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04 janeiro 2025

Talvez um dia o tempo seja o meu tempo

Depois da chuva o meu corpo é esponja

é espuma que divaga e arde na fogueira de um desejo

desejar nada desejar, apenas que a noite seja sempre uma criança

com o sorriso nos lábios


Sou capaz de ter medo de viver, de ser

talvez não sendo, talvez também

não entender que o musseque da minha infância, nunca será mais o musseque da minha infância


E depois da chuva, o que restará de mim?


Talvez um pedaço de capim, um machimbombo em ruinas, algumas fotografias, poucas estrelas daquele tempo, talvez

uma lágrima de alegria,

um poema, uma linda flor em poesia


Talvez um dia

o tempo

seja o meu tempo, aquele relógio que eu trazia

e me disfarçava de vento, e de sono, e de nada;

apenas para que um dia, depois da chuva…

O meu corpo seja esponja,

espuma!


19 dezembro 2024

Quase chuva os teus olhos meu amor



Quase chuva os teus olhos meu amor

Quase vida não vida a minha vida

Quase livro este livro onde me escondo

Onde durmo desassossegado


Quase flor este pedaço de papel

Quase lírio os lírios dos teus lábios

Quase dia do quase fim de noite

Da noite não noite


Da noite deste dia

Quase morte a minha vida

Quase janela este buraco na escuridão

Da quase madrugada 


Quase nada

O que sou

E o que nunca fui… Quase chuva os teus olhos meu amor

Este dia quase dia deste dia em dor 


09 dezembro 2024

Oceano além em despedida

 

Noutras latitudes, em outras tantas longitudes,

Oceano além em despedida,

O mar profundo e tão fundo dentro do meu peito,

Que de outro mar advém não o saber,

Sabendo que antes da partida

Há uma despedida

E um corpo a sofrer.

21 outubro 2024

flor madrugada

 

triste, este dia de não sentir

de ser obrigado,

a sorrir,

este dia, dia triste de viver

de estar, e querer partir

para as profundezas da terra.

 

triste, este dia de não sentir

de ser obrigado

a dormir,

tão triste, este dia embriagado

no silêncio de querer partir…

 

e ausentar-me de ti, flor madrugada!

 

21/10/2024

13 outubro 2024

A Bedford amarela

(Texto publicado na revista “O Escritor” nº 11)

 

Meu querido Fernando,

Atravessaste o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias, meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te apenas do silêncio…

Sabes, meu querido Fernando,

Levavas-me a olhar os barcos gordos que descansavam no porto de Luanda, pegava na tua mão e sentia-me o menino dos calções mais feliz de todos os meninos dos calções, depois, entre pedaços de silêncio, perguntava-te porque…

Porque choram as acácias, pai?

Dizias-me que tinham sono, dizias-me que era devido à distância entre a lua e a terra, mas meu querido Fernando, nunca me disseste que as acácias choravam porque estavam tristes, porque estavam tristes, meu querido Fernando. E apenas muitos anos depois percebi o que era a tristeza,

Voavam como ninguém. Manhã cedo pegavas na Bedford e passeavas-te pelos musseques em busca de não sei o quê, tal como eu hoje, tal como eu ontem, tal como eu amanhã, mas nunca percebi porque atravessas-te o rio Congo em direcção ao nada,

Fugias de quê, Fernando? Das acácias, meu querido?

Lembras-te Fernando, quando cismei que queria escrever na tua carta de condução e poisaste devagarinho a tua mão no meu rabo, mas sabes meu querido, teimoso como sou, teimoso como era, de nada serviram as tuas palmadas, porque o que eu queria mesmo era escrever na tua carta de condução.

Depois comecei a rabiscar nas paredes do quarto, da sala, casa de banho e afins; tudo o que fosse parede, o menino dos calções desenhava, deixava a sua marca. E ainda hoje, meu querido, e ainda hoje…

Os pássaros partiram e levaram todos os barcos gordos, dos caixotes em madeira, sobejaram apenas algumas letras em tinta encarnada onde se podia ler PORTUGAL; e de Portugal enviamos um grande beijinho para todos, e uma linguiça para não se esquecerem dos sabores da nossa terra.

