27 abril 2025

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Levanta-se o vento, sabia o menino que sempre que havia uma pétala no seu rosto, sabia-o

Que tinha sido sua mãe, durante a noite, saía de casa e iluminada pelas estrelas de um amor mais dia do que o luar,

Colhia pétalas para semear no rosto de seu menino.

Levantava-se já o destemido vento, havia junto à ribeira uma cerejeira que escrevia poemas durante os finais de tarde, e nos olhos do menino, más as horas da tarde, um barco entrava-lhe janela adentro, homens fardados, mulheres despidas, despediam-se do marido e acordavam nos olhos de um amante, antes que fora também um menino, antes também uma pétala colocada pela mão de sua mãe.

Que lhe tinham roubado a apendicite quase aguda, que anos depois, sobre o Tua uma abelha acordou, e o menino

E a sua mãe, galgaram serra acima, depois do jantar, encostava o rosto à janela, ele já muito bêbado de tanta poesia,

Abre-lhe pausadamente as pernas, em pedaços de milímetros, calculou a distância mais curta, da terra ao céu,

E ela gemia, ele escrevia na nádega quase rouca de tanto uivar, que o orvalho lhe entrou sexo adentro,

Voou sobre o mar,

E sorriu de prazer.

Que foda.

O barco depois sentava-se sobre uma cadeira em tubo de ferro falsificado nas metrópoles longínquas de umas mamas mais olhos do que barriga, despia a saia,

E saía,

Que tinha como roupa uma fita parva enrolada ao sangue do peito, é alvorada, até à alvorada todos bebiam, e ninguém

Pagava nada. Oferta de sua excelência, o menino da mamã, depois ouvia-se o galgar dos sinos sobre a clareira de um abraço, o comboio quase em lágrimas, depois chovia, depois ela não queria, e eu quando queria, caía, e sobre o mar a ausência de um papagaio em papel, tão lindo, e tão alegre, como a sua mãe.

A ponte, sorria, subia até à lua, e ao outro dia, descia, em coma quase poético como de poético era a segunda rua depois do cemitério, do outro lado, alguém gritava

É hoje é hoje que acaba o mundo,

E depois da última foda da noite, levantou-se e o mundo acabou.

Fiquei eu, apenas eu neste labirinto de mediocridade de uma palavra ambulante, pretos em guerra, em guerra eu com as palavras,

E depois, a ponte sempre em transe, sempre em tesão, esperando que da outra margem,

Um rés-do-chão quase uma pequena lágrima escondida na areia. Era sábado, tal como hoje também é sábado, uma espingarda subia a calçada, desviava-se das sombras encontradas, às vezes sentava-se no passeio e via os musseques da infância, também eles desciam a calçada, tal como a espingarda, em lágrimas de sangue, na sua mão tinha a mão de sua mãe uma alcofa com o tecto pincelado de estrelas,

É para ti meu amor

E foi quando já depois de noite, o menino e sua mãe e o vento, depois dobrava a esquina, dizia palavrões ao vento

Vai trabalhar malandro

E despia-se sobre a mesa-de-cabeceira, ela abria a janela, fumava, fumava, e ele dançava, e ela

Despe-se pausadamente como um diamante à procura, também ele, do dedo de sua mãe, de preferência, com dinheiro, e

E que não, que nunca tinha ouvido falar, quanto mais, quanto mais, olha, outra espingarda, apressada

E ela olhava-o, depois a dança terminava, ela colava-lhe uma moeda de vinte e cinco escudos nos testículos, e ia embora até à outra margem, que por hoje ser sábado, o cacilheiro despedia-se da cachopa de uma sanzala entre capim e mabecos, um cacho de bananas sobre a mesa, maiores do que o menino, e sua mãe, de vez em quando, desenhava-lhe brincadeiras na palma de sua mão,

Abre é para ti

Porque o vento sempre lhe disse e dizia, menino

Olhe que um dia, o menino

Sozinho, sobre a toalha uma colher de sopa depois do jantar saneando que também é preciso ser o livro até que uma flor acorde na porta de uma palavra sempre que chovia o meu pai adormecia acreditando que a chuva é uma mulher nua,

Pai

Desculpa, pensei que hoje havia sobre a mesa uma fotografia e olha o que encontrei, uma bussola de ouro silêncio da vida de dois pequeninos peixes sedosos por sombra e por rimas e batidas de uma nova alvorada.

Depois a calçada fechava a janela, descia a persiana quase mais emperrada no vento do que todas as mandibulas de limalha sobrantes de tanto parafuso e de tanta porca que depois de ser noite, todos e todas, desciam até ao rio sonolento das pequenas migalhas sobre a aldeia, e sabia que um dia, e o vento viria,

E veio,

E veio hoje.

As espingardas nunca mais foram vistas e observadas, e tão pouco o vento que hoje

Deixou de sentir o desejo quando percebeu que o barco tinha adormecido sobre a calçada,

Comadre amanhã posso ir

Que também havia na sanzala quem acreditasse no destino, que um dia, o sino

Tocava,

E um menino acordava, da cinza, vestia calções e calçava as sandálias em couro carcomidas pelos olhares nocturnos das mangas, que quando havia sol, deixavam os filhos entregues à sorte de uma semente,

E subiam até ao sótão,

A espingarda sabia, sabia que um dia, um dia o menino descia a janela e iria se esconder,

Nas asas de uma gaivota. Ouvia-se o vento nos braços deste barco, sobre a cabeça,

A ponte. E também tinham medo.

Que um dia o menino,

Acordasse.


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