecei a acariciar o envelope, lá dentro percebia-se que
alguém existia para me abraçar, daqueles abraços trigonométricos, sabes?
Sei, os outros, o
monstro, a perfeita nostalgia, sebes de papel laminado voando sobre o jardim
O gajo passou-se,
dizem...
Que sim, livros,
Isso o quê, meu amor! Batem à porta, e falou comigo,
Beijou-me
literariamente, sorri, levantei o olhar em direção às palavras de amar, não
tive coragem de abraçá-la com as vogais e as consoantes do poema, alegremente
imaginava-me um transeunte sem identidade, nos sonhos aparecias vestida de
melancolia, as fotocópias e as fotografias, sem identidade, nome, palavras de
amar
Amanhã?
Não o sei, percebi
que as pálpebras do desejo habitavam nos nossos corpos de cinza, perdia-me nos
teus braços como se perdem as gaivotas nos cacilheiros da saudade, palavras,
palavras enigmáticas em construção, o corpo minguava na escuridão, o monstro das
quatro cabeças dançando nos meus ombros, sentia-me uma circunferência sem
olhar, sem.… sem um corpo para aportar, a saudade
Sentidas,
Os tristes
silêncios da minha infância saltando os muros da Primavera, as amendoeiras em
flor, as andorinhas apaixonadas, e eu
Sentidas,
A saudade que os
meus braços abraçavam,
Saudade?
Caminhei sobre as
pedras sonolentas da literatura, cansei-me dos teus poemas e da “merda” dos
teus desenhos,
Sentidas?
Sem identidade...
Podíamos ancorar a
estes versos, permanecermos impávidos das celestes lágrimas do Universo,
Saudade? Caminhei, sentei-me sobre as quatro sombras da preguiça, sofri,
sonhei, aprendi que o amor é um cubículo sem janelas,
Junto ao mar,
É tão lindo, o
mar, mãe...
Os barcos e as
jangadas de silêncio, os embriagados corpos dançando no texto, encerra-se o
livro, e morre o escritor,
Um poema...
Palavras, sons,
imagens, barcos, marés... sucata amaldiçoada pela fresta do luar, a astronomia
e a matemática, dormem, saciam-se nas metáforas da insónia, corpos, nus, entre
eles... o sexo desenhado em cada esquina, a porta do quarto rangia, gemia, e
sabíamos que ninguém nos ouvia,
Orgia?
De palavras e de
poesia,
Um poema?
Negro, opaco, sem
corpo nem cabelo, morto, fictício..., mas pouco, pouco, como os dias à tua
espera...
O fugitivo
regressa, aparece disfarçado de pássaro, não voa, deixou de voar, sonhar,
deixou de viver, e de construir castelos de areia junto ao mar, quando dizias
que aos três anos de idade já voava...
Eles chegaram, o
caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos
verdes no vão de escada,
Foder num vão
escada, como fodem todas as palavras do poema...
Sabíamos que o
corpo não pertencia às nossas vidas, e o fugitivo sem regressar aos nossos
lençóis de sémen foragido, sem pátria, destino
A porta de entrada
encerrada,
Janelas ainda não
tinham acordado,
Destino, viver
dentro de duas folhas brancas com olhos verdes, um círculo, o Sol, a Lua, o
vazio do corpo na alvorada clandestina, fria, fria e amarga,
A porta
Deus, criador de
tudo e de todos, a porta gaguejando, rangiam os biombos da literatura quando
imaginava o mar na parede da biblioteca,
Apetecia-me
Queimar todos os
livros, meus, desenhos, vozes, corpos de incestos e rosas embalsamadas, queimar
as fotocópias e os fósforos da insónia, beijar-te e olhar-te
A mim?
A porta entranhada
entre dois segundos, as lâmpadas lá de casa todas fundidas, sós, escuras, como
a humidade das palavras enquanto pessoas, nenhumas... monstras, vazio, a
astronomia do ciúme suspensa num cabo de aço, Rua da Nossa Senhora..., Não
está, hoje,
O Doutor, a
secretária do Doutor, e a porta, envergonhada como eu, porque hoje não houve
madrugada, porque hoje morrem as palavras...
