06 maio 2026
O que restou do mar
Há tempo, há quanto tempo
Há tempo, há quanto tempo
Eu não oiço, amo-te
Há tanto tempo, há quanto
tempo
Eu não oiço, gosto de ti
Há tanto tempo, no tempo
Que os rios deixaram de
correr para o mar
Há tanto tempo, há quanto
tempo
O tempo não é mais o meu amar
No tempo
Há quanto tempo, há tempo
Que eu não oiço, preciso
de ti
E és o tempo do meu
sonhar
Há quanto tempo, no tempo
Há tanto tempo que eu não
tenho um abraço
Despido no tempo, há
quanto tempo
Que eu não oiço, amo-te.
Francisco
06/05
O teu corpo em lágrimas acesas no vento de nortada
O teu corpo em lágrimas acesas no vento de nortada
Que vem a mim trazendo a luz
Trazendo a tua boca
À minha boca,
Na minha boca desgovernada
O teu corpo em lágrimas
Que apenas o silêncio de uma fotografia
Sabe desenhar na terra calcada,
O teu corpo em lágrimas acesas no vento de nortada
Quando o fogo é uma espada
Poisada nos teus seios
Em teus seios madrugada.
Francisco
06/05
05 maio 2026
De ti e em ti senti
De ti
Dentro da última noite de um guarda-chuva acorrentado ao jardim do mar,
Me despeço de ti
E irei sem ti
De ti,
Me despeço do teu olhar
Dos teus lábios
Da tua voz
Que os meus livros sejam um pedaço de mim
Em ti,
Me despeço deste sentir
Amar o mar e odiar o miserável do sem-abrigo
Que sou
Em verso eu me despeço
De ti e em ti senti.
Francisco
05/05
O covarde
um corpo sem viver
um corpo sem viver
um corpo na falésia
suspenso nos ponteiros de
um relógio caduco
quase pó
quase,
só
um corpo sem sentido
sem estrada para caminhar
um corpo sofrido
cansado de amar,
cansado de ser esquecido
pelo mar e pelo sorriso
da lua
um corpo sem viver
viver
na noite fria e nua,
um corpo sem viver
sem o ter
um doido corpo
no corpo de quase morrer
um corpo que odeia,
um corpo que não ama mais
no mais distante voar
ah
este corpo que me
pertence
é um corpo que deixou de
sonhar.
Francisco
05/05
A tarde é quase gelo na minha mão
A tarde é quase gelo na minha mão
O sorriso da tempestade, ausência da tua voz
Simplesmente a luz do mar
Se esconde no teu corpo,
Gosto muito dos teus olhos, minha flor de cerejeira
Na alvorada tela de uma fotografia
Como eu te beijava
Antes, depois, de acordar o dia,
Sentido a tua mão no toque do meu desejo
Ter-te sem medo que eu para ti
Seja apenas um tolo
Vestido de louco.
Francisco
05/05
Emerêncio
Emerêncio tudo teve, da
vida que mereceu
Foi muito feliz, foi tão
feliz que no final morreu
Antes de morrer palmeou
os seios da Alzira adormecida
E teve na mão a flor
desenhada por uma ausência merecida,
Mas Emerêncio tinha no
seu sonhar
Que um dia poderia voar
E que de tanto o sonhar
ficou tolo
E de tão o era tolo que
um dia acordou bolo,
E que depois, muito mais
depois de outro dia acontecer
Emerêncio reparou ao
acordar
Que também o dia estava a
morrer,
E Emerêncio entre a chuva
e a maldição
E já cansado de remar
Percebeu que à tempestade
pertencia o seu coração.
Francisco
05/05
04 maio 2026
o escuro, só
o escuro, só
são cor de mar os seios
cânfaros da madrugada
são janelas de pedra,
lacerando labaredas de néon
enquanto o corpo se
despede da noite, o escuro, só.
são pedras semeadas no
arvoredo em silenciar desespero
o sono é uma argola
suspensa ao pescoço, que pede clemência
a cada espada espetada na
terra, depois
são cor de mar os seios
da madrugada, sós.
o escuro, só.
são gotas de água a
saliva de uma árvore, invisível ao destino
que às vezes, e que
tantas vezes, é comestível
é combustível para a
morte.
e brinca, só, o menino
sem arte, e sem sorte
sem terra para amar…
e o escuro, está só, tão
só como o mar.
Francisco
04/05
03 maio 2026
quando as estrelas estão escondidas
quando as estrelas estão
escondidas
e a noite não te diz a
verdade
e a noite não te escreve
nem a ouves dançar sobre
a geada
quando as estrelas são
lágrimas
e as palavras
meras palavras
aprisionadas
na distância de um olhar.
quando as estrelas são
outros mares
pedaços deste mar
quando as estrelas estão
escondidas
e a noite é uma sonâmbula
flor
na seara de um desejo
quando a noite é uma
estrela
que te esconde a verdade
e te nega o beijo.
quando as estrelas estão
escondidas
e dormem na mentira
e sonham com a difusa
madrugada
quase nada
quase uma espada sobre a
calçada
na noite separada por
janela de luz
ou por um fio de sémen
na cruz.
Francisco
03/05
A espuma de uma fotografia
A minha cama é quase a espuma de uma fotografia
Quando a ausência é o amor da minha sombra
E o pincelar da última noite
Acorda na esquina do meu sol,
Depois regressa o fogo do teu olhar
E tudo o que era escuridão
É agora a tarde disfarçada de manhã
Na mão do poema,
Estou tão triste
Quando o outro relógio é quase também gelo
E fico sem tempo para te sonhar
E te querer.
