Mostrar mensagens com a etiqueta livro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livro. Mostrar todas as mensagens

21 maio 2025

O farol - livro de poesia

 

Um dia em conversa com o meu grande amigo Beco Fonseca (Dr. Beco Fonseca) a uma determinada altura ele diz-me:

- porque não fazes como o Pacheco pá escreves uns textos e fazes uns poemas e imprimes numa folha e vendes…

É claro que o nosso Pacheco é o grande Luiz Pacheco, talvez um dos melhores escritores do século passado, apesar de não o reconhecerem como tal.

E assim nasce O Farol, um pequenino livro de poesia, imprimido com o apoio (?) e com 30 ex..

E confesso, amigo Beco, cada vez mais me pareço com o Pacheco.

30 abril 2025

Não sei, era tão estranho o Artur

Não sei, era tão estranho o Artur, até quando me tocava com a sua mão invisível, quase espuma de um desvaneio, e desenhava no som de uma águia em cio, os primeiros acordes da manhã. 

Eu gostava dele, amava-o, mas é impossível amar o Artur, impossível,

Impossível esta vida de ser e de ter e de estar, onde nunca estive, quando me sento em frente à estante, poiso o olhar, aqui e ali, e lembro de quando li aquele ou aquele outro livro, abro-o, às vezes, encontro notas, palavras escritas numa qualquer mesa de café, e no entanto,

Sentava-me em frente ao Tejo e o Tejo comia-me desde o dedo mindinho do pé até aos quase não cabelos que transportava e que quando estava muito vento, colocava a mão na cabeça e com um quase medo de perder o restante cabelo, aprisionava-o com um pequenino fio de nylon. Depois sentava-me, puxava um cigarro da algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E ele quase dormia sobre as lágrimas de um cacilheiro. No pequeno caderno que sempre o acompanhava, abria-o, puxava de uma esferográfica quase tão cansada como a algibeira tão cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,

E sabes, meu amor, nunca entendi porque o Artur era apaixonado por barcos,

Nunca percebi porque o raio do meu irmão mais novo era tão ou mais estranho de que uma locomotiva a vapor, que depois do sexo lhe lia um poema, olhava-a e sentia a claridade da noite quase destino, quase calçada sobre rodas, depois sabia

Sabia que quando ele me tocava, eu não sei por que razão, mas eu tremia, eu não dormia, eu sofria, e quando lia o que ele me escrevia,

Eu sonhava-o,

És tão tolo Artur,

Tolo.

Ouviam-se as amarras dos marinheiros miseráveis, que quando aportavam, entravam em cada luzinha meia-adormecida, bebiam, fumavam, deixavam restos de esperma sobre a mesa da cozinha, depois um gaiato rompia corredor adentro, gritava pela mãe, e esta,

Esta abraçava-o com todo o carinho do universo, cada gemido fingido servia apenas para alimentar o vício da heroína e o leite do menino,

Depois pegava numa nota de mil e enrolava-a em forma de tubo, protegendo o seu interior com prata de alumínio, o miúdo nunca percebeu porque todos aqueles marinheiros estavam fundeados no quarto da mãe, no entanto, quando ia à janela, olhava ao longe o Tejo,

E via um soldado sentado na tristeza da tarde, às vezes quase noite, às vezes, quase saudade de ser noite, de ser sempre noite dentro dele.

Uma espingarda se inventava na escuridão do penedo de luz que de ser tão estranho, o universo

Era tão estranho o Artur

O universo sabia, sabia que um dia, todos aqueles marinheiros deixariam de ser gente, o gaiato cresceria e quem sabe, também um dia, também soldado, que o cacilheiro que o olhava quase sempre ao final da tarde, hoje é sucata

Quase sempre me encontrava com ele nas águas-furtadas de uma caquéctica pensão, ele chegava sempre em primeiro lugar, entregava os vinte e cinco euros enroladinhos à senhora quase tão venha como a pensão, nada diziam, tão pouco se olhavam, subia as escadas até ao céu, a escuridão era total, enquanto eu subia, contava os degraus e quase sempre concluía que tanto os cobertores como os espelhos não tinham as mínimas dimensões segundo o RGEU,

