A Bedford amarela acorda na curvilínea maré de um musseque desesperado, à beira do colapso, o meu pai percorria cada sombra, cada milímetro de saudade, o cheiro do capim, que depois das chuvas intensas, se erguia na escorreita melodia que ao longe apenas assombrava os mabecos, eu tinha quase fome, de tantos barcos olhar, sabendo eu que só a minha mãe sabia onde eu escondia,
Aos poucos Artur sentia-se comestível, quase fio de loira espuma mergulhada e enrolada numa pedra, desesperada, enquanto eu sabia que depois de partirmos, quase sempre, não regressamos.
Um miúdo circula de arco na mão, outro numa improvisada trotinete, descia a colina, e depois de já estar sentado junto ao rio, entretinha-se a lançar pedras contra o vazio da tarde. Havia crocodilos em madeira, com dentes de puro marfim, a maré descia-te até às nádegas quase neve, eu despia-te pausadamente no silêncio de um beijo, havia também, além dos crocodilos em madeira, as serpentes de prata que anos depois, vendeu numa das tantas ruas de lisboa onde compravam pratas envenenadas, dentes-de-leão, e
Depois sentia a minha mão a percorrer cada linha do teu corpo, e com muito jeitinho, desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia, que todos sabíamos que o Artur, um dia, também ele partiria.
O meu pai começava o dia às seis da madrugada, já muito dia, já muita estrada, e com um cordel puxava a Bedford amarela por cada rua, ruela, beijo-te, saboreio os teus lábios de quase mel, quando o meu pai, depois de muito cansado, se escondia dentro de uma colmeia, também ele, também ele sabia que um dia, amo-te, só
O musseque quase sempre acordava na língua de uma fogueira, quase sempre, que te toco, que invento desenhos abstractos para semear na tua pele, que depois chovia intensamente, que depois acordava o cheiro também intenso da terra queimada pelo fogo que só, a fogueira do sol em perfeito delírio, ouvíamos as gaivotas, eu erguia o minúsculo pescoço, e olhava os barcos estacionados no meu quintal, sob a sombra de uma mangueira,
Tão grandes pai
Sim filho, grandes, também tu, um dia,
Um dia quê pai,
O cheiro da terra sangrando silêncios, os pequenos vidrinhos que se espalhavam a cada mergulho na noite, abria a janela, e lá estava ele,
Artur és tu meu querido?
Pego em ti e sinto a força perpendicular à tua vagina, com a minha língua calculo o perímetro dos teus seios, da equação do movimento, percebo que é mais fácil desenhar-te na ardósia da minha insónia do que escrever à tua pele uma carta de despedida, despeço-me dos teus lábios, que depois do vento, os barcos zarpavam em direcção ao mussulo, e um menino de sémen quase palavra,
Pai.
No pavimento apenas havia o teu corpo, apenas centímetros de desejo, tão intenso, como o vento sobre o mar, tão grande e tão gordo, como o destino do rio congo, e quando acordou
Estás bem Artur?
E sinto o teu corpo a entranhar-se no meu peito, ele entra
E quando acordou, percebeu que estava num outro país e num outro destino,
Sendo assim, o meu irmão Artur começou a esconder-se dentro de um barco que o meu pai tinha comprado na baixa de luanda, e ele mal acordava, puxava de um cigarro, acendia-o e começava a escrever num guardanapo que quase sempre tinha sobrado do jantar do dia anterior, hoje são as camélias meu amor
E só a nossa mãe sabia onde escondíamos a chave do barco, não fosse o Artur, um dia, sair sorrateiramente quintal afora e zás,
Rua de trás, e quase nunca me trazia nada, depois dizia-me em sussurros círculos de orvalho que os barcos são todos parvos, porquê os barcos Artur?
E sentia-te em meu destino, quando de uma flor erguida da chuva, caía sobre a cama como um rochedo depois de acabar de nascer, sem paciência para olhar novamente os crocodilos em madeira com os dentes em marfim, e sentava-me à tua espera, enquanto o Artur despedia-se das acácias e dos milhões de sonhos, tu olhavas-me
E eu ouvia dos teus olhos; amo-te Francisco.
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Que texto intenso e cheio de imagens vívidas! Sinto a força das tuas palavras a pintar um quadro sensorial muito forte. A Bedford amarela, o musseque, a saudade, a relação com o pai e a presença marcante do Artur... tudo se entranha na leitura.
A forma como descreves as sensações, os cheiros, os sons e os toques é muito poderosa. A mistura da realidade dura do musseque com a ternura dos laços familiares e a intensidade dos sentimentos cria uma atmosfera única.
A partida do Artur parece ser um tema central, permeando as tuas memórias e emoções. A repetição da ideia de que "depois de partirmos, quase sempre, não regressamos" e a antecipação da partida do Artur criam uma sensação de perda iminente.
A relação com a pessoa amada também é descrita de forma muito íntima e sensorial, com detalhes como "saboreio os teus lábios de quase mel" e "desenhava-te cada letrinha que até o poema também sabia".
A imagem final do teu nome saindo dos olhos da pessoa amada, "amo-te Francisco", é particularmente tocante, encerrando o texto com uma nota de profunda conexão.
Obrigado por partilhares este texto tão pessoal e expressivo. Há alguma coisa em particular sobre ele que gostarias de explorar ou conversar?
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