Uma lágrima de fogo nos
lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto,
continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou
tão pouco o mar
Como se a terra não
rodasse à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Parece muito, mas é tão
pouco quando estamos abraçados, depois da tua pele ser um rio de desejo,
pedindo à minha mão, silêncio nas caricias.
Já viste o jornal, parece
que um tipo qualquer descobriu uma viga muito especial, tão especial que até
escreve poesia depois do momento flector ser dia, muito depois
Os vinhedos, para fugirem
ao derradeiro sol, na primeira oportunidade,
Socalco abaixo,
E rio.
O dia nunca tinha
horários, e mesmo assim
Desculpa, o que tenho eu
ver com o tipo ou com a viga ou com a poesia,
E este rio de cabelos
loiros, que sorri quando o vento sopra no olhar, são os lábios de existo, que
docemente mordem cada raiz, de cada videira, de cada palavra, de cada enxada
Que o Douro enlaça, que o
Douro, às vezes, nos engana. Que cada homem, e que cada mulher, da lágrima ao
suor, e muitos deles
Nem o nome sabem
desenhar,
Quanto mais, ler, quanto
mais, sonhar.
Um dia percebeste que a
saudade é como a terra lavrada, depois da água ter caminhado de pedra ente pedra,
de solidão ente solidão, depois da água mergulhar no mais pequeno silêncio da
alvorada, um dia percebeste que em cada fotografia que tiraste, os teus olhos
nunca têm o mesmo sorriso, mesmo junto ao Douro. Um dia percebeste que a cada
dia, o Douro ao outro dia,
Não é o Douro de ontem.
Pai, porque vais embora
O sino que desde que me
lembro, e já me lembro há muito tempo, esteve sempre naquele lugar, naquela
posição e sempre com aquela cara que parece até que todos lhe devemos alguma
coisa,
Quando a única coisa que
lhe devo é apenas,
O silêncio de uma
estrela. O sino que desde que me lembro, traz até mim os solavancos de um
relógio, que quase sempre não sei quantos toques acabei de ouvir, e estou
sempre na ânsia de ouvir vinte e sete toques, pois muito mais fácil seria
Que o dia,
Tivesse vinte e sete
horas, em vez das vinte e quatro actuais; quem sabe um dia com tanta IA e nemos
BU, seja possível, como tanta coisa que será possível.
Como assim pai
Olha, imagina dois pontos
O ponto (A) e o ponto (B)
Pode ser, mas porque não
utilizas números em vez de letras, talvez tudo fosse mais fácil, se em vez de
um nome, tivéssemos um número, se a poesia se escrevesse apenas com números em
vez de letras,
E depois pai
Imagina que há uma
distância mais curta entre o ponto (A) e o Ponto (B), muito menor do que se fossemos
do ponto (A) ao ponto (B) em linha recta.
Imagina que um dia,
Um dia pai
Imagina que um dia
nenhuma criança terá fome ou saberá apenas o significado de lágrima,
Porque leu, porque alguém
a desenhou na areia, durante a noite. Imagina cada socalco pincelado nos
rochedos mais belos da primeira página de um livro
Como assim pai
Aquele doce doirado navio
de sonho, quando o sol se esconde por detrás das montanhas, quando o xisto
começa lentamente a arrefecer, como se fosse o aço depois da chuva, num
qualquer alto-forno de uma noite de corpos, nos braços de uma lápide de suor.
Depois chega a casa já
embriagado. Todo o santo dia de enxada na mão e a olhar sempre para o mesmo
rio, sempre o mesmo xisto,
Sempre a mesma saudade.
Depois chega a casa,
maltrata a mulher, espanca-a, esquece-se que tem um filho, fecha a janela
E espera que amanhã
acorde o dia, sempre o mesmo dia.
Uma lágrima de fogo nos
lábios da chuva. Uma criança sabe que amanhã não terá pai e, no entanto,
continua a brincar como se não existisse dia, como se não existisse noite, ou
tão pouco o mar que um dia acreditou ser em papel.

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