30 julho 2026

As esferas do mar

A fúria do herói que dançava nas esferas do mar,

limitava-se na esquina da morte

como se fosse um pedaço de chuva quase a chegar ao vento,

mas não sabia que era só a noite que ficava em verso,

o corpo todo entupido de gesso

e de humidade que o fogo deixava ficar na cama.

 

Havia um relógio que não tinha motor nem maré ausente no sofrimento da cidade,

cada sombra aprisionada era o dia disfarçado de mentira,

e Novembro deixava de pertencer ao pé coxo,

e rosas dentadas e sentadas na alvorada que o livro gritava como um guarda-chuva faminto,

vulgar,

e desprezível no toque e no saber,

as palavras eram vozes de argamassa cinzenta

e podre da atmosfera que cada mulher trazia no ventre acorrentado ao cérebro defunto da mão esquerda.

 

Ninguém sabia o nome daquela vagina página onde a abelha semeava a geada

e a enxada veio ao oceano de luzes e de urzes,

o destino,

é a melodia que do verbo quando toca nos seios do mar,

que outro poema poderá escrever a cidade na alvorada?

E ninguém saberá um dia o nome daquela madrugada em que a fúria do herói morreu.

 

Tantas eram as palavras que o corpo do cansado aço lançava sobre a folha e a loira poeira que habitava os doces cornos da colmeia. A laranja cai sobre a mesa capaz de rasgar o ventilador desligado do chão,

que a fúria pisa e que o corno,

o leão da selva, transportava na ausência do limão envenenado pela escuridão da selva.

 

Mas o corno sabe-o e ameaça a gaivota que também está na cama do luar.

 

30/07
21:11

noite de sombras em olhos de lágrimas

noite de sombras

em olhos de lágrimas

sorrisos de rosa

pingos de chuva

noite de sombras

no rio selvagem

amor perdido

amor em viagem

 

amor de sombras

em noite de lágrimas

olhos de rosa

pingos de sorriso

olhos vendados

olhos cansados

amores tristes

nas águas límpidas da manhã

 

noite de sombras

em olhos de lágrimas

amor impossível

das palavras com mágoas

nas palavras sem palavras.

Janela da manhã

Os cortinados da vida

suspensos na janela da manhã

oiço de longe a voz cansada da tarde

que irrompe montanha dentro

rio abaixo

até ao mar,

 

oiço dos cortinados da vida

o gemer da dor

em lágrimas de sílabas

depois do pequeno-almoço,

 

os cortinados

irrompem do cansaço da tarde

até ao mar

rio abaixo,

 

suspensos na janela da manhã

o jardim murchou

e as árvores do jardim

à janela da vida

suspensas nos cortinados da manhã.

A fuga

Desapareceram as escadas

de acesso à noite

fugiram todos os papeis

e todos os livros

 

na parede do quarto

a janela transformou-se em azevinho

com pássaros suspensos nos seus braços

e palavras que voam dentro das asas

 

(uma sílaba estonteada

procura-me no caixote do lixo)

 

e uma mimosa em flor

cresce nos meus olhos sem cor

sem desenhos para pintar

sem palavras para assassinar

 

sou o quê EU?

 

uma sílaba estonteada

procura-me no caixote do lixo

onde restos de sémen

e pingos de seda

se escondem no azevinho

(pássaros suspensos nos seus braços

e palavras que voam dentro das asas)

ao cair da tarde.

29 julho 2026

Na esquina do amar

Na esquina do amar

o fogo em verso e lágrimas

que não é o pincelar da luz

no silêncio dos outros,

a urna metáfora que avassala

a maré de um relógio, quando

o gélido sargaço acorda

e a mãe já está na cama com o dia extinto

e longe do mar.

 

O amar é quase uma fotografia

que o livro semeia na alvorada,

do fogo apenas sobrou a ausência de uma mágoa,

mas hoje é alegria, sentida,

que também no livro

semeia a cabeça da chuva,

sonha, e assassinou todos os sonhos que tinha,

e novos sonhos são pedras que não têm nome,

essência obscura da última noite.

 

Um lápis de cor que o vento trouxe

no toque do orvalho quando na terra

a paixão morreu de cansaço

e agora é esquecimento,

é alegria e liberdade no nocturno

e violento desejo,

o desprezo,

o saber e a minha mão

na boca do inferno.

 

Uma calçada em verso e lágrimas,

que é o nojo de uma pirâmide em cima da última madrugada anunciada,

vai e não voltará mais ao meu escrever.

 

Sorrisos falsos,

dos falantes verbos do corpo,

e não passa disso.

 

E de nada lhe serve o olhar materno,

quando em si esconde a voz do diabo.

 

29/07
18:26

Da tua mão

Da tua mão, vi o meu primeiro mar

Da tua mão, vi o meu primeiro barco

Da tua mão, vi a minha primeira gaivota a voar

Da tua mão, vi o capim no cacimbo a brincar

Da tua mão, senti o meu primeiro livro

Na tua mão, aprendi

A palavra,

 

Pai.

 

28/07
22:45

29/11/1938 - 29/07/2015