Se senta, e se chateia na
berlinda madrugada, quando uma abelha, uma abelha drogada
No mel-veneno, no líquido
intransigente, o grande milagre
Dos olhos do amanhecer
Sentado, ele se levanta e
levita
Na insustentável leveza
do ser, ou nos amores risíveis
Acordar a brincadeira
Da insustentável leveza
do ser, o riso e o esquecimento
A madrugada quase gelo,
quase linhagem de um nome
Cada erva escondida, cada
árvore assassinada ou mordida
E cada homem, com fome
Quantas as ruas sem nome,
quantas as ruas sem gente
Se senta, e se chateia na
berlinda madrugada, e já não sente
A presença de sua amada,
a equação mais abstracta, e mais parva
O ser, e o estar
Sentado à lareira,
ouvindo a voz da escuridão
Saltita a fulgem das
estrelas mais tímidas, do Seixal
O húmus, a vertigem de um
gato sobre o telhado, miau
A ponte e o rio e o cacilheiro,
ao fundo, cada vez mais fundo
E longe
A ilha de onde vim
A ilha, onde nasci
Tão de longe, eu o sinto
Ao teu longe
Ao teu eu te minto
Porque estou faminto
Porque quase não tenho
voz
Isto é uma chatice
Isto.
Isto é um relógio
envergonhado, são pénis perfilados, e alinhados
Na parada em aflição, derrete
o sol o chão
E todos os pénis, e todas
as espingardas, são tristes flores, no orgasmo de uma viagem
Passava o rio acima a
calçada, descia a vagina ao pôr-do-sol, muito à tardinha, muito quase no mínimo
múltiplo comum, pum
Sem-abrigo, sem
À tardinha eu não vou, por
que raio devia eu de ir ao
Se eu não quero ir
Nem sair
Nem
Sem
De onde estou, sentado,
sente a gente madrasta do abismo, o oiço
Sentado, aqui estou
Se gente também sente e o
fosse, e também mente
Ser, à noitinha, à
noitinha mais além do outro mar
Do outro destino, também
Livros, tílias & as
sandálias do pescador
Dois carris que a nada o
levam, nem lhe trazem
Do outro lado, do sentido
lato
Na palavra, no atrelado, ou
na piscina
A física quântica dos químicos
E das feras amestradas, o
que temos então
Temos, pão?
Temos armas que disparam,
pulgas?
Temos orelhas, e ouvidos
e olhos?
E quantas são, as ovelhas
do pastor?
Medo.
Se senta, aperta o cinto
E o sinto, na quase
migalha, da quase palavra, a fogueira, no fogo e na doença
Se ninguém se demite, eu
o demito
Está demitido, sr. Gato,
miau
E chau.
Alegria, simpatia,
simpatia?
Preciso de um camião para
transportar um nome, um veículo especial e longo
Me levanto, e depois
Me sento
Aperto o cinto, e levito
E sou um pedaço de papel esquecido
no vento.
Eu o lamento.
23/07
23:13