23 julho 2026

Enlouquecer no teu corpo

Apetecia-me enlouquecer no teu corpo 

Incendiar o teu corpo

Escrevendo nele a equação da energia de Einstein 

Beijar-te tão loucamente 

Como louca é a energia 

Apetecia-me enlouquecer no teu corpo 

Porque a energia é igual à massa ❌ a velocidade da luz ao quadrado

Enlouquecer no teu corpo.


23/07

18:41

A morfina dos teus olhos

(ao meu pai)

 

Sentia na morfina dos teus olhos

Que de mim, pertinho tão pertinho de mim

Que o teu corpo sofria, e que se despedia

Da mão que te afagava as feridas

Que eu te olhava

E que medo eu sentia

Porque eu pensava

Porque eu sabia

Que nunca mais te via,

 

Sentia na morfina dos teus olhos

Que de mim, que eu também sofria

Que eu também chorava

A cada noite, a cada novo dia

E eu sabia, e eu não o queria

Que levasses de mim tudo aquilo que sobrava

Tudo aquilo que eu sentia, que eu não sabia

Que um dia

Que um dia eu por ti chorava,

 

Que um dia, que um dia eu te recordava

No doce teu olhar

Da morfina dos teus olhos

Que eu tanto o sabia

Que um dia

Nunca o deixaria

Deixar de te amar.

 

23/07
07:02

Que nome, outro nome não o pertencer

Que nome, outro nome não o pertencer

À faminta boca, procurando na sombra

A luz e o nome, dos teus seios

Que são silêncios, jardins esculpidos no sol

Poemas os teus seios semeados na algibeira do desejo

Que nome, outro nome e outro beijo

Perguntar aos teus seios, perguntar

À minha boca, e à minha mão

Porque são os teus seios, o pão

E o veneno do mar.

 

Que nome, outro nome eu o dar

Aos teus seios e ao rio que neles se esconde, que tal como os teus seios

Também ele, também ele não tem nome

E a minha boca em fome

Procura na sombra

A luz e o nome, dos teus seios

Sem nome.

 

23/07
06:48

Ao mar, eu vou

Ao mar, eu vou

Dar

Do vento que sobrou

O teu corpo, eu o desejar.

 

Ao mar, eu vou

Levar

Do vento que sobrou

O teu corpo, eu o beijar.

 

Ao mar, eu vou

Amar

Do vento que sobrou

O teu corpo, do meu sonhar.

 

23/07
06:33

22 julho 2026

Ser cigarro

Pergunto ao cigarro ser

O porquê de ter

A alcunha de cigarro assassino

Que este cigarro me quer e que me ama no seu amar destino

Este cigarro a arder

Sofrer este cigarro

O porquê de o ser

 

Ser cigarro o ter

Poisado no invisível cinzeiro

Na brilhante pedra lapidada

E o cigarro no seu esconder

Procura no cortinado

Uma porta

Uma janela

Ou outro cigarro sem o ser

 

Ser cigarro a arder

Ter

O ler

No cigarro que não quer ser

Ser um pobre cigarro a arder

Pergunto ao cigarro ser

A raiz a arder

De três cigarros

Que não sabiam

Que dois cigarros a arder

São o porquê de o ser

Ser cigarro a morrer.

 

22/07
23:10

Minha doce, carcera seara em silêncio

Minha doce, carcera seara em silêncio

O oiro doiro dançando sobre a barcaça, desalmada

Sobe o monte, a roupa esfarrapada

Lança pedras desenhadas, esconde na algibeira

As semente, rejeitadas

 

Despe as calças, ensanguentadas

Vinga-se no primeiro sorriso de luz, e quebra uma janela

Procura na gaveta, o revolver em formato de caneta

Escolhe entre os papeis, a melhor e a mais capaz, bala de cartão

Carrega o revolver, utilizando apenas o olhar da mão

O revolver poema, o revolver sermão

Depois desenha no peito a cruz negra da saudade, fuma o último cigarro

Encosta o aparo da caneta, à têmpora direita

Com o dedo esquecido do cigarro gatilho

Puxa-o

E do outro lado do rio, escuta-a

Ainda estou aqui.

 

22/07
22:51

O teu silêncio em flor

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, a saliva noite

Vencendo a gravidade da ausência, no sentir

Te, eu o ser

A árvore amoreira na janela de um olhar, tão frágil o sentido

O tocar, o sabor do veneno, a viagem

Ao centro da terra

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, o fogo que gela

A mão do primeiro arvorecer, talvez seja apenas

Uma vírgula, talvez seja só

Só um poema em nome do meu escrever, na aldeia

À lareia, e também ela, perdida

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, a saliva noite

Vencendo a gravidade da ausência, o grito, o escrito

Centeio na terra lavrada, na sanzala de uma andorinha, e o balançar

Do capim, golpeando as ardósias e as árvores, e as canções

No outro destino, eu o sentir

Te, em cada sombra da luz virgem da lua

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, meu amor

O desejar, não o ter, nem o sentir

O mar e as lágrimas de um barco, um miúdo sobe os degraus

Desenhados pela noite, dimensionados por um louco poeta, capaz

Cansado de estar, sentado

De o ser

Tão tarde, meu amor, nos meus lábios teus lábios

 

O teu silêncio em flor nos teus lábios a tarde tão, tão tarde, meu amor, nos meus lábios teus lábios em dor.

 

 

22/07
21:30