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19 julho 2026

A insónia de Deus

Uma abelha de luz poisa no teu olhar. Haverá sempre noite; mesmo que a lua se suicide no teu olhar, haverá sempre luar na tua vida,

O cansaço,

Nos dias que se perdem, nas horas em que nasce e, morre uma estrela, mesmo assim, haverá sempre Primavera na esplanada da saudade.

O esqueleto rangia como os gonzos do silêncio e, nunca percebeu que lá fora, junto ao rio, um fio de nylon tentava regressar à velha fotografia; tinha na mão a imagem de Cristo crucificado.

Em cio, avança o exército de gaivotas em direcção ao mar; os barcos da minha infância são hoje objectos raros, distantes de uma cidade envergonhada pelo passado.

Pedacinhos de linha, anzóis despedidos pelo velho pescador e, junto ao cais

Uma criança inventa electrões, protões e a tomografia por emissão de positrões e, eu desconhecia que o PET lhe vasculhava tudo até aos ossos; amores e paixões, flores e jardins, sumo de laranja e bacalhau com natas. No final

A sentença. CONDENADO.

Ela

CONDENADA.

Hoje, há quem me diga que são muito felizes, os dois e, vão amar-se eternamente.

O dia e anoite,

A lua e o luar,

Ambos, ambas, condenados

Condenadas pela insónia de DEUS.

Hoje são pequenos grãos de areia na mão da tempestade. Vivem num cubo de vidro, alimentam-se de pequenos nadas e, lêem as escrituras divinas. Nada a fazer, digo eu

Tudo a fazer, dizia ela

CONDENADA pelo oxigénio abstracto da manhã.

18 julho 2026

O poema sedução

Certa noite, enquanto o poema sedução lia o poema em desejo, junto à lareira, o Rei mais desajeitado do reino entra na sala e rapta o coração do poema sedução. O Rei desajeitado era manco da sílaba esquerda e, enquanto deambulava pela sala em gritos histéricos

- Queimem a noite, queimem a noite,

O poema em desejo abraçou-se ao coração do poema sedução e segredou-lhe baixinho

- Não, não tenhas medo, não, não tenhas medo,

O Rei desajeitado só consegui ser Rei porque seu pai, também ele Rei, desajeitado, trocou o seu irmão gémeo, uma hora mais velho, enquanto foi defecar, regressado, pensando que pegava no seu primogénito, não

- Estamos fartos e a fome é muita,

Batem à porta. O Rei e seus compinchas ameaçaram o poema sedução e, caso não obedecesse, nunca mais tinha o seu coração de volta,

- Queimem a noite, queimem a noite,

Mas o coração do poema sedução pertencia em palavras e versos ao poema Beijar, este, percebendo que a sua amada poema sedução corria perigo, organizou um exército de poetas e, todos juntos, construíram o livro e, fizeram frente ao Rei manco da sílaba esquerda e dos seus compinchas,

- Amigos poetas, todos juntos vamos salvar o coração do poema sedução,

E assim, todos em conversa, combinaram a melhor estratégia para actuarem frente a tal assassino,

- Entramos na sala e declamamos o poema,

Diz um,

- E se o Rei gostar de poesia?

Argumenta outro,

- Tenho uma ideia,

- Sim, diz,

Escrevemos o poema e, enquanto o declamamos, um de nós apaga a sílaba direita do Rei desajeitado,

- Que acham?

Combinado.

 

Rei desajeitado

Deste Reinado

Malvado,

És Rei de nome

Pai da fome,

És Rei sem Nação;

Vai malvado e deixa o coração do poema sedução.

 

Achas que vai funcionar?

Talvez!

- Queimem a noite, queimem a noite,

Em gritos histéricos o Rei desajeitado,

Tinham de actuar com toda a rapidez, pois o coração do poema sedução corria grande perigo.

Entraram na sala aos gritos, declamando o poema:

 

“Rei desajeitado

Deste Reinado

Malvado,

És Rei de nome

Pai da fome,

És Rei sem Nação;

Vai malvado e deixa o coração do poema sedução.”

 

Enquanto o Rei desajeitado, muito assustado, porque nunca tinha enfrentado uma batalha de poesia na sua vida, um dos poetas deita por terra a sílaba direita e, coitado do Rei desajeitado, cai no soalho, neste caso, na página argamassa do poema.

O poema sedução ficou com o seu coração e, o Rei malvado e desajeitado desapareceu do reino para dar lugar a uma República a sério;

- Queimem a noite, queimem a noite,

E nunca mais foi noite.

