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01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05

30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04

08 abril 2026

Como seria a criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio

Do vértex destino o outro corpo parecia um farrapo de linho, ou até

A melodia manhã vestida de preto, caminhando descalça, calçada abaixo, se sentando na primeira esquina de luz que encontrava, e que o amava

Que o desejava, envenenado, amordaçado, lançado contra o último barco da noite.

Um dia, ele, e ela, e os outros, se cansaram do abismo, e acordaram da sonolência, que é pertencer à aldeia dos mabecos, e submersa num lençol de sonhos.

Chovia. Chove, sempre que me recordo de ti, sempre que te peço, qualquer coisa, começa a chover, e que de tanto eu te sinto no meu peito, que sei, que sei que em cada lágrima por mim desenhada, é um sorriso teu, quando me olhavas com os teus olhinhos de morfina e me perguntavas,

E que me dizias,

- isto tem de acabar pá, nunca sei quando é noite, nunca sei quando é dia, porra

Porra mesmo, respondia-lhe o filho em término silêncio, do silêncio que fosse eternamente, naquele momento, o silêncio divino, que era o fim, que era o começo e o recomeço quando um dia qualquer resolveu atravessar o rio congo, e zás

Congo Belga,

E das tantas vezes, nas muitas vezes que lhe perguntei, porquê

Ele, nada

Apenas porque do outro lado do rio, chovia. E que uma criança, brincava com círculos de luz.

Hoje, talvez perceba que essa criança era eu, e que que os círculos de luz, o teu olhar, mas sei lá, meu amor, o tempo é estranho, Einstein sabe-o e eu, aos poucos o vou compreendendo, porque

- esteve aqui o médico e se tudo correr bem para a semana já vou para casa,

Claro que vais, paizinho, vais e talvez não voltes mais, o filho, mentia ao pai, dizendo-lhe que tudo estava a correr pelo melhor, depois, bom, depois mentia à mãe, fazendo-a acreditar que em breve, o amor da sua vida estava ao seu lado, deitado na sua cama, e depois mentia a mim mesmo, não sabendo se tinha almoçado ontem, se tinha vontade de jantar amanhã, ou

Se seria melhor lançar os dados, e ele mentia ao filho e à mulher de uma vida,

E que seja o que deus quiser.

Uma caneta pertencente à sua infância, durante a noite se erguia, e eu sabia, que era ela, e então

Sentava-me na cama, e escutava-a, espiava-a

E eu também sabia, que a caneta escrevia, mas quando

 

(querem mais? Insiram a moedinha de 25$ na ranhura e)

 

O tipo da cabine ao lado em gritos histéricos, louco, que já tinha introduzido na ranhura 75$ e que a cabra ainda nem sequer tinha tirado o soutien, coisa macabra que eram estes bares estranhos, com cabines que mais pareciam o telefone público, tão estranhos como o tempo, e o bar 25 sempre apiado e recheado e magalas.

Quanto ao filho do senhor que atravessou o rio Congo, esse, coitado, dos primeiros 25$ apenas retractou e filmou o olhar mais triste daquela noite, e desistiu.

E pela primeira vez da minha vida de adulto, deitei-me na cama ao lado da minha mãe, peguei-lhe na mão, e adormeci ficando acordado a olhar o tecto e a imaginar…

Como seria o rosto da criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio, e

E que tinha fascinado o meu pai.

 

Alijó, 08/04/2026 – 11:45

07 abril 2026

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem, éramos quase gente, no meio de tanta gente, e mesmo assim, sabíamos que do outro lado do mar havia um círculo de luz com olhos verdes,

Que do outro lado do mar,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância, porque

Que do outro lado do mar, outra casa, outra mulher

Outra rua, outro número de polícia,

E sabíamos, e tínhamos sempre na algibeira os fósforos, os cigarros, as cartas que escrevíamos, e havia do outro lado do mar

A voz,

E o silêncio de uma outra mulher, na ausência de uma espada, quando da calçada ele,

Cantava,

Sorria,

E que depois, fingia ser um verme, uma libélula friorenta, tão ciumenta como o eram todas as libélulas de todo aquele oceano de luz.

