12 março 2026

O sorriso de um relógio, se a noite o quiser

O sorriso de um relógio, se a noite o quiser

Construir na chuva o silêncio do tempo

Será o tempo leviano, quando a mão deseja escrever

Quando o fogo também é o tempo

E do vento, o sentir, o ter

Dentro do meu peito

A flor tarde do mar

E te amar


Te sentir na escuridão da última hora para o dia, hoje

A tarde já sonolenta, tão pequenina como se fosse só uma pétala de pão na esquina da morte

O sorriso de um relógio, no teu pulso, o pulsar do meu sexo, na outra margem do mar, do

E o cacimbo do meu sol dorme sobre a mesa

E da faca escorreu o sumo do teu clitóris que o vento semeou

Mas o vento se cansou, como me cansou

Quem sou

Ser um quase nada


O gasóleo irá aumentar, o sorriso de um relógio, ficará igual

Tal como o fogo do teu olhar, a jangada, da pedra

Lançada, ou púrpura

Ou também cansada, ou também morta

E morto eu me sinto, quando sentado na cama

Eu não te pertenço

Porque sou um relógio.

12/03/2026, 21:53


Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios

Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios, que o livro seja um pedaço de mão na algibeira do mar,

Porque o amar é uma seara de desejo na esquina do meu sol, quando dorme o corpo quase espuma,

Se esconde a tarde no silêncio dos teus seios, que o diga o fogo que também era soldado, mas

A tarde é quase gelo,


Somos os passageiros de uma viagem sem regresso, barcos, sandálias de inverno comestíveis por uma lágrima, ao longe, sentir a tarde no toque da tua mão,

E o cansaço pincela os nossos corpos com a bala disparada pelos teus lábios,

Abraço-te, e sei que brevemente será primavera,

E todas as palavras serão o dia, e o dia, uma janela para o mar.


12/03/2926, 15:44


11 março 2026

Foi um pedaço de pedra sobre mim

Foi um pedaço de pedra sobre mim, que eu queria remisturar na ausência da última paragem do comboio, senti-me pão com queijo, porque talvez sejas um adendo filho, ou púrpura canção

Ou beijo camuflado cinzento da chuva alvorada,

Senti-me também, depois, pedaço de pedra, olfacto misterioso do mar, saber que não sou amado, que

Que cada sílaba do mundo é quase uma mão de Deus que o livro semeia no teu corpo,


E escrevo no fogo cada fotografia do meu âmbar que pertence ao jardim do castelo de mel,

E se uma abelha poisar no meu sonhar, talvez

O sul me traga a paixão de uma tarde junto à marina depois das árvores de papel, que tocavas e te masturbavas em frente ao espelho do meu olhar ,

A terrível sensação de estar dentro de ti, algemado à tua vagina,


E tão fina, que o era, cada janela do palacete, que cada vidro parecia a ejaculação da última figueira que ficou sentada no teu ventre,

Eu era o soldado mais feliz de todos os felizes soldados dos Lanceiros, e às vezes, sentia no meu sexo a mão alheia, uma calçada fria e mórbida,

E sabia que o teu corpo era uma vírgula, e

Foi um pedaço de pedra sobre mim.


11/03/2026, 22:02

10 março 2026

Acordará a tarde no teu sexo

Amanhã acordará a tarde, mas amanhã

Talvez eu não encontre a tarde depois de acordar

Talvez nem cá esteja, amanhã

Eu, para a tarde olhar


Mas amanhã talvez eu seja um guarda-chuva acorrentado ao contrário destino

Depois de a tarde acordar, sentada sobre o fogo

Depois de um relógio morrer na esquina do mar

Amar-te


Amar-te quando a tarde acordar, amanhã

O sorriso da tempestade que ainda ontem estava na cama, ontem

Saber que te escrevo, sentindo

O medo do fogo


Do amor, nos teus seios com a minha língua escrever, cada sílaba do meu e do teu, desejo em te desejar como se fosses a luz do clitóris

Amanhã, meu amor

Acordará a tarde no teu sexo.


10/03/2026, 21:14


Fogo submerso

Despidos, o fogo submerso nas frestas nocturnas da paixão

O círculo invisível de um grama de insónia, gente feliz com lágrimas

No toque de uma fotografia que ainda está mergulhada na espuma interestelar madrugada, os corpos parecem migalhas sobre a mesa e te abraço sabendo que ainda não terminou o ciclo lunar do desejo

E que ainda falta regressar do além-mar a caravela do teu sexo

Despidos, a infinita distância entre a luz e o beijar-te

Escrever em ti nua, e cada gemido em silêncio que apenas a tua boca sabe, é quase uma mágoa de tinta no orvalho de um olhar

Outras vezes, é o amor que não tem remetente, o meu endereço, ontem eu pertencia à tua voz, que semeava na esquina luz da noite

O sorriso de uma flor.


Ribadouro, 10/03/2026, 15:09

Leituras

 

Uma andorinha na primavera dos teus olhos

Uma andorinha na primavera dos teus olhos, o silício fogo

Trôpego, tão magro como o vento, tão lindo como sempre, a tarde que também é quase uma mão para as palavras da tua boca, os teus lábios

São os meus poemas que ainda ontem eram a água de uma fotografia


Há sol no silêncio dos teus seios, vestia-me de tinta apenas para te beijar,

Apenas para pincelar o teu sexo de manhã apaixonada, como a andorinha na primavera dos teus olhos, só minha

Na alvorada do meu peito.


Ribadouro, 10/03/2026, 09:19