Quero lá saber do RGEU, quero lá saber do meu irmão Artur, quero lá saber,

Três toques numa porta que mais parecia os olhos de uma abelha, depois, depois a porta abria-se, e ele à minha espera para me abraçar, tão forte, tão forte,

Ele despia-me, lentamente como se eu fosse uma andorinha à procura da primavera, tocava-me, acariciava-me os seios, beijava-os, eu sentia dentro de mim o fogo de mais uma tarde de loucura enquanto pela janela entrava o som de crianças em brincadeiras de ruela junto à catedral, ouvíamos o sino, sentia-o dentro de mim como se ele fosse a primeira pedra lançada contra um crucifixo suspenso do gesso em fendas madrugadas de uma alvorada, quase outra vez noite.

Ouvíamos a coruja e ficávamos lá, de mão dada.


28 abril 2025

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário

4º capítulo de uma merda qualquer que está a nascer.


Vai partir deste encanto, escreveu sobre a mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha

Por favor ausento-me, depois são os peixes, fêmeas até no desejar a infância de uma borboleta, são lésbicas, são poesia que depois do desejo, um dos peixes, encostada ao vidro, liberta com a língua cada minuto do meu tempo, eu estou sentado, tenho os cotovelos sobre a dita e restrita mesa de jantar quase poeirenta, quase também a despedida de uma abelha, uma colher sente o frio do vento, se depois do vento, houver outra neblina sobre a toalha, com mais sono do que com a barriga, despediu-se também ante de ter casado a noite.

Pela janela vem a mim um pedacinho quase nada de inverno, ao longe sinto as fragas que galguei na minha meninice nos montes da cunha, sinto o frio nas mãos descalças pela miséria, descanso-as na algibeira do meu rosto, e depois

Depois ele pegou nas mãos, e olhou-as como quem olha uma andorinha, no papel da alvorada, depois de ser desenhada, ou até

Amada, e eu

Eu barcos inventava, era casado, tinha uma amante em Carcavelos, qualquer coisa como uma peça de aço amontoado sobre a mesa de uma esplanada, junto ao rio

Uma cabra tintilava os sinais invisíveis de uma morte, quase

Ao outro dia,

Anunciada. Ele,

Sorria quando sentia o vento, depois sabia, que a cabra que sorria, também ela, também ela sofria,

Tinha bronquite nas mãos calejadas pela vassoura mais pesada do que a neve dentro de uma caixa de sapatos. O correio lhe trouxe a vontade de se livrar da saudade, de vender o desejo, talvez ao diabo, talvez,

Talvez ao barbeiro

E eu contava-os, tantos eram os barcos que entravam naquela casa, das traseiras pareciam malmequeres abandonados, quando saiam, até que um dia

A árvore que caminhava no passeio da avenida, olhou-a e pegou-lhe na mão

A outra, de corpo enrolado na despedida do silêncio de um aquário, acaricia-lhe a vagina parecendo a concha de uma sílaba, distante de um final ponto, qualquer menina, desejava ser flor,

Enquanto isso, a ponte era apenas uma invenção do Artur milhas-luz, rapaz de entreter a malta, nas férias, trapezista, e engatava gajos na rua, fazia-lhes um broxe,

E,

O labirinto em ter tanto barco dentro de casa, ele sentia que do vento apenas tinha a agradecer, mas sabia-o também,

Descia, descia até sentir nos testículos o frio mais frio de Trás-os-Montes, engoliu a saliva, e deitou-se junto ao nicho de nossa senhora, nossa mãe, mesmo à entrada do jardim da carreira,

Que porra, foram insultados, uma velha agreste e mais parecendo o inverno de vila real

Que pouca-vergonha ele e elas deitados aos pés de nossa senhora nossa mãe, e que sim, também

Também lá estava a primeira lágrima daquela tarde quase libra, nos lábios de um jardim.