15 julho 2026

Um dia de antigamente

A enxada pertencia-lhe; desde o seu bisavô, avô e pai, todos eles, receberam como herança, ainda muito meninos, a enxada do destino.

Da escola, pouco ou nada se recorda, sabe ler, pouco, contar até dez e nunca aprendeu a construir um barco em papel,

Pai, parti a ardósia!

E o pai de punho cerrado, imitando seu pai, avô do agora herdeiro da enxada do destino, descerrou-lhe um murro entre os olhos, que em vez de ver as estrelas nocturnas da pobreza,

Não, não vou trabalhar hoje.

A noite regressava quase sempre embriagada, o candeeiro a petróleo, para alguns, candeia de azeite, para outros, sempre que cantava lá fora a coruja, desmaiava e adormecia, até que madrugada dento

Está a levantar.

E até os piolhos, engrunhados com o medo, se levantavam para mais um dia de trabalho árduo nos terrenos do senhor abade.

Dormiam no mesmo chiqueiro, o pai, a mãe, a avó e mais seis irmãos, sempre famintos, todos mais novos do que ele.

Dos meus seis irmãos, três deles eram meninas. Carne muito apetecida para o senhor abade, que gostava de brincar aos papás e mamãs entre as sombras de milho, junto à eira; chamava-as uma a uma, benzia-se e benzia cada uma delas.

Quanto a nós, pouco tempo passávamos na escola, caminhávamos montanha acima, montanha abaixo e, sempre que uma das ovelhas do senhor abade aparecia manca, levávamos pancada até pedirmos perdão e fazia-nos prometer pelo coração do Senhor Jesus Cristo que nunca mais voltava a acontecer; mas o azar nunca vem só e dias depois, novamente tínhamos de rezar.

Era Outono, as folhas, das árvores, lentamente se despediam como se o poema se suicidasse, aos poucos, de encontro à madrugada. As pedras pertenciam às palavras envenenadas pela neblina, quando acordava o dia e já o gado ia de encontro ao pasto.

10 julho 2026

As lágrimas da madrugada

Promessas, quase a noite sentia o musseque, enquanto lá fora, do outro lado do rio

Um qualquer algoritmo, muito mais fraquinho do que eu, que nem é carne, que nunca será o peixe, mas

Mas nesse musseque vivia um crocodilo, não, não meus queridos amigos,

Não é o “Crocodilo que voa” do Pacheco,

Este é outro crocodilo, mais esbelto, mais refinado, e educado

E que nunca ninguém lhe ouviu da sua aparelhagem stereo “puta que os pariu),

Como o Crocodilo do Pacheco

Mas este crocodilo sabia-a toda, parecia o Ferro a desmontar auto-rádios durante a noite,

Mal chegava ao tribunal,

Bom dia senhor Ferro, por aqui outra vez,

É verdade, meritíssima juíza, é verdade

É a minha sina, e a desgraça da minha filhinha

Que tivesse pensado na filha antes, e que iria passar mais uns dias de férias, férias no sombreado da ausência, humana.

O crocodilo, às terças-feiras e sábados, sentia vómitos

Sentia-se aflitamente, aflito

Doidito do corpito, e dos olhos. O musseque nunca dormia, ou ao longe

Um mabeco, se ouvia

Ou ao perto uma galinha cacarejava, e muito mais ao perto,

Uma mulher fodia e gemia e desejava, e também cantava.

No musseque tudo se podia, e tudo se fazia, e de nada valia

Fugir, como o Ferro que pensava que o conseguia. Um dia.

Porque um dia ele ao musseque voltaria, isto é, não eu, mas o crocodilo que vivia no musseque,

Não Ferro, fugir, é impossível.

Felizes aqueles que nem o corpo conseguem encontrar, e cada friesta, e cada pausa, doce e meiga, quando o capim nas nádegas lhe tocava, e ela

Sentia, o vento que trazia o cacimbo, que fazia a terra se erguer às quatro da madrugada,

E ninguém queria comer as raízes nocturnas de um sonho,

Tão pouco,

As lágrimas da madrugada.

 

 

10/07
22:22

09 julho 2026

Computação quântica

Computação quântica.

Nada a dizer, se tudo isto um dia não descambar. Enquanto os nossos computadores apenas funcionam com zeros e uns, como um interruptor que está, ou aberto

Ou fechado.

Na computação quântica uma subpartícula poderá estar em dois locais diferentes ao mesmo tempo,

E poderão ser analisadas milhões de hipóteses para resolver o problema, tudo

Ao mesmo tempo.

