27 dezembro 2025
10 setembro 2025
esplanada
ao pavor das tréguas
sempre que cai uma pedra, tão pesada como a lebre que desce a montanha, como o livro, sentado na esplanada de um café, uma flor que brota da fenda
milimétrica entre dois pedacinhos de pedra, uma calçada, sempre
depois o vento.
que sente.
e um rio que morre.
dentro de mim.
(10/09/2025)
08 junho 2025
06 junho 2025
04 junho 2025
leituras... novo livro de Francisco Luís Fontinha
Isto, é um pequeno
livrinho. É apenas uma prova.
Digo já, antes de
escrever mais alguma coisa, que esta edição foi pensada por mim em forma de fotocopias
com um agrafe; vejo a prova, e sim, isto é um livro de luxo.
Agradeço ao Município de
Alijó, na pessoa da senhora vereadora engenheira Mafalda Mendes e claro, ao
Ricardo Brites (que ainda não lhe agradeci pessoalmente, mas o farei
brevemente) pelo trabalho.
O Pacheco diria
- foda-se ó Fontinha isto
é um luxo
Sim, mestre
E eu responderia
- sabes não era preciso
tanto
Obrigado
Brevemente:
O farol, poesia
7:50€
Tiragem: 30 exemplares
01 junho 2025
20 abril 2025
13 abril 2025
Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva
Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar
Como se a terra não rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo, pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.
Já viste o jornal, parece que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois
Os vinhedos, para fugirem ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,
Socalco abaixo,
E rio.
O dia nunca tinha horários, e mesmo assim
Desculpa, o que tenho eu ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,
E este rio de cabelos loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada
Que o Douro enlaça, que o Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao suor, e muitos deles
Nem o nome sabem desenhar,
Quanto mais, ler, quanto mais, sonhar.
Um dia percebeste que a saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra, de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada dia, o Douro ao outro dia,
Não é o Douro de ontem.
Pai, porque vais embora
O sino que desde que me lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma coisa,
Quando a única coisa que lhe devo é apenas,
O silêncio de uma estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria
Que o dia,
Tivesse vinte e sete horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.
Como assim pai
Olha, imagina dois pontos
O ponto (A) e o ponto (B)
Pode ser, mas porque não utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em vez de letras,
E depois pai
Imagina que há uma distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.
Imagina que um dia,
Um dia pai
Imagina que um dia nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,
Porque leu, porque alguém a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos rochedos mais belos da primeira página de um livro
Como assim pai
Aquele doce doirado navio de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.
Depois chega a casa já embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo rio, sempre o mesmo xisto,
Sempre a mesma saudade.
Depois chega a casa, maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela
E espera que amanhã acorde o dia, sempre o mesmo dia.
Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.
13/04/2025
07 janeiro 2025
19 dezembro 2024
Quase chuva os teus olhos meu amor
Quase chuva os teus olhos meu amor
Quase vida não vida a minha vida
Quase livro este livro onde me escondo
Onde durmo desassossegado
Quase flor este pedaço de papel
Quase lírio os lírios dos teus lábios
Quase dia do quase fim de noite
Da noite não noite
Da noite deste dia
Quase morte a minha vida
Quase janela este buraco na escuridão
Da quase madrugada
Quase nada
O que sou
E o que nunca fui… Quase chuva os teus olhos meu amor
Este dia quase dia deste dia em dor
09 dezembro 2024
Oceano além em despedida
Noutras latitudes, em outras tantas
longitudes,
Oceano além em despedida,
O mar profundo e tão fundo dentro do meu
peito,
Que de outro mar advém não o saber,
Sabendo que antes da partida
Há uma despedida
E um corpo a sofrer.
21 outubro 2024
flor madrugada
triste, este dia de não sentir
de ser obrigado,
a sorrir,
este dia, dia triste de viver
de estar, e querer partir
para as profundezas da terra.
triste, este dia de não sentir
de ser obrigado
a dormir,
tão triste, este dia embriagado
no silêncio de querer partir…
e ausentar-me de ti, flor madrugada!
