Fui criança, e de andança
em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança
Fui criança costureiro,
fazia vestidos por medida para um parvo boneco, o chapelhudo, abelhudo e às
vezes como eu,
Trombudo.
Talvez este tenha sido o
meu único amigo, e fui também eu um erro logo à nascença, mais tarde, muito
mais tarde
Em métodos numéricos,
estudei a teoria do erro, e percebi
Não, ainda não entendi.
Percebi que depois de
resolver complexas equações, algumas delas em Matlab, não
Não percebi nada.
Que fui, e que sou um
erro. Pergunto-me, e vos pergunto:
Porque nascemos nós? Qual
o objectivo de nascer, crescer e morrer, de amar de odiar e de foder e de ser
fodido, e de ser odiado
Pergunto-vos,
Qual o propósito de tudo
isto?
Será que alguém se
diverte com a desgraça alheia? Isto é
Tudo isto é um circo,
palhaços, que fui, e que sou
Podia, e não o quis
Ser esposo de uma
trapezista, já na altura eu gostava de ser artista, e mesmo assim, o erro, o
erro é inferior a 0,0001
Fui criança, fui
tragédia, e foi trágico
Suicidei-me um dia da
vida, e desde então deixei de ser, sabendo que nunca o fui ou serei
Pássaro
Voei. Gostei, porra,
gostei tanto de voar.
Gostava de voltar a voar,
voar
Sobre o azul silêncio de
um olhar, depois
Dançávamos sobre a geada,
crescíamos como dois pedaços de giz na alvorada de um beijo
E o corpo deixou de me
pertencer, nunca mais tive corpo, nunca mais tive a companhia do chapelhudo, e
o circo é uma festa
E íamos,
E nos beijávamos já
depois da noite não ser mais a noite, sangrenta, suja e imunda, nas mãos de uma
sanzala
Fui criança, e de andança
em dança, quase sempre que danço, quase sempre que balança
Fui criança costureiro, criança.
30/05
22:46