Isto não é ficção e já existem na google e na IBM, e tenho receio dos chineses; esses gajos não são de confiar.

Comecei com o MS-DOS.

Depois estes idiotas inventaram o Windows, e tudo estragaram.

O Windows é uma merda, viva o Linux.

Como deus está em sítios diferentes ao mesmo tempo, e propositadamente escrevi, está em sítios diferentes ao mesmo tempo, ora, ao mesmo tempo não existe

Deus poderá então estar em locais diferentes no instante de tempo t = a qualquer coisa, e então

Sim, ele existe, mas apenas no mundo subatómico.

Estas subpartículas são meio loucas, meio

Loucas, e tolas como eu.

C:\md fontinha

C:\cd poesia

C:\copy *. * C:\fontinha

C:\cd…

E deus lá anda nas suas andanças, apagando aqui, incendiando acolá, no instante de tempo t=2s,

Mas,

Depois que a vida é uma roda dentada, sim, claro que o é, mas digo-o não porque a roda tem dentes, digo-o porque

É fodido,

Através de equações complexas, determinar o número de dentes (z) em função do raio r, da puta da roda.

E sim. Que isto é fodido, que o digo eu, que o diga o professor Carlos Andrade, um grande abraço

Não te fintas? Quem tu diz sou eu,

Mas, oh professor

Se não fossem aquelas equações que toda a gente utilizava no Excel, durante o exame…, e que o professor fingia que não sabia,

Diria sim,

Sim professor, estávamos todos fodidos.

Felizmente que ainda cá andamos, com os nossos órgãos de máquinas mais ou menos nos trinques,

Com a cabeça entre os ombros à janela.

Passa o comboio e sou informado que não é pertença de ninguém, depois que tinha sido torturado por uma alforreca qualquer, mesmo que fosse quântica, e prometo

Prometo que brevemente vou aprender QuisKit, prometo.

Dir *. *

Cd:\ cd noite

Noite o era, depois o foi, depois

As dunas envergonhadas, junto ao rio, parecendo também elas alforrecas, ou viúvas negras

Ou apenas tristes jangadas de pedra, salgada, à janela de uma lâmina de barbear, a destreza inversa, ouvida e escrita,

Sai um Qubit para a mesa seis e pendura na conta,

Sempre aflito o aflito do quântico, e romântico

O Cândido, que foi mecânico e que foi amigo do meu pai, era magrinho e com óculos, que na altura se usavam, alguns, apenas como adorno

Em osso as hastes grossas,

Um elefanta hesita

Vou, não vou, e levita

Não foi.

É sono quase dia, quase noite quântica, quase noite sonâmbula na voz de um qubit, quase ele

Também alforreca, ou apenas

Uma janela para o mar.

 

09/07
22:53

27 junho 2026

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Outra mesa, mais nova, mais pequena, mas também

Mais cansada, e muito mais desorientada do que a charrua puxada pela mão do limbo, quando o sol é lua, quando a chuva é o silêncio, na espuma do tempo.

Abre-se a porta, algumas migalhas de luz, sobre a mesa, sob a mesa, a mão que depois de puxar a charrua se escondeu, e desde então

Nunca dia mais foi.

Uma criança acena-me, sorri e grita o meu nome, há tanto tempo que ninguém gritava o meu nome, há tanto tempo que não ouvia, e que não sentia,

Um sorriso.

Abre-se a porta, abre-se a porta e eu acreditava que um dia, um círculo de luz com olhos verdes me visitava, escrevi-o

E o José Luís Peixoto escolheu o meu texto dos cerca de setecentos textos a concurso para o conte connosco dois, fiquei contente, depois deixei de o ficar

Abre-se a porta, e na seminua voz a encarnação do destino, da janela, pouca coisa e muita coisa para se ver, para se observar, enquanto o barco não chega, para me levar.

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Outra mesa, mais nova, mais pequena.

 

27/06
19:20

01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05

30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04

08 abril 2026

Como seria a criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio

Do vértex destino o outro corpo parecia um farrapo de linho, ou até

A melodia manhã vestida de preto, caminhando descalça, calçada abaixo, se sentando na primeira esquina de luz que encontrava, e que o amava

Que o desejava, envenenado, amordaçado, lançado contra o último barco da noite.

Um dia, ele, e ela, e os outros, se cansaram do abismo, e acordaram da sonolência, que é pertencer à aldeia dos mabecos, e submersa num lençol de sonhos.

