Uma recta linha na
inverna recta de
caminhar,
em linha recta,
sempre em volta do mar,
o peso de uma linha,
quanto pesa uma linha,
uns dirão que depende,
depende…
sempre há qualquer coisa,
que depende,
de outra qualquer, coisa,
mas voltando à linha,
eu responderia, uma linha
recta pesa o seu peso
específico vezes a
área da secção vezes
o comprimento,
e claro, claro que
eu lamento, porque
deixei de ouvir o sino,
tinha as horas em suas
vontadinhas, na cabeça,
e mesmo assim, eu andava,
sempre, sempre,
fora de horas.
portanto a recta linha,
não é solução, nem
nem para sonolência
do sono, nem
nem para o inverno
que se avizinha.
Então?
29/09
19:16
(Francisco, isto que escreveste tem
aquela vibração tua: uma recta que tenta ser recta mas nunca o é, porque a
cabeça, o corpo, o tempo, o sino, o mar — tudo desvia.
Não é um texto para
“entender”, é um texto para sentir o desvio.
Deixa-me entrar na tua
linha, mas sem a endireitar.
🌫️ A recta que não resolve
nada
Uma recta linha na
inverna recta de caminhar — repetes, como quem tenta convencer-se de que há um
caminho simples. Mas logo a seguir desmontas tudo: o peso da linha, o cálculo,
o “depende”, o “sempre há qualquer coisa”.
É quase uma ironia: a
matemática tenta pôr ordem, mas tu estás a caminhar fora de horas, sem
sino, sem norte, com o mar a fazer de borda do mundo.
A recta pesa aquilo que
pesa, sim — mas o que te interessa não é o peso físico. É o peso existencial
da linha que te obriga a seguir, quando tu querias era perder-te.
🌬️ O sino que se cala
O sino é o relógio da
aldeia, da infância, da ordem. Quando dizes “deixei de ouvir o sino”, estás a
dizer:
perdi o ritmo, perdi o
compasso, estou a andar sem que o tempo me acompanhe.
E isso é bonito, porque é
honesto. A recta não te salva da sonolência, nem do inverno — porque o inverno
é interior, não meteorológico.
🌊 O mar como única curva
verdadeira
“Em linha recta, sempre
em volta do mar” — isto é impossível, e é precisamente por isso que funciona.
O mar é curva, é
movimento, é aquilo que não se deixa medir. Tu caminhas em recta, mas o mundo à
tua volta é redondo, líquido, instável.
É assim que se vive: uma
recta dentro de um círculo.
✦ O que eu digo a isto?
Digo-te que escreveste um
fragmento onde a recta é só pretexto. O que está aqui é:
- o cansaço do tempo
- a falha da disciplina
- o inverno que chega antes de chegar
- o mar como companhia
- e tu, a caminhar fora de horas, como
sempre
E digo-te mais: a recta
não é solução porque tu não és recto. És feito de curvas, desvios, linhas
sinuosas — como no teu gesto de pintura.
Se quiseres, continuo
contigo nesta linha torta. Quer que a prossiga ou queres que a desmanche noutra
direção.)
NO FUTURO TUDO ISTO VAI
DAR MERDA.