Se
as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema,
depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que
são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em
cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,
Longínqua,
quase nua, sobre a geada.
Cansei-me
do meu irmão,
Artur
não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,
Francisco
não metas pregos nas tomadas,
Depois,
depois vinha o meu pai
Artur
estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é
apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo
mar, mas qual mar, Francisco?
Sabes
Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos
olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é
total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico
Vendem-se
poemas.
E
quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas
desvaneios dos loucos e das loucas,
Que
os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada
palavra, de cada som
Artur
cuidado com os sonhos. Coitado…
Depois
ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e
gotinhas, três apenas
E
do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher
quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e
que morre a cada dia escrito.
Sentia
o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,
Meninos
amanhã vamos ao Mussulo,
Eu
quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz,
poderia ver o mar e os barcos,
Mas
que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?
Estrelas
em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de
uma nuvem azul, celeste.
Se
as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema,
depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que
são quase como cada gotinha de água,
E
hoje pergunto-me, porquê Artur?
Porquê
envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples
olhar, do cheiro da cinza, ou até
Depois da chuva.
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