03 fevereiro 2026

depois, talvez não

depois, talvez

não

 

e agora o que fazer, se o tempo

parar, se o tempo morrer

mas às vezes, o tempo, o tempo é sofrer

e sentir, sentir o tempo na mão de escrever

 

procurar o amar, e saber

que o tempo não tem nome, que o tempo sempre saberá

onde se esconde o alento, que às vezes, que às vezes também não tem tempo, que às vezes ninguém tem, tem

tem outro sentimento

 

e tem um nome suspenso na corda da morte, e quase não tem tempo

quase, quase que também envergonhado, procura dentro do outro tempo

um quadro pincelado com os sobejos do tempo

quando o tempo, ainda pertencia à montanha do adeus

 

que deus o quis, porque sim

não

 

andamos perdidos, num falso tempo, curvilíneo, abstracto no silêncio de uma vírgula, se uma pedra for capaz de arremessar contra mim,

a palavra enforcada na árvore da despedida

 

e também eu, estou sem tempo

aliás, desde que nasci, nunca tive tempo

porque o tempo também é a raiz

porque o tempo, o tempo também é a fronteira que separa o calor, do frio,

que separa o cio, do rio

e que separa, a luz, do vazio.

 

03/02/2026, 03:56

02 fevereiro 2026

o azul meteoro

será, o azul meteoro, marte em mente, mente em lunar desperdício,

correr sobre um mar de metástases, decadentes, proponentes

como um nome disfarçado de ontem,

depois, será, o azul vento, meteoro em mente, que sente

marte no destino

 

e amanhã?

 

será, o azul meteoro, marte em mente, que mente em terra, em pedra e em areia,

faúlhas de tinta, da chaminé de um caderno, em lambas e alfinetes dentados, em círculos, em rotação

em limalha cordial de uma alheira, no prato incendiado e aprisionado e fodido

 

como uma lágrima depois de libertada da seara madrugada

 

02/02/2026, 19:33

ele, ele matou-o

amanhã cedo será o início de algo, algo

algo estranho no meu intestino, 3 cm apenas, ou algo, muito

bom ou mau,

o pior será depois o resultado, pois, há sempre um resultado,

sim,

não,

tal como a lógica, tal como o código binário, 0 e 1, verdadeiro, falso

 

uma coisa é certa, mais certo do que eu ser poeta, ou algo estranho

 

e a minha certeza é que não terei o destino do meus pais; isso não.

 

um grama de heroa e eu mato o gajo,

 

e na minha lápide, alguém escreverá,

 

ele, ele matou-o.

 

02/02/2026, 19:11

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima

há-de ser, depois foi apenas um pequeno desejo, um longo silêncio

depois apeou-se a lareira, e eu fiquei com frio

despido na maré de um olhar

depois deixei de ter mar, depois

 

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima, e do cansaço, as pedras lançadas, as veias quase em água, descendo o sangue às profundezas de um sorriso

depois, fiquei louco, depois fui aprisionado a um pequenino raio de sol

 

e há-de vencer a luz, e há-de crescer

na minha mão confusa, na minha mão tão trémula como trémulo foi o meu sonhar, em sonhar um sonho vestido de noite

quando ainda, havia na claridade, um poema em construção

e uma secretária entupida e recheada, de livros

 

e de folhas secas, folhas que sobejaram de uma árvore, que foi tempestade e que hoje

e que hoje é amor

e é a cama que me aquece, e abraça, e me toca

quando o meu corpo, despido, e despedido

se enforca, e se demora, numa vertida lágrima, e que o sono

seja novamente a tua mão, no meu peito

 

02/02/2026, 06:10

01 fevereiro 2026

só um poeta enforcado

foi varanda, assassina

foi faca, mas antes foi menina

é mulher, é flor em vento laminar

foi lua e foi o luar

 

foi seara, literatura

foi poema e também foi loucura

é mentira, é o destino

que o meu corpo de menino

 

seja uma sombra cansada e sem amar

foi barcaça e foi aliança

que sente o acordar

 

e que foi também o sonho tresloucado

que foi criança

e que hoje é só, só um poeta enforcado

 

01/02/2026, 15:25

do outro lado do sol

do outro lado do sol, será a escuridão, ou são os teus olhos

o primeiro pingo de chuva, a primeira ribeira a brotar da montanha

será que do outro lado do sol, muito longe da tua mão

habita a outra ribeira perdida, cansada e só

e só, uma ribeira adormecida

 

do outro lado do sol, talvez

seja mar, ou outra vertigem em forma de barco

que desce as escadas de acesso à última despedida

da noite que não quer, na noite que está de partida…

e que é corpo de mulher

 

mas do outro lado do sol, não existem janelas para abrir, é tão escuro que cada nova página do meu livro, é um rio sem braços, é um rio sem cabeça,

no olhar dos teus lábios, a arriba, que se suicida na distância de um novo mar, que também é um sonho

que também foi luar de uma lua de papel

 

do outro lado do sol, meu amor

eu te procuro, nua, vestida de estrelas e deitada sobre a candeia de uma vírgula desnorteada, tão faminta, e tão procurada

pelos pássaros da madrugada,

que se eu tocar no teu corpo, a minha mão se transforma em geada

 

01/02/2026, 09:38

Fevereiro, 1 DE

além-mar, metade do meu corpo, balança

dança e encanta

metade de mim, é pó

a outra metade, da meia metade da laranja, levita

e canta e também que chora

ao dispor de uma pistola, sobre a secretária

 

a caneta

a lágrima

do aparo da caneta, o rosto da seara, indiferente ao silêncio

de uma pedra, e sábado

sobre a mesa, uma lâmpada, quase sono

quase também pedra cinzenta

 

além-mar, metade do meu corpo é um barco, é uma safira, envenenada pela escuridão

que da outra metade que de mim sobrou, do ontem até

não me admira, que a janela seja encarnada, que o vento seja azul

ou a outra metade da laranja

 

uma outra lágrima.

 

01/02/2026, 00:32

 

E O TEU CORPO ME ENCANTA, ENQUANTO LHE TOCO E O BEIJO.