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14 janeiro 2026

Era quase sol - último capítulo

Era quase sol, o senhor do negro chapéu, eram quase água as suas mãos melódicas nas lágrimas de cristo, fugia do destino, semeava ervilhas numa pequena folha de papel, amarrotada pela idade do infinito, e que talvez um dia, do outro lado do rio,

A cadeira de lona que o esperava,

Olhava-a e se sentava como se este fosse o seu último desejo antes de partir.

 

FIM

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

13 janeiro 2026

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.

À casa depois da chuva

À casa depois da chuva, que se sentava de pedra em pedra, e que sonhava, quase disfarçado de espuma, se levantava da terra e corria como um tolo, sabia que

Eu tinha acordado da sesta que a tarde desenhava no meu corpo, como se eu fosse uma escultura de vozes semeadas no trigo loiro da alvorada, a Teresa vasculhava nos meus livros réstios de traços deixados aqui e ali, de quando em quando, suspirava

Ele anda a trair-me só pode ele nunca escuta aquilo que eu digo…

Ergueu-se da chuva, sentou-se em cima de um punhado de sombra, e eu comecei a ouvir a sonolência de uma quase minha ausência de tudo.

Escutava a chuva, e pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca, ela

Não. Ele tem outra só pode ser.

E o barco às vezes era cinzento, depois descia a janela e quando poisava a âncora em cimento firme, os seus olhos eram azuis e o seu corpo quase que de um encarnado mais parecendo,

Desculpa? Eu tenho outra, outra quê?

Sabia que um dia tinha de partir, sabia que um dia tinha de deixar tudo, tudo

Olha, um poema dentro deste livro,

E tudo também pertencia em fazer acontecer, que a cada dia que acorda o sono, outro sono se deita, sobre o vento.

 

manhã ao acordar,

 

que te escreve no seio a ventura de os beijar, que te pincela o corpo de desejar, que te escreve no olhar.

que te quer a cada noite, mesmo sem luar,

que te desenha nos lábios o beijo, que te toca, e sente

a primavera de um abraço nas primeiras palavras do mar.

 

que te olha, e se pergunta, o que dizem os teus olhos,

que te escreve no silêncio, que te poema, que te sonha,

mesmo não sonhando, que te inventa na cama, enquanto da lua descem as maresias na mão da neblina.

 

que já foi menino, também menina, que foi poesia numa tarde junto ao rio, que te quer,

que te escreve, que te dá o luar e te é amar,

o que dizem os teus olhos que se pergunta…

a cada manhã ao acordar.

 

Acendeu um cigarro. Olhava pela janela da varanda os carros que vinham e os carros que iam, de vez em quando, olhava o aquário, e entre baforadas de pequenos silêncios, perguntava-se,

Partir e o que levaria apenas; um livro? Um pequeno poema?

Ou partiria apenas de mão vazias tal como tinha nascido, um dia, enquanto acordava o dia.

Ao outro dia deixaram de avistar o Artur e apenas o vento a sua falta sentia…

E pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca.

08 outubro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

23 setembro 2025

As frestas do teu olhar

 

As frestas do teu olhar deixavam entrar as finíssimas lâminas de luz que em viagem regressavam dos rochedos em flor,

Inventa-me, enquanto acredito nas feras amansadas das tristes noites de Primavera.

Deste veleiro em busca do vento, oiço as canções das tuas lágrimas, com que te escondes enquanto as flores do meu jardim, entre os parêntesis da manhã, correm para o mar.

E o mar ergue-se na alvorada, ele é pássaro, ele é nuvem, ele é a luz…

O corpo flutua nas tardes junto ao cais, a caneta que dá vida às palavras, separa-se do corpo, troce-se sobre a mesa, e esta cidade sufoca-me,

O cigarro morre,

Entre olhares, a rádio em ecos desvairados, os animais em círculos, caminham para o areal em sinfónica maldade da noite, quando a paixão mergulha nas mãos de um mendigo; as flores, meu amor, as flores que transportas nos teus olhos cinzentos e de mil e uma palavras, o barco morre, e termina o luar nas tuas mãos.

Este mar de insónia, morre-me,

E acredito que as palavras que deixo no teu diário, também vão morrer, de tédio.

Cruzas os braços, e também eu, de tédio, morrerei numa tarde de sono. Agora, vêm a mim a tua mão, pegas no meu olhar, e em pequenas fatias de paixão, voamos em direcção ao Sol.

Sou o sono, oiço-te.

E estamos vivos porque as cancelas da noite nos prendem ao calendário diurno das tardes em poesia, beijo-te e invisivelmente, sou a fera metálica das lareiras em chama, e ardem nos teus braços as flores cintilantes do olhar.

A tua voz, morre-me,

E morrem-te as minhas palavras em ti, como morrem todos os poemas que escrevo.

Voamos em direcção ao Sol, como voaram todas as abelhas das colmeias que habitavam junto ao rio. Depois, os sonhos mergulharam nos degraus que nos levavam até ao sótão.

E este barco dorme docemente nos teus seios, quando a minha boca inventa em ti as sonâmbulas lágrimas dos socalcos floridos; um barco, um barco de silêncio nas tuas coxas, meu amor.

E cai sobre ti a alvorada e as frestas do teu olhar.

A última porta da noite

 

A última porta da noite. Escondo os olhos na primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, lá dentro, alguns pertences dos meus pais, cartões de identidade, recordações que aos poucos vou deitando fora de mim, pertences esses que vão ficar esquecidos como um dia ficarão esquecidos todos os meus pertences; numa gaveta de uma distante mesinha-de-cabeceira.

Às vezes sinto-me um cacilheiro desgovernado ou um machimbombo louco em andamento pelas ruas de uma cidade que nunca existiu, que eu nunca vi, que eu não conheço, e vestido de cacilheiro faço-me à vida, saio de casa, pego no terceiro ou quarto cigarro da manhã, encerro a última porta da noite, e depois de andar em círculos pelo rio, estaciono junto ao café e tomo o primeiro café do dia e fumo o quinto cigarro do dia e chego á triste conclusão que preferia ser um louco machimbombo conduzido por um louco, não em círculos pelo rio, mas em contramão pelas ruas de uma cidade que eu não conheço, nunca conheci e não quero conhecer.

