16 fevereiro 2025

Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda

Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda

Da vida, desculpou-se à nascença, depois do tédio, sempre que o almoço pertencia aos silêncios daquele quintal, a sombra das mangueiras, o cheiro ao longe, de perto se erguia, do capim depois da chuva, a saudade.

Tão perto de mim, e tão distante da minha mão, aquela acácia que estava sempre a chorar, e eu

Pai, porque choram as acácias da minha infância, da outra janela, quase que o cérebro derretia numa manhã de inverno, depois da chuva,

Sempre que acorda a maré deste corpo, dentro dos pequenos círculos e cubos, que só o corpo de uma mulher consegue ter.

E da vida se desfez quando soube que havia um poeta dentro dele,

Porque até podia ser gay, agora, poeta?

O meu pai chorava, sabendo eu que ele não chorava, porque o meu pai nunca chorou,

E que sonhava,

E que imaginava,

E que no final, não sabia nada.

Eu desenhava nas paredes que ainda estão pinceladas dentro de mim, e diria que vindo de um daltónico como eu, aquelas paredes

Tinham tons de azul.

Talvez por isso goste tanto do azul. E do mar.

Depois abríamos a porta, e lançávamos escadas abaixo

Duas ou três panelas com água a ferver,

Água que durante a tarde anterior tinha sido transportada da Gricha, da fonte da Gricha.

Não tinha fome, mas às vezes tinha vontade de comer, e imaginava coisas,

Sentava-me na varanda e contava,

Quantos carros tinham passado durante a tarde, e qualquer coisa como quatro ou cinco.

Muito bom para o primeiro dia.

Depois ele passou a contar quantos vidros partidos em quase todos os vidros partidos da janela da sala quatro casa de banho e cozinha, limitada e sociedade anónima,

E quando se deitava,

Estava mais cansado do que o vento.

Às vezes, às vezes ficava horas a olhar para o chafariz, e um dia ele percebeu

Que as casas tinham rodinhas e que seis meses depois, estava numa outra casa, que se diga, quando do inverno,

As paredes choravam. E eu pensava

Também as pessoas choram e não morrem, quero lá saber das lágrimas das paredes, e quando acordava, porque durante a noite se tinha esquecido que nunca, mas nunca, se devia encostar à parede, e quando acordava parte das costas humedecidas, devido às lágrimas, das paredes.

Sentia um frio na espinha, como quando ele muitos anos depois

Dentro de um carro em andamento e a mão se alicerçava ao meu sexo, diga-se

Quase sem tesão e em nojo, daquela mão.

E eu todas as noites, pela manhã, quando do inverno, acordava com um friozinho na espinha.


Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda, muito depois

Vestiu-se de barco, e hoje diz-se um barco

Tão barco como todos aqueles que nascem barcos, que eu nasci avião e que eu sempre quis ser um barco.

E mais tarde, depois de cansado, quase mar de rochedos, começou a fumar heroína, esporadicamente, aos sábados enquanto lia um ou um outro poema,

Um dia,

Ao outro dia,

Quando acordou, não acordou, deixou de dormir, deixou de comer, quando era noite, vinha novamente o dia, dentro de quatro paredes era tão verão que trazia um casaco com mangas, às vezes

Ele,

Cagava-se, a diarreia, os vómitos

Chorava, quando se lembrava de que já tinha sido um barco, e ontem era,

Tão frio mas tão frio o frio do inverno, e era o verão tão frio como o verão da esplanada mais distante da sombra da noite.

Um pássaro dentro de uma lua,

Baixou as calças, olhou-se no espelho

E que sim, ele acabava de acordar.



Da vida, desenhou cansaços, projectou idiotas consagrados, escreveu nas paredes de uma casa, em Luanda


E quando acordou a lágrima, perguntou-lhe

Pai, porque choravam as acácias da minha infância…


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