14 janeiro 2026

Se as árvores falassem eu me abraçava

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água, são também as clareiras do silêncio, em cada muro construído, a cada palavra lançada contra o olhar de uma madrugada,

Longínqua, quase nua, sobre a geada.

Cansei-me do meu irmão,

Artur não faças isto Artur não digas palavrões, Artur…, depois a minha mãe,

Francisco não metas pregos nas tomadas,

Depois, depois vinha o meu pai

Artur estou quase, e claro meu pai, e claro que a viagem será eterna, que o desejo é apenas um pequeno prego espetado na fimbria razão de um outro e quase anónimo mar, mas qual mar, Francisco?

Sabes Artur enquanto este corredor infinitamente sombrio, enquanto todos estes loucos olham para a televisão, um barco rompe a distância de um orgasmo, a liberdade é total, e num pequeno letreiro, suspenso no portão mecânico

Vendem-se poemas.

E quem compra poemas, se os poemas não são alimento, se os poemas são apenas desvaneios dos loucos e das loucas,

Que os escrevem, e não têm a coragem de os queimar, depois da ejaculação de cada palavra, de cada som

Artur cuidado com os sonhos. Coitado…

Depois ficava à escuta e em conversas com a mesa-de-cabeceira, sobre ela drageias, e gotinhas, três apenas

E do leite, vinha a embriaguez, o rio parecia a sanzala escura e húmida, a mulher quase despida, quase chuva na mão da inocência de um livro, que se escreve, e que morre a cada dia escrito.

Sentia o cheiro de uma rua quase também tal como eu, só. E se o meu pai nos dizia,

Meninos amanhã vamos ao Mussulo,

Eu quase que chorava porque tinha medo à lhá, o Francisco apenas alegre e feliz, poderia ver o mar e os barcos,

Mas que raio. Este gajo é parvo? Mar? Barcos?

Estrelas em cadência, miúdos quase displicentes das mãos de uma flor, ou dos olhos de uma nuvem azul, celeste.

Se as árvores falassem eu me abraçava, eu lhes segredava a timidez de um poema, depois do sono, sobre a mesa, o último cigarro, os cêntimos na algibeira, que são quase como cada gotinha de água,

E hoje pergunto-me, porquê Artur?

Porquê envenenares-te com poesia, também às vezes esquecida nas pétalas de um simples olhar, do cheiro da cinza, ou até

Depois da chuva.

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