O mar está revolto, meu amor e, não adianta esconder-me dessa cidade que não conheço, cidade maldita que me viu nascer e me abandonou, cidade que se ergue em mim todas as noite e que teimo em não regressar; sabes, meu amor, tenho medo dos machimbombos e dos loucos que passeiam os machimbombos por esta cidade em chamas, onde ao longe, sinto o cheiro dos meus quadros, metade em cinza, outra metade, embalsamados como se embalsamam os corpos das flores da Primavera.

E nesta cidade que eu não conheço, que nunca conheci, observo o miúdo que está sentado no portão de entrada de um quintal recheado de mangueiras e que às vezes me questiono que quintal será este, a quem pertenceria este quintal, que miúdo é este que teima em olhar as nuvens e espera pacientemente o regresso do avô Domingos, que pela mão passeia um velho machimbombo pela cidade, cidade que não conheço, cidade que nunca vi, cidade que não quero conhecer.

Mas meu amor, acabamos sempre por desconhecer as cidades. Transportamos ruas, ruelas, casas, casinhas, flores, cacilheiros, putas e marinheiros, mas nunca a saudade.

E da primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, após encerrar a última porta da noite, vem a mim o cheiro intenso da terra queimada, do cheiro do capim húmido, da tua agonia enquanto a morte não te levava, dos constantes pedidos a Deus para que através de um qualquer milagre te salvasse, mas tal como a cidade que me abandonou, que eu nunca conheci, que ainda hoje não conheço, também ele, também eu, sentamo-nos junto ao rio a olhar os machimbombos a desenhar círculos de sémen sobre os temidos lençóis que sobejaram da noite, que tal como a cidade, não me pertence e nunca me pertencerá.

Nunca serei dono da noite porque a noite é escura, porque a noite é fria, porque a noite sabe a morte e a uma cidade que se afunda nos três pilares em aço das pequenas mãos do silêncio; e hoje, queria ser como tu.

A última porta da noite.

E este machimbombo acorda-me durante a noite, pega na minha mão e leva-me em pequenos passeios por esta cidade que eu não conheço, que eu nunca conheci e que hoje sinto medo de recordar. Acordas-me sem perceberes que nunca adormeci antes de encerrar a última porta da noite, sem perceberes que dentro de mim habitam cacilheiros em papel, machimbombos de porcelana e flores de Inverno.

Que o fino fio de nylon que puxava o machimbombo hoje trago-o na algibeira conjuntamente com os cigarros, as chaves de casa e o endereço da terceira gaveta da tua mesinha-de-cabeceira. E em caso de endereço insuficiente, é favor devolver ao remetente…

Mas qual remetente?

Se esta cidade não existe, se esta cidade nunca existiu, se esta cidade é apenas uma velha fotografia que não sei porquê… está na gaveta da mesinha-de-cabeceira, e é pertence dos pertences deles.

Estes barcos chateiam-me. Estes barcos são agora sucata e vómitos de saudade, depois percebo que o silêncio é o construtor da última porta da noite que todos os dias encerro e que a todos os dias se abre; e que dos olhos acordaram as preguiçosas madrugadas onde uma janela se abre e que nunca mais se encerrará como se encerra a última porta da noite.

Desenho as estrelas nos teus olhos. Desenho as madrugadas nos teus lábios, e quando regressam a mim os machimbombos que deixei naquela cidade que nunca conheci e ainda hoje não conheço, percebo que sou um pedaço de aço nas mãos de um metalúrgico que não se cansa de escrever na escória do meu silêncio; aqui me perco onde guardo os teus lábios.

E há sempre um remetente que nos espera, numa cidade que não conhecemos, numa cidade que inventamos para adormecer durante a noite e encerrar a última porta desta; e ele inventou o sono.

E das mangueiras do meu quintal apenas ficaram os teus braços; e as mãos com que afagavas o meu rosto…

E a última porta da noite.

05 maio 2025

A Bedford amarela

A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,

Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.

Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e

Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.

O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só

O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,

Tão grandes pai

Sim filho, grandes, também tu, um dia,

Um dia quê pai,

O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,

Artur és tu meu querido?

Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,

Pai.

No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou

Estás bem Artur?

E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra

E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,

Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor

E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,

Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?

E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me

E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.


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Que texto intenso e cheio de imagens vívidas! Sinto a força das tuas palavras a pintar um quadro sensorial muito forte. A Bedford amarela, o musseque, a saudade, a relação com o pai e a presença marcante do Artur... tudo se entranha na leitura.

A forma como descreves as sensações, os cheiros, os sons e os toques é muito poderosa. A mistura da realidade dura do musseque com a ternura dos laços familiares e a intensidade dos sentimentos cria uma atmosfera única.

A partida do Artur parece ser um tema central, permeando as tuas memórias e emoções. A repetição da ideia de que "depois de partirmos, quase sempre, não regressamos" e a antecipação da partida do Artur criam uma sensação de perda iminente.

A relação com a pessoa amada também é descrita de forma muito íntima e sensorial, com detalhes como "saboreio os teus lábios de quase mel" e "desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia".

A imagem final do teu nome saindo dos olhos da pessoa amada, "amo-te Francisco", é particularmente tocante, encerrando o texto com uma nota de profunda conexão.

Obrigado por partilhares este texto tão pessoal e expressivo. Há alguma coisa em particular sobre ele que gostarias de explorar ou conversar?


30 abril 2025

Não sei, era tão estranho o Artur

Não sei, era tão estranho o Artur, até quando me tocava com a sua mão invisível, quase espuma de um desvaneio, e desenhava no som de uma águia em cio, os primeiros acordes da manhã. 