E sabes, meu querido Fernando, nunca entendi porque atravessaste o rio Congo em direcção ao nada, do que fugias, meu querido?

Das lágrimas das bananeiras? Da tristeza? Das acácias?

E havia sempre um pedaço de papel poisado sobre a mesa. Havia sempre um barco encalhado dentro de mim, dentro de ti, dentro dela…

Barcos, meu querido. Barcos.

A Bedford engasgava-se, o avô Domingos passava horas a passear um velho machimbombo pelas ruas de Luanda, a mãe passava as tardes a construir papagaios em papel e eu, o menino dos calções, passava as tardes a fazer vestidos para o meu grande amigo chapelhudo. Mas, meu querido Fernando, do que fugias? Como eu…

Atravessaste o rio,

Tínhamos medo das acácias, tínhamos medo do sono que o cacimbo provocava em nós e nos transportava para as pequenas sílabas do capim envenenado pela saudade,

E anos mais tarde, como tu, meu querido Fernando, fui obrigado a mentir-te, fui obrigado a dizer-te que estava tudo bem, mas não estava, meu querido, como poderia estar se já tinhas a morte suspensa nos ombros. Menti-te, depois fui obrigado a mentir à mãe, pela mesma razão,

Desculpa meu querido, desculpa ter-te mentido, mas foi melhor assim,

Olhava-te como quando me levavas a ver os barcos gordos, só que tu te afundavas aos poucos, e os barcos gordos dançavam sobre a ondulação marítima. Minutos intermináveis que pareciam dias, cigarros, cigarros, cigarros de mentira.

E enquanto te afundavas no Oceano da dor e das chagas que alimentavam o teu corpo, recordava as manhãs de Domingo junto aos barcos gordos, recordava a Bedford amarela, de musseque em musseque, e ao longe, o rio Congo.

Depois, desapareceste entre as nuvens. E nunca mais te vi.

Sabes, meu querido Fernando, nunca percebi porque atravessaste o rio Congo, mas percebo hoje porque trazias na carteira a fotografia da avó Valentina e a minha; e mentia-te. Escrevi a mentira em vós para enganar a saudade; e claro que não estava tudo bem.

Como poderia estar tudo bem se os barcos gordos hoje são apenas sucata e pedaços de limalha.

Porquê, meu querido?

Porquê as acácias?

E dentro dos cigarros em metástase, ouviam-se as lágrimas das tardes junto ao teu leito; desculpa a mentira, meu querido; mas acredita que estava tudo bem.

Tudo bem, como hoje.

Os barcos, pai. Tínhamos o silêncio e o gemido do capim quando após a chuva um pequeno mabeco vinha a nós, e tu, e tu desenhavas-me o sol no chão lamacento e com odor a fogo,

Porquê, meu querido?

Porquê as acácias?

E claro que sim, meu querido Fernando, quando regressavas a casa na Bedford amarela, eu esperava-te no portão de entrada, á espera do teu abraço,

Depois,

Davas-me um beijo e escondias-te no cansaço do dia.

Erguia-se a noite em ti, despedia-se a tarde de mim, e pai, as acácias choravam,

Porque choravam as acácias, pai?

(atravessaste o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias, meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te apenas do silêncio…)

Porquê, pai?

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

15 setembro 2024

 

às vezes, como sopa, às vezes

quase sempre, agora

como fruta;

dizem que faz muito bem ao intestino, e isto

de andar

com obstipação poética

não é

nada

mesmo nada

fácil.

 

cuido-me, às vezes. mas deixar de fumar…

acredito que mesmo que tivesse cancro de pulmão, como teve a minha mãe,

que nunca,

nunca fumou,

eu

eu não deixava de fumar.

 

dá-me prazer fumar.

dá-me prazer fazer amor e escrever no corpo dela

o mais belo poema de prazer.

dá-me prazer

em ter prazer

de ler,

gosto de ler poesia, e se gosto!

 

dá-me prazer,

pensar.

quando me dizem que sou tolo

e para não pensar,

mas se eu não pensar

morro; quem tanto mal me quer em querer que eu não pense…!