O menino tinha sido semeado, havia do outro lado do areal um vesúvio destemido e que dançava parecendo gente, mas que não o era, e que nunca o foi, porque gente não dançava assim, e a chuva

Porque havia também, há barcos encalhados naquela casa, há luas quase milagre, depois de despidas, nuas

Ele dançava

Eu acreditava que apenas um dos barcos me levaria até à lua dos sentidos, depois o frio, a porcaria de uma árvore quase em declínio e em cio, quase também dançando, quase também o frio,

Olha dizem que morreu o Artur

Sentei-as sobre a mesa. O Artur que se foda, se morreu, morreu

Então minhas lindas meninas o que têm a dizer em vossa defesa, a não ser que havia uma corda pendurada na parede da casa de banho, que um dia viu ratazanas em travessuras lutas lá para os lados de lisboa, que do outro dia, enquanto dormia e se esquecia, dizia-se ateu e antes de adormecer,

Agradecia a uma qualquer equação linear desenvolvida na vagina de uma laranja,

Obrigado meu deus por mais um dia. E que dia.

Dá-me a tua mão meu amor deixa-me tocar na tua pele de peixe amordaçado enquanto se ouve o leve silêncio do filtro de água, que de quando em vez, e quase sempre

Borbulhar também o sinto, eu também responde ele, pequenas gotinhas de oxigénio são lançadas para a lua e tu meu amor eu amo-te tanto mais do que a liberdade de dançarmos de mãos juntas, no tanque dos bombeiros voluntários,

Naquele dia era tarde. Havia baldes com uvas, das mãos das vindimadeiras, o brilho olhar de que um dia,

A vida vai melhorar meu filho

Eu tenho uma figueira que dança depois do jantar, saíamos todos, eu e eles, e elas, a algazarra de um bairro enigmático, o bairro dos sonhos, o eterno bairro do hospital, a casa número quinze quase em chamas de tanta heroína ter fumado, uma das noites quando regressava a casa,

Ele olhou para a lua, e viu com os dois olhinhos mais parecendo fragas do que olhinhos, quanto mais a lua

E sobre a árvore grande e centenário plátano de Alijó, um menino brincava com a bicicleta, olhei-o

Fechei o olhos. Abri novamente as persianas da última bebida da noite, e

E lá estava ele em cima da mais bela árvore e folgante como a charrua que desbrava um texto depois de sonhado, e em vez de ir dormir

Descia a rua, e depois

Sentava-me em frente ao rio. E escrevia. E desenhava.

Um menino a brincar com uma bicicleta sobre um plátano centenário.


02 março 2024

Leituras

 


A minha próxima leitura, depois de terminar a obra de Artur do Cruzeiro Seixas, vai ser Friedrich Nietzsche, poemas.

 

(orgasmo literário)


20 fevereiro 2024

Luiz Pacheco

 


Um dia vou apresentar-te aos meus leitores. Dizer que és um dos melhores escritores do século XX, que a maioria das pessoas não gosta de ti ou nem te conhece e que os teus livros precisam de ser reeditados novamente.

Os teus livros são escassos, e os que aparecem custam os euros da cara; eu que o diga.

Um dia vou falar do teu magala em passeio por Braga ou da carta que escreveste para a Fátima; um dia.

 

Diário Selvagem

Luiz Pacheco

Língua Morta


08 fevereiro 2024


 

Tirando isto, vou andando...
saltando,
escrevendo...
vou caminhando,
sobre o mar.

tirando isto, nada.

14 outubro 2023

Flor de fumo

 

A meio da noite, meu amor, a meio da noite acorda a luz no teu corpo, a meio da noite, meu amor, a meio da noite, deita-se a luz no teu corpo, abraça-se a luz às minhas mãos, que poisam no teu corpo as primeiras sílabas da manhã,

A meio da noite, meu amor, a meio da noite acordam os pigmentos de cor, com que pincelo o teu ombro, a meio da noite, ele sonolento, tão sonolento como as predizes da madrugada,

A meio da noite,

Meu amor,

A meio da noite acorda a luz no teu corpo, ergue-se o livro esquecido no chão, poesia de uma afegã, a meio da noite, os teus olhos, meu amor, a meio da noite vestem-se de estrelas, e passeiam-se nos meus lábios, quando o meu beijo desce suavemente sobre o teu ventre, a meio da noite, o incêndio, a fogueira da noite, que a meio da noite enrola no teu cabelo, e voa sobre um ninho de cucos, perdidos na noite,