Eu gostava dele, amava-o, mas é impossível amar o Artur, impossível,

Impossível esta vida de ser e de ter e de estar, onde nunca estive, quando me sento em frente à estante, poiso o olhar, aqui e ali, e lembro de quando li aquele ou aquele outro livro, abro-o, às vezes, encontro notas, palavras escritas numa qualquer mesa de café, e no entanto,

Sentava-me em frente ao Tejo e o Tejo comia-me desde o dedo mindinho do pé até aos quase não cabelos que transportava e que quando estava muito vento, colocava a mão na cabeça e com um quase medo de perder o restante cabelo, aprisionava-o com um pequenino fio de nylon. Depois sentava-me, puxava um cigarro da algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E ele quase dormia sobre as lágrimas de um cacilheiro. No pequeno caderno que sempre o acompanhava, abria-o, puxava de uma esferográfica quase tão cansada como a algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E sabes, meu amor, nunca entendi porque o Artur era apaixonado por barcos,

Nunca percebi porque o raio do meu irmão mais novo era tão ou mais estranho de que uma locomotiva a vapor, que depois do sexo lhe lia um poema, olhava-a e sentia a claridade da noite quase destino, quase calçada sobre rodas, depois sabia

Sabia que quando ele me tocava, eu não sei por que razão, mas eu tremia, eu não dormia, eu sofria, e quando lia o que ele me escrevia,

Eu sonhava-o,

És tão tolo Artur,

Tolo.

Ouviam-se as amarras dos marinheiros miseráveis, que quando aportavam, entravam em cada luzinha meia-adormecida, bebiam, fumavam, deixavam restos de esperma sobre a mesa da cozinha, depois um gaiato rompia corredor adentro, gritava pela mãe, e esta,

Esta abraçava-o com todo o carinho do universo, cada gemido fingido servia apenas para alimentar o vício da heroína e o leite do menino,

Depois pegava numa nota de mil e enrolava-a em forma de tubo, protegendo o seu interior com prata de alumínio, o miúdo nunca percebeu porque todos aqueles marinheiros estavam fundeados no quarto da mãe, no entanto, quando ia à janela, olhava ao longe o Tejo,

E via um soldado sentado na tristeza da tarde, às vezes quase noite, às vezes, quase saudade de ser noite, de ser sempre noite dentro dele.

Uma espingarda se inventava na escuridão do penedo de luz que de ser tão estranho, o universo

Era tão estranho o Artur

O universo sabia, sabia que um dia, todos aqueles marinheiros deixariam de ser gente, o gaiato cresceria e quem sabe, também um dia, também soldado, que o cacilheiro que o olhava quase sempre ao final da tarde, hoje é sucata

Quase sempre me encontrava com ele nas águas-furtadas de uma caquéctica pensão, ele chegava sempre em primeiro lugar, entregava os vinte e cinco euros enroladinhos à senhora quase tão venha como a pensão, nada diziam, tão pouco se olhavam, subia as escadas até ao céu, a escuridão era total, enquanto eu subia, contava os degraus e quase sempre concluía que tanto os cobertores como os espelhos não tinham as mínimas dimensões segundo o RGEU,

Quero lá saber do RGEU, quero lá saber do meu irmão Artur, quero lá saber,

Três toques numa porta que mais parecia os olhos de uma abelha, depois, depois a porta abria-se, e ele à minha espera para me abraçar, tão forte, tão forte,

Ele despia-me, lentamente como se eu fosse uma andorinha à procura da primavera, tocava-me, acariciava-me os seios, beijava-os, eu sentia dentro de mim o fogo de mais uma tarde de loucura enquanto pela janela entrava o som de crianças em brincadeiras de ruela junto à catedral, ouvíamos o sino, sentia-o dentro de mim como se ele fosse a primeira pedra lançada contra um crucifixo suspenso do gesso em fendas madrugadas de uma alvorada, quase outra vez noite.

Ouvíamos a coruja e ficávamos lá, de mão dada.


29 abril 2025

Se o meu irmão Artur não

Se o meu irmão Artur não fosse tão teimoso como um fio de nylon numa tarde de domingo de passeio no shopping, talvez ainda hoje, sem o saber, sem sequer ter escrito uma letra que fosse, um telefonema, apenas, sempre que se vestia de vento, agarrava na alcofa, e

Era vê-lo sobre as eiras de Carvalhais, enquanto sentado sobre uma pedra cinzenta, poeirenta no tempo e na idade, triste na vaidade, e no desterro de viver de nunca ter vivido ou apenas,

Quando caiu do muro abaixo, se escalou como um silêncio, e depois

Depois apareceu cadáver triste dias depois do último escrito nas terras pestilentas do outro último adeus. Foi-se, o meu querido irmão.

Artur Artur nós só podemos ser dois e somos três, e como vês, que nunca nada vês, depois da chuva vêm sempre os pássaros que trazem os sonhos da chuva até aos meninos que brincam no sono nos braços da mãe, no entanto o meu irmão quis ser poeta. Quis. Ele queria ser tanta coisa, meu deus, que ainda hoje não consigo entender a cabeça, o silêncio, o medo

Do meu irmão Artur.

Era sempre noite naquela casa de sombras, naquele quarto a abarrotar de morte, o tecido de um sonho quase enrolado na parede do outro lado do corredor, junto ao esquentador, havia uma pedra que todas as manhãs, antes de acordarmos, eu e o meu irmão, que deixei de ver quando comecei a escrever basta nas paredes da igreja da minha terrinha, o Artur é assim sempre sem jeito,

E depois acordávamos e lá estava ela, a pequena pedra das brincadeiras de Luanda, olhava-nos tanto, e nós a olhávamos como se ela fosse uma estrela,

Um dia a nossa mão fez um papagaio em papel, o Artur olhava-o desconfiado, indiferente, eu

Eu estava ansioso pelo seu lançamento, até que vinha a tarde, vinha o sono, e deixávamos de o ver, até que ao outro dia, quando acordávamos, lá estava a pedra com o nosso papagaio em papel, tão colorido como os loiros cabelos de uma menina, e a nossa mãe

Sorria-nos. Tão feliz que ela estava.