(cansei-me, vou
deixar de escrever durante uns tempos e de frequentar as redes sociais,
cansei-me e apetece-me ouvir Wordsong... embrulhar-me nos sons das palavras...
e imaginar AL Berto voando junto ao Tejo. Vou ler muito mais e dedicar-me ao
desenho)
Mãe, como é o mar?
Lençóis de espuma,
meu filho, silêncios de sombras poisadas numa tela virgem, aos poucos
reaparecem as palavras e os riscos, a arte de amar e de navegar num beijo
invisível, sem imagens, sem noite para chorar, as ruas completamente
indiferentes às minhas tristezas, as cintilações dos versos descendo os
socalcos imaginados pelas tuas brincadeiras de menino,
Fui menino, mãe?
Cansei-me das
palavras,
Escrita... nunca,
Mais
Amanhã restará uma
única sílaba ao acordar, o espelho
Mais nada a
acrescentar aos teus desejos, meu filho...
Cansei-me das
palavras, mãe, das flores, dos sonhos e das cidades de vinil, cansei-me das
mãos de porcelana da madrugada, sem janelas
O cubículo?
Morreu,
As janelas e o
espelho completamente envergonhados pela partida do monstro das quatro cabeças,
nada mais do que isso, literatura ao jantar, poesia ao pequeno-almoço, e
Morreu,
E alguns gladíolos
apaixonados pelo jardim dos arciprestes, sabes? Falamos sobre isso, lembras-te?
Não, não...
Morreu,
Sentava-me no Tejo
a contar cacilheiros, no final da tarde, depois de alguns cigarros, percebia
que todos aqueles cacilheiros pertenciam ao exército dos apaixonados anónimos,
tristes, convictos, passeavam-se como se fossem crianças num qualquer recreio de
uma escola já extinta, encerrada,
Morta
Morreu, o Miguel
trazia na algibeira meia dúzia de moedas encardidas pela sombra da noite,
dormia debaixo de alguns cobertores de cartão, antes de adormecer desenhava no
passeio pedestre algumas das imagens sem nome, de tantas outras... as
fotografias de família
Morta?
Pais, avós...
irmãos?
Sentava-me no
Tejo, brincava com as gaivotas, saltávamos à corda, pegava num cinzeiro e
esvaziava a algibeira quase...
Morta?
Irmão de papel,
fumado, defumado, as palavras no quase... e ele... procurando irmãos invisíveis
numa cidade invisível, não há miúdas nesta terra? Ainda é cedo, mais logo,
talvez
Quase a desmaiar,
sem sonhos, talvez imaginasse esta terra a terra prometida, mas não
Esqueceu-se do
aparelho, Sr. António? E agora... como vai ouvir-me.…! Sentava-me junto ao
Tejo, mas não, fumava charros de areia enquanto a preia-mar se abraçava a mim,
beijava-me, fodíamos como dois livros entrelaçados...
Ẽ?
Toca o telefone,
morta...
Morta?
Quase...
Os berros
argamassados da menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, a
carne em putrefação, distante, os berros
Amanhã vamos?
Berros, os berros
das medusas entranhados no corpo, os sonhos morrem, morrem os beijos e as
carícias da madrugada, menstruais palavras dentro do poema, gritam, da
menopausa, perdeu-se o silêncio eterno das andorinhas em flor,
João?
Sim, pai,
Onde puseste os
meus óculos?
Sei lá...!
Dentro da fala, os
sons em delírio, porque dentro deste quarto habitam livros decadentes, desenhos
sem rosto, imagens, fotocópias de fotografias a preto e branco, muito longe
João?
Sim... pai...!
Os homens
chegaram, temos de retirar todas as rosas do nosso jardim, não vamos deixar que
nos penhorem a melhores rosas da aldeia, pois não'
Não, pai...!
Aos berros, da
menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, sobre ela o beijo
desenhado na areia, colorido, embrulhava-a numa estrofe envergonhada, levava-a
para as cabanas dos sonhos adormecidos, cerrou os olhos
Foi bom, amor,
Só?
Só
Os olhos no
cárcere do sofrimento,
Stop...
Só, as sílabas dos
fósforos em aventuras,
Stop, aos
berros... o Rossio embriagado...
Eu?
Nunca,
O amor, a casa
recheada de cacimbo e palmeiras desgovernadas, o meu irmão reaparece e mal o
reconheço, que estou mais velho, cansado..., claro, tantos anos...
