12 fevereiro 2026

não sei que nome te dar, se de rosa selvagem

talvez te apelide de ranhosa, de mar indomável

ou de vento bravio

que tanto corre, que corre junto à margem do rio

 

ou apenas de,

 

meu amor!

 

12/02/2026, 19:15

o gato preto

o gato foi atropelado por uma charrua,

uma vírgula agoniza de tantos enjoos,

uma vidraça se parte

e cai inanimada no chão,

 

chão que já deu horas,

quando as horas ainda eram,

porque hoje são rosas,

porque amanhã serão apenas cacos

 

e outros vestígios,

o gato está bem e sobreviveu

acreditando que não haverá mais insónia,

porque a insónia só acontece aos pássaros

 

e os gatos não são nem nunca serão pássaros,

porque os gatos se ofendem com tanta chuva,

e o vento depois de passar

levou a charrua para outro lugar.

 

12/02/2026, 18:57


A tia comprou um cão,  o cão estava faminto, na orelha tinha uma pulga que gostava de ler Pablo Neruda, mas o cão tinha muitos vómitos, mas a pulga não sabia, nunca soube 


Foda-se

10 fevereiro 2026

corpo fragmentado

sentado, qui sentado

esperando pelo dia acordado

esperando, sentido o fumo do meu cigarro

sentindo o silêncio camuflado

como se fosse um coitado

de um soldado

também ele cansado

também ele sentado

 

sentado, aqui sentado

sabendo que quando for dia, e depois de muito cansado

outro corpo me pertencerá, e outro poeta enforcado

também ele, às vezes, sentado

começa a escrever os poemas nos olhos de um barco ancorado

que vacila com o vento desgovernado

sentado, aqui sentado pareço um corpo fragmentado

 

10/02/2026, 04:50

09 fevereiro 2026

A tarde flor do mar

A água da última figueira que ficou na tarde flor do mar
A água da última paragem, no silêncio do último sonho
Que ainda ontem era só uma pétala, e que hoje é o amor
E é a melodia da morte vestida de tinta, ao longe
Que está tão longe o fogo que também é silêncio
Que da água do clitóris floresce o dia e a luz e a princesa neve
A água da última vez que ainda era noite
E que hoje pertence ao jardim do castelo
Depois a chuva é quase gelo quando a tarde se esconde no teu sexo
Depois um pedaço de pão e beijar a boca da última também figueira
A água da última viagem no grito do sul
Quando dorme o corpo quase espuma

09/02/2026, 20:11

a ardósia

se o cancro não me tocar, em março o saberei

mas, mas saberei o quê?

saber, saber eu o queria

tanta coisa que eu queria saber, e ler

e escrever

mas não queria, não queria já morrer

 

já, já é quase dia, dia quase mais um no acordar

mas às vezes somos pássaros, e que tantas vezes, somos pedras

ou a calçada que de lágrima em lágrima, olha o rio pela última vez

e sorri,

e semeia na ardósia o nome de uma criança

que brinca e que no vento, dança

 

09/02/2026, 04:22

nos teus olhos

nos teus olhos sou o mar clandestino da tua noite

que te abraça, docemente

como quem procura nas estrelas

a vida eterna de um toque, da mão quase

 

charrua, que no meu corpo lavra, que no meu corpo recua

como se a noite fosse uma ausência, ou uma mentira

nos teus olhos sou o mar, sou a solidão de uma tela

sem nome, e tão só

 

tão só que tenho medo de sorrir, que tenho medo

medo em te perder, em te tocar

sou o teu mar, talvez, ou o nunca

como nada nunca o fui

 

ou sou, ou o serei

o teu mar, talvez, talvez seja o só

eu o só caminhando na sombra de um imbondeiro

que nunca viu o mar

 

mas eu, eu quero ser o teu mar, o oceano que se esconde nos teus seios

e que desenha no meu peito, o teu nome

e o rio que trazes nos olhos

que sou o mar clandestino da tua noite

 

09/02/2026, 04:02