24 julho 2026

A mãe terra

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois brinca

E desce

E se deita

Na branca areia de uma mão

 

É preciso uma candeia

Correntes em aço

Gesso

Um abraço ou uma prisão

É preciso o pôr-do-mar no sol

Sol na escuridão

 

O pôr-do-mar no sol

Vibrante laranja o céu

A mãe terra

Arde

E depois morre

 

E depois arde

A mãe terra.

 

24/07
06:18

23 julho 2026

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada

No mel-veneno, no líquido intransigente, o grande milagre

Dos olhos do amanhecer

Sentado, ele se levanta e levita

Na insustentável leveza do ser, ou nos amores risíveis

Acordar a brincadeira

 

Da insustentável leveza do ser, o riso e o esquecimento

A madrugada quase gelo, quase linhagem de um nome

Cada erva escondida, cada árvore assassinada ou mordida

E cada homem, com fome

 

Quantas as ruas sem nome, quantas as ruas sem gente

Se senta, e se chateia na berlinda madrugada, e já não sente

A presença de sua amada, a equação mais abstracta, e mais parva

O ser, e o estar

Sentado à lareira, ouvindo a voz da escuridão

Saltita a fulgem das estrelas mais tímidas, do Seixal

O húmus, a vertigem de um gato sobre o telhado, miau

A ponte e o rio e o cacilheiro, ao fundo, cada vez mais fundo

E longe

A ilha de onde vim

 

A ilha, onde nasci

Tão de longe, eu o sinto

Ao teu longe

Ao teu eu te minto

Porque estou faminto

Porque quase não tenho voz

Isto é uma chatice

 

Isto.

 

Isto é um relógio envergonhado, são pénis perfilados, e alinhados

Na parada em aflição, derrete o sol o chão

E todos os pénis, e todas as espingardas, são tristes flores, no orgasmo de uma viagem

 

Passava o rio acima a calçada, descia a vagina ao pôr-do-sol, muito à tardinha, muito quase no mínimo múltiplo comum, pum

Sem-abrigo, sem

À tardinha eu não vou, por que raio devia eu de ir ao

Se eu não quero ir

Nem sair

Nem

Sem

De onde estou, sentado, sente a gente madrasta do abismo, o oiço

 

Sentado, aqui estou

Se gente também sente e o fosse, e também mente

Ser, à noitinha, à noitinha mais além do outro mar

Do outro destino, também

 

Livros, tílias & as sandálias do pescador

Dois carris que a nada o levam, nem lhe trazem

Do outro lado, do sentido lato

Na palavra, no atrelado, ou na piscina

A física quântica dos químicos

E das feras amestradas, o que temos então

Temos, pão?

Temos armas que disparam, pulgas?

Temos orelhas, e ouvidos e olhos?

E quantas são, as ovelhas do pastor?

 

Medo.

 

Se senta, aperta o cinto

E o sinto, na quase migalha, da quase palavra, a fogueira, no fogo e na doença

Se ninguém se demite, eu o demito

Está demitido, sr. Gato, miau

 

E chau.

Alegria, simpatia, simpatia?

 

Preciso de um camião para transportar um nome, um veículo especial e longo

Me levanto, e depois

Me sento

Aperto o cinto, e levito

 

E sou um pedaço de papel esquecido no vento.

 

Eu o lamento.

 

23/07
23:13

Aldeia

Na aldeia, a ceia do molecular

Sofrida a ceia, desconhecida no prazer

Na cantiga

Quer ele o seja

Ou não o queira ser

Uma lágrima do mar

Ou apenas gritar

E escrever

Na solidão de um olhar.

 

Na aldeia, a ceia perpendicular

Aos braços cansados de uma enxada

Na razão inversa, e adversa

Se o poema é o manjar dela

E do poema ela rasgar a madrugada,

 

Fingir no silêncio

Fingir na ausência esperada

Que até pode um dia, ser livro

Ser poesia

Ou nada o ser

Na Divina Comédia

Abstracta

Na razão inversa, e adversa

De uma mão.

 

23/07
21:13

Enlouquecer no teu corpo

Apetecia-me enlouquecer no teu corpo 

Incendiar o teu corpo

Escrevendo nele a equação da energia de Einstein 

Beijar-te tão loucamente 

Como louca é a energia 

Apetecia-me enlouquecer no teu corpo 

Porque a energia é igual à massa a velocidade da luz ao quadrado

Enlouquecer no teu corpo.

 

23/07

18:41

A morfina dos teus olhos

(ao meu pai)

 

Sentia na morfina dos teus olhos

Que de mim, pertinho tão pertinho de mim

Que o teu corpo sofria, e que se despedia

Da mão que te afagava as feridas

Que eu te olhava

E que medo eu sentia

Porque eu pensava

Porque eu sabia

Que nunca mais te via,

 

Sentia na morfina dos teus olhos

Que de mim, que eu também sofria

Que eu também chorava

A cada noite, a cada novo dia

E eu sabia, e eu não o queria

Que levasses de mim tudo aquilo que sobrava

Tudo aquilo que eu sentia, que eu não sabia

Que um dia

Que um dia eu por ti chorava,

 

Que um dia, que um dia eu te recordava

No doce teu olhar

Da morfina dos teus olhos

Que eu tanto o sabia

Que um dia

Nunca o deixaria

Deixar de te amar.

 

23/07
07:02

Que nome, outro nome não o pertencer

Que nome, outro nome não o pertencer

À faminta boca, procurando na sombra

A luz e o nome, dos teus seios

Que são silêncios, jardins esculpidos no sol

Poemas os teus seios semeados na algibeira do desejo

Que nome, outro nome e outro beijo

Perguntar aos teus seios, perguntar

À minha boca, e à minha mão

Porque são os teus seios, o pão

E o veneno do mar.

 

Que nome, outro nome eu o dar

Aos teus seios e ao rio que neles se esconde, que tal como os teus seios

Também ele, também ele não tem nome

E a minha boca em fome

Procura na sombra

A luz e o nome, dos teus seios

Sem nome.

 

23/07
06:48

Ao mar, eu vou

Ao mar, eu vou

Dar

Do vento que sobrou

O teu corpo, eu o desejar.

 

Ao mar, eu vou

Levar

Do vento que sobrou

O teu corpo, eu o beijar.

 

Ao mar, eu vou

Amar

Do vento que sobrou

O teu corpo, do meu sonhar.

 

23/07
06:33