 

dá-me prazer, ver o mar

beijar

também me dá prazer,

e claro

 

no final do dia

o uísque saborear os meus lábios,

que também me dá prazer.

e oiço a tua voz;

desejo-te, francisco!

12 setembro 2024

Raiz quadrada

 

Às vezes, penso, penso em como será a derivada do teu olhar

Às vezes, penso

Penso em como será a liberdade dos teus lábios,

Ou a integral tripla de superfície do teu cabelo.

 

Às vezes, penso…

Penso em como será a raiz quadrada dos teus beijos,

Às vezes, às vezes, penso,

Penso em como será resolver a equação diferencial das tuas mãos…

Isto é, se algum dia eu for capaz de resolver a equação diferencial das tuas mãos.

11 setembro 2024

 

Se a noite me quer tanto, porque não me leva para uma outra noite, para outro mar, outro lugar.

Distante, o corpo parece uma jangada, verga-se em frente às rochas,

Se a noite me levar, que seja hoje

 

Que seja logo. Junto à noite.

Se a noite me quer, se a noite me levar, que leve também o dia, a tarde, e os fins de tarde,

Com este livro, na mão.

 

Se a noite me quer e me dá insónia, que seja hoje, a viagem, sem regresso

 

Que seja tarde no dia, que seja uma hora digna de dormir, de te abraçar,

As estrelas mergulhadas no silêncio, da noite, que me quer levar.

Se a noite me quer.

Eu irei, para onde ela quiser,

Mesmo que seja longe do mar.

09 setembro 2024

 

São as tuas mãos a encarnação da Primavera, são as tuas mãos, a galáxia e o afagar do meu rosto,

São os teus beijos nas costas, antes de cerrares os olhos,

No leito em desejo.

 

São as tuas palavras, quando me apetece esconder da multidão, que me acalmam, que me dão esperança

De pegar na tua mão, e de sonhar,

E de amar-te sabendo que sempre que eu precisar

 

Me abraças, me dás o mar.

São as tuas mãos, o primeiro carinho do amanhecer

Depois da noite voar

 

E poisar nos teus olhos. São as tuas mãos, o semear em mim

A alegria de voar,

E deixar um beijo, no teu travesseiro.

08 setembro 2024

A ETAR DE ALIJÓ CHEIRA INTENSAMENTE A MERDA

Sentia-me camuflado dentro deste orifício sem nome

Algumas vezes, não muitas, oiço o som de um piano, oiço também

O estilhaçar de um vidro.

E o disparo de uma espingarda de sono; dispara insónias

Contra as flores do jardim.

Fugiram cinco gajos de uma cadeia de alta segurança e imagino

Se a cadeia fosse de baixa segurança,

Adiante, o poeta tem mais que fazer, não fazer comentários a fugitivos.

E ainda bem que falo em fugitivos, porque às vezes,

Eu mesmo, pareço um fugitivo

Que foge,

Sem saber do que foge.

Que se esconde, sem saber porque se esconde,

Quando se ergue a noite sobre a seara do silêncio.

A loira espiga do desejo, faz lembrar-me as minhas antigas sandálias de couro,

O que eu corria debaixo das mangueiras, o triciclo cambaleando de sono, e algures,

O meu melhor amigo, o chapelhudo.

O rio desiste da minha algibeira, e vai para o mar.

 

Fui assistir ao concerto de GNR, com a Cristina, apenas que foi divinal e adoramos,

Encontrei uma colega de liceu que não via há mais de trinta anos, era muito boa a português e que hoje é professora.

Viemos de Favaios, fomos virar à ETAR, e é um cheiro a MERDA que não se aguenta. Senhores do Município de Alijó, resolvam esta situação rapidamente.

Já não bastava a merda que por aqui há, ainda mais

O cheiro intenso a MERDA da ETAR de ALIJÓ.

 

Regresso aos teus braços, e não sinto raiva, ou outra coisa qualquer. Regresso aos teus braços

E pareço aquele menino cinzento, que vestia calções e calçava umas sandálias em couro; parece que estou a ver o sorriso desse menino.

A mãe desse menino parecia ela também uma menina, de vestido curtinho, subia à mangueira para retirar o meu papagaio que tinha ficado preso. Parece que ainda oiço esse sorriso… quando acorda o vento.

