Um cacilheiro, mal-amado,
no final da tarde inventava o sono, despedia-se dos amigos, subia, subia, subia
as escadas até ao sótão mais próximo, batia à porta
E o vento o abraçava e o
vento
Que às vezes também
chorava, sabia que aquela tarde era a última tarde no último navio que todas as
noites descia a calçada da Ajuda, disfarçava-se de soldado, escondia-se, por
momentos, no olhar de um rio, quando ainda menino tinha dormido uma noite sob a ponte Dr. António de Oliveira Salazar quando
regressava de África…
Olhava-a do pequenino
quase nada silêncio de uma parada semeada de soldados parvos, que também eles
desciam a calçada da Ajuda, que não os ajudava em nada,
E eles corriam, corriam,
corriam até entrar no primeiro carro estacionado junto ao Palácio de Belém,
abriam a porta, entravam e sentavam-se,
E uma mão procurava-lhes
o sexo folgado, e depois
Depois uma boca descia,
descia…
E um mar de espuma
acordava, e o soldado, regressava ao quartel, feliz, tão feliz e com cinco mil
escudos na algibeira; ah grande magala.
E a ponte lá estava,
todas as noites, a mesma ponte, todas as noites, a descida, depois o silêncio,
e mais
Muito mais tarde,
Pai, porque choravam as
acácias da minha infância!
Eu não sabia que autocarro
da carreia era machimbombo, eu não sabia que havia um rio, também ele mistério,
também ele a essência da noite, muito mais belo do que o belo Tejo.
E hoje quando olho para o
Douro percebo, mas percebo o quê pai?
Se junto à noite, quando
quase noite, os amontoados de sémen aos magotes procuravam o churrasco mais
barato da calçada,
Aliás, todas as suas
pedrinhas, cheiravam a frango assado, muito pobrezinho no aspecto e na
ausência, quase sempre
Da fúria de uma mão e do
odor a óleo talvez com alguns anos, que se deitava e acordava, sempre na mesma
frigideira, sempre na mesma calçada.
E eu noite adentro
sentava-me debaixo de uma árvore, a árvore era também prisoneira tanto ou mais do que eu que até lhe colocaram um círculo em pedra à sua volta,
Não fosse ela pela calada
da noite descer a calçada e perder-se nas ruelas do Bairro Alto, ou também divertir-se
com os puxões de cabelo entre duas prostitutas em Cais do Sodré, que se diga,
tal como eu, funcionárias do Ministério da Defesa. E eu sentado, contava as
luzes que de electrão em electrão atravessavam a ponte e ao fim de alguns
minutos percebia que não eram assim tantas.
Ao contrário do dia, que
eram milhares, e sentado dento de quatro muros pincelados de um amarelo tão
triste, tão triste que às vezes sentia as lágrimas de uma flor a descerem-me pela mão, e num caderninho escrevia poemas
ao Tejo.
Mãe, estou bem!
E desde que aqui estou,
ainda não sabendo muito bem onde estou, nunca vi ou ouvi um pássaro que seja
nesta árvore que debaixo dela me sento e olho a ponte; verdade, pai…
E depois havia uma
fotografia, um tipo triste, tão verde como verde era a chuva de Maio em
corridas com uma espingarda na mão que apenas disparava às terças, quintas, e aos
sábados vinha a casa matar saudades da mão e do pai, e depois…
Nos restantes dias caçava
ratazanas durante a noite; e eram tantas, mãe,
Tantas eram que às vezes,
às vezes acordávamos com os seus gritos e um fio de sangue desenhava-se em
pequenos círculos no pavimento do corredor,
O Moreira,
Mais uma que deixou de
nos chatear. Comemorávamos até que o vento nos tombava, e nós éramos apenas
sombras dentro daquele quartel, e ao longe via-se a ponte e os carros,
Não te lembras, pai,
dessa fotografia que anos e anos esteve suspensa na parede da nossa sala, e
sabes,
Há poucos
dias, não sei porquê, no entanto
Fi-la em pedacinhos, porque
pai
Cansei-me de olhar para
um gajo vestido de verde, com uma boina preta na cabeça quase nua, como a tua,
anos mais tarde na luta contra o cancro. Cansei-me desse tipo vestido de verde
com uma metralhadora na mão, sentado num carro de combate que por de trás das
costas como silêncio de fundo tinha a ponte 25 de Abril,
E que durante a noite
disparava apenas palavras contra um pequeno caderno, hoje uma lápide dentro de
uma das gavetas da minha secretária.
Alijó, 11/04/2025

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