01 junho 2025
04 janeiro 2025
Talvez um dia o tempo seja o meu tempo
Depois da chuva o meu corpo é esponja
é espuma que divaga e arde na fogueira de um desejo
desejar nada desejar, apenas que a noite seja sempre uma criança
com o sorriso nos lábios
Sou capaz de ter medo de viver, de ser
talvez não sendo, talvez também
não entender que o musseque da minha infância, nunca será mais o musseque da minha infância
E depois da chuva, o que restará de mim?
Talvez um pedaço de capim, um machimbombo em ruinas, algumas fotografias, poucas estrelas daquele tempo, talvez
uma lágrima de alegria,
um poema, uma linda flor em poesia
Talvez um dia
o tempo
seja o meu tempo, aquele relógio que eu trazia
e me disfarçava de vento, e de sono, e de nada;
apenas para que um dia, depois da chuva…
O meu corpo seja esponja,
espuma!
19 dezembro 2024
Quase chuva os teus olhos meu amor
Quase chuva os teus olhos meu amor
Quase vida não vida a minha vida
Quase livro este livro onde me escondo
Onde durmo desassossegado
Quase flor este pedaço de papel
Quase lírio os lírios dos teus lábios
Quase dia do quase fim de noite
Da noite não noite
Da noite deste dia
Quase morte a minha vida
Quase janela este buraco na escuridão
Da quase madrugada
Quase nada
O que sou
E o que nunca fui… Quase chuva os teus olhos meu amor
Este dia quase dia deste dia em dor
09 dezembro 2024
Oceano além em despedida
Noutras latitudes, em outras tantas
longitudes,
Oceano além em despedida,
O mar profundo e tão fundo dentro do meu
peito,
Que de outro mar advém não o saber,
Sabendo que antes da partida
Há uma despedida
E um corpo a sofrer.
21 outubro 2024
flor madrugada
triste, este dia de não sentir
de ser obrigado,
a sorrir,
este dia, dia triste de viver
de estar, e querer partir
para as profundezas da terra.
triste, este dia de não sentir
de ser obrigado
a dormir,
tão triste, este dia embriagado
no silêncio de querer partir…
e ausentar-me de ti, flor madrugada!
21/10/2024
15 outubro 2024
13 outubro 2024
A Bedford amarela
(Texto publicado na revista “O Escritor” nº 11)
Meu
querido Fernando,
Atravessaste
o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias,
meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias
na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te
apenas do silêncio…
Sabes,
meu querido Fernando,
Levavas-me
a olhar os barcos gordos que descansavam no porto de Luanda, pegava na tua mão
e sentia-me o menino dos calções mais feliz de todos os meninos dos calções,
depois, entre pedaços de silêncio, perguntava-te porque…
Porque
choram as acácias, pai?
Dizias-me
que tinham sono, dizias-me que era devido à distância entre a lua e a terra,
mas meu querido Fernando, nunca me disseste que as acácias choravam porque
estavam tristes, porque estavam tristes, meu querido Fernando. E apenas muitos
anos depois percebi o que era a tristeza,
Voavam
como ninguém. Manhã cedo pegavas na Bedford e passeavas-te pelos musseques em
busca de não sei o quê, tal como eu hoje, tal como eu ontem, tal como eu
amanhã, mas nunca percebi porque atravessas-te o rio Congo em direcção ao nada,
Fugias
de quê, Fernando? Das acácias, meu querido?
Lembras-te
Fernando, quando cismei que queria escrever na tua carta de condução e poisaste
devagarinho a tua mão no meu rabo, mas sabes meu querido, teimoso como sou,
teimoso como era, de nada serviram as tuas palmadas, porque o que eu queria
mesmo era escrever na tua carta de condução.
Depois
comecei a rabiscar nas paredes do quarto, da sala, casa de banho e afins; tudo
o que fosse parede, o menino dos calções desenhava, deixava a sua marca. E
ainda hoje, meu querido, e ainda hoje…
Os
pássaros partiram e levaram todos os barcos gordos, dos caixotes em madeira,
sobejaram apenas algumas letras em tinta encarnada onde se podia ler PORTUGAL;
e de Portugal enviamos um grande beijinho para todos, e uma linguiça para não
se esquecerem dos sabores da nossa terra.
