cachimbo de água
poesia & arte
20 fevereiro 2026
algo de estranho, em mim
algo de estranho, em mim
tão estranho, dentro e em
mim
tão estranho que não
consigo ficar triste, tão estranho
a alegria que sinto, e
que vejo
quando me olho no espelho
da manhã, e ao longe
o perfume do meu rosto,
sem lágrimas
e sem fome
que não importa o nome,
ou o número indefinido
e que nos foi transmitido
pelo nosso progenitor, porque
progenitor todos o
podemos ser, a não ser
que pais não o podemos
ser todos
e a roda quadrática do
ónus que serpenteia a noite, que se veste de mulher
que tem nas mãos a
espada, e no olhar
o silêncio de uma
vírgula, de uma enxada
que de baixo até ao cimo
da montanha, que de socalco em socalco
já não cai, e também não
mais me acanha
ou apanha, ou grita os
tais e os ais
que estou bem, obrigado
dos meus órgãos genitais,
que não pratico qualquer desporto, a não ser
algo de estranho, em mim
tão estranho, dentro e em
mim
tão estranho que não
consigo ficar triste, tão estranho
a alegria que sinto, e
que vejo,
e cheiro a claridade dos
destemidos homens de veludo, e que a loucura é passageira, tal como a noite,
tal como o dia
tal como a chuva,
a alegria, a poesia, a
vírgula já tão tonta e que estonteia
as sementeiras da aldeia,
o trigo colhido, foi ontem o fumo de um pequeno silêncio,
também sabe a lixivia a
virgindade de um livro, toco e manuseio o tabaco, cheiro-o
e me sinto tão estranho,
e tão contente
de viver, e de ser gente
finalmente, gente.
20/02/2026, 19:27
saudades
que bom que é, não ter
mais saudades
não ter uma fotografia
para olhar, que bom que é
não ter mais uma lápide
para chorar
e dizer, e no chão
escrever
que bom que é,
não ter mais saudades, e
não mais sofrer.
20/02/2026, 19:01
a visita
são 05:37 e da noite, e
do que será do novo dia
talvez uma vírgula me
visite, apesar de ultimamente não receber visitas,
talvez finalmente haja
sol, hoje
talvez descubra no meu
quintal uma nova planta, ou até
o sorriso alegre de um
pássaro, que me observa enquanto fumo, e sei
sei que uma charrua de
luz, muito brevemente
sem pressa, ou remetente
me diga o que sente, e me
diga
porque me mente
talvez um dia, seja
sempre dia
sempre sem noite
sempre em alegria, podia
escrever nas marés de
vinil
o nome de cada sono
eram 05:37 e da noite, e
do que será do novo dia
não sei, o que será
são 05:44 e
morre um sonho…, e outro
sonho acordará.
20/02/2026, 05:45
19 fevereiro 2026
Isto & Aquilo, SA
Corrigindo com assiduidade,
uns dias
Todos os outros dias, que
me canso, que me invento
Vestindo-me de vento,
Fingindo que não sinto, sentir a raiz do
pensamento
Fingindo, está à janela o
senhor Álvaro de Campos, fingindo que fuma, fingindo
Que do outro lado da rua,
a menina
Brinca, & come
chocolates
Fingindo, também
fingindo, está o senhor Mário de Sá-Carneiro, fingindo que tem uma secretária,
que sobre a secretária tem um revolver, e pertinho
Também fingindo, está a
bala
Que disparada por ele,
fingindo
Matou o poeta, apenas
fingindo
&
Depois, & depois
Isto, & aquilo, &
Enrolo um cigarro, e
penso
E em tanta coisa que o
senhor Álvaro de Campos podia pensar, mas pensar em quê?
Se ele nunca foi nada, à
parte disso, tinha em si, todos os sonhos do mundo
Não, não mais desejarei,
nem a morte
Nem a sorte, nem outra
coisa qualquer
Que me duplique, e que me
faça acreditar, que o AL Berto, que o Pacheco, foram felizes,
Tanto como eu o sou, à
minha maneira
Janelas do meu quarto, e o
que vejo e sinto
A não ser, a poeira azul
de um sonho de menino, e penso
Que a raiz quadrada de
vinte & cinco,
Cinco, depois, &
aquilo
Depois,
O cansaço, a dor, & o
sono de uma aldeia que já foi cidade, e que hoje é dor, e que
Hoje, e que hoje passeia,
e que hoje
E que hoje é um barco sem
idade
E que sobre o mar semeia,
Isto
&
Aquilo, SA.
19/02/2026, 22:24
é o destino deste, agora alegre, menino
o que sabem, eles
o dizem, elas
sobre a última porta da
noite,
que o vento era tanto, e
que tanto
hoje,
é o silêncio de uma
estrela.
que uma escada não nos
leva apenas até ao céu, nem serve
só,
só para nos resgatar de
um penhasco, ou de um enorme buraco.
o que sabem, eles
o dizem, elas
sobre a última porta da
noite,
que o vento era tanto, e
que tanto
hoje,
é o destino deste, agora
alegre,
menino.
19/02/2026, 02:26

