24 fevereiro 2026

primavera

todos somos andorinhas aos olhos da primavera, mas nem todos, somos a primavera aos olhos da chuva

todos somos pássaros num dia de vento, todos

todos somos inverno, em frente a uma lareira acesa, todos o somos,

desejo,

quando acorda o luar, e escreve na alvorada, que a fogueira do teu olhar, nunca se apagará, enquanto eu for um pássaro num dia de vento, enquanto,

enquanto eu for uma andorinha, num belo dia de primavera

 

todos o somos, uns que são amados, que outros

como eu,

somos odiados, e no entanto

tanto,

que todos somos também a luz, enquanto as cerejas dos teus olhos, forem a mais pequena distância,

entre a lua,

e a terra

 

e somos sempre primavera, aos olhos da chuva.

 

24/02/2026, 18:54

desejar-te dentro do poema

desejar-te quando a noite poisa nos teus lábios

desejar-te como o luar deseja a noite

ou como o sol deseja o dia,

desejar-te dentro do poema

quando brinca na poesia,

desejar-te quando já és desejada

nas páginas de um livro

das manhãs de inverno…

desejar-te dentro deste inferno

que acorda em cada madrugada,

desejar-te enquanto és flor

semente semeada

desejar-te neste imenso mar

onde habitam as minhas palavras

onde morre a minha dor

onde escondo as lágrimas de chorar.

 

alijó, 09/01/2023

francisco luís fontinha

(inédito)

23 fevereiro 2026

enquanto eu esperava, eu iluminei o teu caminho

enquanto eu esperava, eu iluminei o teu caminho

desenho por desenho, traço a traço

sentindo o vento, sentindo

a camisa aos quadradinhos quase esquecida sobre o muro, na

algibeira, a enseada água também, a vertigem

também, a medula óssea que separa a vida, do além-mar

também as metástases de uma noite de inverno, quase fria

tão quase como o inferno, depois da chuva

 

tão míngua a claridade de uma agulha, tão mísera a dentadura de uma abelha, que devora

cada flor em flor, e de cada pedra sobre a pedra

que a charrua barafusta, que da charruara augusta, e a difusa

vertebral espinhal, sob os pinceis ainda com réstias de comida do anterior dia,

que tanta foi a luz, e que tão pouca ou quase nada, foi a primavera passada

 

enquanto eu esperava, eu iluminei o teu caminho

desenho por desenho, traço a traço

sentindo o vento, sentindo

os gatos, são parvos

e a fórmula secreta de os afugentar é precisamente, não lhes dar confiança

com a devida, distância

 

e vénia.

 

23/02/2026, 22:05

22 fevereiro 2026

Pudera, servimos sapatos em verniz

Porque somos honestos empregados

Com quatro janelas escancaradas, espadas levantem-se

Levantem-se míseras ruas engasgadas, na lua

Sílaba por sílaba, sono a sono, vírgula

Ponto

que é quase primavera

 

tempo

há quanto tempo, eu não tenho tempo

há quanto tempo, eu não ouvia o perfume, no lírio do dia

há quanto tempo, que tanto tempo desperdicei, com a poesia

e sempre sem ter tempo,

tempo para perceber tudo aquilo que sentia

 

há quanto tempo que eu não dormia, e hoje durmo

e levito apenas num colorido sonho, que quase tem todo o tempo do mundo para me abraçar,

tempo, temos imenso tempo para amar, e talvez mais tempo regresse, do tempo que perdemos

no tanto tempo que desejamos

há quanto tempo, meu amor sempre sem tempo, sempre em dor

 

22/02/2026, 10:46

finalmente, eu consegui.

 

eu vi a luz!