13 janeiro 2026

À casa depois da chuva

À casa depois da chuva, que se sentava de pedra em pedra, e que sonhava, quase disfarçado de espuma, se levantava da terra e corria como um tolo, sabia que

Eu tinha acordado da sesta que a tarde desenhava no meu corpo, como se eu fosse uma escultura de vozes semeadas no trigo loiro da alvorada, a Teresa vasculhava nos meus livros réstios de traços deixados aqui e ali, de quando em quando, suspirava

Ele anda a trair-me só pode ele nunca escuta aquilo que eu digo…

Ergueu-se da chuva, sentou-se em cima de um punhado de sombra, e eu comecei a ouvir a sonolência de uma quase minha ausência de tudo.

Escutava a chuva, e pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca, ela

Não. Ele tem outra só pode ser.

E o barco às vezes era cinzento, depois descia a janela e quando poisava a âncora em cimento firme, os seus olhos eram azuis e o seu corpo quase que de um encarnado mais parecendo,

Desculpa? Eu tenho outra, outra quê?

Sabia que um dia tinha de partir, sabia que um dia tinha de deixar tudo, tudo

Olha, um poema dentro deste livro,

E tudo também pertencia em fazer acontecer, que a cada dia que acorda o sono, outro sono se deita, sobre o vento.

 

manhã ao acordar,

 

que te escreve no seio a ventura de os beijar, que te pincela o corpo de desejar, que te escreve no olhar.

que te quer a cada noite, mesmo sem luar,

que te desenha nos lábios o beijo, que te toca, e sente

a primavera de um abraço nas primeiras palavras do mar.

 

que te olha, e se pergunta, o que dizem os teus olhos,

que te escreve no silêncio, que te poema, que te sonha,

mesmo não sonhando, que te inventa na cama, enquanto da lua descem as maresias na mão da neblina.

 

que já foi menino, também menina, que foi poesia numa tarde junto ao rio, que te quer,

que te escreve, que te dá o luar e te é amar,

o que dizem os teus olhos que se pergunta…

a cada manhã ao acordar.

 

Acendeu um cigarro. Olhava pela janela da varanda os carros que vinham e os carros que iam, de vez em quando, olhava o aquário, e entre baforadas de pequenos silêncios, perguntava-se,

Partir e o que levaria apenas; um livro? Um pequeno poema?

Ou partiria apenas de mão vazias tal como tinha nascido, um dia, enquanto acordava o dia.

Ao outro dia deixaram de avistar o Artur e apenas o vento a sua falta sentia…

E pedia ao vento que lhe trouxesse a morte, mas o maldito vento, apenas lhe trazia a escuridão e o desejo de voar sobre o mar, depois havia um barco sempre ancorado na biblioteca.

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