Como estás, meu
querido?
Eu?
Nunca
A relatividade em
equações, a luz enfestada de palavras e beijos de adormecer, e eu
Eu?
E eu olhando as
singelas pálpebras do Oceano de prata, nada a acrescentar em minha defesa,
perdi-me na ponte do solitário adeus, morreram os sonhos
Amanhã
Três horas da
tarde, cemitério da Ajuda, os sonhos, o corpo dele engasgado nos rochedos da
paixão, foder ou não foder...
Eis a questão do
artista, a tela simplificada, amanhã restará uma única sílaba ao acordar, o
espelho
Mais nada a
acrescentar aos teus desejos, meu filho...
Cansei-me das
palavras, mãe, das flores, dos sonhos e das cidades de vinil, cansei-me das
mãos de porcelana da madrugada, sem janelas
O cubículo?
Morreu, algemou-se
ao silêncio da noite, escreveu no olhar
Amo-te,
Escreveu no olhar
as suas últimas palavras, despediu-se das árvores, despediu-se das gaivotas,
cerrou os olhos, e
Vive-se numa
selva, dizia-me ela ao acordar, e eu
E tantas coisas
belas dentro de ti, e eu segmentado, e eu ensanguentado das lágrimas das
equações trigonométricas do sexo, o prazer, a confusão de corpos numa cama
imaginária, gemes, abraçam-se às amoreiras do dia, acendem a luz, e
E eu?
Nunca...
E eu parecendo uma
página velha de um velho livro, o reumático, as atrozes, os pontos ocos
suspensos no espaço, e mesmo assim, ela
Amo-te!
Claro que não,
claro que não...
O que é o amor,
meu querido irmão?
Coisas,
Nunca...
Percebi porque o
mar me abraçava, vinte e duas noites nos teus braços
E?
O cansaço da
aldeia regressando ao passado, velhas casas em novas casas, eiras, espigueiros
mergulhados na límpida manhã de verniz, este corpo, este corpo avizinhando
solidão, peste, e
E?
Nos teus abraços,
o meu nome, a minha identificação e morada
Amanhã quero-te,
Dizias-me em
cintilações palavras que era preferível a separação,
Separamo-nos
então...
E morada, sem
número de polícia, sem-abrigo alvorada, saía do bar, desenhavas círculos na
calçada, e
Amanhã quero-te,
E meia dúzia de
bugigangas,
Não pagamos,
E?
E.… algumas
chávenas em pura porcelana, made in Ex Congo Belga, na fotografia, ele sentado
na esplanada do desassossego, gel na cabeça, sapato pontiagudo... e calças
estreitas junto aos tornozelos, e
E?
Bugigangas
baratas, tinham nas palavras as janelas do sexo, a aventura, uma noite
Stop,
Roça-se-lhe no
corpo, e este
E?
Baloiçando no
capim...
Anoitecia sobre os
teus ombros, sombras de sal voavam no teu olhar, como serpentes de papel a
brincar numa árvore, eu brinco, tu brincas...
Amanhã?
A luz, os anzóis
da tristeza suspensos nos desejos de cristal, não durmo, os sonhos, morrem os
sonhos, morrerem as amendoeiras em flor,
E eu,
E eu?
Amanhã,
cor-de-rosa, húmidas canções de Primavera nas ilhargas do silêncio, habito, tu
habitas e ele
Habita?
Onde, onde?
Ele perdido numa
tragédia serrana, a montanha crescia, e ele
Habita,
Anoitecia, e ele
caminhava ribanceira abaixo, entra nos picos da alegria... e todo o corpo
desenhado, círculos de sangue vagueando nos seus braços, tive medo, mãe,
amanhã, mãe, amanhã saberás porque existem os cavalos de areia, aqueles
Como os do
Mussulo»
Sim, mãe, sim...
como os do Mussulo...
Amanhã,
cor-de-rosa, húmidas canções de Primavera nas ilhargas do silêncio, habito, tu
habitas e ele apaixonado, pelos pássaros, hoje
As primeiras
andorinhas, falei com elas, conversamos sobre poesia
Acreditas, meu
amor?
Poesia...