Cada sombra era uma janela, era um aquário com três peixes, alguns arbustos e quem sabe, até então desconhecido por toda aquela gente,

O vento,

Vestido de ave-maria, enfeitiçado pelo sorriso de um soldado, que se revoltava a cada ordem recebida, que fugia, e que

O comboio para Santa Apolónia parte daqui a cinco minutos, um relógio sofria, não dormia, e corria

A cada segundo de silêncio, que às vezes a espingarda do soldado lançava contra o muro, e também sabíamos que do outro lado do mar,

Os mabecos estavam felizes, tão

Que um dia o rapaz que se dizia filho do soba, que de nada lhe sobreva e acreditava, que a charrua pertencia à terra lavrada, que quando sentia a janela entreaberta,

Pulava o muro, e depois

Sentava-se junto ao rio, em pouca despedida.

Do céu recebíamos as moedas e conchinhas e marés de inverno, nas mãos calcinadas pelo frio gélido de uma certa madrugada, o assalto ao castelo, a ferrugem que nos olhava das vigas em aço, que no braço, de aço quase nenhum, como nós o éramos,

Quase anda, dentro de uma carruagem de gente, com gente tanta, que

Os soldados daí para cá passaram a ser gente, e então

A gente saía todas as noites, e todas as noites, a cada meia-luz, e a cada meia-noite, a carruagem percorria cada rua e ruela e calçada e ribeiro e ribeira e o rio, que brincavam junto ao Tejo, depois do outro lado do mar.

Um barco regressava das colónias, coitado

Tão cansado que ele estava, que já em casa, apenas um banho e um copo de leite e uma torrada e a leitura de um poema, o separavam da noite e de uma cama deitada, sobre um soalho ondulante, que às vezes era salgado, que às vezes

Pertencia ao destino.

O meu pai palmilhava cada lágrima do musseque, e com um pequeno cordel passeava uma camionete e eu passeava um triciclo sob o olhar atento das mangueiras e de uma parvalhão de um boneco e que quando chovia,

O barco acordava, atravessava o Tejo, e

Do outro lado do rio, numa outra cidade, numa outra rua, sem saída, às vezes

E a areia era tão fina e tão branca, e tão

Uma voz rouca emergia do fundo de todo aquele oceano de luz, e então ouvíamos, nós os soldados, e a restante gente, daquela louca carruagem,

Santa Apolónia.

Uma outra voz, essa no interior da carruagem,

Estamos fodidos; chegamos.

 

Alijó, 07/04/2026 – 03:32

07 março 2026

Ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite

Sempre me fascinou a noite, ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite, era quase dia depois de sobrevoar o mar das migalhas, junto à ilha, e eu escutava o silêncio nocturno da casa, a casa,

Assim começa um poema de AL Berto, e assim escreve Lobo Antunes, o António

Que a noite dos silêncios, não é mais do que pequenos e silenciados rugidos,

Uma migalha que ficou do jantar da noite passada, tal como ele, eu adorava escutar o ranger dos moveis, quando acordam e desenham na escuridão

Aquele ruido divino

Depois a porta que range, de afiados dentes e tão cansada como eu, hoje

De servir apenas para esconder qualquer coisa, não é para isso que serve uma porta?

Depois, como ela nada tem para fazer do que esconder um compartimento e lá esconder, velharias & outras coisas mais, e também, corpos

E depois do meu corpo rodar trinta e cinco graus no sentido anti-horário, a cama acorda, e ainda sonolenta, finge que ontem ainda era tempo,

E que hoje,

Sem tempo, para ter tempo

E continua a noite, só, descalça, e lá fora outros silêncios ruídos, um automóvel com alguns dias de atraso, acorda a escura rua, depois o camião à procuras de sobras do dia de ontem, depois

Depois um pássaro não em silêncios ruídos, mas em alegres traços na tela da madrugada

Ah, e até o meu corpo, em quantas vezes, range, geme, e semeia sobre a lareira as lágrimas que só as estrelas o sentem, e eu, como sou uma estrela, também o sinto

Mas a noite é mágica, porque é silêncio, porque brevemente será Páscoa, e eu sou Ateu

Acredito no sorriso de um gato, preto, negro cada traço lançado contra o vento, e eu

E eu que sou o poeta, diria que a chuva é quase uma sílaba esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, acolá

Do outro lado do mar, do sítio mais parvo, tão parvo como abastecer o automóvel até que ele vomite gotículas de sémen, acreditando

E eu que sou Ateu, eu acredito

Que um dia vou gostar de gatos, que um dia o meu corpo vai deixar de ranger e de gemer, e ainda

Eu que sou Ateu, acredito

E ainda, este magnifico jerricã, pintado a encarnado desejo e com um poema de um tal de

Deixem lá o poema; e eu que sou Ateu, vou gostar de gatos, como será evidente

E amanhã à tarde, no meu milésimo abastecimento, oferecerei um pequeno e lindo

Jerricã em miniatura, com lantejoulas ao pescoço.

