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19 junho 2026

Loiro o é o sabor do mel quando é

Loiro o é o sabor do mel quando é

Paixão

Quando o mel e quando a mão

Besuntam os teus seios em desejo de os lamber

Quando o mel é loiro e louco o é

O é também o sabor do mel quando é

Solidão e quando é perder

 

Loiro é o sabor do mel quando é

A fechadura do coração

Tão loiro é o sabor do mel quando é amor

Quando o sabor do mel é

É uma flor

É loiro o sabor do mel quando o mel é

Dor

 

Dor é o loiro sabor do mel quando é

A fogueira sem clarão

Loiro é o sabor do mel quando o mel é

A tristeza do olhar que é o sabor do mel quando o sabor do mel

Deixou de ser o mar

Loiro é o sabor do mel quando o mel é

A recordação de amar

 

19/06
15:40

À flor aprisionada, cortada

À flor aprisionada, cortada

Com a mão semeada, insensata loucura

A flor amada

A flor com ternura

 

À flor amordaçada, cansada

Como a água a correr para o mar

Minha flor e minha amada

Que não me canso de te sonhar

 

À flor envergonhada, e lixada

Que isto em ser flor

Flor desejada

É preciso muito amor

 

É preciso uma enxada

Para desbravar a sombra de um olhar

É flor amada

Amada é a flor amar.

 

19/06
14:53

És a Hortênsia do meu viver!

A caravela vai nua em seu dizer

A caravela vai nua em seu dizer

Está no mar perdida

Está no mar a arder

Sabendo que existe uma ferida

 

Na mão que semeia o pão

Da mão que quer escrever

Ai se eu pudesse entrar no teu coração

E lá me sentar a ler

 

A caravela vai nua sem o saber

Enquanto o mar está revolto

E furioso de querer

 

Que já não existem no céu estrelas a brincar

Vou ali e já não volto

Voltar ao teu coração e me sentar

 

19/06
11:57

 

Tudo já faz sentido,

 

Até o sorrir, até o sentir.

Às mãos golpeadas pela humilhação, das mãos sangrando palavras

Às mãos golpeadas pela humilhação, das mãos sangrando palavras

Palavras às vezes em vão, mas palavas são

São palavras amordaçadas

Às mãos golpeadas pela assombração, das mãos gemendo, gemendo palavras que são

Gostava de tantas palavras, e hoje até odeio a palavra

Mãe,

Às mãos uma espada, uma espingarda

Sem balas, com balas, carregada

E das mãos o sangue, da humilhação

O sangue que um dia será orgulho, o orgulho

De um pedaço de pão

Às mãos algumas palavras, vãs, chãs

As terras do meu prometido

Ficaram as unhas, ficaram as pedras

Às mãos a corda, o cordel

E o pincel

Nas mãos sangrando gente, que gente o é certamente

Como a chuva que bate, bate

Tão certa como a palavra, amo-te

Às mãos uma enxada para eu semear palavras, das mãos

Às mãos golpeadas, dêem-me, dêem-me mais palavras

 

19/06
01:42

Era só, só uma coisinha de nada

Era só uma folha em papel

Era só

O só

E na mão o pincel

 

E no pensamento o ausente

Vento

Vento que sente

Outro vento e um novo ausente

 

Era só uma folha em papel

Foi um beijo lá desenhado

Foi flor, também ela desenhada

Foi solidão no acordar da madrugada

 

Era só uma jangada

E uma pedra, e outra pedra, lançada

Era só um beijo

E hoje não é nada

 

Era só um rio desgovernado

Era só um comboio sem apeadeiro, sem freio

Era só, só o coitado do padeiro

Sem pão e sem dinheiro

 

Era só um abraço na distância de um olhar

Era só uma carta escrita, sempre sem resposta

Sempre

Com sabor a mar

 

Era só uma terra com tanta terra para descobrir

Era só um sonho, e hoje, e hoje é o sonho de partir

Era só uma folha em papel

Era só

 

O só

De António Nobre, era só uma folha em papel

E hoje é montanha, é arte em pastel

O só, do só encoberto pela noite

 

Era só uma vírgula, e uma pequena algazarra

Era só uma lanterna, uma bóia

E uma janela

Encerrada

 

Era só, só uma coisinha de nada.

