31 maio 2026

É o amar-te um rio sem nome

É o amar-te um rio sem nome

São os teus seios o pão e a fome

São os teus olhos o mar

São as tuas mãos a luz do luar

 

É o amar-te um rio sem nome

É o teu cabelo a fogueira que consome

Cada lágrima do meu chorar

E cada voz do meu sonhar

 

É o amar-te um rio sem nome

Na colina ao longe e sem apego de o ser

Quando o sono não dorme

 

Quando eu tanto te desejo no teu viver

Que tanto eu não me canso em te cansar eu te ter

No meu amar-te e no meu te escrever.

 

31/05
01:44

Aos poucos fui perdendo, e

Nem uma mão para acariciar o meu rosto neste momento 

Apenas. 

Sentir

É tão fria a noite do meu sentir

Sentir que ninguém me sente

Sentir que sou ausente

Neste viver de fingir

 

Neste viver que me mente

Sentir me sentindo gente

Que sofre e que sente

O sentir ausente

 

31/05
02:00

30 maio 2026

roda dentada

havia sangue nos dentes da roda

dentada, que saboreia a espada

que sonhava, e que agora não sonha nada

havia sangue nos dentes da roda

que roda, à roda da roda

o sol, não roda

a lua roda e o sol também roda

na cabeça da lâmpada

havia sangue nos dentes da roda

à deriva e à roda do veio de transmissão

havia sempre uma roda

dentada

com sangue nos dentes

nos dentes de uma roda dentada

 

30/05
23:04

Fui criança

Fui criança, e de andança em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança

Fui criança costureiro, fazia vestidos por medida para um parvo boneco, o chapelhudo, abelhudo e às vezes como eu,

Trombudo.

Talvez este tenha sido o meu único amigo, e fui também eu um erro logo à nascença, mais tarde, muito mais tarde

Em métodos numéricos, estudei a teoria do erro, e percebi

Não, ainda não entendi.

Percebi que depois de resolver complexas equações, algumas delas em Matlab, não

Não percebi nada.

Que fui, e que sou um erro. Pergunto-me, e vos pergunto:

Porque nascemos nós? Qual o objectivo de nascer, crescer e morrer, de amar de odiar e de foder e de ser fodido, e de ser odiado

Pergunto-vos,

Qual o propósito de tudo isto?

Será que alguém se diverte com a desgraça alheia? Isto é

Tudo isto é um circo, palhaços, que fui, e que sou

Podia, e não o quis

Ser esposo de uma trapezista, já na altura eu gostava de ser artista, e mesmo assim, o erro, o erro é inferior a 0,0001

 

Fui criança, fui tragédia, e foi trágico

Suicidei-me um dia da vida, e desde então deixei de ser, sabendo que nunca o fui ou serei

Pássaro

Voei. Gostei, porra, gostei tanto de voar.

 

Gostava de voltar a voar, voar

Sobre o azul silêncio de um olhar, depois

Dançávamos sobre a geada, crescíamos como dois pedaços de giz na alvorada de um beijo

E o corpo deixou de me pertencer, nunca mais tive corpo, nunca mais tive a companhia do chapelhudo, e o circo é uma festa

E íamos,

E nos beijávamos já depois da noite não ser mais a noite, sangrenta, suja e imunda, nas mãos de uma sanzala

 

Fui criança, e de andança em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança

Fui criança costureiro, criança.

 

30/05
22:46

29 maio 2026

Não importa

Não importa se o rio tem o teu nome

Não importa se a porta não é porta de abrir

Não importa se há pão ou se há uma janela para fugir

Não importa quem sou não importa o que fui ou o que serei

Não importa se está sol ou geada ou a loucura

Na mão de uma enxada

 

Não importa se há sorrisos no meu rosto

Não importa se também lágrimas as haja

Não importa se vai haver mais noite

Ou se daqui para a frente a noite ser um inferno

Não importa o que dizem de ti as estrelas

Não importa o cansaço e o abraço

 

Não importa a vida não importa o silêncio

Ou o caos da tristeza

Não importa se há flores no teu jardim

Não importa se as crianças brincam ou se não brincam

Ou se morrem

Já nada mais me importa

 

(um dia perguntaram ao Cesariny porque tinha deixado de escrever, ele

- Não tenho mais nada sobre o que escrever, já escrevi sobre tudo o que tinha para escrever. Não é uma ameaça da minha parte, mas neste momento sinto o mesmo; sinto-me um inútel.)

 

 

29/05
18:20