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03 agosto 2026

O camelo

Atroz,

e tão veloz

o camelo engravatado, era apenas o cinzeiro sobre a mortalha, lá dentro

jazia o corpo da solidão, e de tão veloz

e atroz

o desgraçado do pão.

 

Eram gritos de sofrer, na voz camuflada da ausência e do milagre avinhado,

solta-se o tempo, parte o relógio na procura do guarda-chuva do vento,

e se sentava

na soleira do primeiro destino

da madrugada.

 

Atroz,

e tão veloz o camelo adinheirado, e de tão aprumado

nos confins da maresia ensanguentada

vivida, e cansada

do limite da merda

quando a estupidez tende para o infinito.

 

03/08
19:45

Quem és

O que queres tu de mim

E precisas

No precisar

E no querer.

 

Quem és

O que desejas

E tens,

 

Para me dar?

 

03(08
01:52

A voz

Da voz a despedida e sisuda palavra que na mão em pétala luar

semeia na sanzala a colmeia e a paixão, que se dissipa pelas frestas de uma canção

quando o grito é o silêncio em fuga, e depois o malmequer

já não me quer, já não pertence às páginas do livro que escrevo.

 

Dua pedras na vagina mão que só a solidão consegue ocultar da tela, o triste ser

no grandioso e no dissipo almejar

na esfera o cosmos e o luar

nada pertenceu ao meu acordar.

 

A voz que morreu na penumbra mendigue e no caminhar

a floresta verga e vesga e atolada de

pássaros e de orfeões na madeixa que no prato

aleijam e cintilam como um rio sem nome.

 

Em fuga e na áurea perdiz que a abelha esconde nas asas

esta voz tão distante

e tão medrosa e na atroz coragem e na covardia

de escrever nos meus olhos – amo-te.

 

03/08
01:47

02 agosto 2026

O moleque nas sais da alvorada

Dançava o moleque nas sais da alvorada, madrasta

sapiente e em vergonha no seu caminhar, ser

a dança que mais não vai dançar

que mais não vai ter

 

Em si e no corpo, na sombra e na algazarra de um olhar

o ventre jesus, o jesus alimento

e da espada a mordaz

e o sofrimento

 

Da porta por abrir, e dançava nas sais da alvorada

o moleque e a madrasta da vida, e no vergonhar silêncio

o pertencer às masmorras da ausência, e partir

e deixar na escuridão a vontade de sonhar.

 

02/08
18:42

Pássaro

Sou apenas um pássaro que é parvo, que sentado se ausenta 

Da chuva e do vento de uma lágrima de amar 

Em tanto eu te amar,


Para o nada do meu nada, na dor e no sofrimento.


02/08

16:15

palavras de sofrer

há um livro sem nome

num corpo sem destino

há palavras com fome

na boca de um menino,

 

há um livro de horror

dentro da noite ancorada

há personagens com dor

à procura da madrugada,

 

há um livro Há um livro cansado

na janela do amanhecer

um livro apaixonado

pelas palavras de sofrer...

O espelho

O frio tinha uma árvore que sempre que adormecia,

sentia no espelho o brilho e a maresia

da ausente migalha, que a mulher dizia ser

sobre a mesa, a toalha, a virgula salgada

subindo a montanha

subindo.

 

02/08
02:32

Universo

O universo é a melodia abrupta 

Da sepultura anónima 

Convicta e perfumada 

A terra em seus seios 

E lugares 

Ausentes 

Na morte e falta se o facto 

Na sorte 


A paixão do mar e o pincelar da luz 

No corpo nu da primavera e em 

Branco sombreado 

No jardim da chuva 

O teu nome 

Está guardado 

E inscrito 

Na tília lua

A voz da razão 


Saberei um dia o teu nome e na difícil 

Ternura 

Da tua mão 

Na água 

Também a minha 

Mão 

Na tua água 

Saberei um dia o teu nome?


Na terra que me enfeitiçou 

Na natureza 

E na alegria 

Saber 

Dor 

O juízo 

O tiro na nuca,


Entre o capim e a cubata,


O universo em verso.