21/10/2024
20 outubro 2024
A gambiarra
O poeta, durante a
vindima, aproximadamente trinta dias, andou com um garrafão de água na
bagageira do carro, pois este perdia água e aquecia; coisas de mecânica que não
assustam um poeta.
Fi-lo porque não tinha
tempo para ver de que se tratava a perda de água, e também porque o poeta não é
nada endinheirado, e do pouco dinheiro que tem,
Prefere comprar livros.
Digamos que sou um
miserável, que nalgumas coisas, mais parece o Pacheco.
Terminou a vindima. Com alguma
coragem, consegui descobrir a razão de o carro perder água; uma peça danificada
e o respectivo tubo.
Tirei a peça, fiz uma
gambiarra como o dizem os nossos amigos brasileiros, e com uma puxadinha
Liguei os tubos
directamente e assim resolvi a perda de água.
Fui dar uma volta até às belíssimas
corres do Outono do nosso deslumbrante Tua, para experimentar se o carro
deixava de aquecer, e
Bom, ao fundo tudo
funciona,
Até a poesia.
O problema foi subir o Tua.
Começou a aquecer, muito, parei, abri o capô, e verifiquei que o depósito da
água parecia uma panela de pressão, e que quase explodia.
Fechei o capô. Pois o
poeta tem de dar a graça de feliz, não de miserável que é, e a cada
Carro que passava por
mim,
Eu sorria.
Arranquei e parei três ou
quatro vezes, até que enquanto fumava um cigarro lembrei-me dos conhecimentos
de termodinâmica, e resolvi muito devagarinho abrir o depósito da água, muito
devagarinho
O vapor subia em direcção
ao sol.
E percebi que se viesse com
a tampa do depósito apenas meia apertada, havia saída de vapor, e o carro não
aquecia.
Funcionou. Deixou de
aquecer. E a função da peça danificada, é mesmo essa.
A parvoíce disto tudo,
ontem, 19/10.
Era o aniversário da
Cristina, e foi esta a tarde que lhe proporcionei; mas ela estava feliz. E o
poeta sentiu-se amado.
15 outubro 2024
14 outubro 2024
Auditório Municipal de Alijó
Fui crítico e escrevi-o em relação ao
auditório municipal de Alijó ter estado encerrado durante tantos anos.
Não sei se é por estarem próximas as
eleições autárquicas ou apenas em prol da cultura do concelho, a verdade é que
reabriu ao público e de parabéns está o município.
Assisti com a Cristina ao filme “Sobretudo
de Noite” de Victor Iriarte e no fim-de-semana passado ao concerto de Pedro
Castro, um dos melhores tocadores de viola portuguesa.
Ambos os inventos foram divinais.
13 outubro 2024
A Bedford amarela
(Texto publicado na revista “O Escritor” nº 11)
Meu
querido Fernando,
Atravessaste
o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias,
meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias
na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te
apenas do silêncio…
Sabes,
meu querido Fernando,
Levavas-me
a olhar os barcos gordos que descansavam no porto de Luanda, pegava na tua mão
e sentia-me o menino dos calções mais feliz de todos os meninos dos calções,
depois, entre pedaços de silêncio, perguntava-te porque…
Porque
choram as acácias, pai?
Dizias-me
que tinham sono, dizias-me que era devido à distância entre a lua e a terra,
mas meu querido Fernando, nunca me disseste que as acácias choravam porque
estavam tristes, porque estavam tristes, meu querido Fernando. E apenas muitos
anos depois percebi o que era a tristeza,
Voavam
como ninguém. Manhã cedo pegavas na Bedford e passeavas-te pelos musseques em
busca de não sei o quê, tal como eu hoje, tal como eu ontem, tal como eu
amanhã, mas nunca percebi porque atravessas-te o rio Congo em direcção ao nada,
Fugias
de quê, Fernando? Das acácias, meu querido?
Lembras-te
Fernando, quando cismei que queria escrever na tua carta de condução e poisaste
devagarinho a tua mão no meu rabo, mas sabes meu querido, teimoso como sou,
teimoso como era, de nada serviram as tuas palmadas, porque o que eu queria
mesmo era escrever na tua carta de condução.