Chovia. Chove, sempre que me recordo de ti, sempre que te peço, qualquer coisa, começa a chover, e que de tanto eu te sinto no meu peito, que sei, que sei que em cada lágrima por mim desenhada, é um sorriso teu, quando me olhavas com os teus olhinhos de morfina e me perguntavas,

E que me dizias,

- isto tem de acabar pá, nunca sei quando é noite, nunca sei quando é dia, porra

Porra mesmo, respondia-lhe o filho em término silêncio, do silêncio que fosse eternamente, naquele momento, o silêncio divino, que era o fim, que era o começo e o recomeço quando um dia qualquer resolveu atravessar o rio congo, e zás

Congo Belga,

E das tantas vezes, nas muitas vezes que lhe perguntei, porquê

Ele, nada

Apenas porque do outro lado do rio, chovia. E que uma criança, brincava com círculos de luz.

Hoje, talvez perceba que essa criança era eu, e que que os círculos de luz, o teu olhar, mas sei lá, meu amor, o tempo é estranho, Einstein sabe-o e eu, aos poucos o vou compreendendo, porque

- esteve aqui o médico e se tudo correr bem para a semana já vou para casa,

Claro que vais, paizinho, vais e talvez não voltes mais, o filho, mentia ao pai, dizendo-lhe que tudo estava a correr pelo melhor, depois, bom, depois mentia à mãe, fazendo-a acreditar que em breve, o amor da sua vida estava ao seu lado, deitado na sua cama, e depois mentia a mim mesmo, não sabendo se tinha almoçado ontem, se tinha vontade de jantar amanhã, ou

Se seria melhor lançar os dados, e ele mentia ao filho e à mulher de uma vida,

E que seja o que deus quiser.

Uma caneta pertencente à sua infância, durante a noite se erguia, e eu sabia, que era ela, e então

Sentava-me na cama, e escutava-a, espiava-a

E eu também sabia, que a caneta escrevia, mas quando

 

(querem mais? Insiram a moedinha de 25$ na ranhura e)

 

O tipo da cabine ao lado em gritos histéricos, louco, que já tinha introduzido na ranhura 75$ e que a cabra ainda nem sequer tinha tirado o soutien, coisa macabra que eram estes bares estranhos, com cabines que mais pareciam o telefone público, tão estranhos como o tempo, e o bar 25 sempre apiado e recheado e magalas.

Quanto ao filho do senhor que atravessou o rio Congo, esse, coitado, dos primeiros 25$ apenas retractou e filmou o olhar mais triste daquela noite, e desistiu.

E pela primeira vez da minha vida de adulto, deitei-me na cama ao lado da minha mãe, peguei-lhe na mão, e adormeci ficando acordado a olhar o tecto e a imaginar…

Como seria o rosto da criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio, e

E que tinha fascinado o meu pai.

 

Alijó, 08/04/2026 – 11:45

07 abril 2026

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem, éramos quase gente, no meio de tanta gente, e mesmo assim, sabíamos que do outro lado do mar havia um círculo de luz com olhos verdes,

Que do outro lado do mar,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância, porque

Que do outro lado do mar, outra casa, outra mulher

Outra rua, outro número de polícia,

E sabíamos, e tínhamos sempre na algibeira os fósforos, os cigarros, as cartas que escrevíamos, e havia do outro lado do mar

A voz,

E o silêncio de uma outra mulher, na ausência de uma espada, quando da calçada ele,

Cantava,

Sorria,

E que depois, fingia ser um verme, uma libélula friorenta, tão ciumenta como o eram todas as libélulas de todo aquele oceano de luz.

Cada sombra era uma janela, era um aquário com três peixes, alguns arbustos e quem sabe, até então desconhecido por toda aquela gente,

O vento,

Vestido de ave-maria, enfeitiçado pelo sorriso de um soldado, que se revoltava a cada ordem recebida, que fugia, e que

O comboio para Santa Apolónia parte daqui a cinco minutos, um relógio sofria, não dormia, e corria

A cada segundo de silêncio, que às vezes a espingarda do soldado lançava contra o muro, e também sabíamos que do outro lado do mar,

Os mabecos estavam felizes, tão

Que um dia o rapaz que se dizia filho do soba, que de nada lhe sobreva e acreditava, que a charrua pertencia à terra lavrada, que quando sentia a janela entreaberta,

Pulava o muro, e depois

Sentava-se junto ao rio, em pouca despedida.