02/08

00:49

01 agosto 2026

A roda dentada de uma lágrima

Desenhou a roda dentada

de uma lágrima

quando a noite ainda o era, ser

criança

e flor

e seara verde no celeiro do agricultor.

 

Desenhou e assassinou

o parafuso de pressão, o veio na mão

a porca e o esqueleto de uma sombra

na sombra difusão da luz

no espaço, sejamos então

o acordar da manhã.

 

 

01/08
20:48

Chovia quando o orgasmo sitiado na mão da esperança

Chovia quando o orgasmo sitiado na mão da esperança, a lança que balança, e que me retalha na penumbra, e da alegria

o sentido

o telintar e só

o garfo e a colher e a faca dentro do livro, o sofrido

o armazém em lágrimas, que arde e que engana a fome como os raios de luz desenhados pela mãe abelha, doida, tão pequena

como as algemas da orquídea

tanta as vezes

de cada vez

que alguém morre na esplanada de um olhar

 

Não era dia e que nunca foi a noite, que depois quase sempre na euforia do beijo e da muralha, e na vertigem e no olhar

e da origem a razão inversa da sinfonia e na

dinastia e na mão

e do pé a bota amortalhada

tão o vulgar

a sua mão

e a sua morada

 

Eu serei o que chovia, o que de mim restou?

Palavras, enxadas, rios e os seios das namoradas, o vento no fogo e da uva o suor do teu corpo, a migalha, na minha boca a gotícula

na fogueira de uma árvore

mil enguias secretas são a boca dos teus seios, nas janelas abertas

das trinta e cinco madrugadas, em pequenas drageias

sempre, sempre no deitar

sabendo então a serpente o nome daquele rastejo, porque sempre que chovia

caiam sobre a mesa as magas que sobraram

do ontem e da pequena esfera de lítio em poesia

 

Poesia no milagre, no acordar, na morte, na separação do corpo

da equação e na quadricula

quando o círculo é uma avestruz

na janela

da porta

entre moedas de cêntimo, e rolos de higiénico papel

onde às vezes escreve, onde tantas vezes

o cu limpa, e do cu

nasce a alvorada de uma lágrima, na lírica e música de uma espada, simples

bem-vindos

ao pôr-do-sol abstracto, o azul milagre de estar

e de o ser

 

O caixão quadrado, o bicudo pénis em brasa, o ferro incandescente

no olhar da forja

e o ferreiro e o padeiro

e o engenheiro

e o poeta

e até o santeiro

do senhor do senhor

sem o S

em dor

 

E que tanto que chovia na vagina flor da tua mão,

meu amor

a alvenaria, sofria, sentia

o malmequer de um

açafrão, em verso, no dorso pincelado de uma purga invisível, dentro da maré

no dedo, o anel e a libra em fatias de sono, em sombras e gradeamentos sentados

à lareira,

na horta e na vinha

nas simples

e complexas distracções de,

 

do mussulo em lágrimas.

 

01/07
20:09

A vizinha

À nação

não tem gatos amestrados a vizinha

que adivinha

o miau de um coração

 

Ou de uma flor

ensanguentada

virgem o silêncio de uma esmeralda cansada

tão casada como a própria chuva sem cor

 

E faminta

e até capaz de numa espada

pegar sem que na mão sinta

 

O orgulho sangue a escorrer

dos olhos da madrugada

triste na tristeza do meu escrever.

 

01/08
19:36

A seiva hora no trenó olhar

A seiva hora no trenó olhar 

De uma charrua em cio 

Versos são cocó amordaçado 

Na palma da mão o frio 


Do dorso veio de transmissão 

Que feio 

O parafuso da paixão 

E que lindo é 


O olhar da integral do verbo 

Te amar 

Tendo como limite inferior 

Os teus seios 


E no limite superior 

As tuas coxas em roseiral 

A sementeira 

Da série de Taylor 


E eu vou dormir 

De tão cansado que estou 

Cansado no mais profundo

Cansaço que sou.


