cachimbo de água
poesia & arte
16 fevereiro 2026
o meu corpo em dor
o odor do meu corpo, não
me pertence mais
é agora odor no teu
corpo, o teu corpo no meu corpo
o meu odor, no teu odor
que este meu corpo, é
odor
que deixei de ter corpo,
que deixei
de pertencer a este odor,
a este destino
se cada relógio
assassinado por uma flor, é
um outro odor, do meu
corpo em dor
16/02/2026, 14:17
noite dentro de mim
conheci o sol, ainda era
noite dentro de mim
parece que é sempre
noite, dentro de mim
como se um rio de insónia
se avassalasse e me aprisionasse
como se eu estivesse
vestido de musgo amanhecer
depois o sol começou a
vestir-se de madrugada
e eu acreditava, e eu
sonhava
depois o sol aos poucos,
muito devagarinho
despediu-se de mim, e
hoje é sempre noite
noite dentro de mim, tão
escura como a água do charco
que depois da chuva, se
ergue, e se destina
a esconder a minha mão
para que nunca mais seja
noite, noite dentro de mim
conheci o sol, o sol dentro
de mim
que depois de me roubar a
noite, me roubou também a primavera
que depois voltou a ser
sempre noite
noite, só a noite, a
noite dentro de mim.
16/02/2026, 09:32
15 fevereiro 2026
A ribeira dos teus seios
Na ribeira dos teus seios o saciar do meu desejo
À sede dos teus beijos, na escuridão da tua boca
Também é o silêncio da chuva
Também é a alegria tão pouca
Na ribeira dos teus seios que ainda ontem éramos dois sonhos
Que a fogueira também morreu e que gemia sentidos pêsames
A água do clitóris mar floresce e o beijar
É quase gelo seco que ainda não terminou de crescer
E os teus seios são poemas para disfarçar o fogo, a luz
Arte de uma mágoa, morrer com uma lágrima
Cravada no toque de uma fotografia
Nos sais de prata da ausência
15/02/2026
partida
os míseros contornos que
não é aceitável
sermos palhaços embora
exista uma pequena casa
despida e nua
e também tão cansada
e também abandonada pela
escuridão nocturna
que se despede e que se
reinventa na outra cortina
que arde, e que
em lágrimas parte para
outra terra
longínqua madrugada que
apenas mede as profundezas
de uma ribeira, distante,
ao outro lado do mar
no meu corpo quase
cansaço de uma manhã
que desce, que desce
que desce e que depois é
abraço
e as escadas são espadas
cravadas no silêncio de uma colmeia, e uma porta
quase em mel, do mel
que se do mel, morre.
15/02/2026, 19:33


