06 março 2026

A luz do mar

Tenho uma mão de tinta para disfarçar a luz do mar, que ainda ontem éramos dois sonhos de um guarda-chuva, mas

O amor é quase uma hora para o fogo, e a tua boca é a melodia do corpo na despedida da última figueira,

E sinto sobre o meu nome um relógio de sémen que também era só uma pétala de pão na esquina da morte.


Tenho uma mão de tinta, e no teu sexo quero escrever o meu nome, porque o amor é também a luz do meu desejo que o sono esconde no silêncio da tua voz

Tão cansado estou, meu amor, e quase não tenho o fogo para te amar, hoje

Que o cansaço parece ser o dia travestido de dezembro, tão triste, meu amor, este cansaço que desiste do mar e da chuva e da tua boca...


E de te tocar, porque esta minha mão de tinta é o aresto que o livro semeia no teu corpo, e quanto mais cansado me sinto, mais negra é a alegria do meu sol, que o meu nome seja o silêncio da última paragem no toque de uma fotografia,

E lá estou eu suspenso na tarde lápide que também foi a primeira primavera do mar,

E eu sofria no sorriso da tempestade que estava sentada na cama como se o fogo fosse só um pedaço de pedra sobre mim.


Coitado de mim que também fui um soldado, e hoje apenas tenho uma mão de tinta que não tem remetente nem destinatário ou

Éramos dois sonhos de um guarda-chuva acorrentado ao jardim do castelo,

E sempre que vinha o vento, o fogo relógio de te amar dançava na flor do teu olhar, mas hoje, meu amor, é tanto o cansaço que eu vou fazer um outro relógio para te amar.


06/03/2026, 21:39

05 março 2026

O amor

O amor, o fogo que também é silêncio e que hoje pertence ao jardim do mar,
Do amar, mas o fogo não terminou, mas o fogo está pronto para se disfarçar de tinta e escrever no teu corpo,
O amor, o dia que ainda ontem estava sentado no toque de uma mágoa,
Desejar o fogo de tinta para que o teu olhar seja o silêncio da chuva,
E,
E que gemia sentidos pêsames para toda a tarde lápide que ainda está disponível para a viagem,
E partiram para a casa da última paragem do comboio, havia uma lágrima na esquina da morte, e ele partiu
Sem se despedir do teu olhar, no teu sexo, mas
O amor, o fogo que ainda não terminou de crescer, já
Feliz, e o pincelar da tua boca é quase gelo quando o fogo está na flor dos teus seios, nos teus lábios brincam os olhos do mar, e
Que o sono é uma seara que também é quase uma mão, e trazias
Nos cabelos a luz de uma estrela,
O amor, o fogo que também é silêncio e que hoje pertence ao jardim do mar,
Amar.

05/03/2026, 21:26

"Não quero deixar nada, quero ficar inteiro". António Lobo Antunes

 

a última porta antes da noite

inventávamos o sono enquanto ardia a noite no teu nu corpo de cianeto

e toda a luz tinha sido aprisionada por um negro buraco, tão mais escuro, que o negro da tela onde redesenho o teu rosto, e cada pincelada é uma estrela que se apaga, é uma estrela que parte

e leva na sua mão, o silêncio de uma nuvem

 

05/03/2026, 19:09

António Lobo Antunes (1942-2026)

 


O que dizer quando parte um ídolo...

02 março 2026

A viagem

A viagem quase a começar, do outro lado do sol, me espera a saudade

Pouca coisa eu levarei, não preciso de nada, nada

Sabendo que existem árvores parvas, e pássaros vestidos de árvore, que não são parvos, como elas

E como eles, quando acorda o sangue no silêncio de uma veia

 

02/03/2026, 21:26

frágil

tão frágeis, meu amor, tão frágeis são as tuas mãos

que parecem as páginas de um livro, o meu livro

que nele escrevo, que às vezes apenas o olho

e nada nele escrevo

 

tão frágil, meu amor, tão frágil parece ser o teu corpo

quando a noite é uma lágrima de luz, e se eu tocasse

o teu corpo, que parece frágil, a primavera vestia-se de luar

e cada palavra minha era a madrugada

 

no teu sonhar, eu te amar, tão frágil, meu amor, o teu sorrir

e o teu viver, que às vezes até acredito que estou louco, e que nunca vi o sorriso do mar, e que é tão pouco

no pouco meu destino, sentir a tua mão

 

02/03/2026, 05:25