Meu amor,

A meio da noite, fogem de mim as diáfanas águas da ribeira dos sentidos, que a meio da noite, trazem as pedrinhas com que construo a minha noite, quando a meio da noite,

Sobre ti, lábios de luz, sobre ti, silêncios de ti,

A meio da noite,

Acorda,

Ergue-se o livro da poetisa afegã…

Que perdeu a noite,

Que nunca teve noite, como eu, quando procuro no teu corpo o poema mais belo do céu nocturno em “Flor de Fumo”,

E querida Nadia Anjuman, a meio da noite, porque te assassinaram, quando possivelmente as tuas noites eram como são as minhas noites, sonhar com poesia, respirar poesia, snifar poesia…

A meio da noite, uma flor se aproxima de ti, se deita no teu colo, e recorda-me a infância com muitos meios da noite, eu olhava as estrelas, pedia um desejo,

E voava,

Sobre ti a meio da noite,

Porque te assassinaram?

Flor de Fumo…

 

 

14/10/2023

30 setembro 2023

Vénus do fogo

 Neste livro

Onde escrevo todos os dias

Onde escondo o dia

E as tristezas da noite

Dentro deste livro

Uma mulher em suicídio

Sucumbe à deliria loucura

Nos olhos do mar

 

Deste livro

Sem olhos de mar

Neste livro onde escrevo todos os dias

Onde escondo o frio

De onde liberto aquele rio

Que se perdeu no nome

Que não dorme

Que tem fome

 

Este livro

Que ninguém lê e que ninguém percebe

Porque da janela deste quarto

Se vê o mar

E se ouve o mar

Com barcos de papel

E de brincar

 

Dentro deste livro

Uma mulher

Que grita

Chora

E se revolta com a vida

Com o poema

Com a poesia

E com o cabrão do poeta

Que sou eu

Aquele que escreve este livro

 

Aquele que finge gostar do dia

Este livro

Este pequenino livro

(o vinil termina, levanto-me e continuo mergulhado em Mão Morta)

Que se faz tarde

Dentro deste livro

Pequenino

Para a menina e para o menino

Neste livro

Onde escrevo

E escondo

O que escrevo

 

Vénus do Fogo

Livro das pérolas de ninguém

Este livro que todos o têm

Menos eu

Que sou fidalgo

Que o escrevo

E que nunca o vou ter

Neste livro

Onde habita a Vénus do Fogo

E os monstros de querer

Um dia

Talvez

Que este livro seja gente

Talvez esta cidade seja este livro

E aquela gente

Filhos deste livro

Nas mãos de Deus

Ou nas mãos de um outro qualquer impostor

 

Que este livro seja sempre um livro

A luz nos teus olhos

Que este livro seja a bala

Que rompe pela madrugada

E cai na cama de um coitado magala

 

Que este livro além de ser gente

Seja a gente

Que lê este livro

Que limpa o cu às folhas deste livro

Sem o arraial prazer do simplificado parafuso de pressão…

Morreu enfartado com chocolates

Escreveu este livro

E escondia sarna nos tomates

 

E o seu pequenino testamento

Tudo o que tenho

Todos os meus livros

São para alimentar este livro

Onde se esconde a Vénus do Fogo

E todas as putas-flores que não gosto

 

Não gosto deste livro

Mas escrevo este livro

Detesto cebola e alho

E como arroz com letras arroz com palavras arroz com arroz nas mentes…

Desdentadas

Escrevo este livro

Acordo

Aos poucos, este livro

Este pequenino livro

Que escrevo

Onde se esconde a Vénus do Fogo

A fogueira da minha aldeia

E uma candeia com azeite…

 

Liberta-se deste livro

Aquele que é feliz e escreve o outro livro

Porque este livro

Não me pertence

Não me pertence

Escrevo este pequeno livro

Sofrido

Pequenino

Com sono

Às vezes

Este pobre menino

 

Neste livro

Que finge orgasmos na madrugada

Que bate o pé

E abre a janela

E lança-se da janela

E voou e voa

Sobre o mar

E sobre ti

Deste livro

No livro que senti

O peso do papel

O motor a estibordo

Lançando fumo para a cabine do Comandante

Sobre a ponte

Um morto e três feridos graves

 

