21 junho 2025

A furgonete

A furgonete galgando cada pedra da calçada, e de cada pedra, um além-mar que se deita sobre as ondas do destino, o miúdo escuta a voz da mãe, encosta o búzio ao ouvido esquerdo, e enquanto desenha sorrisos com os dedos da mãozita direita, sente sobre os ombros o pássaro malmequer, destemido, de um sonho quase também destino, depois sentia que a janela tinha qualquer coisa estranha no olho esquerdo, e fodeu-a até acordar sobre o outro muro da sílaba também quase, melodia de uma manhã.

Não sou ninguém, acreditava a esfera cinzenta, que tinha quatro mãos, e aos sábados, dançava sobre a mesa de um bar, aos poucos, despia-se. Depois quando já nada pertencia ao seu corpo, chorava, lançava lágrimas para a plateia, o inverno tinha terminado, o sonho, era agora primavera, e nem a chuva sabia o nome da primeira lágrima da manhã, depois, depois chovia, e eu, eu subia à nuvem mais alta da aldeia, até que a morte chegava, e um dia, levou-a.

E um dia ele saberia que mais tarde ou mais cedo, depois do expediente, enquanto olhava para a furgonete galgando cada pedra da calçada, e de cada pedra, um além-mar que se deitava sobre as ondas do destino, o miúdo acordou, mal abriu os olhos logo cedo pela manhã, depois de alguém lá do prédio ter assassinado o amante, apenas porque

Despia-se lentamente, apenas porque o leão era o Rei da Selva, porque a mulher se tinha ausentado com o filho, que um dia voltaria, que depois haveria tiros, e de uma bala lançada contra o vento, o cabelo quase tocava o céu, apenas porque tinha deixado a janela mal fechada, apenas porque se tinha esquecido de um retracto dentro de um livro, entre duas páginas mortas, depois abria a janela, puxava de um cigarro, e olhava a selva, procurava o leão, e lentamente vociferava entre as pedras da calçada,

- leão, leãozinho onde estás tu, meu menino?

Que nunca tinha sido pai apenas por causa do destino. Quase acordou uma madrugada aos pés de nossa senhora de Fátima, e que vergonha, blasfémia, um poeta, um presidiário e uma puta, os três, bêbados, e dormindo aos pés da dita senhora de branco, descia a prata, entrava no nariz,

- zás, leãozinho, onde estás?

Aliás, nós somos todos malucos e tolos, somos destinos na voz de uma equação,

- no silêncio de uma sala quase envenenada de medos, perguntou o professor de cálculo: o que é isto? E isto era uma equação complexa, não muito para ele, mas era-o

E durantes alguns segundos, nem a abelha maia se conseguia ouvira, até que um gajo pede a palavra

E,

- professor, sim responde-lhe ele, isso é uma série de Taylor. Porra. O gajo acertou,

Ganhou uma viagem de ida, apenas, e foi até à nuvem mais distante da lua, e começou, durante a noite, a semear palavras nas asas de uma alvorada.

Nada dava certo. Durante a noite tentava remendar os cortinados já rotos das tempestades e dos olhares alheios, depois vinha o dia, e qualquer coisa, mesmo até o vento, rompia o cortinado, partia a vidraça, e encostava a cabecita à grade já tão cansada de abraçar cabeças de miúdos parvos, palermas, que quase nunca respondiam ao que lhe perguntavam.

Queres ir?

- não.

E foi, um dia.

Um dia serrou o tronco de uma árvores, depois foi serrando e aos poucos, todo o tronco se encontrava fatiado, quase pronto para a sandes, a fome não era muita, no entanto, tanto era o outro cansaço de uma lareira quase molhada, nas coxas também húmidas no clitóris de um verbo que incendiava a floresta.

- e pensava; o que me interessa a mim a série de Taylor?

Que se foda.

Que as escadas que servem para subir ao céu, poderão um dia, não ser as escadas da decadência e de descida ao inferno, e o leão lá andava, e anda, perdido na selva, à procura de quem não anda, uma erva que morre, um pilar metálico que se ergue entre dois pénis estacionados junto ao museu dos coches, depois ia para casa resolver as equações, percebia-se a flexão junto ao seio esquerdo, depois ouviam-se os momentos flectores, e as flexas de uma vagina quase encurralada e prensada por uma bolha de cinco kilonewtons de argamassa para a dentadura. Chovia.

Chove.

A carroça dançava sobre a calçada, e quando o cavalo estancou repentinamente a marcha, olhou o relógio de bolso que fazia questão de deixar muito firme e claro

- é de ouro a corrente.

Do outro lado, ouvia

- que se foda.

Quero lá saber se do outro lado da lâmina da navalha está escrito o nome do último beijo do Outono; era sábado, e o rio nunca mais os viu.

Sem comentários:

Enviar um comentário