Tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e
Mais perto, muito mais perto do que a minha janela ao teu doce olhar, depois de um novo amanhecer, quase a chuva, quase
Seria Maio? Talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar
Quando abro a minha janela. Apenas o olho e o sinto, e recebo todos os barcos e todos os silêncios que o meu cordel, depois da meia-noite, me traz e coloca sobre a cama; quase que sou o comandante de todos estes barcos, o guardião da minha janela, apedrejada, às vezes, por miúdos quase adultos nas calças de uma criança,
Balança, o vento o sente
E ela, bom
Dorme na sombra do meu corpo projectada sobre a mesa. Sou quase uma palavra, um pequeno desejo, podia ser astronauta, podia ser engenheiro mecânico, que sou o quase
O quase engenheiro das estruturas metálicas, equações em cio, outras marés, novos barcos, bares apinhados de gente, gente doente
Que às vezes,
Às vezes, mente.
O corpo é uma espátula submergida num líquido quase
Veneno
Na manhã que acorda, sonolenta, e de rabo para o ar.
E tantos beijos te dava se a janela do meu quarto, de onde todas as noites olho o mar e com um pequeno cordel, mais longo do que a terra à lua, e quanto à janela do meu quarto, lembro-me logo do senhor Álvaro de Campos, no poema Tabacaria,
Ao longe, o Esteves.
A menina que comia chocolates e que não há nada melhor,
De que comer, chocolates.
Come, piquena, come chocolates…, e o senhor Álvaro de Campos, da janela do seu quarto
Da janela do meu quarto, enquanto o teu corpo parece um sinfónico gemido de
ausência temporária, digo
SGAT.
Mais tarde, serei o mar. Espera
Não vás, não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras
Se o infinito o quiser, que seja apenas durante a noite, se a janela se abrir.
Talvez já seja Maio, talvez já fosse Julho, ou Setembro, ou a morte travestida de noite, tão pouco se ouve o mar, tão poucas são as madrugadas galgando a seara, imaginando complexas e robustas pontes metálicas, do outro lado, junto à parede quadrangular, apenas num sentido, jaziam as rodas dentadas sobrantes do jantar do dia anterior
Alguns parafusos de pressão, da sobremesa do almoço de hoje, desejada por uns
Odiada, por outros
Vestia-se de negro, calçava as sandálias mais encarnadas que brincavam no jardim, depois
Depois, aquela chuva parva, torrencialmente desmedida, o cheiro a terra queimada, os pés
Quase brasa no silêncio do capim,
Eu sorria, eu sorria sempre
Que chovia, que alegremente eu pedia, e todos os barcos da baía de Luanda,
Corredor fora, eu corria, corria
Não corras como uma louca criança, de calções, à procura do Chapelhudo, não corras.
08/04/2025
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