 

19/06
01:25

18 junho 2026

oiço música,

oiço música, sinto que isto vai descambar

a ver vamos,

então nos sentamos

vamos nos sentar

oiço música, mesmo sabendo que nada estou a ouvir

porque neste momento não estou no planeta terra

alô terra, algures por aí, chama

e nada, nada

onde estou?

sentado, escrevendo ao pai natal cartas, que respostas nunca as recebi

olha, ele que se foda

 

e da terra até onde estou, então nos sentamos

vamos lá nos sentar

é curioso, até diria, eu sei lá o que eu diria

no entanto hoje um casal de lésbicas convidou-me para fazermos sexo, claro

recusei

não

não porque eu esteja farto, que farto não estou, até talvez faminto esteja

mas porra, as gajas eram da constelação de zás, e que zás

não estou para aí virado

e o que dira viriato? o camelo, o indivisível fusível da encarnação

boa noite meninas, durmam bem

que eu também, se me deixarem

 

claro que não me deixam dormir, são os pássaros, são as flores a baterem na janela e a convidarem-me para brincarmos, são as estrelas que me fascinam, mesmo sabendo que toda aquela merda é uma massa de gás e de poeira que

que

claro que nos sentamos, vamos nos sentar

e

poeira que, que

ao perto é feio, é

e ao longe são tão lindas as estrelas, que estrelas não o são

porque são apenas pontos de luz

e ao preço a que está a electricidade

e tudo, e até a morte está cara, até o infinito está cada vez mais perto

 

chega o barco, daqui a pouco é a partida, vou ficar mais um pouco, e depois lá arranjo uma solução para ir para a outra margem, em marcha lenta, a agulha, a agulha sonolenta

e é triste ver a gaivota vestida de azul, quando a gaivota é branca e sempre se vestiu de branco, o rio

 

o rei da selva, das cubatas e das sanzalas, do capim e das ceroulas, em criança vencendo o frio

com o frio, porque se o fogo se apaga com o fogo, e o frio com o frio?

vencido, o autómato quase perfeito do poema, transformar merda

em oiro puro, o sonho alquimista dos poetas sonhadores, das flores

de tantos engenheiros e de tantos

doutores

no entanto e até hoje, ninguém teve essa proeza

a não ser, não

eu não, credo, cruzes

estou a falar da minha tiazinha adosinda que partiu ainda eu gaiato, e que eu descia as escadas com o cu das calças de tão contente, oiço música, ainda não desci, alô terra? aló?

e eu não o digo, nem o vou

e fodia logo os cinco escudos no grifo em cromos, a foder

dinheiro desde que nasci, qualquer dia deus nem os tomates me consegue levar, olha que se foda, quero eu lá saber das cartas, enfim

 

a clareza, o nobre e cinzento vento, sento, que eu me sento

vamos nos sentar, e parece

que

ainda

não

é

neste

barco

que vou para a outra margem

 

temos tempo e que é de borla, das poucas coisas que temos sem pagar, porque o resto

 

três apitos em apuros, já se ouvem os marujos de pau feito, já se ouve o ujo, ao longe de tão longe o ser, e zás

que me esqueci, onde fica essa merda de constelação de zás que nem a merda do google sabe onde fica, ninguém o sabe, ao que parece

e sempre que se quer, ser

e

que

e que acontece

mas só a quem merece

e eu não o mereço, mais um apito, talvez o último, talvez

 

oiço música.

 

18/06
23:16

Se o amar-te fosse a luz a minha estrada estava iluminada 

Os segredos do mar

O luar nocturno de uma mão

O silêncio lunar de um olhar

O beijo que esconde a outra mão

Dos segredos do mar

 

18/06
11:57

Aqui

Aqui, onde o sol é azul

Que o vento seja um apêndice da solidão

Estar só, estar

Aqui, onde o sol é azul

E o mar distante da luz

Do olhar

E da vida

 

18/06
10:30

Ao deus-dará

Ao deus-dará o que ele me trouxer

Que nunca nada me trouxe, a não ser

A vida

A merda da minha vida

Mas deus tem muito quer fazer

E não tem tempo para tomar conta da minha vida,

Menos tempo eu tenho, e deus dá-nos o tempo

Ao deus-dará no incerto silêncio de uma espada, sem nome

Nem ventre, apenas uma espada

A espada da solidão

E da fome

 

Ao deus-dará o que ele me trouxer, e se simpático o for

Que nada me traga, ou se ele o quiser

Que me dê apenas uma flor

 

Ao deus-dará a morte a vida e o universo

Cada vez mais infinito, nos meus finitos versos

Que ao deus-dará se masturbam no vão de uma escada, ao deus-dará

A preguiça, a almotolia de acordar na fimbria solidão de abrir os olhos, e de me olhar no espelho, ao deus-dará

A sinfonia, a escrita

As galinhas no seu cacarejar, sim

Pela manhã incendiada, que ao deus-dará

Se senta junto à sua cabeceira, no decimo quinto dia

A contar,

Do ao deus-dará

 

Ao deus-dará deixou de acreditar

Ao deus-dará não mais quis saber dos sonhos

Ou do mar,

Ao deus-dará

 