 

Talvez ainda faça amor hoje, ou apenas ficar lá

A ouvir os batimentos do outro.

Hoje não li. Há meses que o não fazia, mas não encontro explicação.

Pincelo a noite com as minhas mãos nos teus seios, mergulho no teu cabelo, oiço o som da tua pele, que me deseja,

Tal como eu desejo o poema, escrito na tua boca.

Beijo-te, abraço-te acreditando que pertences às estrelas do solar,

Quando o meu corpo poisa sobre o teu

Explode de sémen num cansaço de prazer,

O escrever,

Na tua nádega,

Amo-te.

 

Podia já ser dia, podia.

E se não fosse a noite, o que seria

Do dia,

Sem poesia.

O que seria de mim,

Sem ti,

Quando sinto na minha mão

O teu seio cansado

Pela distância de um beijo.

Eu juro por deus, e eu que não acredito em deus, juro que eu não queria escrever, não queria, mas dentro de mim à uma explosão de palavras, de imagens,

De cores,

De ruas,

De lábios,

 

De corpos deitados numa cama. Imagino o Al Berto a ser enrabado pelo amante,

E fico aqui sentado à espera de que o rio, volte do mar,

Novamente

Para a minha algibeira.

 

Quase que não sei quem sou. E podia ser tanta coisa,

Novamente o senhor Álvaro de Campo na sua Tabacaria; e eu imagino-o à janela a ver o Esteves, que fuma.

 

Tirando isso, apenas que o gato que detesto que pertence à minha vizinha,

Anda triste. Sinto-o quando o olho como o sinto quando olho um amigo ou uma amiga,

Que quase,

Não tenho. Tive muitos e muitas, mas hoje

Hoje, nada.

 

Uma e cinquenta. Lá fora há estrelas. Olhei-as enquanto fumei um pequeno charro. Lembrei-me do Gomes; era um tipo muito chato, mas eu gostava e gosto muito dele.

Mas a vida é assim. Os meus melhores amigos, morreram.

Morreu o meu pai de cancro. Quatro anos depois

Morreu a minha mãe,

Também ela

De cancro.

E eu vivo no medo,

Do cancro.

Não suporto a palavra. Nada. Tenho medo.

 

É horrível ficar em pedaços… e que voam nos braços da morfina.

 

(se me ouves, mãe, eu estou bem. Acredita.)

07 setembro 2024

e ao longe o mar de verdade

Procurei-te entre ruas

e ruelas da cidade

fui ao mar

caminhei sobre a areia preguiçosa da tarde

procurei-te

e não encontrei os versos dos teus lábios

 

procurei-te

e ao longe o mar de verdade

hoje nos teus cabelos loiros (loiros com silêncios de castanho)

no vento

em seara de desejo

procurei-te

e encontrei o teu perfume

embrulhado no teu sorriso

 

fui ao mar

hoje

hoje de verdade.

O comandante deste navio está bêbado. Completamente, bêbado. Mas pensando bem, para que quer este navio,

Um comandante,

Bêbado?

Este navio não precisa de comandante. Este navio sempre navegou em piloto automático, depois das seis

Na Ribadouro, sobre a mesa um livro de poemas, um cigarro dispersa-se no quase fim de tarde, oiço-a sonolenta como o vento, e linda como a madrugada.

O povo pensa que sou louco, o povo pensa…

Penso em tanta coisa, como o senhor Álvaro de Campos no poema

A Tabacaria,

E lá está ele,

O Esteves.

 

Podia ser dia, podia ser apenas um pedacinho de beijo, junto ao rio,

Carecendo de medo. O capuz ergue-se na penumbra, na mão transporta a espada com que me decapitou e, no entanto,

Dizem que ele ainda procura as estrelas da meia-noite.

Coitado. Coitado do Esteves, embrulhado no seu cigarro, escondendo os chocolates da menina, e depois

Depois, nada.

Fui à janela. E acreditando nos meus olhos, diria que esta pincelada maré parece um areal sonolento em busca de parceiro para enganar a noite.

 

 

Já não sei quem sou. Há muito que não sei quem é o comandante deste naufragado navio, em cartão prensado, numa qualquer madrugada

Do calendário.

