06 setembro 2026

Mil folhas do meu viver

As mil folhas do meu viver, são

Apenas cinzas, e pedacinhos de papel

Que o vento levará, e ao som do

Mar, ao mar eles pertencem

 

Das mil folhas do meu viver, as palavras

Levitam sobre o pêndulo da solidão, a pele

Adensa-se e veste-se, de desejo

Que nem todas as mil folhas do meu viver

 

Sejam cinza, ou os pedacinhos

De papel que o vento levará,

E que ao mar pertencem, e o são

O silêncio, o meu.

 

06/09
10:15

05 setembro 2026

É quase um grito, o oceano teus seios

É quase um grito, o oceano teus seios

Sangrando o perfumado e desejado, luar de inverno

Quando a lareira é apenas um silêncio, de luz

Sobre o livro poisado na mão, da noite.

 

É quase a geada, a tua doce pele de amêndoa

Na vertigem de uma janela, na voz ausente

Da migalha que sobrou, do ontem fumado

No hoje já quase escuridão.

 

É quase um grito, o oceano teu seios

Na vertigem simplificada, a dor

No peito da árvore, se cada mão que a toca

É um pássaro envergonhado, na despedida do amar…

 

05/09
19:28

Pastelaria - Mário Cesariny

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny, in 'Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano'

Linda mulher de luz

Do tecto, em rectilíneo delírio

Desciam finesíssimos, e coloridos

Fios, de luz

Dentro desse túnel de luz, tudo

Tudo era a escuridão

E silêncio

 

Depois, do chão

Para cima,

Uma luz, muito intensa, brinca, e vai subindo

Depois,

Depois transforma-se, numa

Linda,

Linda mulher de luz.

 

05/09
06:38

04 setembro 2026

Aos sóis, pertenci

Aos sóis, pertenci

Nos lençóis, eu dormi

Enquanto pássaro, eu voei

Eu pássaro, eu sonhei

 

A quantos, sóis

Eu

Pertenci, e quantas, as ribeiras

A correr,

A correr, correr, para o mar.

 

04:09
21:50