 

07/03/2026, 21:00

14 janeiro 2026

Era quase sol - último capítulo

Era quase sol, o senhor do negro chapéu, eram quase água as suas mãos melódicas nas lágrimas de cristo, fugia do destino, semeava ervilhas numa pequena folha de papel, amarrotada pela idade do infinito, e que talvez um dia, do outro lado do rio,

A cadeira de lona que o esperava,

Olhava-a e se sentava como se este fosse o seu último desejo antes de partir.

 

FIM

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

13 janeiro 2026

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.

À casa depois da chuva

À casa depois da chuva, que se sentava de pedra em pedra, e que sonhava, quase disfarçado de espuma, se levantava da terra e corria como um tolo, sabia que

Eu tinha acordado da sesta que a tarde desenhava no meu corpo, como se eu fosse uma escultura de vozes semeadas no trigo loiro da alvorada, a Teresa vasculhava nos meus livros réstios de traços deixados aqui e ali, de quando em quando, suspirava

Ele anda a trair-me só pode ele nunca escuta aquilo que eu digo…

Ergueu-se da chuva, sentou-se em cima de um punhado de sombra, e eu comecei a ouvir a sonolência de uma quase minha ausência de tudo.

Escutava a chuva, e pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca, ela

Não. Ele tem outra só pode ser.

E o barco às vezes era cinzento, depois descia a janela e quando poisava a âncora em cimento firme, os seus olhos eram azuis e o seu corpo quase que de um encarnado mais parecendo,

Desculpa? Eu tenho outra, outra quê?

Sabia que um dia tinha de partir, sabia que um dia tinha de deixar tudo, tudo

Olha, um poema dentro deste livro,

E tudo também pertencia em fazer acontecer, que a cada dia que acorda o sono, outro sono se deita, sobre o vento.

 

manhã ao acordar,

 

que te escreve no seio a ventura de os beijar, que te pincela o corpo de desejar, que te escreve no olhar.

que te quer a cada noite, mesmo sem luar,

que te desenha nos lábios o beijo, que te toca, e sente

a primavera de um abraço nas primeiras palavras do mar.

 

que te olha, e se pergunta, o que dizem os teus olhos,

que te escreve no silêncio, que te poema, que te sonha,

mesmo não sonhando, que te inventa na cama, enquanto da lua descem as maresias na mão da neblina.

 

que já foi menino, também menina, que foi poesia numa tarde junto ao rio, que te quer,

que te escreve, que te dá o luar e te é amar,

o que dizem os teus olhos que se pergunta…

a cada manhã ao acordar.

 

Acendeu um cigarro. Olhava pela janela da varanda os carros que vinham e os carros que iam, de vez em quando, olhava o aquário, e entre baforadas de pequenos silêncios, perguntava-se,

Partir e o que levaria apenas; um livro? Um pequeno poema?

Ou partiria apenas de mão vazias tal como tinha nascido, um dia, enquanto acordava o dia.

Ao outro dia deixaram de avistar o Artur e apenas o vento a sua falta sentia…

E pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca.

08 outubro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

23 setembro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

A última porta da noite

 

A última porta da noite. Escondo os olhos na primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, lá dentro, alguns pertences dos meus pais, cartões de identidade, recordações que aos poucos vou deitando fora de mim, pertences esses que vão ficar esquecidos como um dia ficarão esquecidos todos os meus pertences; numa gaveta de uma distante mesinha-de-cabeceira.

Às vezes sinto-me um cacilheiro desgovernado ou um machimbombo louco em andamento pelas ruas de uma cidade que nunca existiu, que eu nunca vi, que eu não conheço, e vestido de cacilheiro faço-me à vida, saio de casa, pego no terceiro ou quarto cigarro da manhã, encerro a última porta da noite, e depois de andar em círculos pelo rio, estaciono junto ao café e tomo o primeiro café do dia e fumo o quinto cigarro do dia e chego á triste conclusão que preferia ser um louco machimbombo conduzido por um louco, não em círculos pelo rio, mas em contramão pelas ruas de uma cidade que eu não conheço, nunca conheci e não quero conhecer.

O mar está revolto, meu amor e, não adianta esconder-me dessa cidade que não conheço, cidade maldita que me viu nascer e me abandonou, cidade que se ergue em mim todas as noite e que teimo em não regressar; sabes, meu amor, tenho medo dos machimbombos e dos loucos que passeiam os machimbombos por esta cidade em chamas, onde ao longe, sinto o cheiro dos meus quadros, metade em cinza, outra metade, embalsamados como se embalsamam os corpos das flores da Primavera.