01/08

15:21

a janela para o teu olhar

a janela para o teu olhar

pedido eu

esquecido eu

neste veleiro desgovernado

na solidão do mar

 

perdido eu

na porta do amor

nos cortinados de amar

 

a janela para o teu olhar

perdido eu

esquecido eu

 

perdido eu

esquecido eu

na janela para o teu olhar

encerrada hermeticamente

como um cubo de vidro

na fogueira da noite

 

perdido eu

esquecido eu

 

sem janela para o teu olhar.

Em construção – O Amor e a Paixão

Éramos comestíveis como as ervas junto à ribeira

e tínhamos nas mãos o sabor do cansaço

e da dor oferecida pelo mendigo entardecer,

 

Éramos dois corpos voando sobre a cidade dos Deuses

ancorávamos algumas vezes

sobre as árvores em delírio que sobejavam das finas lareiras do desejo...

e sonhávamos com porcelanas beijos

que viviam na madrugada,

 

Éramos comestíveis como as ervas junto à ribeira

e tínhamos um coração de papel

onde escrevíamos as palavras em segredo,

 

Gritávamos como os pássaros

e amávamos como as ervas comestíveis...

éramos dois círculos de vidro

em osciladas rotações em cima dos barcos enferrujados

éramos e tínhamos um cais em madeira para aportarmos...

 

vivíamos construindo o amor com pequenos paus espalhados pela floresta

e quando nos sentávamos debaixo da nuvens cinzenta

sentia-te nos meus braços de sisal...

éramos o mar com a areia branca

e de ondas navegantes... e de lábios cor de amêndoa.

31 julho 2026

O adeus

O prego satisfaz a mão

na verde seara que a madeira veste

cada atalho

e depois sabemos que a luz

sabe e deseja

a maré agreste

que às vezes

é a despedida

e o adeus.

 

O prego se diverte

na cantiga escrita na terra vandalizada

porque o sol tem janelas de iodo

e nos olhos há tungsténio quase lixo

a rua será tanta gente

que gente

esta

sempre contente

sempre a ordeira

ordeira gente.

 

E partiu-se a cadeira asfaltada

na solidão da roseira

até que a vírgula

pega com a mão

a caneta assassina

e ao descair a noite

lambe-a

a pétala envergonhada do pôr-do-sol

e o prego lá fica

entalado numa qualquer frincha da

madeira.

 

31/07
22:34

As lágrimas do fogo

Procurei-te nas lágrimas do fogo no secreto gelo da saudade,

o ambíguo e desajeitado sono,

as estrelas embriagadas pelo pólen misterioso da lua, procurei-te

sem saber o teu nome, e apenas percebi na tua ausência,

 

Que a chuva me vai trazer a tua mão ao meu rosto cansado, desiludido

com a paixão

na penumbra de uma cancela,

 

A seara grita e todos os pássaros são pedacinho de papel, são obscuras e transparentes alegrias, a desilusão

e o medo

de viver, assim.

 

31/07
20:24

O abraço

O abraço esperado 

O toque da morte 

No silêncio dos teus olhos 

Que dormem no aconchego da noite, 


São as palavras 

Que o livro recompensa 

Na água gélida do húmido corpo 

O teu,


E eu pertencia à espera do mar 

Na solidão de uma fraga 

Na montanha de um olhar 

Quando a tua boca é quase uma sílaba,


E o beijar-te é impossível 

Na canção madrugada 

O abraço 

É a fúria do eu.


31/07

19:06

Tudo se move Ao som de uma árvore

Tudo se move

Ao som de uma árvore

A cor do silêncio

Diz-se invisível

Sensível

 

Mas o fogo não sabe

E enquanto

Isso

Ele arde

Ele arde

 

Ao som de uma árvore

E enquanto

Isso

Tudo se move

E tudo arde

 

31/07
06:09

30 julho 2026

Era quase orvalho

Era quase orvalho 

No outro lado da chuva 

Os seios eram silêncios 

Na boca faminta 

Em desejo 

Sentindo o peso 

Do fogo mar 

A mãe do mar 

As palavras molhadas 

Sedentárias 

Confusas 

E cansadas 


Era quase orvalho 

No beijo desenhado 

Por uma fotografia desleixada 

A terra 

Lavrada 

Nas mãos de uma enxada 

E sofre 

A seara 

E a saudade 

De uma espada 

No peito cravada.


30/07

23:08