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10 setembro 2025

esplanada

 

ao pavor das tréguas sempre que cai uma pedra, tão pesada como a lebre que desce a montanha, como o livro, sentado na esplanada de um café, uma flor que brota da fenda milimétrica entre dois pedacinhos de pedra, uma calçada, sempre

 

depois o vento.

que sente.

 

e um rio que morre.

 

dentro de mim.

 

(10/09/2025)

Aqui, enquanto leio, estou em paz, no café da paz


 

04 junho 2025

leituras... novo livro de Francisco Luís Fontinha


  

Isto, é um pequeno livrinho. É apenas uma prova.

Digo já, antes de escrever mais alguma coisa, que esta edição foi pensada por mim em forma de fotocopias com um agrafe; vejo a prova, e sim, isto é um livro de luxo.

Agradeço ao Município de Alijó, na pessoa da senhora vereadora engenheira Mafalda Mendes e claro, ao Ricardo Brites (que ainda não lhe agradeci pessoalmente, mas o farei brevemente) pelo trabalho.

O Pacheco diria

- foda-se ó Fontinha isto é um luxo

Sim, mestre

E eu responderia

- sabes não era preciso tanto

Obrigado

 

Brevemente:

 

O farol, poesia

7:50€

Tiragem: 30 exemplares 

13 abril 2025

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar

Como se a terra não rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo, pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.

Já viste o jornal, parece que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois

Os vinhedos, para fugirem ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,

Socalco abaixo,

E rio.

O dia nunca tinha horários, e mesmo assim

Desculpa, o que tenho eu ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,

E este rio de cabelos loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada

Que o Douro enlaça, que o Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao suor, e muitos deles

Nem o nome sabem desenhar,

Quanto mais, ler, quanto mais, sonhar.

Um dia percebeste que a saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra, de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada dia, o Douro ao outro dia,

Não é o Douro de ontem.

Pai, porque vais embora

O sino que desde que me lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma coisa,

Quando a única coisa que lhe devo é apenas,

O silêncio de uma estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria

Que o dia,

Tivesse vinte e sete horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.

Como assim pai

Olha, imagina dois pontos

O ponto (A) e o ponto (B)

Pode ser, mas porque não utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em vez de letras,

E depois pai

Imagina que há uma distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.

Imagina que um dia,

Um dia pai

Imagina que um dia nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,

Porque leu, porque alguém a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos rochedos mais belos da primeira página de um livro

Como assim pai

Aquele doce doirado navio de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.

Depois chega a casa já embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo rio, sempre o mesmo xisto,

Sempre a mesma saudade.

Depois chega a casa, maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela

E espera que amanhã acorde o dia, sempre o mesmo dia.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.


13/04/2025


19 dezembro 2024

Quase chuva os teus olhos meu amor



Quase chuva os teus olhos meu amor

Quase vida não vida a minha vida

Quase livro este livro onde me escondo

Onde durmo desassossegado


Quase flor este pedaço de papel

Quase lírio os lírios dos teus lábios

Quase dia do quase fim de noite

Da noite não noite


Da noite deste dia

Quase morte a minha vida

Quase janela este buraco na escuridão

Da quase madrugada 


Quase nada

O que sou

E o que nunca fui… Quase chuva os teus olhos meu amor

Este dia quase dia deste dia em dor 


09 dezembro 2024

Oceano além em despedida

 

Noutras latitudes, em outras tantas longitudes,

Oceano além em despedida,

O mar profundo e tão fundo dentro do meu peito,

Que de outro mar advém não o saber,

Sabendo que antes da partida

Há uma despedida

E um corpo a sofrer.

21 outubro 2024

flor madrugada

 

triste, este dia de não sentir

de ser obrigado,

a sorrir,

este dia, dia triste de viver

de estar, e querer partir

para as profundezas da terra.

 

triste, este dia de não sentir

de ser obrigado

a dormir,

tão triste, este dia embriagado

no silêncio de querer partir…

 

e ausentar-me de ti, flor madrugada!