Ao deus-dará ou a teoria do caos, e

O efeito borboleta, sempre ao deus-dará

A cigana simpática, escreve na terra ao deus-dará

Todas as nódoas de uma tarde de sismo, a catástrofe de uma estrutura em colapso, ao a deus-engenheiro

Ao deus-dará

Ao deus-dará quando a chuva é o oiro da milimétrica saudade de uma tempestade, o cheiro a queimado que se ergue da terra, e sobre a copa das mangueiras, ao deus-dará

O inferno, o medo

Ao deus-dará nós e deus

E até o galo da vizinha,

Coitado,

Anda ao deus-dará

 

18/06
01:42

Nocturna noite sem dormir

Barnabé

Dormia de pé

A cigana lia a sina

Ao poeta que queria uma vagina

A Amélia

Queria uma camélia

A Cidália envergonhada

Precisava de levar no rabo uma palmada

O carpinteiro

Queria um pinheiro

O pedreiro

Procurava por um engenheiro

 

E eu, que nada sou destes que procuram

Quero um isqueiro,

 

E acredito que a anónima que lê estes versos sem nexo

Nem sexo,

Quer mais versos, e me vai enviar um SMS uma destas noites,

 

A dizer,

 

Amo-te.

 

18/06
01:19

17 junho 2026

Horrível

As bolachas sobre a mesa, o leite

Outra vez este relógio, louco este relógio

Louca é a boca da raposa

Que o sítio não se encontra, medita

E se deita depois de rezar

 

17/06
23:18

Se a minha mãe soubesse, não me tinha oferecido o juízo

Se a minha mãe soubesse, não me tinha oferecido o juízo

Dava-me outra coisa qualquer, que eu não me importava

Que fosse uma flor

Que fosse uma espada

Mas dar-me o juízo

Não mãe,

 

Preferia que não me desses nada

Que é muito melhor do que o juízo

Que ao contrário de ser engenheiro, deste-me o juízo

Se a minha mãe soubesse, não me tinha oferecido o juízo

Podia dar-me a carta de astronauta, podia até oferecer-me o céu

Agora mãe dares-me juízo, para quê?

Se aquilo de que eu preciso

Não é de juízo.

 

17/06
02:11

Cansados estão os pássaros e os rochedos do meu viver

Cansados estão os pássaros e os rochedos do meu ser, cansados nós estamos, estamos cansados

Cansadas estão as lágrimas do nosso viver, cansados estamos nós

Na tristeza

E no sofrer

 

Cansados o somos, cansados o seremos, e humilhados

Às vezes, nós tão cansados

Cansados que estamos

 

Cansados estão os pássaros e os rochedos do meu viver, está cansado o mar

De mim e do meu ter

Cansados estamos, estamos cansados de o ser

Os pássaros e os rochedos

Do meu viver

 

Cansados estamos, estamos cansados

E não percebem, os pássaros e os rochedos

Do meu viver

Que estamos tão cansados

Mas tão cansados

Que às vezes somos apenas (   )

 

Cansados estão os pássaros e os rochedos do meu viver

Cansados estão os braços enferrujados do meu saber, o de nada saber

Cansados estamos, estamos tão cansados

Cansados de sofrer

Cansados de pertencer

Aos operários e às operárias, estamos cansados

Cansados que estamos

Estamos

Cansados de o ser

 

17/06
01:58

Vamos voar meu amor em nossos cansaços

Vamos voar meu amor em nossos cansaços

Vamos dar as mãos como se fossemos dois pássaros em liberdade

Entre beijos e abraços

Na sombra de uma cidade

 

Vamos voar meu amor em nossos desejos

Na tristeza e no labutar

Vamos meu amor vamos aos nossos festejos

Porque os vencemos com a força do nosso sonhar

 

Vamos meu amor vamos voar

Sobre as árvores em primavera amanhecer

Que tão perto agora está o mar

 

Que tão perto está o outro lado do rio

Que finalmente vamos vencer

Que finalmente teremos o nosso casario

 

17/06
01:46

 

As nossas mãos tocaram-se

(porreiro pá)

 

Amo-te

16 junho 2026

Imagino-te na nudez do meu destino

Imagino-te na nudez do meu destino

Que nua te imagino

Imagino-te nos versos do meu escrever

Imagino-te nua sentindo te ter

 

Que te imagino nos livros de ler

Imagino-te doida com a cabeça deitada no meu peito a arder

Imagino-te no meu cansaço

No beijo ou no abraço

 

Imagino-te dançando sob o vento

Flor pétala que não se cansa de correr

Que sabe que a imagino no meu pensamento

 

Que o meu amar

Foi o sorriso da lágrima a escorrer

E hoje é o meu mar

 

16/06
23:12