E também não sei

Quem era.

Quem era eu,

Ontem?

Quando o hoje morreu dentro de um copo de uísque.

 

Hesito. Apetecia-me uma pêra ou uma maçã ou uma sandes de salpicão,

Olha…

Prefiro um poema de Al Berto.

 

E um copo de uísque.

Tenho medo da vaidade, e nunca, e nunca fui vaidoso. Tenho medo do vento, e adorava voar,

No teu cabelo,

Dizem-me, dizem-me que é lindo!

 

Se a minha mãe fosse viva, dir-me-ia

O que escreves a esta hora, meu filho!

Merdas, mãe, merdas sem sentido.

Ela olhava-me e sempre me dizia,

Não tenhas medo meu filho,

Porque um dia…

E calava-se.

 

FIM

05 setembro 2024

O menino

Me enrolo nesta sombra de silêncio, primeiro capítulo do meu testamento,

Morria-me nas mãos.

Foi-se. Levantou voo e num arrepiante sentimento sem comer, deita-se sobre o rio,

Ergue-se a espada apontada ao destino,

Menino,

Determinado a comer todos os pedaços de noite,

Aqueles a quem diriam que o dia era a pirâmide do sonho,

Atropelou-o empurrando-o até às esquinas dos prédios em ruina, depois

Sentia-se tão triste quando olhava no espelho,

O MME, que não sei o que é, mais oiço-o por aqui.

Já não sei o que ia a dizer. Adiante. Siga a marinha mercante em direcção a Marrocos. AVANTE para a frente, e não caias sobre as pedras lapidadas de deus. Que deus o tenha no seu eterno descanso.

Mas que descanso?

Um gajo trabalha uma vida inteira e depois,

Morre e chega ao céu,

E vai continuar a trabalhar, sendo escravo de deu. Pois lá em cima deve haver muito trabalho para realizar, e claro

Não renumerado. Parece que deus, dizem, já não paga aos trabalhadores há muito, muito tempo.

E eu estou sem tempo.

Com muito tempo para ir a Lisboa e ficar

Por lá,

De onde nunca devia ter saído.

Escorreito, ele.

Eu sentava-me sobre uma pedra. Desleixava-me, não me vestia e sentia

Os pingos das putas,

Quando a chuva cai sobre a sanzala. O capim fumava nas traseiras da palhota, um gato, qualquer coisa a rimar

Com mato,

Continuando,

O gato era marreco, sofria das patas e

Fumava.

Mas deixou de fumar

No fatídico dia em que nasceu um menino num domingo de Janeiro, já andava de bicicleta à volta das cubatas, e lia

Poesia, depois do lanche.

O barco tremia de frio. O frio, também tremia,

De cio,

Quando o maldito do rio

Se afoga no mar.

Morreu, de quê?

Parece que tinha umas pequenas sombras

No fígado.

Sem cartão de cidadão, nada feito menina.

PRÓXIMO.

Ouviam-se os cortinados deambulando pela cidade à procura do tal destino,

Que só o menino,

O tal, aquele safado,

Dentro de um caixote de enguias, mergulhava

E trazia na boca moedas e oiro,

Verdade.

Eu vi na Madeira em 1971, tinha passado pelas Canárias, e São Tomé e Príncipe,

Coisa de miúdos, que estão sempre a sonhar

E

A inventar. Coisas.

Ao invés do sossego, desassossegou-se numa plataforma de ciúme sobre a praia de antigamente.

Tive um burro que ao Domingo estudava canto. Às terças-feiras sentava-se numa pedra

E fazia paralelos. Molas para a roupa e paralelos.

O pior era às segundas-feiras,

Embrulhava-se no tédio, migrava como uma lâmpada debaixo de um coqueiro,

Ao longe,

O Mussulo

Comendo amêndoas de chocolate. Ele é friorento. E é lento.

Coitado, dele.

Enforcado numa árvore, sem que nunca soubesse, que as sandálias eram em couro,

E eu,

Era tão livre, tão livre como são os sonhos.

 

De que cor

São

Os vossos sonhos, à sexta-feira?