 

21/10/2024

20 outubro 2024

A gambiarra

 

O poeta, durante a vindima, aproximadamente trinta dias, andou com um garrafão de água na bagageira do carro, pois este perdia água e aquecia; coisas de mecânica que não assustam um poeta.

Fi-lo porque não tinha tempo para ver de que se tratava a perda de água, e também porque o poeta não é nada endinheirado, e do pouco dinheiro que tem,

Prefere comprar livros.

Digamos que sou um miserável, que nalgumas coisas, mais parece o Pacheco.

Terminou a vindima. Com alguma coragem, consegui descobrir a razão de o carro perder água; uma peça danificada e o respectivo tubo.

Tirei a peça, fiz uma gambiarra como o dizem os nossos amigos brasileiros, e com uma puxadinha

Liguei os tubos directamente e assim resolvi a perda de água.

Fui dar uma volta até às belíssimas corres do Outono do nosso deslumbrante Tua, para experimentar se o carro deixava de aquecer, e

Bom, ao fundo tudo funciona,

Até a poesia.

O problema foi subir o Tua. Começou a aquecer, muito, parei, abri o capô, e verifiquei que o depósito da água parecia uma panela de pressão, e que quase explodia.

Fechei o capô. Pois o poeta tem de dar a graça de feliz, não de miserável que é, e a cada

Carro que passava por mim,

Eu sorria.

Arranquei e parei três ou quatro vezes, até que enquanto fumava um cigarro lembrei-me dos conhecimentos de termodinâmica, e resolvi muito devagarinho abrir o depósito da água, muito devagarinho

O vapor subia em direcção ao sol.

E percebi que se viesse com a tampa do depósito apenas meia apertada, havia saída de vapor, e o carro não aquecia.

Funcionou. Deixou de aquecer. E a função da peça danificada, é mesmo essa.

 

A parvoíce disto tudo, ontem, 19/10.

Era o aniversário da Cristina, e foi esta a tarde que lhe proporcionei; mas ela estava feliz. E o poeta sentiu-se amado.

14 outubro 2024

Auditório Municipal de Alijó

 

Fui crítico e escrevi-o em relação ao auditório municipal de Alijó ter estado encerrado durante tantos anos.

Não sei se é por estarem próximas as eleições autárquicas ou apenas em prol da cultura do concelho, a verdade é que reabriu ao público e de parabéns está o município.

Assisti com a Cristina ao filme “Sobretudo de Noite” de Victor Iriarte e no fim-de-semana passado ao concerto de Pedro Castro, um dos melhores tocadores de viola portuguesa.

Ambos os inventos foram divinais.

13 outubro 2024

A Bedford amarela

(Texto publicado na revista “O Escritor” nº 11)

 

Meu querido Fernando,

Atravessaste o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias, meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te apenas do silêncio…

Sabes, meu querido Fernando,

Levavas-me a olhar os barcos gordos que descansavam no porto de Luanda, pegava na tua mão e sentia-me o menino dos calções mais feliz de todos os meninos dos calções, depois, entre pedaços de silêncio, perguntava-te porque…

Porque choram as acácias, pai?

Dizias-me que tinham sono, dizias-me que era devido à distância entre a lua e a terra, mas meu querido Fernando, nunca me disseste que as acácias choravam porque estavam tristes, porque estavam tristes, meu querido Fernando. E apenas muitos anos depois percebi o que era a tristeza,

Voavam como ninguém. Manhã cedo pegavas na Bedford e passeavas-te pelos musseques em busca de não sei o quê, tal como eu hoje, tal como eu ontem, tal como eu amanhã, mas nunca percebi porque atravessas-te o rio Congo em direcção ao nada,

Fugias de quê, Fernando? Das acácias, meu querido?

Lembras-te Fernando, quando cismei que queria escrever na tua carta de condução e poisaste devagarinho a tua mão no meu rabo, mas sabes meu querido, teimoso como sou, teimoso como era, de nada serviram as tuas palmadas, porque o que eu queria mesmo era escrever na tua carta de condução.

