03 maio 2026

quando as estrelas estão escondidas

quando as estrelas estão escondidas

e a noite não te diz a verdade

e a noite não te escreve

nem a ouves dançar sobre a geada

quando as estrelas são lágrimas

e as palavras

meras palavras aprisionadas

na distância de um olhar.

 

quando as estrelas são outros mares

pedaços deste mar

quando as estrelas estão escondidas

e a noite é uma sonâmbula flor

na seara de um desejo

quando a noite é uma estrela

que te esconde a verdade

e te nega o beijo.

 

quando as estrelas estão escondidas

e dormem na mentira

e sonham com a difusa madrugada

quase nada

quase uma espada sobre a calçada

na noite separada por janela de luz

ou por um fio de sémen

na cruz.

 

Francisco

03/05

A espuma de uma fotografia

A minha cama é quase a espuma de uma fotografia

Quando a ausência é o amor da minha sombra

E o pincelar da última noite

Acorda na esquina do meu sol,


Depois regressa o fogo do teu olhar

E tudo o que era escuridão

É agora a tarde disfarçada de manhã

Na mão do poema,


Estou tão triste

Quando o outro relógio é quase também gelo

E fico sem tempo para te sonhar

E te querer.


Francisco

03/05

Foi na última distância do mar

Foi na última distância do mar

Que o livro semeou na tarde

O sorriso da tempestade

Foi na última distância do mar


Que a fogueira da chuva desenhou a árvore

No toque de uma fotografia

A luz do mar

Na vidraça de ontem


Aos meus poemas acreditando na esquina do amar

Cada sombra e cada barco

Um punhado de sangue

Sobre o derramado esperma de uma mágoa.


Francisco

03/05

A espada

Pronta está a espada, quieto o corpo que sente

Enquanto deitado, enquanto sólido ardente

Na fogueira de um olhar

Ou no mar

De uma gota de sangue.

 

A espada apenas poisa no peito sofrido

Da sombra acabada de nascer

E o corpo sabe que aquele pingo gélido de sangue

Provocado pela ponta da espada

Será a porta de acesso ao sorriso.

 

O corpo já não se interessa do corpo que cessa

E se despede do sítio invisível do alento destino

Que o corpo morre aos poucos

Como o rio que sobe a montanha

No adeus de uma vírgula em delírio.

 

Francisco

03/05

02 maio 2026

Porque me despeço deste sentir

Porque me despeço deste sentir

Em nada de ser, e de sentir

O que sinto.

Porque me despeço deste sentir

E de quase nada ter, do todo quase gelo

Que a fogueira da chuva poisa em verso

Se o meu sonhar

Não sonhar

E se eu o querer,

Mas se não me querendo nem o amanhecer

Como posso eu viver

Como posso eu sentir

Tanto sofrer.


Francisco

02/05