04 setembro 2024

O destino

O destino estava-lhe traçado no dia em que descia a montanha e um pássaro vestido de noite, abraçou-o

E nunca ninguém o tinha abraçado, tão forte e doce,

Como a noite.

Desconfiou. Temeu o pior.

Dizia-se por aqueles lados, de quando em quando, que uma vez por ano, a noite, abraçava aquele que em breve partiria para o reino dos céus. Horácio não queria acreditar no que iria acontecer

Ao seu filho e único. Como o poeta.

Que não é. Nunca o foi. Nunca o será

Poeta. Poeta, não. Meu querido filho. Pareceis mendigos vestidos de palavras

Poeta não, meu filho.

A carroça dormitava sobre as lajes da eira. O tio Serafim enganava a tarde com um copo de verde ou morangueiro e dentro de um pedaço de broa de milho

Queijo de cabra. Adorava.

Dá um pequeno gole de uísque, poisa a mão sobre a mesa e puxa de um cigarro, pensa e acende-o enquanto ouve o Oceano Pacifico da RFM. Poeta mais louco, não. Meu filho.

Poeta nunca.

A noite agora, é uma puta travestida de luzes, enzóis e chapéus-de-chuva.

Tenho medo do frio, chorava ele. Fernando, o piqueno vai morrer de frio.

Temos de dar um jeito. As coisas vão melhorar,

Chovia lágrimas dentro de casa.

E a noite não passa de uma puta e de uma galdéria de carrossel.

Tínhamos tudo, e hoje apenas meia dúzia de livros, e quem quer livros,

Horácio

Chorava também. Mas por outros motivos.

O piqueno crescia, os sapatos

Às vezes,

Ficavam curtos, mas tudo bem. Amavam-me.

E hoje sou apenas um pedaço desta noite, que nunca sei, quando termina, se é que alguma vez deixará de ser noite,

Em mim.

O rapaz brincava no mar sito num primeiro andar caquéctico mais parecendo um petroleiro em decomposição

Putrefacto, como o poeta.

E o rapaz, ao longe, avistava o Mussulo.

A areia branca do Mussulo.

O tio Serafim, ao fim de dois anos de ausência da aldeia, andando por Lisboa a coçar os tomates, regressa, de fatinho branco e de palhinhas não mão, sorria

E

Oi?

O homem fez acreditar meia aldeia que estava a regressar do Rio de Janeiro.

E se isto não for verdade

Eu morra aqui,

Sentado nesta cadeira. Na cozinha. A saborear o meu uísque.

Às vezes tenho saudades do meu pai. E hoje ainda mais. Gostava de ter falado com ele sobre drogas e outras merdas,

mas o meu pai estava sempre ocupado

A salvar os outros. Não o condeno. Louvo-o.

O Horácio tremia de frio silêncio.

A minha mãe aturava as minhas loucuras e conversávamos sobre drogas e deus. Nunca chegamos a acordo. Quanto a deus, ela acreditava, eu não acreditava nem acredito.

Quanto às drogas,

Isso faz-te mal, meu filho.

Deixa isso. Faz isso por mim.

Ele fez isso por ela.

Mas onde está ela, hoje!

O pobre do silêncio sempre a pedinchar à solidão

Traços de alumínio,

E alguns caracóis.

Oi? Menina, como você cresceu…

O tio Serafim cantava bem o fado, eu, odiava e odeio. Ao cair da noite, junto ao campo de milho, pedacinhos de sombras dançavam sobre a noite,

E eu,

Tio Serafim, o que é aquilo?

São as musas dos poetas.

Fiquei a perceber o mesmo. Subi a rampa e fui dormir. Estava de férias em casa do meu avô Domingos.

O Horácio acreditava que se conseguisse levar o filho da aldeia antes que regressasse a noite,

Talvez ele não fosse já este ano para o reino dos céus. Traçou um plano.

Chamou todos os pássaros e juntos levariam o filho de Horácio para longe da noite.

Puxaram. Puxaram. E era quase noite, e o filho do Horácio ainda estava junto à praia.

Até que apareceu uma menina loira, de olhos azuis como o mar…, olhou o filho de Horácio e

Quase que por magia,

Levou o filho de Horácio para longe da noite.

 

(não sei se publico este texto)