Deste neste livro

Que livro que dia em livro no desenhado livro

Foi-se

Morreu

E acordou três dias depois

Mais bêbado do que quando tinha adormecido…

Sofrido

Sorrindo a corações de areia

A janela coitada

Deixou pendurada a cabeça

E foi até à varanda fumar um pobre cigarro de sono

Sentou-se finalmente este livro

Finalmente em frente ao altar da vergonha

Onde reza este livro

Onde grita este livro

Sofre este pobre livro…

 

E sente ronha deste livro

Escrevo este livro

Dou vida a este livro

Papel engomado com o ferro de engomar

Vincos nas calças

Camisa do avesso

Por causa das bruxas

E lá vem este livro

Que ainda à pouco

O foi

E o será

Vadio

Sem nome

Mergulhado naquele rio

 

Despeça-se do menino

Se faz favor

Olhe que nunca mais vai ver o menino

Escreva que dia é hoje

Sábado

À lareira do sono

Sábado minguante enrolado numa lua luz

Abraçado a uma lua luz

Que bate à porta

Truz

Truz truz

Truz truz truz

Caiu-lhe a porta sobre o pé

Descreveu um círculo de luz com olhos verdes…

E zás

Hoje é o Comandante deste Navio apelidado de LIVRO.

 

 

30/09/2023

07 julho 2023

Livro

 Este livro que escrevo

Na sonolência dos dias

E das noites perdidas

Este livro que escrevo…

E que brevemente será lançado à fogueira,

 

Na fogueira dos dias sofridos.

Este livro que escrevo

Na sombra do olhar materno

Um dia deseja voar…

Ao outro dia…, deseja morrer,

 

Este livro que escrevo

E rasgo

Quando acorda a manhã…

E lanço ao mar

Para que este livro, nunca mais seja um livro de sofrer.

 

 

Bragança

07/07/2023

14 abril 2023

Abelha em flor

 Abraço-te

Nuvem de espuma

Flor sincera das manhãs em delírio

Abraço-te corpo pincelado em desejo…

Quando mergulhas nos meus olhos

E te misturas no meu daltonismo,

 

Abraço-te meu poema em construção

Palavra que lanço ao vento

Semente de beijo

Que os teus lábios acolhem…

Abraço-te

Na misera escuridão das minhas mãos…

 

Abraço-te

E acaricio-te como se fosses um livro

Uma página de mar

Um livro que leio

Um livro onde escrevo

Um livro em paixão,

 

Abraço-te

Sob todas as constelações do Universo

Criação de Deus

Que criou a mulher

Que criou o abraço

Abraço-te meu amor com o meu abraço…

 

Abraço-te

Nas primeiras páginas da manhã

Abraço-te quando dos lábios do pôr-do-sol…

Uma abelha em flor

Também ela

Te abraça… também ela… te abraça e deixa um pedacinho de mel nos teus doces lábios.

 

 

 

Alijó, 14/04/2023

Francisco Luís Fontinha

12 abril 2023

O livro da maldição

 Este livro

Que leio

E folheio

Que manuseio

Como se fosse mais um livro

Este livro

Onde escrevo

Onde durmo

Onde habito

Este livro

Deste livro

Do livro do meu viver.

 

Deste livro onde nasci

Neste livro onde cresci

E vivi

E brinquei…

Deste livro onde amei

E chorei

E gritei.

 

Deste livro a que chamam de vida

De viver

Deste livro de sofrer

Este livro

Entre muitos outros livros

Neste livro

Onde me sento

E escrevo

E olho o rio

E do rio vejo o mar

Deste livro de viver

Neste livro de amar.

 

Deste livro

Nos jardins junto à Torre

Dos barcos deste livro

Neste grande livro de partir

De correr

Deste livro de montanhas

De amores

De crianças sem asas

E de asas sem pássaros

Neste livro

Que seja deste livro

Que as minhas cinzas

Que das minhas asas

Se faça a vida

E se construa este livro.

 

 

 

Alijó, 12/04/2023

Francisco Luís Fontinha