E
sabes, meu querido Fernando, nunca entendi porque atravessaste o rio Congo em
direcção ao nada, do que fugias, meu querido?
Das
lágrimas das bananeiras? Da tristeza? Das acácias?
E
havia sempre um pedaço de papel poisado sobre a mesa. Havia sempre um barco
encalhado dentro de mim, dentro de ti, dentro dela…
Barcos,
meu querido. Barcos.
A
Bedford engasgava-se, o avô Domingos passava horas a passear um velho
machimbombo pelas ruas de Luanda, a mãe passava as tardes a construir papagaios
em papel e eu, o menino dos calções, passava as tardes a fazer vestidos para o
meu grande amigo chapelhudo. Mas, meu querido Fernando, do que fugias? Como eu…
Atravessaste
o rio,
Tínhamos
medo das acácias, tínhamos medo do sono que o cacimbo provocava em nós e nos
transportava para as pequenas sílabas do capim envenenado pela saudade,
E
anos mais tarde, como tu, meu querido Fernando, fui obrigado a mentir-te, fui
obrigado a dizer-te que estava tudo bem, mas não estava, meu querido, como
poderia estar se já tinhas a morte suspensa nos ombros. Menti-te, depois fui
obrigado a mentir à mãe, pela mesma razão,
Desculpa
meu querido, desculpa ter-te mentido, mas foi melhor assim,
Olhava-te
como quando me levavas a ver os barcos gordos, só que tu te afundavas aos
poucos, e os barcos gordos dançavam sobre a ondulação marítima. Minutos
intermináveis que pareciam dias, cigarros, cigarros, cigarros de mentira.
E
enquanto te afundavas no Oceano da dor e das chagas que alimentavam o teu
corpo, recordava as manhãs de Domingo junto aos barcos gordos, recordava a
Bedford amarela, de musseque em musseque, e ao longe, o rio Congo.
Depois,
desapareceste entre as nuvens. E nunca mais te vi.
Sabes,
meu querido Fernando, nunca percebi porque atravessaste o rio Congo, mas
percebo hoje porque trazias na carteira a fotografia da avó Valentina e a
minha; e mentia-te. Escrevi a mentira em vós para enganar a saudade; e claro
que não estava tudo bem.
Como
poderia estar tudo bem se os barcos gordos hoje são apenas sucata e pedaços de
limalha.
Porquê,
meu querido?
Porquê
as acácias?
E
dentro dos cigarros em metástase, ouviam-se as lágrimas das tardes junto ao teu
leito; desculpa a mentira, meu querido; mas acredita que estava tudo bem.
Tudo
bem, como hoje.
Os
barcos, pai. Tínhamos o silêncio e o gemido do capim quando após a chuva um
pequeno mabeco vinha a nós, e tu, e tu desenhavas-me o sol no chão lamacento e
com odor a fogo,
Porquê,
meu querido?
Porquê
as acácias?
E
claro que sim, meu querido Fernando, quando regressavas a casa na Bedford
amarela, eu esperava-te no portão de entrada, á espera do teu abraço,
Depois,
Davas-me
um beijo e escondias-te no cansaço do dia.
Erguia-se
a noite em ti, despedia-se a tarde de mim, e pai, as acácias choravam,
Porque
choravam as acácias, pai?
(atravessaste
o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias,
meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias
na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te
apenas do silêncio…)
Porquê,
pai?
Francisco Luís Fontinha
15 setembro 2024
às vezes, como sopa, às
vezes
quase sempre, agora
como fruta;
dizem que faz muito bem
ao intestino, e isto
de andar
com obstipação poética
não é
nada
mesmo nada
fácil.
cuido-me, às vezes. mas
deixar de fumar…
acredito que mesmo que
tivesse cancro de pulmão, como teve a minha mãe,
que nunca,
nunca fumou,
eu
eu não deixava de fumar.
dá-me prazer fumar.
dá-me prazer fazer amor e
escrever no corpo dela
o mais belo poema de
prazer.
dá-me prazer
em ter prazer
de ler,
gosto de ler poesia, e se
gosto!
dá-me prazer,
pensar.
quando me dizem que sou
tolo
e para não pensar,
mas se eu não pensar
morro; quem tanto mal me
quer em querer que eu não pense…!
dá-me prazer, ver o mar
beijar
também me dá prazer,
e claro
no final do dia
o uísque saborear os meus
lábios,
que também me dá prazer.
e oiço a tua voz;
desejo-te, francisco!