Hoje centenas de
iões dentro de um quarto escuro, sem janelas, sem porta
Cadeia?
A cárcere, da
palavra, sem porta, sem.… vida, mesmo assim sou feliz naquele local,
chamar-lhe-ás... cemitério, jazigo, mas não, meu amor, a cárcere da palavra,
como?
A cárcere, da
palavra, ou, A cárcere da palavra?
Narcisos,
viajantes bagagem, imponderáveis poetas, nos beijos, nas bocas sideradas pela
saliva, em pequeno, ele, imaginava a escola um grande navio, o porão
Tão fundo, mãe,
Meu amor, as
palavras cinza das minhas mãos, ter-te e não te ter, nos meus braços, as
imagens a preto-e-branco dos teus olhos, existes?
Tão fundo, mãe...
A paixão e o amor,
o centeio correndo em redor do pôr-do-sol, e ele
Coitado, imaginar
uma escola um grande barco...
Louco, e ele, mãe,
dizia-me que os sonhos são desenhos de um qualquer pintor em desespero, a renda
de casa, luz, pouco mais do que isso
Pobres homens e
mulheres...!
Tão fundo, mãe...
a paixão e o amor, o centeio correndo em redor do pôr-do-sol, e ele... e ele
embrulhado em sonhos, sonhos, mãe...
As três ciganas do
deserto, os homens buscam a sina do silêncio, imaginam-se uma criança de prata,
frágil, brincando nas palavras rochosas da poesia, João perde-se nas cartas,
O jogo,
A mentira
Fugir para outros
continentes, outras galáxias... os homens, apaixonados pelos berros, da
menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, sobre ela o beijo
desenhado na areia, colorido, embrulhava-a numa estrofe envergonhada, levava-a
para as cabanas dos sonhos adormecidos, cerrou os olhos
Foi bom, amor,
Só?
Só
As pálpebras de
solidão gritando pela liberdade, amanhã vou recomeçar a viver, a sonhar, a.… a
escrever nos teus olhos,
Como são os teus
olhos, meu amor!
Perdi-me,
Só?
Deus, cambaleando
pelas ruas do sofrimento, olha-me e pergunta-me
Meu filho!
Sim, pai...
O corpo, meu
filho, o corpo...
Três ciganas
abraçadas à ardósia da tarde, os homens, conversas, e...
Palavras...
E, sim pai, não
percebo as tuas palavras e não percebo os teus poemas,
Desculpa-me.… meu
filho,
Palavras...
Só?
O falso rico
esquecido no asilo do dinheiro, porque incha o corpo do rico e míngua o corpo
do pobre?
As palavras,
Só. eu?
E.…, e sim, o
cemitério engasgado nos ossos de António, o meu melhor amigo, companheiro, e.…
e nem me avisou que ia viajar, de veleiro ao ombro, meia dúzia de bicuatas... e
nunca
A fome dentro de
um subscrito, lembrava-se das tardes de infância inventando barcos em
esferovite e sonhos, ele
As palavras?
Ele sorria,
percebia-se no seu rosto o esqueleto e a alma da alegria, e, no entanto,
morreu...
E nunca, e nunca
mais conversou comigo...
António... António
amava-o...
Não sei, António,
não sei
Regressar, porquê?
Hoje acordei cedo,
Margarida embrulhada nos lençóis do Pôr-do-Sol, e lá longe
Cintilações dos
minguados beijos nos teus lábios, os seios de cera desenhados nas eternas
mesas-de-cabeceira
Louco, ele?
E lá longe,
murmúrios e incorrigíveis uísques brincando dentro de um livro, Margarida
Amor?
Amar...
Os homens tinham
regressado da faina, olhava-me um barco, tive medo, confesso,
Eu confesso
Tu confessas
Ele confessa,
E confesso que
fiquei perplexo, tão triste, tão triste como as flores de Inverno,
A faina, peixe...
nenhum, nada, nada ao quadrado vezes seis a raiz quadrada de mil novecentos e
sessenta e seis, o pequeno-almoço, as torradas,
Para ninguém,
devolvida
Endereço
desconhecido,
Ele confessa,
Um galão, escuro,
António?
Sim, amor,
Hoje,
Hoje o quê, meu
amor?
Hoje não vou
escrever palavras de chocolate...