E assim morre a noite na
profunda mais tristeza da outra saliência e no cansado destino quando a luz de
nada serve e sabendo que há uma espuma de silêncio nos teus seios e de quatros
ventos em demanda que hoje meu amor é
Cachimbo de Água
Poesia & Arte
08 junho 2026
O que sente, quem nada já sente
O que sente, quem nada já
sente
Quem sente e o que sente,
eu
Que me sinto espetado numa
cabeça sem corpo, e lá está
Que já não sente, sentir,
o quê?
Sentir que já nada sente,
por exemplo
Sentir o electrão que
coitado e que também já nada sente ou talvez
Nunca nada tenha sentido
Proibido vazar lixo, e o
que sente
Aquele que nada, que já
nada sente
Nem sente o cansaço do
corpo, ausente
Nem sente a mente, que
também pouco ou nada sente e é doente
08/0&
02:17
07 junho 2026
Por favor abram as asas que eu vou voar
Por favor abram as asas
que eu vou voar
Não, não é de verdade
É a fingir,
Vou fingir que sei voar
Vou fingir que sei sonhar
Que estive e que dormi,
sobre o mar
Por favor abram-me essas
asas que eu vou voar
Vou fingir que sei voar
Vou fingir que sei
escrever
A fingir, que estou vivo,
a fingir
Por favor abram as asas,
abram as asas
Do pano que servirá para
me embrulhar
07/06
22:45
A papoila de olhar silenciado
Hoje
Hoje foi impossível, foi
das 10 horas até às 21 horas, quase sem parar, e depois de um bom banho e de
uma saborosíssima sandes de leitão, não sei se serei capaz de escrever,
qualquer merda que seja, qualquer coisa que me alivie as dores nas costas e nas
mãos,
No entanto, aqui vamos
A papoila de olhar
silenciado
A papoila de olhar silenciado,
vestida de néon no perfume, no ciúme, e na cama
A santa e poderosa e
também maligna, a comichão nos tomates, mas
O que são pedaços de néon
nas sobrancelhas da noite?
Quanto aos tomates,
daquilo que oiço, um horror
Credo, estão tão caros os
tomates, senhor António?
Dizem que é do gasoil,
Pois, pois
Mas a papoila não queria
saber do preço dos tomates, do preço do gasoil, e o raio que a parta
Olha
Ficou-se a dormir
De pé?
Eu quase, mesmo assim
Sinto do ventre da chuva o
magma em espuma ardente
No sabor da vontade
Nas mãos de muita gente
Gente, gente como eu
Gente em apuros, gente
que nasce, gente que morre
E no entanto, o que dizer
a tanta gente
O que dizer à papoila de
olhar silenciado
A minha sorte, que quase
nunca tenho sorte
E graças ao Camões,
Quarta-feira é feriado,
Dia de Portugal.
07/06
22:40
O olhar do mar Dos teus olhos
Nunca mais senti o olhar
do mar
Dos teus olhos
Nunca mais senti em ti
O olhar do mar dos teus
olhos
Nunca mais senti o odor
do mel dos teus lábios
Nunca mais senti em ti
A voz lunar e a lua do
teu cabelo
Na luz da manhã antes de
acordar
Nunca mais senti em ti
A alegria das semeadas
palavras da madrugada
Nunca mais senti o olhar
do mar
Dos teus olhos que eu os
perdi
07/06
06:16
06 junho 2026
Trago no peito a sentença
A espada lança e que em
mim, às vezes balança
Que às vezes é dia, noite
sempre o é
Trago no peito o destino
em ser
Ter em mim a sonolência
da chuva, quando a lua é apenas a lua, quando as estrelas são pregos em aço,
pedaços de sucata alegre
Quando a luz pertence ao
abismo, e se ao menos vendessem aquecedores para aquecer o talento de uma pulga
Ou se a terra fosse um
cubo
Tão pequenino como os
olhos da pulga
Trago no peito a
sentença, que a esperança
E o sorriso são versos já
sem nome
São palavras, são ventos
E é fome
06/06
04:07
05 junho 2026
Todos os dias
Todos os dias, nascem
estrelas
Todos os dias, morrem
estrelas
Todos os dias, nascem
amores
Que também morrem, todos
os dias
Todos os dias, há flores
Há jardins, todos os dias
sem flores
Todos os dias, há uma
noite dentro de mim
Que também morre, todos
os dias
Todos os dias, há um
olhar que odeio
Que todos os dias, há luz
falsa invisível à manhã
Todos os dias, nascem
crianças
Que todos os dias, também
sofrem crianças
Que todos os dias, há uma
mãe desesperada
Que todos os dias, há uma
mulher triste
E todos os dias, cansada
Todos os dias, nascem
estrelas e morrem amores, todos os dias
05/06
00:51