23 março 2026

francisco fontinha - Alijó


a vida não me pertence, e não entende

a vida não me pertence, e não entende

que o círculo é o destino do quadrado

quando foge do abismo

quando acorda, e logo a seguir

morre,

e se transforma na divindade de um sorriso.

 

mais um dia, outro dia, cópias de antigos dias

se a rua é um arguilheiro de uma espada lançada sobre a calçada, se todos fossemos ausentes, não

a vida não me pertence, e me vence

me quer acorrentado a cada sombra, desenhada

na algibeira de um palhaço, fino

tão fino como o fio que me prende, à vida.

 

já é quase sol, e a vida desliza sobre os carris do rochedo encarnado,

coitado, se foi o soldado

que disparou contra a vida, se foi o soldado

numa outra vida, quando se travestia de petroleiro

e dançava sobre a mesa-de-cabeceira, ela sim

com vida…

 

Alijó, 23/03/2026, 06:44

22 março 2026

Leituras


E agora, que tudo foi, foi

E agora,

Que tudo foi, foi

Silêncio quadrado num corpo quase espuma, ouviram

Da bruma primavera, as sílabas da manhã, não

Rua do mar, lote trinta e três, vinte e sete

Que divide por nove árvores em papel cromado, de terceiras núpcias, o círculo,

O egoísmo de uma fotografia.


E agora,

Que tudo foi, vem

Se esconde uma vírgula na minha cama, oiço os orgasmos dos pássaros, quando madrugada,

Rezo que nunca mais seja dia,

E agora, talvez

Esta noite seja sempre noite.


22/03/2026, 22:22


laranja

naquele tempo era o verbo, hoje

naquele tempo era o verbo, hoje

é a foda,

naquele tempo, foi o silêncio,

hoje, é o silêncio

 

naquele tempo era o triciclo com assento em madeira,

daquele tempo, morreu a madeira

e fodeu-se o ferro, que hoje

outro tempo, é sucata, ó vizinha,

 

ainda é daquele tempo?

 

Alijó, 23/03/2026 – 15:27

desenho de francisco fontinha

 

Aqui, às vezes me escondo

Partilhando tristezas, alegrias

 

Com as páginas de um livro, no mais puro silêncio