19 maio 2026

Quanto pesa o silêncio de uma sanzala

Quanto pesa o silêncio de uma sanzala

Como se chama o triste olhar de uma madrugada

Como pode estar

Um pedaço ínfimo de energia

Em dois sítios distintos ao mesmo tempo,

Como pode?

 

A que sabe uma lágrima

Lágrima – o teu nome

Quantos dias tem dias a fome

E quantas quantos milímetros pode ter um sorriso

Antes da chuva, como pode, uma partícula desobedecer às leis da mecânica clássica,

Como pode?

 

Como pode o meu corpo ser quase lixo, o bicho

O tareco que faz, miau

Au,

Como pode um Ateu acreditar em partículas,

 

Como pode,

 

Pode.

 

Como pode toda esta merda ser real?

 

Pode.

 

Re.

Al.

Real.

 

Como pode o dinheiro ser a prisão da sanzala

Como pode, a sala voar depois do jantar

E a sanzala ausente

Firme

Em puro tesão de tungsténio

E eu sabia-o,

Que aqui a força não é igual à massa vezes a aceleração

Que aqui o peso não é igual à massa vezes a gravidade,

Que de tão grave o ser,

Foi baptizada de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado,

 

E agora sim, estamos todos fodidos, e mal-alinhavados pelo tédio de uma côdea de centeio, tirando os pregos dos alforges,

Quanto pesa então uma sanzala?

E quanto vale o tesão de uma espada?

 

Como pode.

 

Como pode a terra ser apenas de alguns, como pode

Pode,

E já agora,

 

Como se chama o mais ínfimo pedacinho do poema?

 

Ema.

Cama.

 

Como pode?

 

Francisco

19/05
22:10

Supervisão quântica

Uma partícula pode estar em dois locais diferentes ao mesmo tempo

Supervisão quântica

Mas, o que interessa

A mecânica quântica

 

O que me interessa, a mim

 

Se já nada me interessa neste jardim.

 

Francisco

19/05

17 maio 2026

Era o sono cansaço da mão em repulsa

Era o sono cansaço da mão em repulsa

Na mão que pula, e que pulsa

A seara de um olhar

Há quanto tempo pertence o infinito

Vergue, velho e trapo do viver

 

Era o sono de uma janela

E o sabia que vinham as tempestades e as saudades

E que me levariam, e se eu o quisesse, ao menos

O saber, dizer a mim mesmo que o amanhã já não nos pertence

E sabendo que hoje ainda há milhões de estrelas a morrer

 

E milhões de estrelas a nascer, aí está o segredo

O começo, nascer, crescer

E morrer

Como corpo ou como partícula, tudo tem um fim

Menos o poema, menos a paixão

 

Era o sono cansaço da mão em repulsa

Na mão que pula, e que pulsa

A seara de um olhar

Era o sono disfarçado de olhar

No sono olhar de uma estrela, não interessa se está a nascer, ou se está a morrer

 

Francisco

17/05
21:43

Há quanto tempo eu não oiço, amo-te.

Há quanto tempo eu não oiço, gosto de ti

 

Ou,

 

Estou aqui.

 

Há quanto tempo, eu quase sem tempo.

É quase gelo o falso viver, descendo

Cada vez mais fundo o sentir

E partir

E sofrer


O deixar ir, da rua o fogo que deixei de ser

E de sorrir

É quase gelo quando a gente faminta

Se esquece de acordar


E o pincelar da chuva está a correr para o mar

Levando o meu corpo sofrido

Que tinha na cabeça a cabeça da fogueira

Na lareira ardida.


Francisco

17/05

18:38