Depois
comecei a rabiscar nas paredes do quarto, da sala, casa de banho e afins; tudo
o que fosse parede, o menino dos calções desenhava, deixava a sua marca. E
ainda hoje, meu querido, e ainda hoje…
Os
pássaros partiram e levaram todos os barcos gordos, dos caixotes em madeira,
sobejaram apenas algumas letras em tinta encarnada onde se podia ler PORTUGAL;
e de Portugal enviamos um grande beijinho para todos, e uma linguiça para não
se esquecerem dos sabores da nossa terra.
E
sabes, meu querido Fernando, nunca entendi porque atravessaste o rio Congo em
direcção ao nada, do que fugias, meu querido?
Das
lágrimas das bananeiras? Da tristeza? Das acácias?
E
havia sempre um pedaço de papel poisado sobre a mesa. Havia sempre um barco
encalhado dentro de mim, dentro de ti, dentro dela…
Barcos,
meu querido. Barcos.
A
Bedford engasgava-se, o avô Domingos passava horas a passear um velho
machimbombo pelas ruas de Luanda, a mãe passava as tardes a construir papagaios
em papel e eu, o menino dos calções, passava as tardes a fazer vestidos para o
meu grande amigo chapelhudo. Mas, meu querido Fernando, do que fugias? Como eu…
Atravessaste
o rio,
Tínhamos
medo das acácias, tínhamos medo do sono que o cacimbo provocava em nós e nos
transportava para as pequenas sílabas do capim envenenado pela saudade,
E
anos mais tarde, como tu, meu querido Fernando, fui obrigado a mentir-te, fui
obrigado a dizer-te que estava tudo bem, mas não estava, meu querido, como
poderia estar se já tinhas a morte suspensa nos ombros. Menti-te, depois fui
obrigado a mentir à mãe, pela mesma razão,
Desculpa
meu querido, desculpa ter-te mentido, mas foi melhor assim,
Olhava-te
como quando me levavas a ver os barcos gordos, só que tu te afundavas aos
poucos, e os barcos gordos dançavam sobre a ondulação marítima. Minutos
intermináveis que pareciam dias, cigarros, cigarros, cigarros de mentira.
E
enquanto te afundavas no Oceano da dor e das chagas que alimentavam o teu
corpo, recordava as manhãs de Domingo junto aos barcos gordos, recordava a
Bedford amarela, de musseque em musseque, e ao longe, o rio Congo.
Depois,
desapareceste entre as nuvens. E nunca mais te vi.
Sabes,
meu querido Fernando, nunca percebi porque atravessaste o rio Congo, mas
percebo hoje porque trazias na carteira a fotografia da avó Valentina e a
minha; e mentia-te. Escrevi a mentira em vós para enganar a saudade; e claro
que não estava tudo bem.
Como
poderia estar tudo bem se os barcos gordos hoje são apenas sucata e pedaços de
limalha.
Porquê,
meu querido?
Porquê
as acácias?
E
dentro dos cigarros em metástase, ouviam-se as lágrimas das tardes junto ao teu
leito; desculpa a mentira, meu querido; mas acredita que estava tudo bem.
Tudo
bem, como hoje.
Os
barcos, pai. Tínhamos o silêncio e o gemido do capim quando após a chuva um
pequeno mabeco vinha a nós, e tu, e tu desenhavas-me o sol no chão lamacento e
com odor a fogo,
Porquê,
meu querido?
Porquê
as acácias?
E
claro que sim, meu querido Fernando, quando regressavas a casa na Bedford
amarela, eu esperava-te no portão de entrada, á espera do teu abraço,
Depois,
Davas-me
um beijo e escondias-te no cansaço do dia.
Erguia-se
a noite em ti, despedia-se a tarde de mim, e pai, as acácias choravam,
Porque
choravam as acácias, pai?
(atravessaste
o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias,
meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias
na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te
apenas do silêncio…)
Porquê,
pai?
Francisco Luís Fontinha