12 setembro 2024
Raiz quadrada
Às vezes, penso, penso em
como será a derivada do teu olhar
Às vezes, penso
Penso em como será a
liberdade dos teus lábios,
Ou a integral tripla de
superfície do teu cabelo.
Às vezes, penso…
Penso em como será a raiz
quadrada dos teus beijos,
Às vezes, às vezes,
penso,
Penso em como será
resolver a equação diferencial das tuas mãos…
Isto é, se algum dia eu
for capaz de resolver a equação diferencial das tuas mãos.
11 setembro 2024
Se a noite me quer tanto,
porque não me leva para uma outra noite, para outro mar, outro lugar.
Distante, o corpo parece
uma jangada, verga-se em frente às rochas,
Se a noite me levar, que
seja hoje
Que seja logo. Junto à
noite.
Se a noite me quer, se a
noite me levar, que leve também o dia, a tarde, e os fins de tarde,
Com este livro, na mão.
Se a noite me quer e me
dá insónia, que seja hoje, a viagem, sem regresso
Que seja tarde no dia,
que seja uma hora digna de dormir, de te abraçar,
As estrelas mergulhadas
no silêncio, da noite, que me quer levar.
Se a noite me quer.
Eu irei, para onde ela
quiser,
Mesmo que seja longe do
mar.
09 setembro 2024
São as tuas mãos a
encarnação da Primavera, são as tuas mãos, a galáxia e o afagar do meu rosto,
São os teus beijos nas
costas, antes de cerrares os olhos,
No leito em desejo.
São as tuas palavras,
quando me apetece esconder da multidão, que me acalmam, que me dão esperança
De pegar na tua mão, e de
sonhar,
E de amar-te sabendo que
sempre que eu precisar
Me abraças, me dás o mar.
São as tuas mãos, o
primeiro carinho do amanhecer
Depois da noite voar
E poisar nos teus olhos.
São as tuas mãos, o semear em mim
A alegria de voar,
E deixar um beijo, no teu
travesseiro.
08 setembro 2024
A ETAR DE ALIJÓ CHEIRA INTENSAMENTE A MERDA
Sentia-me camuflado dentro deste orifício sem nome
Algumas vezes, não
muitas, oiço o som de um piano, oiço também
O estilhaçar de um vidro.
E o disparo de uma
espingarda de sono; dispara insónias
Contra as flores do
jardim.
Fugiram cinco gajos de
uma cadeia de alta segurança e imagino
Se a cadeia fosse de
baixa segurança,
Adiante, o poeta tem mais
que fazer, não fazer comentários a fugitivos.
E ainda bem que falo em fugitivos,
porque às vezes,
Eu mesmo, pareço um
fugitivo
Que foge,
Sem saber do que foge.
Que se esconde, sem saber
porque se esconde,
Quando se ergue a noite
sobre a seara do silêncio.
A loira espiga do desejo,
faz lembrar-me as minhas antigas sandálias de couro,
O que eu corria debaixo
das mangueiras, o triciclo cambaleando de sono, e algures,
O meu melhor amigo, o
chapelhudo.
O rio desiste da minha
algibeira, e vai para o mar.
Fui assistir ao concerto
de GNR, com a Cristina, apenas que foi divinal e adoramos,
Encontrei uma colega de
liceu que não via há mais de trinta anos, era muito boa a português e que hoje
é professora.
Viemos de Favaios, fomos
virar à ETAR, e é um cheiro a MERDA que não se aguenta. Senhores do Município
de Alijó, resolvam esta situação rapidamente.
Já não bastava a merda
que por aqui há, ainda mais
O cheiro intenso a MERDA
da ETAR de ALIJÓ.
Regresso aos teus braços,
e não sinto raiva, ou outra coisa qualquer. Regresso aos teus braços
E pareço aquele menino
cinzento, que vestia calções e calçava umas sandálias em couro; parece que
estou a ver o sorriso desse menino.
A mãe desse menino
parecia ela também uma menina, de vestido curtinho, subia à mangueira para
retirar o meu papagaio que tinha ficado preso. Parece que ainda oiço esse
sorriso… quando acorda o vento.
