28 abril 2025

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário

4º capítulo de uma merda qualquer que está a nascer.


Vai partir deste encanto, escreveu sobre a mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha

Por favor ausento-me, depois são os peixes, fêmeas até no desejar a infância de uma borboleta, são lésbicas, são poesia que depois do desejo, um dos peixes, encostada ao vidro, liberta com a língua cada minuto do meu tempo, eu estou sentado, tenho os cotovelos sobre a dita e restrita mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha, uma colher sente o frio do vento, se depois do vento, houver outra neblina sobre a toalha, com mais sono do que com a barriga, despediu-se também ante de ter casado a noite.

Pela janela vem a mim um pedacinho quase nada de inverno, ao longe sinto as fragas que galguei na minha meninice nos montes da cunha, sinto o frio nas mãos descalças pela miséria, descanso-as na algibeira do meu rosto, e depois

Depois ele pegou nas mãos, e olhou-as como quem olha uma andorinha, no papel da alvorada, depois de ser desenhada, ou até

Amada, e eu

Eu barcos inventava, era casado, tinha uma amante em Carcavelos, qualquer coisa como uma peça de aço amontoado sobre a mesa de uma esplanada, junto ao rio

Uma cabra tintilava os sinais invisíveis de uma morte, quase

Ao outro dia,

Anunciada. Ele,

Sorria quando sentia o vento, depois sabia, que a cabra que sorria, também ela, também ela sofria,

Tinha bronquite nas mãos calejadas pela vassoura mais pesada do que a neve dentro de uma caixa de sapatos. O correio lhe trouxe a vontade de se livrar da saudade, de vender o desejo, talvez ao diabo, talvez,

Talvez ao barbeiro

E eu contava-os, tantos eram os barcos que entravam naquela casa, das traseiras pareciam malmequeres abandonados, quando saiam, até que um dia

A árvore que caminhava no passeio da avenida, olhou-a e pegou-lhe na mão

A outra, de corpo enrolado na despedida do silêncio de um aquário, acaricia-lhe a vagina parecendo a concha de uma sílaba, distante de um final ponto, qualquer menina, desejava ser flor,

Enquanto isso, a ponte era apenas uma invenção do Artur milhas-luz, rapaz de entreter a malta, nas férias, trapezista, e engatava gajos na rua, fazia-lhes um broxe,

E,

O labirinto em ter tanto barco dentro de casa, ele sentia que do vento apenas tinha a agradecer, mas sabia-o também,

Descia, descia até sentir nos testículos o frio mais frio de Trás-os-Montes, engoliu a saliva, e deitou-se junto ao nicho de nossa senhora, nossa mãe, mesmo à entrada do jardim da carreira,

Que porra, foram insultados, uma velha agreste e mais parecendo o inverno de vila real

Que pouca-vergonha ele e elas deitados aos pés de nossa senhora nossa mãe, e que sim, também

Também lá estava a primeira lágrima daquela tarde quase libra, nos lábios de um jardim.

O menino tinha sido semeado, havia do outro lado do areal um vesúvio destemido e que dançava parecendo gente, mas que não o era, e que nunca o foi, porque gente não dançava assim, e a chuva

Porque havia também, há barcos encalhados naquela casa, há luas quase milagre, depois de despidas, nuas

Ele dançava

Eu acreditava que apenas um dos barcos me levaria até à lua dos sentidos, depois o frio, a porcaria de uma árvore quase em declínio e em cio, quase também dançando, quase também o frio,

Olha dizem que morreu o Artur

Sentei-as sobre a mesa. O Artur que se foda, se morreu, morreu

Então minhas lindas meninas o que têm a dizer em vossa defesa, a não ser que havia uma corda pendurada na parede da casa de banho, que um dia viu ratazanas em travessuras lutas lá para os lados de lisboa, que do outro dia, enquanto dormia e se esquecia, dizia-se ateu e antes de adormecer,

Agradecia a uma qualquer equação linear desenvolvida na vagina de uma laranja,

Obrigado meu deus por mais um dia. E que dia.

Dá-me a tua mão meu amor deixa-me tocar na tua pele de peixe amordaçado enquanto se ouve o leve silêncio do filtro de água, que de quando em vez, e quase sempre

Borbulhar também o sinto, eu também responde ele, pequenas gotinhas de oxigénio são lançadas para a lua e tu meu amor eu amo-te tanto mais do que a liberdade de dançarmos de mãos juntas, no tanque dos bombeiros voluntários,

Naquele dia era tarde. Havia baldes com uvas, das mãos das vindimadeiras, o brilho olhar de que um dia,

A vida vai melhorar meu filho

Eu tenho uma figueira que dança depois do jantar, saíamos todos, eu e eles, e elas, a algazarra de um bairro enigmático, o bairro dos sonhos, o eterno bairro do hospital, a casa número quinze quase em chamas de tanta heroína ter fumado, uma das noites quando regressava a casa,

Ele olhou para a lua, e viu com os dois olhinhos mais parecendo fragas do que olhinhos, quanto mais a lua

E sobre a árvore grande e centenário plátano de Alijó, um menino brincava com a bicicleta, olhei-o

Fechei o olhos. Abri novamente as persianas da última bebida da noite, e

E lá estava ele em cima da mais bela árvore e folgante como a charrua que desbrava um texto depois de sonhado, e em vez de ir dormir

Descia a rua, e depois

Sentava-me em frente ao rio. E escrevia. E desenhava.

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário.


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