29 julho 2026

Na esquina do amar

Na esquina do amar

o fogo em verso e lágrimas

que não é o pincelar da luz

no silêncio dos outros,

a urna metáfora que avassala

a maré de um relógio, quando

o gélido sargaço acorda

e a mãe já está na cama com o dia extinto

e longe do mar.

 

O amar é quase uma fotografia

que o livro semeia na alvorada,

do fogo apenas sobrou a ausência de uma mágoa,

mas hoje é alegria, sentida,

que também no livro

semeia a cabeça da chuva,

sonha, e assassinou todos os sonhos que tinha,

e novos sonhos são pedras que não têm nome,

essência obscura da última noite.

 

Um lápis de cor que o vento trouxe

no toque do orvalho quando na terra

a paixão morreu de cansaço

e agora é esquecimento,

é alegria e liberdade no nocturno

e violento desejo,

o desprezo,

o saber e a minha mão

na boca do inferno.

 

Uma calçada em verso e lágrimas,

que é o nojo de uma pirâmide em cima da última madrugada anunciada,

vai e não voltará mais ao meu escrever.

 

Sorrisos falsos,

dos falantes verbos do corpo,

e não passa disso.

 

E de nada lhe serve o olhar materno,

quando em si esconde a voz do diabo.

 

29/07
18:26

Da tua mão

Da tua mão, vi o meu primeiro mar

Da tua mão, vi o meu primeiro barco

Da tua mão, vi a minha primeira gaivota a voar

Da tua mão, vi o capim no cacimbo a brincar

Da tua mão, senti o meu primeiro livro

Na tua mão, aprendi

A palavra,

 

Pai.

 

28/07
22:45

29/11/1938 - 29/07/2015

28 julho 2026

O foguetão

(ao meu pai, que daqui a um par de horas, faz 11 anos que partiu.)

 

O foguetão não flutua,

o comboio partirá daqui a

cinco minutos,

o tempo está bom,

ausência

de vento ou outros abstractos

silícios

e nós,

todos estamos

bem

incluído,

claro,

os

peixinhos

 

Morra-se de tédio,

se a vida

o permitir, se a chuva o quiser,

que um dia

a nuvem deixe

de conversar

com os infinitos,

e também

olhos de água

muitas coisas,

são mentira

tanta coisa falsa, tanta

coisa

inventada

 

E o foguetão aqui,

a olhar-me

que triste

figura a tua

já te olhaste ao espelho?

me diria ele,

me diria ele

 

Mas que se foda,

amanhã acordará gente

sem pátria, eu

às vezes sinto-me uma charrua

mecânica, sem pátria,

sem nome

sem gente a terra

e o silêncio,

cem árvores famintas,

sem dó

sem amigos para lançar pedras, ou

nozes

em pó

 

Há ferrugem na voz do poeta,

há medo

nas palavras que se escrevem na voz do poeta

há milho, há milho na caixa grande

e assombrada

por uma janela,

e por uma espada

que dança sobre o gelo

que numa calçada, finge ser rei,

que se diz

perdiz

um dia sonhei

 

Que um dia, eu iria

ser

rei.

 

Foda-se,

Rei?

 

Puta que pariu a vida, que muito

deve ser fodida

para um mundano rei,

como eu.

Não. Rei não.

Gostava de ter sido costureiro,

mas a vida, a puta da vida,

a minha

não o quis

e então,

me trouxeram, me vestiram,

me mataram a fome

e hoje, coitado

que mal come

vírgula,

dois. Dois apenas minutos para a nossa

partida e fuga

nesta locomotiva empolgante e alegre

que nos levará além longe

que fica nas traseiras

do prédio

pertinho do jardim

 

onde tenho o foguetão estacionado.

 

28/07
22;17

A dor

A dor ouvida na distância

que separa o negro,

do abstracto cinzento

depois, apagar a mão,

e depois

recolher as nódoas da solidão

antes que acorde a noite.

 

Noite depois

da vergonha e do silêncio

urge,

dizer,

escrever na cansada miséria,

que o vento levou a árvore que sustentava a luz

e a reflexão,

quando o sonho é o infinito

desgosto de ser.

 

A dor, o viver

a áurea dimensão da espingarda

sobre a mesa,

na morte e da partida da voz.

 

28/07
20:38

Se o dia me trouxer

Se o dia me trouxer

a ânsia e a saudade,

do novo dia

que desenha a serpente

na vida de uma lua, sempre ausente,

sempre na sua

Cor,

perfumada,

na ranhura,

a chave,

ao longe a fechadura

Que faz da cidade o vento do limite,

quando a mão tende para o infinito

Se o grito,

ou a verdade

Se

Um dia, eu acordar

e sobre mim,

A espada e a luz

do poema que acaba de

morrer.

 

28/07
05:18