Talvez ainda faça amor
hoje, ou apenas ficar lá
A ouvir os batimentos do
outro.
Hoje não li. Há meses que
o não fazia, mas não encontro explicação.
Pincelo a noite com as
minhas mãos nos teus seios, mergulho no teu cabelo, oiço o som da tua pele, que
me deseja,
Tal como eu desejo o
poema, escrito na tua boca.
Beijo-te, abraço-te
acreditando que pertences às estrelas do solar,
Quando o meu corpo poisa sobre
o teu
Explode de sémen num cansaço
de prazer,
O escrever,
Na tua nádega,
Amo-te.
Podia já ser dia, podia.
E se não fosse a noite, o
que seria
Do dia,
Sem poesia.
O que seria de mim,
Sem ti,
Quando sinto na minha mão
O teu seio cansado
Pela distância de um
beijo.
Eu juro por deus, e eu
que não acredito em deus, juro que eu não queria escrever, não queria, mas
dentro de mim à uma explosão de palavras, de imagens,
De cores,
De ruas,
De lábios,
De corpos deitados numa
cama. Imagino o Al Berto a ser enrabado pelo amante,
E fico aqui sentado à
espera de que o rio, volte do mar,
Novamente
Para a minha algibeira.
Quase que não sei quem sou.
E podia ser tanta coisa,
Novamente o senhor Álvaro
de Campo na sua Tabacaria; e eu imagino-o à janela a ver o Esteves, que fuma.
Tirando isso, apenas que
o gato que detesto que pertence à minha vizinha,
Anda triste. Sinto-o
quando o olho como o sinto quando olho um amigo ou uma amiga,
Que quase,
Não tenho. Tive muitos e
muitas, mas hoje
Hoje, nada.
Uma e cinquenta. Lá fora há
estrelas. Olhei-as enquanto fumei um pequeno charro. Lembrei-me do Gomes; era
um tipo muito chato, mas eu gostava e gosto muito dele.
Mas a vida é assim. Os meus
melhores amigos, morreram.
Morreu o meu pai de
cancro. Quatro anos depois
Morreu a minha mãe,
Também ela
De cancro.
E eu vivo no medo,
Do cancro.
Não suporto a palavra. Nada.
Tenho medo.
É horrível ficar em
pedaços… e que voam nos braços da morfina.
(se me ouves, mãe, eu
estou bem. Acredita.)
07 setembro 2024
e ao longe o mar de verdade
Procurei-te entre ruas
e ruelas da cidade
fui ao mar
caminhei sobre a areia
preguiçosa da tarde
procurei-te
e não encontrei os versos
dos teus lábios
procurei-te
e ao longe o mar de
verdade
hoje nos teus cabelos
loiros (loiros com silêncios de castanho)
no vento
em seara de desejo
procurei-te
e encontrei o teu perfume
embrulhado no teu sorriso
fui ao mar
hoje
hoje de verdade.
O comandante deste navio está bêbado. Completamente, bêbado. Mas pensando bem, para que quer este navio,
Um comandante,
Bêbado?
Este navio não precisa de
comandante. Este navio sempre navegou em piloto automático, depois das seis
Na Ribadouro, sobre a
mesa um livro de poemas, um cigarro dispersa-se no quase fim de tarde, oiço-a
sonolenta como o vento, e linda como a madrugada.
O povo pensa que sou
louco, o povo pensa…
Penso em tanta coisa,
como o senhor Álvaro de Campos no poema
A Tabacaria,
E lá está ele,
O Esteves.
Podia ser dia, podia ser
apenas um pedacinho de beijo, junto ao rio,
Carecendo de medo. O capuz
ergue-se na penumbra, na mão transporta a espada com que me decapitou e, no
entanto,
Dizem que ele ainda
procura as estrelas da meia-noite.
Coitado. Coitado do
Esteves, embrulhado no seu cigarro, escondendo os chocolates da menina, e
depois
Depois, nada.
Fui à janela. E acreditando
nos meus olhos, diria que esta pincelada maré parece um areal sonolento em
busca de parceiro para enganar a noite.
Já não sei quem sou. Há muito
que não sei quem é o comandante deste naufragado navio, em cartão prensado, numa
qualquer madrugada
Do calendário.
E também não sei
Quem era.