E nesta cidade que eu não conheço, que nunca conheci, observo o miúdo que está sentado no portão de entrada de um quintal recheado de mangueiras e que às vezes me questiono que quintal será este, a quem pertenceria este quintal, que miúdo é este que teima em olhar as nuvens e espera pacientemente o regresso do avô Domingos, que pela mão passeia um velho machimbombo pela cidade, cidade que não conheço, cidade que nunca vi, cidade que não quero conhecer.

Mas meu amor, acabamos sempre por desconhecer as cidades. Transportamos ruas, ruelas, casas, casinhas, flores, cacilheiros, putas e marinheiros, mas nunca a saudade.

E da primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, após encerrar a última porta da noite, vem a mim o cheiro intenso da terra queimada, do cheiro do capim húmido, da tua agonia enquanto a morte não te levava, dos constantes pedidos a Deus para que através de um qualquer milagre te salvasse, mas tal como a cidade que me abandonou, que eu nunca conheci, que ainda hoje não conheço, também ele, também eu, sentamo-nos junto ao rio a olhar os machimbombos a desenhar círculos de sémen sobre os temidos lençóis que sobejaram da noite, que tal como a cidade, não me pertence e nunca me pertencerá.

Nunca serei dono da noite porque a noite é escura, porque a noite é fria, porque a noite sabe a morte e a uma cidade que se afunda nos três pilares em aço das pequenas mãos do silêncio; e hoje, queria ser como tu.

A última porta da noite.

E este machimbombo acorda-me durante a noite, pega na minha mão e leva-me em pequenos passeios por esta cidade que eu não conheço, que eu nunca conheci e que hoje sinto medo de recordar. Acordas-me sem perceberes que nunca adormeci antes de encerrar a última porta da noite, sem perceberes que dentro de mim habitam cacilheiros em papel, machimbombos de porcelana e flores de Inverno.

Que o fino fio de nylon que puxava o machimbombo hoje trago-o na algibeira conjuntamente com os cigarros, as chaves de casa e o endereço da terceira gaveta da tua mesinha-de-cabeceira. E em caso de endereço insuficiente, é favor devolver ao remetente…

Mas qual remetente?

Se esta cidade não existe, se esta cidade nunca existiu, se esta cidade é apenas uma velha fotografia que não sei porquê… está na gaveta da mesinha-de-cabeceira, e é pertence dos pertences deles.

Estes barcos chateiam-me. Estes barcos são agora sucata e vómitos de saudade, depois percebo que o silêncio é o construtor da última porta da noite que todos os dias encerro e que a todos os dias se abre; e que dos olhos acordaram as preguiçosas madrugadas onde uma janela se abre e que nunca mais se encerrará como se encerra a última porta da noite.

Desenho as estrelas nos teus olhos. Desenho as madrugadas nos teus lábios, e quando regressam a mim os machimbombos que deixei naquela cidade que nunca conheci e ainda hoje não conheço, percebo que sou um pedaço de aço nas mãos de um metalúrgico que não se cansa de escrever na escória do meu silêncio; aqui me perco onde guardo os teus lábios.

E há sempre um remetente que nos espera, numa cidade que não conhecemos, numa cidade que inventamos para adormecer durante a noite e encerrar a última porta desta; e ele inventou o sono.

E das mangueiras do meu quintal apenas ficaram os teus braços; e as mãos com que afagavas o meu rosto…

E a última porta da noite.

05 maio 2025

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.


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Que texto intenso e cheio de imagens vívidas! Sinto a força das tuas palavras a pintar um quadro sensorial muito forte. A Bedford amarela, o musseque, a saudade, a relação com o pai e a presença marcante do Artur... tudo se entranha na leitura.

A forma como descreves as sensações, os cheiros, os sons e os toques é muito poderosa. A mistura da realidade dura do musseque com a ternura dos laços familiares e a intensidade dos sentimentos cria uma atmosfera única.

A partida do Artur parece ser um tema central, permeando as tuas memórias e emoções. A repetição da ideia de que "depois de partirmos, quase sempre, não regressamos" e a antecipação da partida do Artur criam uma sensação de perda iminente.

A relação com a pessoa amada também é descrita de forma muito íntima e sensorial, com detalhes como "saboreio os teus lábios de quase mel" e "desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia".