Depois comecei a rabiscar nas paredes do quarto, da sala, casa de banho e afins; tudo o que fosse parede, o menino dos calções desenhava, deixava a sua marca. E ainda hoje, meu querido, e ainda hoje…

Os pássaros partiram e levaram todos os barcos gordos, dos caixotes em madeira, sobejaram apenas algumas letras em tinta encarnada onde se podia ler PORTUGAL; e de Portugal enviamos um grande beijinho para todos, e uma linguiça para não se esquecerem dos sabores da nossa terra.

E sabes, meu querido Fernando, nunca entendi porque atravessaste o rio Congo em direcção ao nada, do que fugias, meu querido?

Das lágrimas das bananeiras? Da tristeza? Das acácias?

E havia sempre um pedaço de papel poisado sobre a mesa. Havia sempre um barco encalhado dentro de mim, dentro de ti, dentro dela…

Barcos, meu querido. Barcos.

A Bedford engasgava-se, o avô Domingos passava horas a passear um velho machimbombo pelas ruas de Luanda, a mãe passava as tardes a construir papagaios em papel e eu, o menino dos calções, passava as tardes a fazer vestidos para o meu grande amigo chapelhudo. Mas, meu querido Fernando, do que fugias? Como eu…

Atravessaste o rio,

Tínhamos medo das acácias, tínhamos medo do sono que o cacimbo provocava em nós e nos transportava para as pequenas sílabas do capim envenenado pela saudade,

E anos mais tarde, como tu, meu querido Fernando, fui obrigado a mentir-te, fui obrigado a dizer-te que estava tudo bem, mas não estava, meu querido, como poderia estar se já tinhas a morte suspensa nos ombros. Menti-te, depois fui obrigado a mentir à mãe, pela mesma razão,

Desculpa meu querido, desculpa ter-te mentido, mas foi melhor assim,

Olhava-te como quando me levavas a ver os barcos gordos, só que tu te afundavas aos poucos, e os barcos gordos dançavam sobre a ondulação marítima. Minutos intermináveis que pareciam dias, cigarros, cigarros, cigarros de mentira.

E enquanto te afundavas no Oceano da dor e das chagas que alimentavam o teu corpo, recordava as manhãs de Domingo junto aos barcos gordos, recordava a Bedford amarela, de musseque em musseque, e ao longe, o rio Congo.

Depois, desapareceste entre as nuvens. E nunca mais te vi.

Sabes, meu querido Fernando, nunca percebi porque atravessaste o rio Congo, mas percebo hoje porque trazias na carteira a fotografia da avó Valentina e a minha; e mentia-te. Escrevi a mentira em vós para enganar a saudade; e claro que não estava tudo bem.

Como poderia estar tudo bem se os barcos gordos hoje são apenas sucata e pedaços de limalha.

Porquê, meu querido?

Porquê as acácias?

E dentro dos cigarros em metástase, ouviam-se as lágrimas das tardes junto ao teu leito; desculpa a mentira, meu querido; mas acredita que estava tudo bem.

Tudo bem, como hoje.

Os barcos, pai. Tínhamos o silêncio e o gemido do capim quando após a chuva um pequeno mabeco vinha a nós, e tu, e tu desenhavas-me o sol no chão lamacento e com odor a fogo,

Porquê, meu querido?

Porquê as acácias?

E claro que sim, meu querido Fernando, quando regressavas a casa na Bedford amarela, eu esperava-te no portão de entrada, á espera do teu abraço,

Depois,

Davas-me um beijo e escondias-te no cansaço do dia.

Erguia-se a noite em ti, despedia-se a tarde de mim, e pai, as acácias choravam,

Porque choravam as acácias, pai?

(atravessaste o rio Congo sem que ainda hoje perceba porque o fizeste. Porque te escondias, meu querido Fernando? Dos pássaros, como eu hoje, das fotografias que trazias na algibeira e que nessa altura ainda não tinhas a minha? Ou escondias-te apenas do silêncio…)

Porquê, pai?

 

 

 

Francisco Luís Fontinha