29 abril 2025

Se o meu irmão Artur não

Se o meu irmão Artur não fosse tão teimoso como um fio de nylon numa tarde de domingo de passeio no shopping, talvez ainda hoje, sem o saber, sem sequer ter escrito uma letra que fosse, um telefonema, apenas, sempre que se vestia de vento, agarrava na alcofa, e

Era vê-lo sobre as eiras de Carvalhais, enquanto sentado sobre uma pedra cinzenta, poeirenta no tempo e na idade, triste na vaidade, e no desterro de viver de nunca ter vivido ou apenas,

Quando caiu do muro abaixo, se escalou como um silêncio, e depois

Depois apareceu cadáver triste dias depois do último escrito nas terras pestilentas do outro último adeus. Foi-se, o meu querido irmão.

Artur Artur nós só podemos ser dois e somos três, e como vês, que nunca nada vês, depois da chuva vêm sempre os pássaros que trazem os sonhos da chuva até aos meninos que brincam no sono nos braços da mãe, no entanto o meu irmão quis ser poeta. Quis. Ele queria ser tanta coisa, meu deus, que ainda hoje não consigo entender a cabeça, o silêncio, o medo

Do meu irmão Artur.

Era sempre noite naquela casa de sombras, naquele quarto a abarrotar de morte, o tecido de um sonho quase enrolado na parede do outro lado do corredor, junto ao esquentador, havia uma pedra que todas as manhãs, antes de acordarmos, eu e o meu irmão, que deixei de ver quando comecei a escrever basta nas paredes da igreja da minha terrinha, o Artur é assim sempre sem jeito,

E depois acordávamos e lá estava ela, a pequena pedra das brincadeiras de Luanda, olhava-nos tanto, e nós a olhávamos como se ela fosse uma estrela,

Um dia a nossa mão fez um papagaio em papel, o Artur olhava-o desconfiado, indiferente, eu

Eu estava ansioso pelo seu lançamento, até que vinha a tarde, vinha o sono, e deixávamos de o ver, até que ao outro dia, quando acordávamos, lá estava a pedra com o nosso papagaio em papel, tão colorido como os loiros cabelos de uma menina, e a nossa mãe

Sorria-nos. Tão feliz que ela estava.

Cada cor era um lápis nas mãos de um menino, começou a rabiscar as paredes atá à altura do seus sonhos, o meu avô enervava-se, chateava-se e

Sorria, sorria como uma outra criança inventada numa tarde junto ao mar.

O Artur era guerreio, ai isso o era, desde cedo a minha mãe percebeu que o gaiato adormecia melhor, não tão ranhoso que quase nunca me deixava dormir, e uma tarde a minha mãe teve a feliz ideia de lhe colocar um pequenino rádio a pilhas debaixo da almofada, desde então

Começou a escrever poemas nas mãos das mangas que durante a noite tombavam sobre o chão térreo de uma infância quase tão lua, como a lua das tardes em Belém. 

As primeiras vezes que olhei o mar, tive medo. A lhá parecia-me algo de abrupto, na essência de um toque, se uma flor acordava na algibeira, era porque do outro lado do destino, havia sempre um barco que o esperava, e ele tão menino, tão menino na mão do meu pai, quando em frente a um paquete, deslaçava os dedos da minha mão, eu olhava-o de tão alto de pequeno que ele o era, metia as mãozitas no bolso dos calções, erguia o pescoço até ao céu, e

Tão grande pai

E ficava a olhar.


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