01 maio 2026

O sono

O sono lembra histórias de brincar,

E sabe, sabe tudo sobre o esconderijo onde habita o temido destino, e o prometido,

Destinado a ser um pêndulo, talvez o de Foucault ou outro pêndulo qualquer,

Há sempre um fio, sempre invisível ao tempo, entre dois pontos de luz, o negro, e o silêncio

E tem a espada na mão como se fosse uma serpente, ou o trigo,

Que depois é o pão.

 

Mas o sono tudo sabe sobre a noite,

Só o sono consegue inverter as imagens do dia

E as transformar em outras palavras, semeadas na algibeira da tarde, uns dirão que é poesia,

Outros que nada é,

E outros,

Que a loucura é a distância entre o pénis e a lua.

 

Eu? Eu nada,

Nunca entendi o sono, nem a falange da madrugada,

Nunca fui marinheiro, e de barco andei meio mundo,

Convencido que as almas são moedas de oiro

Dentro da barcaça, dentro da íris

Que sempre acorda, depois do sono.

 

Francisco

01/05

30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

a lágrima

quando já quase nada faz sentido

sentir o vento devido

mergulhado no ónus endividado e tímido

nos confins da ausência programada

 

e desejada como que o delírio

fosse dinheiro

e eu de tão rico estar

porque passo os dias a delirar

 

e passo as noites a escrever

e a desenhar

e a sentir

o vento regressar

 

e a primavera a chorar

e a saliva sobre a pele escaldante de uma lágrima

que de tão cansada estar

adormece no meu rosto

 

e o acaricia

e lhe toca

e eu sei que não estou só

nem louco.

 

Francisco

30/04

soldado

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

no degredo e na canseira de estar vivo

era só o juncal e a proeza de ser

soldado magro e de pouca riqueza

 

que tinha sobre a mesa

o sabre e a espingarda

que sempre tinha sido soldado

soldado em brasa

 

teve casa

teve o mar

e a escuridão dos dias de nada ser

e de viver

 

na espuma de uma lágrima

ah também foi o luar

e teve dentro dele a luz divina

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

 

quando a ausência é a alegria do pobre

que teve uma sebenta nos tempos de encantar

serpentes e outros animais

depois de soldado foi capa dos jornais

 

e também foi o diabo

vestido de sôfrego amanhecer

que de tudo aquilo que foi

o que lhe deu mais prazer

 

foi ter sido um pobre diabo

que foi feliz quando soldado

que teve um rio do tamanho do universo

e muito frio no regresso.

 

Francisco

30/04

Se Deus quisesse

E ficávamos ausentes no silêncio dos outros olhares

Se Deus quisesse

Tínhamos o espaço-tempo no toque de uma fotografia

Sem quase tempo

Sem muita alegria.

 

Se Deus quisesse tínhamos asas

E outros adornos e de todos os lugares

Se Deus quisesse

Se ele não se importasse

Eu fazia o favor de ir buscar as palavras

E as semear na esquina da morte.

 

Se Deus quisesse eu até poderia ter mais um só pouquinho de sorte

Se Deus quisesse tínhamos asas

E dançávamos sobre a geada

Se Deus quisesse não morriam crianças

Nem as flores que Deus plantou

Nem contra mim pedras lançadas.

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

o cubo de vidro

ao centro o cubo de vidro

três janelas em vidro tem o cubo, o cubo de vidro

tem uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

o universo

em reversão e sem nexo,

 

outro cubo, outro verso sem verso

sem sexo

ao centro, a cama, em cima da cama um círculo, nu, tão nu

como o cubo de vidro

com três janelas em vidro, e uma porta,

 

tão escuro está o corpo em lhe tocar, a verdade

é que o cubo é a vontade do fragúes, confidente

e obediente

e contente

porque na terrinha já tem o continente,

 

depois vem a sopeira com os cupões e com os talões

ele é desconto, ele desencanto e ele é mergulhar

tão fundo e de tão longe que ele veio

no alento

no destino alheio,

 

mas o vento, esse

o vento não quer saber do centro, nem quer saber do cubo

e tão pouco das três janela em vidro

e de uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

a ausência de uma abraço, sentindo o escuro do dia, quando a noite é sempre dia.

 

Francisco

29/04

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