06 abril 2026

Que é hoje

 


 

nem sempre somos o que queremos

nem sempre somos amados por quem queríamos que o fossemos

 

mas há sempre um espelho que finge

 

que nos mente

perdi o teu nome numa seara de inverno

perdi o teu nome numa seara de inverno

que se vestia de púrpura madrugada

perdi o meu nome quando ainda era inferno

a minha vida e cada palavra

 

que escrevia no sono lunar

perdi o meu nome

e a vontade de sonhar

porque a fome

 

é o meu viver

perdi o meu nome numa seara de inverno

e agora não tenho nome nem tenho vontade de querer

 

porque sem nome sou uma árvores nua e despida

no silêncio eterno

na ausência e na partida

 

06/04/2026, 13:18

por aí...






entrava na escuridão, apagava a luz e sentava-se numa cadeira inventada

entrava na escuridão, apagava a luz

e sentava-se numa cadeira inventada

às vezes, tão cansada, ela, a cadeira

que eu com pena dela, nem me sentava

e ficava à janela

a ver o barco das seis da manhã

 

às vezes, que tantas vezes, eu me olhava

no espelho vestido de noite, e sentia, no olhar dele

a melodia de um sorriso, tão fino e tão belo

como o luar, ou até como uma jarra com flores

sobre uma lápide de desejo

que também vivia na escuridão

 

anos mais tarde, acendeu a luz

e a rua que lhe pertenceu, deixou de lhe pertencer

e hoje, nem rua é, nem ele o é

é sempre dia, é sempre no beijo

que enquanto houve escuridão

ele se venceu, e eu, e eu me esqueci de viver

 

06/04/2026, 06:01