Cada cor era um lápis nas mãos de um menino, começou a rabiscar as paredes atá à altura do seus sonhos, o meu avô enervava-se, chateava-se e

Sorria, sorria como uma outra criança inventada numa tarde junto ao mar.

O Artur era guerreio, ai isso o era, desde cedo a minha mãe percebeu que o gaiato adormecia melhor, não tão ranhoso que quase nunca me deixava dormir, e uma tarde a minha mãe teve a feliz ideia de lhe colocar um pequenino rádio a pilhas debaixo da almofada, desde então

Começou a escrever poemas nas mãos das mangas que durante a noite tombavam sobre o chão térreo de uma infância quase tão lua, como a lua das tardes em Belém. 

As primeiras vezes que olhei o mar, tive medo. A lhá parecia-me algo de abrupto, na essência de um toque, se uma flor acordava na algibeira, era porque do outro lado do destino, havia sempre um barco que o esperava, e ele tão menino, tão menino na mão do meu pai, quando em frente a um paquete, deslaçava os dedos da minha mão, eu olhava-o de tão alto de pequeno que ele o era, metia as mãozitas no bolso dos calções, erguia o pescoço até ao céu, e

Tão grande pai

E ficava a olhar.


28 abril 2025

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário

4º capítulo de uma merda qualquer que está a nascer.


Vai partir deste encanto, escreveu sobre a mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha

Por favor ausento-me, depois são os peixes, fêmeas até no desejar a infância de uma borboleta, são lésbicas, são poesia que depois do desejo, um dos peixes, encostada ao vidro, liberta com a língua cada minuto do meu tempo, eu estou sentado, tenho os cotovelos sobre a dita e restrita mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha, uma colher sente o frio do vento, se depois do vento, houver outra neblina sobre a toalha, com mais sono do que com a barriga, despediu-se também ante de ter casado a noite.

Pela janela vem a mim um pedacinho quase nada de inverno, ao longe sinto as fragas que galguei na minha meninice nos montes da cunha, sinto o frio nas mãos descalças pela miséria, descanso-as na algibeira do meu rosto, e depois

Depois ele pegou nas mãos, e olhou-as como quem olha uma andorinha, no papel da alvorada, depois de ser desenhada, ou até

Amada, e eu

Eu barcos inventava, era casado, tinha uma amante em Carcavelos, qualquer coisa como uma peça de aço amontoado sobre a mesa de uma esplanada, junto ao rio

Uma cabra tintilava os sinais invisíveis de uma morte, quase

Ao outro dia,

Anunciada. Ele,

Sorria quando sentia o vento, depois sabia, que a cabra que sorria, também ela, também ela sofria,

Tinha bronquite nas mãos calejadas pela vassoura mais pesada do que a neve dentro de uma caixa de sapatos. O correio lhe trouxe a vontade de se livrar da saudade, de vender o desejo, talvez ao diabo, talvez,

Talvez ao barbeiro

E eu contava-os, tantos eram os barcos que entravam naquela casa, das traseiras pareciam malmequeres abandonados, quando saiam, até que um dia

A árvore que caminhava no passeio da avenida, olhou-a e pegou-lhe na mão

A outra, de corpo enrolado na despedida do silêncio de um aquário, acaricia-lhe a vagina parecendo a concha de uma sílaba, distante de um final ponto, qualquer menina, desejava ser flor,

Enquanto isso, a ponte era apenas uma invenção do Artur milhas-luz, rapaz de entreter a malta, nas férias, trapezista, e engatava gajos na rua, fazia-lhes um broxe,

E,

O labirinto em ter tanto barco dentro de casa, ele sentia que do vento apenas tinha a agradecer, mas sabia-o também,

Descia, descia até sentir nos testículos o frio mais frio de Trás-os-Montes, engoliu a saliva, e deitou-se junto ao nicho de nossa senhora, nossa mãe, mesmo à entrada do jardim da carreira,

Que porra, foram insultados, uma velha agreste e mais parecendo o inverno de vila real

Que pouca-vergonha ele e elas deitados aos pés de nossa senhora nossa mãe, e que sim, também

Também lá estava a primeira lágrima daquela tarde quase libra, nos lábios de um jardim.

O menino tinha sido semeado, havia do outro lado do areal um vesúvio destemido e que dançava parecendo gente, mas que não o era, e que nunca o foi, porque gente não dançava assim, e a chuva

Porque havia também, há barcos encalhados naquela casa, há luas quase milagre, depois de despidas, nuas

Ele dançava

Eu acreditava que apenas um dos barcos me levaria até à lua dos sentidos, depois o frio, a porcaria de uma árvore quase em declínio e em cio, quase também dançando, quase também o frio,

Olha dizem que morreu o Artur

Sentei-as sobre a mesa. O Artur que se foda, se morreu, morreu

Então minhas lindas meninas o que têm a dizer em vossa defesa, a não ser que havia uma corda pendurada na parede da casa de banho, que um dia viu ratazanas em travessuras lutas lá para os lados de lisboa, que do outro dia, enquanto dormia e se esquecia, dizia-se ateu e antes de adormecer,

Agradecia a uma qualquer equação linear desenvolvida na vagina de uma laranja,

Obrigado meu deus por mais um dia. E que dia.