A imagem final do teu nome saindo dos olhos da pessoa amada, "amo-te Francisco", é particularmente tocante, encerrando o texto com uma nota de profunda conexão.

Obrigado por partilhares este texto tão pessoal e expressivo. Há alguma coisa em particular sobre ele que gostarias de explorar ou conversar?


30 abril 2025

Não sei, era tão estranho o Artur

Não sei, era tão estranho o Artur, até quando me tocava com a sua mão invisível, quase espuma de um desvaneio, e desenhava no som de uma águia em cio, os primeiros acordes da manhã. 

Eu gostava dele, amava-o, mas é impossível amar o Artur, impossível,

Impossível esta vida de ser e de ter e de estar, onde nunca estive, quando me sento em frente à estante, poiso o olhar, aqui e ali, e lembro de quando li aquele ou aquele outro livro, abro-o, às vezes, encontro notas, palavras escritas numa qualquer mesa de café, e no entanto,

Sentava-me em frente ao Tejo e o Tejo comia-me desde o dedo mindinho do pé até aos quase não cabelos que transportava e que quando estava muito vento, colocava a mão na cabeça e com um quase medo de perder o restante cabelo, aprisionava-o com um pequenino fio de nylon. Depois sentava-me, puxava um cigarro da algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E ele quase dormia sobre as lágrimas de um cacilheiro. No pequeno caderno que sempre o acompanhava, abria-o, puxava de uma esferográfica quase tão cansada como a algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E sabes, meu amor, nunca entendi porque o Artur era apaixonado por barcos,

Nunca percebi porque o raio do meu irmão mais novo era tão ou mais estranho de que uma locomotiva a vapor, que depois do sexo lhe lia um poema, olhava-a e sentia a claridade da noite quase destino, quase calçada sobre rodas, depois sabia

Sabia que quando ele me tocava, eu não sei por que razão, mas eu tremia, eu não dormia, eu sofria, e quando lia o que ele me escrevia,

Eu sonhava-o,

És tão tolo Artur,

Tolo.

Ouviam-se as amarras dos marinheiros miseráveis, que quando aportavam, entravam em cada luzinha meia-adormecida, bebiam, fumavam, deixavam restos de esperma sobre a mesa da cozinha, depois um gaiato rompia corredor adentro, gritava pela mãe, e esta,

Esta abraçava-o com todo o carinho do universo, cada gemido fingido servia apenas para alimentar o vício da heroína e o leite do menino,

Depois pegava numa nota de mil e enrolava-a em forma de tubo, protegendo o seu interior com prata de alumínio, o miúdo nunca percebeu porque todos aqueles marinheiros estavam fundeados no quarto da mãe, no entanto, quando ia à janela, olhava ao longe o Tejo,

E via um soldado sentado na tristeza da tarde, às vezes quase noite, às vezes, quase saudade de ser noite, de ser sempre noite dentro dele.

Uma espingarda se inventava na escuridão do penedo de luz que de ser tão estranho, o universo

Era tão estranho o Artur

O universo sabia, sabia que um dia, todos aqueles marinheiros deixariam de ser gente, o gaiato cresceria e quem sabe, também um dia, também soldado, que o cacilheiro que o olhava quase sempre ao final da tarde, hoje é sucata

Quase sempre me encontrava com ele nas águas-furtadas de uma caquéctica pensão, ele chegava sempre em primeiro lugar, entregava os vinte e cinco euros enroladinhos à senhora quase tão venha como a pensão, nada diziam, tão pouco se olhavam, subia as escadas até ao céu, a escuridão era total, enquanto eu subia, contava os degraus e quase sempre concluía que tanto os cobertores como os espelhos não tinham as mínimas dimensões segundo o RGEU,

Quero lá saber do RGEU, quero lá saber do meu irmão Artur, quero lá saber,

Três toques numa porta que mais parecia os olhos de uma abelha, depois, depois a porta abria-se, e ele à minha espera para me abraçar, tão forte, tão forte,

Ele despia-me, lentamente como se eu fosse uma andorinha à procura da primavera, tocava-me, acariciava-me os seios, beijava-os, eu sentia dentro de mim o fogo de mais uma tarde de loucura enquanto pela janela entrava o som de crianças em brincadeiras de ruela junto à catedral, ouvíamos o sino, sentia-o dentro de mim como se ele fosse a primeira pedra lançada contra um crucifixo suspenso do gesso em fendas madrugadas de uma alvorada, quase outra vez noite.

Ouvíamos a coruja e ficávamos lá, de mão dada.