Quem era eu,
Ontem?
Quando o hoje morreu
dentro de um copo de uísque.
Hesito. Apetecia-me uma pêra
ou uma maçã ou uma sandes de salpicão,
Olha…
Prefiro um poema de Al
Berto.
E um copo de uísque.
Tenho medo da vaidade, e
nunca, e nunca fui vaidoso. Tenho medo do vento, e adorava voar,
No teu cabelo,
Dizem-me, dizem-me que é
lindo!
Se a minha mãe fosse
viva, dir-me-ia
O que escreves a esta
hora, meu filho!
Merdas, mãe, merdas sem
sentido.
Ela olhava-me e sempre me
dizia,
Não tenhas medo meu
filho,
Porque um dia…
E calava-se.
FIM
05 setembro 2024
O menino
Me enrolo nesta sombra de silêncio, primeiro capítulo do meu testamento,
Morria-me nas mãos.
Foi-se. Levantou voo e
num arrepiante sentimento sem comer, deita-se sobre o rio,
Ergue-se a espada
apontada ao destino,
Menino,
Determinado a comer todos
os pedaços de noite,
Aqueles a quem diriam que
o dia era a pirâmide do sonho,
Atropelou-o empurrando-o
até às esquinas dos prédios em ruina, depois
Sentia-se tão triste
quando olhava no espelho,
O MME, que não sei o que
é, mais oiço-o por aqui.
Já não sei o que ia a dizer.
Adiante. Siga a marinha mercante em direcção a Marrocos. AVANTE para a frente,
e não caias sobre as pedras lapidadas de deus. Que deus o tenha no seu eterno
descanso.
Mas que descanso?
Um gajo trabalha uma vida
inteira e depois,
Morre e chega ao céu,
E vai continuar a
trabalhar, sendo escravo de deu. Pois lá em cima deve haver muito trabalho para
realizar, e claro
Não renumerado. Parece que
deus, dizem, já não paga aos trabalhadores há muito, muito tempo.
E eu estou sem tempo.
Com muito tempo para ir a
Lisboa e ficar
Por lá,
De onde nunca devia ter
saído.
Escorreito, ele.
Eu sentava-me sobre uma
pedra. Desleixava-me, não me vestia e sentia
Os pingos das putas,
Quando a chuva cai sobre
a sanzala. O capim fumava nas traseiras da palhota, um gato, qualquer coisa a
rimar
Com mato,
Continuando,
O gato era marreco,
sofria das patas e
Fumava.
Mas deixou de fumar
No fatídico dia em que
nasceu um menino num domingo de Janeiro, já andava de bicicleta à volta das
cubatas, e lia
Poesia, depois do lanche.
O barco tremia de frio. O
frio, também tremia,
De cio,
Quando o maldito do rio
Se afoga no mar.
Morreu, de quê?
Parece que tinha umas
pequenas sombras
No fígado.
Sem cartão de cidadão,
nada feito menina.
PRÓXIMO.
Ouviam-se os cortinados
deambulando pela cidade à procura do tal destino,
Que só o menino,
O tal, aquele safado,
Dentro de um caixote de
enguias, mergulhava
E trazia na boca moedas e
oiro,
Verdade.
Eu vi na Madeira em 1971,
tinha passado pelas Canárias, e São Tomé e Príncipe,
Coisa de miúdos, que
estão sempre a sonhar
E
A inventar. Coisas.
Ao invés do sossego,
desassossegou-se numa plataforma de ciúme sobre a praia de antigamente.
Tive um burro que ao
Domingo estudava canto. Às terças-feiras sentava-se numa pedra
E fazia paralelos. Molas para
a roupa e paralelos.
O pior era às
segundas-feiras,
Embrulhava-se no tédio,
migrava como uma lâmpada debaixo de um coqueiro,
Ao longe,
O Mussulo
Comendo amêndoas de
chocolate. Ele é friorento. E é lento.
Coitado, dele.
Enforcado numa árvore, sem
que nunca soubesse, que as sandálias eram em couro,
E eu,
Era tão livre, tão livre como
são os sonhos.
De que cor
São
Os vossos sonhos, à sexta-feira?
04 setembro 2024
O destino
O destino estava-lhe traçado no dia em que descia a montanha e um pássaro vestido de noite, abraçou-o
E nunca ninguém o tinha
abraçado, tão forte e doce,
Como a noite.