Dá-me a tua mão meu amor deixa-me tocar na tua pele de peixe amordaçado enquanto se ouve o leve silêncio do filtro de água, que de quando em vez, e quase sempre

Borbulhar também o sinto, eu também responde ele, pequenas gotinhas de oxigénio são lançadas para a lua e tu meu amor eu amo-te tanto mais do que a liberdade de dançarmos de mãos juntas, no tanque dos bombeiros voluntários,

Naquele dia era tarde. Havia baldes com uvas, das mãos das vindimadeiras, o brilho olhar de que um dia,

A vida vai melhorar meu filho

Eu tenho uma figueira que dança depois do jantar, saíamos todos, eu e eles, e elas, a algazarra de um bairro enigmático, o bairro dos sonhos, o eterno bairro do hospital, a casa número quinze quase em chamas de tanta heroína ter fumado, uma das noites quando regressava a casa,

Ele olhou para a lua, e viu com os dois olhinhos mais parecendo fragas do que olhinhos, quanto mais a lua

E sobre a árvore grande e centenário plátano de Alijó, um menino brincava com a bicicleta, olhei-o

Fechei o olhos. Abri novamente as persianas da última bebida da noite, e

E lá estava ele em cima da mais bela árvore e folgante como a charrua que desbrava um texto depois de sonhado, e em vez de ir dormir

Descia a rua, e depois

Sentava-me em frente ao rio. E escrevia. E desenhava.

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário.


27 abril 2025

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Que tinha sido sua mãe, durante a noite, saía de casa e iluminada pelas estrelas de um amor mais dia do que o luar,

Colhia pétalas para semear no rosto de seu menino.

Levantava-se já o destemido vento, havia junto à ribeira uma cerejeira que escrevia poemas durante os finais de tarde, e nos olhos do menino, más as horas da tarde, um barco entrava-lhe janela adentro, homens fardados, mulheres despidas, despediam-se do marido e acordavam nos olhos de um amante, antes que fora também um menino, antes também uma pétala colocada pela mão de sua mãe.

Que lhe tinham roubado a apendicite quase aguda, que anos depois, sobre o Tua uma abelha acordou, e o menino

E a sua mãe, galgaram serra acima, depois do jantar, encostava o rosto à janela, ele já muito bêbado de tanta poesia,

Abre-lhe pausadamente as pernas, em pedaços de milímetros, calculou a distância mais curta, da terra ao céu,

E ela gemia, ele escrevia na nádega quase rouca de tanto uivar, que o orvalho lhe entrou sexo adentro,

Voou sobre o mar,

E sorriu de prazer.

Que foda.

O barco depois sentava-se sobre uma cadeira em tubo de ferro falsificado nas metrópoles longínquas de umas mamas mais olhos do que barriga, despia a saia,

E saía,

Que tinha como roupa uma fita parva enrolada ao sangue do peito, é alvorada, até à alvorada todos bebiam, e ninguém

Pagava nada. Oferta de sua excelência, o menino da mamã, depois ouvia-se o galgar dos sinos sobre a clareira de um abraço, o comboio quase em lágrimas, depois chovia, depois ela não queria, e eu quando queria, caía, e sobre o mar a ausência de um papagaio em papel, tão lindo, e tão alegre, como a sua mãe.

A ponte, sorria, subia até à lua, e ao outro dia, descia, em coma quase poético como de poético era a segunda rua depois do cemitério, do outro lado, alguém gritava

É hoje é hoje que acaba o mundo,

E depois da última foda da noite, levantou-se e o mundo acabou.

Fiquei eu, apenas eu neste labirinto de mediocridade de uma palavra ambulante, pretos em guerra, em guerra eu com as palavras,

E depois, a ponte sempre em transe, sempre em tesão, esperando que da outra margem,

Um rés-do-chão quase uma pequena lágrima escondida na areia. Era sábado, tal como hoje também é sábado, uma espingarda subia a calçada, desviava-se das sombras encontradas, às vezes sentava-se no passeio e via os musseques da infância, também eles desciam a calçada, tal como a espingarda, em lágrimas de sangue, na sua mão tinha a mão de sua mãe uma alcofa com o tecto pincelado de estrelas,

É para ti meu amor

E foi quando já depois de noite, o menino e sua mãe e o vento, depois dobrava a esquina, dizia palavrões ao vento

Vai trabalhar malandro

E despia-se sobre a mesa-de-cabeceira, ela abria a janela, fumava, fumava, e ele dançava, e ela

Despe-se pausadamente como um diamante à procura, também ele, do dedo de sua mãe, de preferência, com dinheiro, e

E que não, que nunca tinha ouvido falar, quanto mais, quanto mais, olha, outra espingarda, apressada

E ela olhava-o, depois a dança terminava, ela colava-lhe uma moeda de vinte e cinco escudos nos testículos, e ia embora até à outra margem, que por hoje ser sábado, o cacilheiro despedia-se da cachopa de uma sanzala entre capim e mabecos, um cacho de bananas sobre a mesa, maiores do que o menino, e sua mãe, de vez em quando, desenhava-lhe brincadeiras na palma de sua mão,

Abre é para ti

Porque o vento sempre lhe disse e dizia, menino

Olhe que um dia, o menino

Sozinho, sobre a toalha uma colher de sopa depois do jantar saneando que também é preciso ser o livro até que uma flor acorde na porta de uma palavra sempre que chovia o meu pai adormecia acreditando que a chuva é uma mulher nua,

Pai

Desculpa, pensei que hoje havia sobre a mesa uma fotografia e olha o que encontrei, uma bussola de ouro silêncio da vida de dois pequeninos peixes sedosos por sombra e por rimas e batidas de uma nova alvorada.

Depois a calçada fechava a janela, descia a persiana quase mais emperrada no vento do que todas as mandibulas de limalha sobrantes de tanto parafuso e de tanta porca que depois de ser noite, todos e todas, desciam até ao rio sonolento das pequenas migalhas sobre a aldeia, e sabia que um dia, e o vento viria,

E veio,

E veio hoje.

As espingardas nunca mais foram vistas e observadas, e tão pouco o vento que hoje

Deixou de sentir o desejo quando percebeu que o barco tinha adormecido sobre a calçada,

Comadre amanhã posso ir

Que também havia na sanzala quem acreditasse no destino, que um dia, o sino

Tocava,

E um menino acordava, da cinza, vestia calções e calçava as sandálias em couro carcomidas pelos olhares nocturnos das mangas, que quando havia sol, deixavam os filhos entregues à sorte de uma semente,

E subiam até ao sótão,

A espingarda sabia, sabia que um dia, um dia o menino descia a janela e iria se esconder,

Nas asas de uma gaivota. Ouvia-se o vento nos braços deste barco, sobre a cabeça,

A ponte. E também tinham medo.