Do céu recebíamos as moedas e conchinhas e marés de inverno, nas mãos calcinadas pelo frio gélido de uma certa madrugada, o assalto ao castelo, a ferrugem que nos olhava das vigas em aço, que no braço, de aço quase nenhum, como nós o éramos,

Quase anda, dentro de uma carruagem de gente, com gente tanta, que

Os soldados daí para cá passaram a ser gente, e então

A gente saía todas as noites, e todas as noites, a cada meia-luz, e a cada meia-noite, a carruagem percorria cada rua e ruela e calçada e ribeiro e ribeira e o rio, que brincavam junto ao Tejo, depois do outro lado do mar.

Um barco regressava das colónias, coitado

Tão cansado que ele estava, que já em casa, apenas um banho e um copo de leite e uma torrada e a leitura de um poema, o separavam da noite e de uma cama deitada, sobre um soalho ondulante, que às vezes era salgado, que às vezes

Pertencia ao destino.

O meu pai palmilhava cada lágrima do musseque, e com um pequeno cordel passeava uma camionete e eu passeava um triciclo sob o olhar atento das mangueiras e de uma parvalhão de um boneco e que quando chovia,

O barco acordava, atravessava o Tejo, e

Do outro lado do rio, numa outra cidade, numa outra rua, sem saída, às vezes

E a areia era tão fina e tão branca, e tão

Uma voz rouca emergia do fundo de todo aquele oceano de luz, e então ouvíamos, nós os soldados, e a restante gente, daquela louca carruagem,

Santa Apolónia.

Uma outra voz, essa no interior da carruagem,

Estamos fodidos; chegamos.

 

Alijó, 07/04/2026 – 03:32

07 março 2026

Ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite

Sempre me fascinou a noite, ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite, era quase dia depois de sobrevoar o mar das migalhas, junto à ilha, e eu escutava o silêncio nocturno da casa, a casa,

Assim começa um poema de AL Berto, e assim escreve Lobo Antunes, o António

Que a noite dos silêncios, não é mais do que pequenos e silenciados rugidos,

Uma migalha que ficou do jantar da noite passada, tal como ele, eu adorava escutar o ranger dos moveis, quando acordam e desenham na escuridão

Aquele ruido divino

Depois a porta que range, de afiados dentes e tão cansada como eu, hoje

De servir apenas para esconder qualquer coisa, não é para isso que serve uma porta?

Depois, como ela nada tem para fazer do que esconder um compartimento e lá esconder, velharias & outras coisas mais, e também, corpos

E depois do meu corpo rodar trinta e cinco graus no sentido anti-horário, a cama acorda, e ainda sonolenta, finge que ontem ainda era tempo,

E que hoje,

Sem tempo, para ter tempo

E continua a noite, só, descalça, e lá fora outros silêncios ruídos, um automóvel com alguns dias de atraso, acorda a escura rua, depois o camião à procuras de sobras do dia de ontem, depois

Depois um pássaro não em silêncios ruídos, mas em alegres traços na tela da madrugada

Ah, e até o meu corpo, em quantas vezes, range, geme, e semeia sobre a lareira as lágrimas que só as estrelas o sentem, e eu, como sou uma estrela, também o sinto

Mas a noite é mágica, porque é silêncio, porque brevemente será Páscoa, e eu sou Ateu

Acredito no sorriso de um gato, preto, negro cada traço lançado contra o vento, e eu

E eu que sou o poeta, diria que a chuva é quase uma sílaba esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, acolá

Do outro lado do mar, do sítio mais parvo, tão parvo como abastecer o automóvel até que ele vomite gotículas de sémen, acreditando

E eu que sou Ateu, eu acredito

Que um dia vou gostar de gatos, que um dia o meu corpo vai deixar de ranger e de gemer, e ainda

Eu que sou Ateu, acredito

E ainda, este magnifico jerricã, pintado a encarnado desejo e com um poema de um tal de

Deixem lá o poema; e eu que sou Ateu, vou gostar de gatos, como será evidente

E amanhã à tarde, no meu milésimo abastecimento, oferecerei um pequeno e lindo

Jerricã em miniatura, com lantejoulas ao pescoço.

 

07/03/2026, 21:00

14 janeiro 2026

Era quase sol - último capítulo

Era quase sol, o senhor do negro chapéu, eram quase água as suas mãos melódicas nas lágrimas de cristo, fugia do destino, semeava ervilhas numa pequena folha de papel, amarrotada pela idade do infinito, e que talvez um dia, do outro lado do rio,

A cadeira de lona que o esperava,

Olhava-a e se sentava como se este fosse o seu último desejo antes de partir.

 

FIM

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

13 janeiro 2026

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.