08 abril 2025

Tantos beijos te dava se a janela do meu quarto

Tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e

Mais perto, muito mais perto do que a minha janela ao teu doce olhar, depois de um novo amanhecer, quase a chuva, quase

Seria Maio? Talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar

Quando abro a minha janela. Apenas o olho e o sinto, e recebo todos os barcos e todos os silêncios que o meu cordel, depois da meia-noite, me traz e coloca sobre a cama; quase que sou o comandante de todos estes barcos, o guardião da minha janela, apedrejada, às vezes, por miúdos quase adultos nas calças de uma criança,

Balança, o vento o sente

E ela, bom

Dorme na sombra do meu corpo projectada sobre a mesa. Sou quase uma palavra, um pequeno desejo, podia ser astronauta, podia ser engenheiro mecânico, que sou o quase

O quase engenheiro das estruturas metálicas, equações em cio, outras marés, novos barcos, bares apinhados de gente, gente doente

Que às vezes,

Às vezes, mente.

O corpo é uma espátula submergida num líquido quase

Veneno

Na manhã que acorda, sonolenta, e de rabo para o ar.

E tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e quanto à janela do meu quarto, lembro-me logo do senhor Álvaro de Campos, no poema Tabacaria,

Ao longe, o Esteves.

A menina que comia chocolates e que não há nada melhor,

De que comer, chocolates.

Come, piquena, come chocolates…, e o senhor Álvaro de Campos, da janela do seu quarto

Da janela do meu quarto, enquanto o teu corpo parece um sinfónico gemido de 

ausência temporária, digo

SGAT.

Mais tarde, serei o mar. Espera

Não vás, não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras

Se o infinito o quiser, que seja apenas durante a noite, se a janela se abrir.

Talvez já seja Maio, talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar, tão poucas são as madrugadas galgando a seara, imaginando complexas e robustas pontes metálicas, do outro lado, junto à parede quadrangular, apenas num sentido, jaziam as rodas dentadas sobrantes do jantar do dia anterior

Alguns parafusos de pressão, da sobremesa do almoço de hoje, desejada por uns

Odiada, por outros

Vestia-se de negro, calçava as sandálias mais encarnadas que brincavam no jardim, depois

Depois, aquela chuva parva, torrencialmente desmedida, o cheiro a terra queimada, os pés

Quase brasa no silêncio do capim,

Eu sorria, eu sorria sempre

Que chovia, que alegremente eu pedia, e todos os barcos da baía de Luanda,

Corredor fora, eu corria, corria

Não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras.


08/04/2025


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