Desconfiou. Temeu o pior.
Dizia-se por aqueles lados,
de quando em quando, que uma vez por ano, a noite, abraçava aquele que em breve
partiria para o reino dos céus. Horácio não queria acreditar no que iria
acontecer
Ao seu filho e único. Como
o poeta.
Que não é. Nunca o foi. Nunca
o será
Poeta. Poeta, não. Meu querido
filho. Pareceis mendigos vestidos de palavras
Poeta não, meu filho.
A carroça dormitava sobre
as lajes da eira. O tio Serafim enganava a tarde com um copo de verde ou
morangueiro e dentro de um pedaço de broa de milho
Queijo de cabra. Adorava.
Dá um pequeno gole de
uísque, poisa a mão sobre a mesa e puxa de um cigarro, pensa e acende-o
enquanto ouve o Oceano Pacifico da RFM. Poeta mais louco, não. Meu filho.
Poeta nunca.
A noite agora, é uma puta
travestida de luzes, enzóis e chapéus-de-chuva.
Tenho medo do frio,
chorava ele. Fernando, o piqueno vai morrer de frio.
Temos de dar um jeito. As
coisas vão melhorar,
Chovia lágrimas dentro de
casa.
E a noite não passa de
uma puta e de uma galdéria de carrossel.
Tínhamos tudo, e hoje
apenas meia dúzia de livros, e quem quer livros,
Horácio
Chorava também. Mas por
outros motivos.
O piqueno crescia, os
sapatos
Às vezes,
Ficavam curtos, mas tudo
bem. Amavam-me.
E hoje sou apenas um
pedaço desta noite, que nunca sei, quando termina, se é que alguma vez deixará
de ser noite,
Em mim.
O rapaz brincava no mar
sito num primeiro andar caquéctico mais parecendo um petroleiro em decomposição
Putrefacto, como o poeta.
E o rapaz, ao longe,
avistava o Mussulo.
A areia branca do Mussulo.
O tio Serafim, ao fim de
dois anos de ausência da aldeia, andando por Lisboa a coçar os tomates,
regressa, de fatinho branco e de palhinhas não mão, sorria
E
Oi?
O homem fez acreditar
meia aldeia que estava a regressar do Rio de Janeiro.
E se isto não for verdade
Eu morra aqui,
Sentado nesta cadeira. Na
cozinha. A saborear o meu uísque.
Às vezes tenho saudades
do meu pai. E hoje ainda mais. Gostava de ter falado com ele sobre drogas e outras
merdas,
mas o meu pai estava
sempre ocupado
A salvar os outros. Não o
condeno. Louvo-o.
O Horácio tremia de frio
silêncio.
A minha mãe aturava as
minhas loucuras e conversávamos sobre drogas e deus. Nunca chegamos a acordo. Quanto
a deus, ela acreditava, eu não acreditava nem acredito.
Quanto às drogas,
Isso faz-te mal, meu
filho.
Deixa isso. Faz isso por
mim.
Ele fez isso por ela.
Mas onde está ela, hoje!
O pobre do silêncio
sempre a pedinchar à solidão
Traços de alumínio,
E alguns caracóis.
Oi? Menina, como você
cresceu…
O tio Serafim cantava bem
o fado, eu, odiava e odeio. Ao cair da noite, junto ao campo de milho,
pedacinhos de sombras dançavam sobre a noite,
E eu,
Tio Serafim, o que é
aquilo?
São as musas dos poetas.
Fiquei a perceber o
mesmo. Subi a rampa e fui dormir. Estava de férias em casa do meu avô Domingos.
O Horácio acreditava que
se conseguisse levar o filho da aldeia antes que regressasse a noite,
Talvez ele não fosse já
este ano para o reino dos céus. Traçou um plano.
Chamou todos os pássaros
e juntos levariam o filho de Horácio para longe da noite.
Puxaram. Puxaram. E era
quase noite, e o filho do Horácio ainda estava junto à praia.
Até que apareceu uma
menina loira, de olhos azuis como o mar…, olhou o filho de Horácio e
Quase que por magia,
Levou o filho de Horácio para
longe da noite.
(não sei se publico este
texto)