Francisco
03/05
Foi na última distância do mar
Foi na última distância do mar
Que o livro semeou na tarde
O sorriso da tempestade
Foi na última distância do mar
Que a fogueira da chuva desenhou a árvore
No toque de uma fotografia
A luz do mar
Na vidraça de ontem
Aos meus poemas acreditando na esquina do amar
Cada sombra e cada barco
Um punhado de sangue
Sobre o derramado esperma de uma mágoa.
Francisco
03/05
A espada
Pronta está a espada,
quieto o corpo que sente
Enquanto deitado,
enquanto sólido ardente
Na fogueira de um olhar
Ou no mar
De uma gota de sangue.
A espada apenas poisa no
peito sofrido
Da sombra acabada de nascer
E o corpo sabe que aquele
pingo gélido de sangue
Provocado pela ponta da
espada
Será a porta de acesso ao
sorriso.
O corpo já não se
interessa do corpo que cessa
E se despede do sítio
invisível do alento destino
Que o corpo morre aos
poucos
Como o rio que sobe a
montanha
No adeus de uma vírgula
em delírio.
Francisco
03/05
02 maio 2026
Porque me despeço deste sentir
Porque me despeço deste sentir
Em nada de ser, e de sentir
O que sinto.
Porque me despeço deste sentir
E de quase nada ter, do todo quase gelo
Que a fogueira da chuva poisa em verso
Se o meu sonhar
Não sonhar
E se eu o querer,
Mas se não me querendo nem o amanhecer
Como posso eu viver
Como posso eu sentir
Tanto sofrer.
Francisco
02/05
o gato aurélio
assustado viva o gato
aurélio
do telhado invisível do
abismo
ele escutava a primeira
canção do amanhecer
e fumava e sonhava que um
dia iria ser
nada
o que poderia ser um dia
um gato
um gato ausente e um gato
quase doente
mas aurélio não o queria
saber
todas as noites no
telhado
o gato aurélio escutava a
primeira canção do amanhecer
todas as noites ele
acreditava
ele não dormia
porque aurélio o sabia
e o sentia
que um dia ele seria
gente.
Francisco
02/05
01 maio 2026
Corpo
Este corpo que me foge
Se cansa da vida patética
e fria
Que cada degrau subido
É uma ribeira desenfreada
Magra
Que lia
Na primeira sílaba do
pecado
A solidão
De uma mão
E o eterno corpo cansado,
Que este corpo deixou de
me pertencer
Quase sem vida
Quase sem vontade de
caminhar ou correr ou viver
Que este corpo vagabundo
É a sinfonia sem prazer
Quando a lua é a maresia
E o verbo é foder
Que este corpo é uma velharia
Sem cromados
E janelas eléctricas,
Que este corpo depois de
cremado será cinza
O húmus que fortalecerá a
razão inversa
Do sofrer
Descer
E subir
E me deitar
No chão húmido da minha
aldeia
Que este corpo me chateia
Até que um dia eu consiga
erguer da alvorada
A semente de um novo dia.
Francisco
01/05
O sono
O sono lembra histórias
de brincar,
E sabe, sabe tudo sobre o
esconderijo onde habita o temido destino, e o prometido,
Destinado a ser um
pêndulo, talvez o de Foucault ou outro pêndulo qualquer,
Há sempre um fio, sempre
invisível ao tempo, entre dois pontos de luz, o negro, e o silêncio
E tem a espada na mão
como se fosse uma serpente, ou o trigo,
Que depois é o pão.
Mas o sono tudo sabe
sobre a noite,
Só o sono consegue
inverter as imagens do dia
E as transformar em
outras palavras, semeadas na algibeira da tarde, uns dirão que é poesia,
Outros que nada é,
E outros,
Que a loucura é a distância
entre o pénis e a lua.
Eu? Eu nada,
Nunca entendi o sono, nem
a falange da madrugada,
Nunca fui marinheiro, e
de barco andei meio mundo,
Convencido que as almas
são moedas de oiro
Dentro da barcaça, dentro
da íris
Que sempre acorda, depois
do sono.
Francisco
01/05
30 abril 2026
a lágrima
quando já quase nada faz
sentido
sentir o vento devido
mergulhado no ónus
endividado e tímido
nos confins da ausência
programada
e desejada como que o
delírio
fosse dinheiro
e eu de tão rico estar
porque passo os dias a
delirar
e passo as noites a
escrever
e a desenhar
e a sentir
o vento regressar
e a primavera a chorar
e a saliva sobre a pele
escaldante de uma lágrima
que de tão cansada estar
adormece no meu rosto
e o acaricia
e lhe toca
e eu sei que não estou só
nem louco.
Francisco
30/04
soldado
era só o medo disfarçado
de húmus sitiado
no degredo e na canseira
de estar vivo
era só o juncal e a
proeza de ser
soldado magro e de pouca
riqueza
que tinha sobre a mesa
o sabre e a espingarda
que sempre tinha sido
soldado
soldado em brasa
teve casa
teve o mar
e a escuridão dos dias de
nada ser
e de viver
na espuma de uma lágrima
ah também foi o luar
e teve dentro dele a luz
divina
era só o medo disfarçado
de húmus sitiado
quando a ausência é a
alegria do pobre
que teve uma sebenta nos
tempos de encantar
serpentes e outros
animais
depois de soldado foi
capa dos jornais
e também foi o diabo
vestido de sôfrego
amanhecer
que de tudo aquilo que
foi
o que lhe deu mais prazer
foi ter sido um pobre
diabo
que foi feliz quando
soldado
que teve um rio do
tamanho do universo
e muito frio no regresso.
Francisco
30/04