Que um dia o menino,

Acordasse.


13 abril 2025

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar

Como se a terra não rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo, pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.

Já viste o jornal, parece que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois

Os vinhedos, para fugirem ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,

Socalco abaixo,

E rio.

O dia nunca tinha horários, e mesmo assim

Desculpa, o que tenho eu ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,

E este rio de cabelos loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada

Que o Douro enlaça, que o Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao suor, e muitos deles

Nem o nome sabem desenhar,

Quanto mais, ler, quanto mais, sonhar.

Um dia percebeste que a saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra, de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada dia, o Douro ao outro dia,

Não é o Douro de ontem.

Pai, porque vais embora

O sino que desde que me lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma coisa,

Quando a única coisa que lhe devo é apenas,

O silêncio de uma estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria

Que o dia,

Tivesse vinte e sete horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.

Como assim pai

Olha, imagina dois pontos

O ponto (A) e o ponto (B)

Pode ser, mas porque não utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em vez de letras,

E depois pai

Imagina que há uma distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.

Imagina que um dia,

Um dia pai

Imagina que um dia nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,

Porque leu, porque alguém a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos rochedos mais belos da primeira página de um livro

Como assim pai

Aquele doce doirado navio de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.

Depois chega a casa já embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo rio, sempre o mesmo xisto,

Sempre a mesma saudade.

Depois chega a casa, maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela

E espera que amanhã acorde o dia, sempre o mesmo dia.

Uma lágrima de fogo nos lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto, continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.


13/04/2025


08 abril 2025

Tantos beijos te dava se a janela do meu quarto

Tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e

Mais perto, muito mais perto do que a minha janela ao teu doce olhar, depois de um novo amanhecer, quase a chuva, quase

Seria Maio? Talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar

Quando abro a minha janela. Apenas o olho e o sinto, e recebo todos os barcos e todos os silêncios que o meu cordel, depois da meia-noite, me traz e coloca sobre a cama; quase que sou o comandante de todos estes barcos, o guardião da minha janela, apedrejada, às vezes, por miúdos quase adultos nas calças de uma criança,

Balança, o vento o sente

E ela, bom

Dorme na sombra do meu corpo projectada sobre a mesa. Sou quase uma palavra, um pequeno desejo, podia ser astronauta, podia ser engenheiro mecânico, que sou o quase

O quase engenheiro das estruturas metálicas, equações em cio, outras marés, novos barcos, bares apinhados de gente, gente doente

Que às vezes,

Às vezes, mente.

O corpo é uma espátula submergida num líquido quase

Veneno

Na manhã que acorda, sonolenta, e de rabo para o ar.

E tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e quanto à janela do meu quarto, lembro-me logo do senhor Álvaro de Campos, no poema Tabacaria,

Ao longe, o Esteves.

A menina que comia chocolates e que não há nada melhor,

De que comer, chocolates.

Come, piquena, come chocolates…, e o senhor Álvaro de Campos, da janela do seu quarto

Da janela do meu quarto, enquanto o teu corpo parece um sinfónico gemido de 

ausência temporária, digo

SGAT.

Mais tarde, serei o mar. Espera

Não vás, não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras

Se o infinito o quiser, que seja apenas durante a noite, se a janela se abrir.

Talvez já seja Maio, talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar, tão poucas são as madrugadas galgando a seara, imaginando complexas e robustas pontes metálicas, do outro lado, junto à parede quadrangular, apenas num sentido, jaziam as rodas dentadas sobrantes do jantar do dia anterior

Alguns parafusos de pressão, da sobremesa do almoço de hoje, desejada por uns

Odiada, por outros

Vestia-se de negro, calçava as sandálias mais encarnadas que brincavam no jardim, depois

Depois, aquela chuva parva, torrencialmente desmedida, o cheiro a terra queimada, os pés

Quase brasa no silêncio do capim,

Eu sorria, eu sorria sempre

Que chovia, que alegremente eu pedia, e todos os barcos da baía de Luanda,

Corredor fora, eu corria, corria

Não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras.


08/04/2025


A última porta da noite

A última porta da noite. Escondo os olhos na primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, lá dentro, alguns pertences dos meus pais, cartões de identidade, recordações que aos poucos vou deitando fora de mim, pertences esses que vão ficar esquecidos como um dia ficarão esquecidos todos os meus pertences; numa gaveta de uma distante mesinha-de-cabeceira.

Às vezes sinto-me um cacilheiro desgovernado ou um machimbombo louco em andamento pelas ruas de uma cidade que nunca existiu, que eu nunca vi, que eu não conheço, e vestido de cacilheiro faço-me à vida, saio de casa, pego no terceiro ou quarto cigarro da manhã, encerro a última porta da noite, e depois de andar em círculos pelo rio, estaciono junto ao café e tomo o primeiro café do dia e fumo o quinto cigarro do dia e chego á triste conclusão que preferia ser um louco machimbombo conduzido por um louco, não em círculos pelo rio, mas em contramão pelas ruas de uma cidade que eu não conheço, nunca conheci e não quero conhecer.

O mar está revolto, meu amor e, não adianta esconder-me dessa cidade que não conheço, cidade maldita que me viu nascer e me abandonou, cidade que se ergue em mim todas as noite e que teimo em não regressar; sabes, meu amor, tenho medo dos machimbombos e dos loucos que passeiam os machimbombos por esta cidade em chamas, onde ao longe, sinto o cheiro dos meus quadros, metade em cinza, outra metade, embalsamados como se embalsamam os corpos das flores da Primavera.

