cachimbo de água
poesia & arte
19 abril 2026
16 abril 2026
12 abril 2026
já nada quase resta do amontoado de escombros da vida
já nada quase resta do
amontoado de escombros da vida, na amnésia repartida entre o frio, entre a vida
e a morte, e uma estrela em delírio
que quase nada existe, em
tudo aquilo que existe
e que resiste
e que persiste
na canção de uma lágrima
entre as espadas de uma
mão e a mão empunhando uma espada em contramão
já nada quase a alegria
de sentir e de ver, cada flor a crescer
cada flor a sorrir, e a
brincar
que tanto escuro está, se
o dia fosse só uma linha recta
e erecta, sem fim
quando quase o fim da
vida
pertence à razão de
acreditar
já nada quase o ser e o
ter, o sentir, ter de esquecer
cada estrada palmilhada,
cada estrada invertida
longínqua, e sofrida
que a vida á e só uma
avenida, sem a saída
que a tristeza é o
inverno
e o inferno a beleza
12/04/2026, 13:12
nunca tive tempo, andei sempre e sempre sempre dentro do vento
nunca tive tempo, andei
sempre e sempre
sempre dentro do vento
e sempre, eu, sem tempo
há tanto tempo, que
apenas sinto o corredor cada vez mais ínfimo e pequenino
há quanto tempo, eu te
espero, meu destino
há quanto tempo, que
fiquei sem tempo, e perdido no vento
ai se o tempo, sentisse
aquilo que sinto (sento)
eu tinha tempo, tanto
tempo
para quê?
se o tempo é de borla e é
deus que o dá, dizem-no
oh,
e para que quero eu
tempo, se pouco ou nada, tenho
para fazer neste tempo
se ao menos o tempo
soubesse quanto ainda resta ao tempo,
para deixar de ser tempo,
e ser apenas vento.
12/04/2026, 05:52
como se ama uma pedra, quando a pedra não vê nem a sente, a mão
como se ama uma pedra,
quando a pedra não vê
nem a sente, a mão
a mão que a ama
a mão que lhe tocava, e
na pedra, escrevia
se ao menos os lábios da
pedra, sentissem
e vissem
a noite rasurada, a noite
inventada
quando a noite sofria
quando a pedra, quando a
pedra sonhada
como se ama uma pedra
quando a pedra é uma
corrente de vento
é um fluido cansado,
quase em explosão
quando o corpo é não
e o corpo da pedra, que é
amada,
uma equação
ou nada.
12/04/2026, 05:43
11 abril 2026
Incendeia o corpo na ausência do fogo
Incendeia o corpo na
ausência do fogo
Que a vaidade e a lágrima
vertida
Parece que não o é, que
às vezes de ser tão sofrida
E a ingrime escadaria de
acesso ao céu estrelar
A água a ferver, a febre
a subir
E do outro lado do sítio,
a camuflada pistola
Afoita, de peito feito
contra a floresta
Que se afasta do sino,
que se deita sobre o gelo
Que aquele corpo já não
lhe pertence
Qual lhe pertencer
Está malfeito, e que é defeituoso
Como o são todos os
corpos emprestados, uns dormem em vão
Do vão de uma escada, da
umbreira de uma caneta
Apontada ao peito
Quase sem tinta, a mão
que lhe pega
Essa, sem jeito
Jeito algum enquanto
brincam os barquinhos
No infantil parque dos
barquinhos de brincar
Mesmo, mesmo junto ao mar
Mesmo juntinho à rua que
chateia
A pobre da Alzira, que
vende borboletas pela rua aflorar
Que traz na saia a doçura
de um olhar, e na mão
A tesoura de cortar, não
Não vai ela cortar as
asinhas das pobres e tímidas borboletas
Da tesoura, com a tesoura
ela irá cortar
As amarras de sombra que a
prendem ao castelo
Ela irá libertar, e
vender não mais
Todas as borboletas
E todos os pássaros com
ou sem ais
Com ou sem sal
Mesmo à medida do freguês
Incendeia o corpo na
ausência do fogo
Que a vaidade e a lágrima
vertida
Parece que não o é, mas o
é
Tão viril, e que sofrida
Aquela velha lágrima
vertida
Que o fogo apagou, e que
a Alzira se apaixonou
Por um ramo de flores,
vejam lá, senhores
Como o amor o é, e ele
sabia, sabia-o
Que em cada madrugada
mergulhada no sono
Uma janela se abria
E do vento sentia, o
sorriso da Alzira
Mas o fogo acordou, e um
belo dia, um dia
Partiu a Alzira em
direcção ao nada, pouca coisa que levou
Tão pouca, como o é a
primavera de um olhar
Mesmo nos seus braços,
dos braços do seu mar
A maré dizente, entre
lábios e sentidos pêsames da minha ausência
Descer o rio, e descer a
madrugada
E descer do altar, e
descer da lua
E à lua voltar.
11/04/2026, 22:25
Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar
Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar
Que este mar que me leva seja o prumo e o fio
Da bruma primavera entre os dias
Nas noites perdidas
Que o livro seja puro
E erecto como o pénis
Ou como o vento convicto
E convencido
Que a derrota também é o pincelar
Da primeira pedra lançada contra o fogo
Porque o livro é a melodia
De um relógio quase gelo
No pulsar de uma biblioteca de tinta
E o pavio em delírio
Sob a luz do clitóris
Que amanhã cessam as tulipas
Que angústia sente a água da morte
Me pertencer
E de não o querer
Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar
11/04/2026, 20:30
