12 abril 2026

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida, na amnésia repartida entre o frio, entre a vida e a morte, e uma estrela em delírio

que quase nada existe, em tudo aquilo que existe

e que resiste

e que persiste

na canção de uma lágrima

entre as espadas de uma mão e a mão empunhando uma espada em contramão

 

já nada quase a alegria de sentir e de ver, cada flor a crescer

cada flor a sorrir, e a brincar

que tanto escuro está, se o dia fosse só uma linha recta

e erecta, sem fim

quando quase o fim da vida

pertence à razão de acreditar

 

já nada quase o ser e o ter, o sentir, ter de esquecer

cada estrada palmilhada, cada estrada invertida

longínqua, e sofrida

que a vida á e só uma avenida, sem a saída

que a tristeza é o inverno

e o inferno a beleza

 

12/04/2026, 13:12

nunca tive tempo, andei sempre e sempre sempre dentro do vento

nunca tive tempo, andei sempre e sempre

sempre dentro do vento

e sempre, eu, sem tempo

há tanto tempo, que apenas sinto o corredor cada vez mais ínfimo e pequenino

há quanto tempo, eu te espero, meu destino

há quanto tempo, que fiquei sem tempo, e perdido no vento

ai se o tempo, sentisse aquilo que sinto (sento)

eu tinha tempo, tanto tempo

para quê?

se o tempo é de borla e é deus que o dá, dizem-no

oh,

e para que quero eu tempo, se pouco ou nada, tenho

para fazer neste tempo

se ao menos o tempo soubesse quanto ainda resta ao tempo,

 

para deixar de ser tempo, e ser apenas vento.

 

12/04/2026, 05:52

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê nem a sente, a mão

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê

nem a sente, a mão

a mão que a ama

a mão que lhe tocava, e na pedra, escrevia

se ao menos os lábios da pedra, sentissem

e vissem

a noite rasurada, a noite inventada

quando a noite sofria

quando a pedra, quando a pedra sonhada

como se ama uma pedra

quando a pedra é uma corrente de vento

é um fluido cansado, quase em explosão

quando o corpo é não

e o corpo da pedra, que é amada,

uma equação

ou nada.

 

12/04/2026, 05:43

11 abril 2026

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, que às vezes de ser tão sofrida

E a ingrime escadaria de acesso ao céu estrelar

A água a ferver, a febre a subir

E do outro lado do sítio, a camuflada pistola

Afoita, de peito feito contra a floresta

Que se afasta do sino, que se deita sobre o gelo

Que aquele corpo já não lhe pertence

Qual lhe pertencer

 

Está malfeito, e que é defeituoso

Como o são todos os corpos emprestados, uns dormem em vão

Do vão de uma escada, da umbreira de uma caneta

Apontada ao peito

Quase sem tinta, a mão que lhe pega

Essa, sem jeito

Jeito algum enquanto brincam os barquinhos

No infantil parque dos barquinhos de brincar

Mesmo, mesmo junto ao mar

Mesmo juntinho à rua que chateia

 

A pobre da Alzira, que vende borboletas pela rua aflorar

Que traz na saia a doçura de um olhar, e na mão

A tesoura de cortar, não

Não vai ela cortar as asinhas das pobres e tímidas borboletas

Da tesoura, com a tesoura ela irá cortar

As amarras de sombra que a prendem ao castelo

Ela irá libertar, e vender não mais

Todas as borboletas

E todos os pássaros com ou sem ais

Com ou sem sal

 

Mesmo à medida do freguês

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, mas o é

Tão viril, e que sofrida

Aquela velha lágrima vertida

Que o fogo apagou, e que a Alzira se apaixonou

Por um ramo de flores, vejam lá, senhores

Como o amor o é, e ele sabia, sabia-o

Que em cada madrugada mergulhada no sono

 

Uma janela se abria

E do vento sentia, o sorriso da Alzira

Mas o fogo acordou, e um belo dia, um dia

Partiu a Alzira em direcção ao nada, pouca coisa que levou

Tão pouca, como o é a primavera de um olhar

Mesmo nos seus braços, dos braços do seu mar

A maré dizente, entre lábios e sentidos pêsames da minha ausência

Descer o rio, e descer a madrugada

E descer do altar, e descer da lua

E à lua voltar.

 

11/04/2026, 22:25

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar

Que este mar que me leva seja o prumo e o fio

Da bruma primavera entre os dias

Nas noites perdidas


Que o livro seja puro

E erecto como o pénis

Ou como o vento convicto

E convencido


Que a derrota também é o pincelar

Da primeira pedra lançada contra o fogo

Porque o livro é a melodia

De um relógio quase gelo


No pulsar de uma biblioteca de tinta

E o pavio em delírio

Sob a luz do clitóris

Que amanhã cessam as tulipas


Que angústia sente a água da morte

Me pertencer

E de não o querer

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar


11/04/2026, 20:30

a sanzala

velha a sanzala o está, e só que não pára de caminhar

tão velha vê ela o tempo passar

mas a sanzala é vidente

ela vê o ontem depois de amanhã e também sente

 

a ausência silenciosa de uma espada

fina e esbelta mas um tanto cansada

como todas as espadas lançadas

contra o corpo das almas penadas

 

e a sanzala aos poucos se perde no seu sorrir

e em despedida

vai caminhando em direcção ao sítio de onde vai partir

 

e com ela levar

outras sanzalas, e algumas palavras para a partida

e algumas palavras para também semear

 

11/04/2026, 19:56