16 março 2026

A árvore é quase uma mão na boca do corpo

A árvore é quase uma mão na boca do corpo, únicos

São os seios da última luz do clitóris, talvez

Amanhã seja o teu sexo uma janela para disfarçar o fogo, do mar

Gélido onde me enforco, e grita o ujo na esquina quase noite


Outra margem, na algibeira do meu desejo, que é a terra dos meus poemas, que foi meu endereço e meu jazigo

E a árvore é quase uma mão na boca do corpo, hoje

A semente que começa a se erguer na flor do meu sol

E quer ser poesia


E quer ser o teu corpo quase espuma na minha cama

Sempre que estiver dentro da chuva o silêncio de uma espada

E vem o fogo

E leva de mim o dia quase um distante olhar.


Ribadouro, 16/03/2026 - 14:17

Talvez

 


O fogo

Claro o fogo que dormia na cama do menino, tem no silêncio o olhar da chuva 

E na mão o dia quase estrela, a lua 

Distante do mar, cada rocha, um sorriso 

Na alvorada 


Ardem também as palavras que foram escritas por uma lágrima de luz, hoje pertencem ao jardim do meu sol 

Procurava nos teus lábios a tarde, sentada na tua boca 

Os teus beijos, espuma do além-mar 

E de outras equações 


E o pincelar do vento 

Na vidraça de um relógio quase gelo quando dorme o corpo na despedida de uma fotografia 

Cada sombra uma mão 

Na vertigem do dia.


Ribadouro, 16/03/2026 - 09:36


o que será, o abstracto medo de te pertencer

o que será, o abstracto medo de te pertencer

e caminhar junto às cascatas, dizer-te

o dizer, que a serpente é apenas o outro lado da lua

no veneno, e na esperança

de também o ser, de também

ter sido criança

 

o que será, se hoje acordar, em ti, o desejar

vencer a corrida, e se erguer perante a divindade

de saber, que o destino, e que o perigo, de ter

de não ter conseguido, também o ser

também procurar em ti, um abrigo

ou até, quem sabe, um outro destino

 

que enquanto fui menino, enquanto

sentia o cheiro da erva, e do musseque que tremia de frio

dentro de mim crescia a sonolência de uma pedra, só

tão só como o são, todas as pedras, sós

no abstracto medo de te pertencer, não o sabendo

até, até o meu nome e o meu viver.

 

16/03/2026, 05:23

15 março 2026

Isto também é poesia - Passadiços de S. Mamede de Ribatua - Alijó

 















(Percurso de aproximadamente 3,5 Km)

poesia

poesia, é sentir o silêncio da água

é olhar o sorriso de uma ribeira, ao longe, e de tão longe

cada degrau um alento, que quase noite, eu me sento

e depois, e depois me deito

cansado, cansado

 

poesia, o orvalho, que são os teu seios, que alimentam os teus seios

mas a noite tudo consome, e vomita

quando é noite, noite em meu esqueleto

e na minha boca, um pedaço de sono

 

15/03/2025, 19:46

14 março 2026

se me pertencesse, o frio de uma lágrima

se me pertencesse, o frio de uma lágrima

na fria lágrima de uma mão, na folha cada que folheia

descobre a proibida palavra, que o vento envia, que semeia, o veneno

que se aperfeiçoa, e que dança

sobra a neve de um engano

 

que descobre o sono dentro de uma caneta, que escreve na chuva

e se me pertencesse, aquele outro frio, no destino rio

sentar-me e te olhar, do outro lado da margam

na esquina de luz crescente de um olhar

não te olhar

 

te ignorando, conversando com o meu outro esqueleto, vem

ao topo da montanha, vem também, pertencer a este frio, a este desdém

vem, vem também acariciar a pétala de cada flor que desenhei

quando ainda brincava na infinita madrugada

vestido de frio de uma lágrima.

 

14/03/2026, 22:12