01 setembro 2026

O sono

O sono, veste-se de perfeito, silêncio

Sinto o teu corpo, perfumado, na dor

E te toco, com medo de te acordar

Com medo, com medo

Que o sono, acorde, e que o sono

Traga as trombetas da velha sanzala, sempre

Aqui, dentro de mim

 

Toco-te, e meus deus

O medo de te acordar, o sono

E o teu, sono de mar

Depois, o nosso mar nas labaredas, na mão

Que chora, na mão que acena, a partida

 

Sempre, sempre os meus barcos, meu amor

Sempre o mar, sempre

Em,

Mim

 

O sono, veste-se de perfeito, silêncio

Sinto o teu corpo, perfumado, na dor

E te toco, com medo de te acordar

Com medo, meu amor

Que deixes de olhar o teu mar.

 

01/09
01:58

É quase dia, meu amor

É dia, meu amor.

Alado dia que desce suavemente o teu corpo em direcção às tuas coxas; nasce o sol nos teus seios.

É dia quase dia, quase.

E a minha mão percorre cada milímetro do teu cabelo, árvore colorida que alimenta a manhã, que derrama sobre o teu olhar, o som melódico dos pássaros-manhã a acordar.

 

É quase, meu amor, o dia quase de te abraçar, de te beijar, é quase, que seja quase, o dia de escrever nos teus lábios: amo-te.

Que o amo tanto, o quase dia, meu amor, é quase dia nos teus olhos…!

 

É quase dia, meu amor, é quase o momento de deixar de fingir que nada significas para mim, quando és tudo, neste quase dia; quase que quase deixarei de mentir e será a verdade, e será sempre dia, depois deste quase dia...

Querer-te, eu quero-te

Querer-te eu quero
Sabendo que não me vais querer
Querer-te eu quero-te
Querer,
Quando o quero-te é um sorriso depois do silêncio.

Querer-te eu quero
Debaixo deste fogo de imagens...
Querer que te quero
Aqui,
Querer-te.

Querer-te
Eu te quero,
Muito te querer.

31 agosto 2026

A inveja

Às vezes, dizem-me, dizem-me que não devo contar os meus sonhos, ou desejos

Porque há invejosos, porque

Porque sinceramente, quero que os invejosos, se fodam,

Se, fodam. Todos.

Sim, regressei à Novinha Universidade Politécnica de Bragança, e futura Universidade de Bragança e do Norte Interior, um orgulho, ter lá estudado. Há uma disciplina para terminar, e alguns parágrafos da tese, para corrigir, assim está há mais de três anos.

Um dia, sentado no gabinete número 47, o senhor professor doutor Luís Mesquita, aos berros, dizia-me

- vai desistir agora, Fontinha? Desistir é para os fracos…

E eu, e eu não sou fraco.

 

 

A carne carece, e apetece, beijar

O sangue em rios, o vinho, na trovoada matinal, ouvem-se

As cansadas e tristes, pedras da calçada

A abelha, e o mel

Sobre a pedra invisível, do sono

 

A espingarda, suspensa no ombro

Sob a árvore, o silêncio de uma bala, nos olhos

Da espada, e do sabre

A voz, a voz

Embriagada

 

Dirigindo-se para o abismo, onde

Dormem as sombras e os pinheiros, e o mar

E a melodia, de uma vírgula

Cravada, no peito

No peito, a imagem de Virgem Maria.

 

31/08
21:43

Procurar

Procuro nos teus olhinhos de mar,

A paz e o silêncio de estar,

Procuro nos teus lábios de mel, a madrugada acabada de nascer,

Procuro nas tuas mãos de fada, o sentido do meu ser.

Procuro na noite, o vento do teu cabelo, quando o teu cabelo se esconde nos meus dedos fictícios…

Procuro, em ti, a vontade de viver.

Imagino, o teu corpo no meu corpo…

Imagino a tua pele branquida poisada no meu peito, imagino o teu cabelo baloiçando no vento em brincadeira nos meus dedos,

Imagino os teus lábios, doces, escondidos nos meus lábios, em desejo…

Imagino o teu beijo, a escrever no meu pescoço, amo-te…

E a despedir-se das minhas mãos.

 

Imagino a tuas mãos, pincelando o meu corpo de sombras, esperando o regresso da noite, e da insónia…

Imagino, o teu corpo no meu corpo…

 

(in, o farol, livro de Francisco Luís Fontinha)