E nesta cidade que eu não conheço, que nunca conheci, observo o miúdo que está sentado no portão de entrada de um quintal recheado de mangueiras e que às vezes me questiono que quintal será este, a quem pertenceria este quintal, que miúdo é este que teima em olhar as nuvens e espera pacientemente o regresso do avô Domingos, que pela mão passeia um velho machimbombo pela cidade, cidade que não conheço, cidade que nunca vi, cidade que não quero conhecer.

Mas meu amor, acabamos sempre por desconhecer as cidades. Transportamos ruas, ruelas, casas, casinhas, flores, cacilheiros, putas e marinheiros, mas nunca a saudade.

E da primeira gaveta da mesinha-de-cabeceira, após encerrar a última porta da noite, vem a mim o cheiro intenso da terra queimada, do cheiro do capim húmido, da tua agonia enquanto a morte não te levava, dos constantes pedidos a Deus para que através de um qualquer milagre te salvasse, mas tal como a cidade que me abandonou, que eu nunca conheci, que ainda hoje não conheço, também ele, também eu, sentamo-nos junto ao rio a olhar os machimbombos a desenhar círculos de sémen sobre os temidos lençóis que sobejaram da noite, que tal como a cidade, não me pertence e nunca me pertencerá.

Nunca serei dono da noite porque a noite é escura, porque a noite é fria, porque a noite sabe a morte e a uma cidade que se afunda nos três pilares em aço das pequenas mãos do silêncio; e hoje, queria ser como tu.

A última porta da noite.

E este machimbombo acorda-me durante a noite, pega na minha mão e leva-me em pequenos passeios por esta cidade que eu não conheço, que eu nunca conheci e que hoje sinto medo de recordar. Acordas-me sem perceberes que nunca adormeci antes de encerrar a última porta da noite, sem perceberes que dentro de mim habitam cacilheiros em papel, machimbombos de porcelana e flores de Inverno.

Que o fino fio de nylon que puxava o machimbombo hoje trago-o na algibeira conjuntamente com os cigarros, as chaves de casa e o endereço da terceira gaveta da tua mesinha-de-cabeceira. E em caso de endereço insuficiente, é favor devolver ao remetente…

Mas qual remetente?

Se esta cidade não existe, se esta cidade nunca existiu, se esta cidade é apenas uma velha fotografia que não sei porquê… está na gaveta da mesinha-de-cabeceira, e é pertence dos pertences deles.

Estes barcos chateiam-me. Estes barcos são agora sucata e vómitos de saudade, depois percebo que o silêncio é o construtor da última porta da noite que todos os dias encerro e que a todos os dias se abre; e que dos olhos acordaram as preguiçosas madrugadas onde uma janela se abre e que nunca mais se encerrará como se encerra a última porta da noite.

Desenho as estrelas nos teus olhos. Desenho as madrugadas nos teus lábios, e quando regressam a mim os machimbombos que deixei naquela cidade que nunca conheci e ainda hoje não conheço, percebo que sou um pedaço de aço nas mãos de um metalúrgico que não se cansa de escrever na escória do meu silêncio; aqui me perco onde guardo os teus lábios.

E há sempre um remetente que nos espera, numa cidade que não conhecemos, numa cidade que inventamos para adormecer durante a noite e encerrar a última porta desta; e ele inventou o sono.

E das mangueiras do meu quintal apenas ficaram os teus braços; e as mãos com que afagavas o meu rosto…

E a última porta da noite.


16 fevereiro 2025

Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda

Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda

Da vida, desculpou-se à nascença, depois do tédio, sempre que o almoço pertencia aos silêncios daquele quintal, a sombra das mangueiras, o cheiro ao longe, de perto se erguia, do capim depois da chuva, a saudade.

Tão perto de mim, e tão distante da minha mão, aquela acácia que estava sempre a chorar, e eu

Pai, porque choram as acácias da minha infância, da outra janela, quase que o cérebro derretia numa manhã de inverno, depois da chuva,

Sempre que acorda a maré deste corpo, dentro dos pequenos círculos e cubos, que só o corpo de uma mulher consegue ter.

E da vida se desfez quando soube que havia um poeta dentro dele,

Porque até podia ser gay, agora, poeta?

O meu pai chorava, sabendo eu que ele não chorava, porque o meu pai nunca chorou,

E que sonhava,

E que imaginava,

E que no final, não sabia nada.

Eu desenhava nas paredes que ainda estão pinceladas dentro de mim, e diria que vindo de um daltónico como eu, aquelas paredes

Tinham tons de azul.

Talvez por isso goste tanto do azul. E do mar.

Depois abríamos a porta, e lançávamos escadas abaixo

Duas ou três panelas com água a ferver,

Água que durante a tarde anterior tinha sido transportada da Gricha, da fonte da Gricha.

Não tinha fome, mas às vezes tinha vontade de comer, e imaginava coisas,

Sentava-me na varanda e contava,

Quantos carros tinham passado durante a tarde, e qualquer coisa como quatro ou cinco.

Muito bom para o primeiro dia.

Depois ele passou a contar quantos vidros partidos em quase todos os vidros partidos da janela da sala quatro casa de banho e cozinha, limitada e sociedade anónima,

E quando se deitava,

Estava mais cansado do que o vento.

Às vezes, às vezes ficava horas a olhar para o chafariz, e um dia ele percebeu

Que as casas tinham rodinhas e que seis meses depois, estava numa outra casa, que se diga, quando do inverno,

As paredes choravam. E eu pensava

Também as pessoas choram e não morrem, quero lá saber das lágrimas das paredes, e quando acordava, porque durante a noite se tinha esquecido que nunca, mas nunca, se devia encostar à parede, e quando acordava parte das costas humedecidas, devido às lágrimas, das paredes.

Sentia um frio na espinha, como quando ele muitos anos depois

Dentro de um carro em andamento e a mão se alicerçava ao meu sexo, diga-se

Quase sem tesão e em nojo, daquela mão.

E eu todas as noites, pela manhã, quando do inverno, acordava com um friozinho na espinha.


Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda, muito depois

Vestiu-se de barco, e hoje diz-se um barco

Tão barco como todos aqueles que nascem barcos, que eu nasci avião e que eu sempre quis ser um barco.

E mais tarde, depois de cansado, quase mar de rochedos, começou a fumar heroína, esporadicamente, aos sábados enquanto lia um ou um outro poema,

Um dia,

Ao outro dia,

Quando acordou, não acordou, deixou de dormir, deixou de comer, quando era noite, vinha novamente o dia, dentro de quatro paredes era tão verão que trazia um casaco com mangas, às vezes

Ele,

Cagava-se, a diarreia, os vómitos

Chorava, quando se lembrava de que já tinha sido um barco, e ontem era,

Tão frio mas tão frio o frio do inverno, e era o verão tão frio como o verão da esplanada mais distante da sombra da noite.

Um pássaro dentro de uma lua,

Baixou as calças, olhou-se no espelho

E que sim, ele acabava de acordar.



Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda


E quando acordou a lágrima, perguntou-lhe

Pai, porque choravam as acácias da minha infância…


E por favor, não queiram saber qual foi o terceiro erro de deus

Aos poucos extingue-se a noite nos rochedos. Também eu podia me extinguir dentro do fogo da alvorada, também poderia ter sido uma pedra,

Um socalco,

Um rio,

Mas quis deus, que eu fosse, nada. E se deus o quer, nunca, nunca contrariar o criador,

E que deus queira,

Seja ele muito feliz pelas suas andanças.

Deus é um tipo muito porreiro. Diverte-se com o fogo dos outros, com as tempestades das árvores, e ao final do dia,

Sorri; sorriam todos, porque eles não gostam de sorrisos.

Ainda assim, e de vez em quando, ele, sorria para o vento.

Se a luz trazia a noite, quase sempre o era por engano, ou puro divertimento. Mas a luz às vezes, esquece-se, e podemos sempre olhar para deus, no espelho. 

Deus fez a árvore. Deus fez os pássaros, e esqueceu-se de deixar uma casa de banho nos aposentos, isto é

Eu sentado, e um pássaro acaba de defecar na minha cabeça, e mais uma vez, outra vez

E às vezes, às vezes acredito se eu não nasci para estar sentado, e de quando em vez, uma pássaro defecar na minha cabeça.

No entanto, foi deus que fez o pássaro, foi deus que fez a árvore onde esta sentado o pássaro, e por sua vez

Fez-me a mim,

E em tanta merda que deus fez,

Tinha logo de se esquecer da casa de banho para os pássaros. Primeiro erro de deus.


Uma lua tinha dois luares, o primeiro luar, tinha cinco luares, e o segundo luar,

Dois luares e mais um quarto de luar. Todas as noites, cada luar, e o quarto de luar, e eu

O orifício mais ínfimo do universo, uma pequena agulha procurando na areia as primeiras chuvas do Outono.

Se a ovelha o quiser, o pasto será nosso

Gritava o pastor. 

Uma Adosinda deitada na cama, um miúdo disfarçado de gente levava o almoço à Adosinda que estava deitada na cama, e o moço

Depois de receber dois escudo e cinquenta centavos, descia as escadas

E ia para a escola.

Chegava à escola, o miúdo quase moço, sentava-se na última carteira, verificando primeiro

Se mais alguém estaria lá sentado ou escondido,

Abria o livro, olha o tecto, e

Voava até ao próximo sonho. 

Segundo erro de deus.


E por favor, não queiram saber qual foi o terceiro erro de deus.


12 fevereiro 2025

Flores, flores em papel

Depois, despiu-se, puxou de um cigarro e completamente nu, começou a correr pela rua como se estivessem a cair sobre ele,

Flores, meu amor 

Flores quase sorrisos, sítios estranhos para se almoçar ou apenas,

Beber um copo até que se dispa também e comece a correr rua abaixo,

A noite

O vinte e oito sabia, e eu

Eu também me despia, e

Depois um apito, a lua descia, entrava pela janela, depois

Depois era sempre sábado na calçada da ajuda, e eu

Descia a calçada, despia-me

Corria,

E subia,

E descia,

E o vinte e oito, esse

Já dormia.

Alegria, pensava eu. 

Depois, despiu-se, puxou de um cigarro e completamente nu, começou a correr pela rua como se estivessem a cair sobre ele,

Flores, meu amor 

Flores, flores de papel.

Quem diria, dona Antónia então vai ser uma menina

E que sim, três quilos e duzentos, quase com cabelo

Os meus,

Voavam sobre o tejo já quase cacimbo, já quase madrugada sem pertencer ao destino, depois

Despiu-se, e com meia dúzia de escudos, desceu a calçada, e correu, e correu tanto

Nunca mais foi visto desde então, perdendo-se na neblina de um sábado à tarde, depois das cinco

O travesseiro deitado sobre o corpo, ela pertencia aos primeiros degraus do paraíso, peço desculpa, mas também não faço a mínima ideia do que quer dizer,

E mesmo assim, era uma menina. Uma menina…

Até que os carris se erguiam a meio da noite, e quando a janela estava aberta, quase sempre noite, naquela janela

Eles todos, todos eles entravam, sentavam-se conforme calhava e

Quando se ouvia um apito de luz,

Quase era sinal de que alguém tinha falecido no musseque. Sorriam.

E nós fingíamos que estávamos vivos depois do velório da noite passada, uma menina

Três quilos e duzentos, dona Antónia é obra do destino

O meu menino tão pequenino, tão

Quase um grãozinho de areia esquecida no Mussulo,

A avenida dormia, eu sentia e percebia

Que o sono,

Era apenas uma sombra da noite.


Depois, despiu-se, puxou de um cigarro e completamente nu, começou a correr pela rua como se estivessem a cair sobre ele,

Flores, meu amor 


Flores, flores de papel.