02 junho 2025

Era uma vez um menino

Era uma vez um menino, era tão cedo, que ainda hoje

Acorda cedo, era uma vez um menino, encostou a cabeça aos poucos vidros que restavam da portada, uma das mãozitas encostou-a a um dos vidros, e a outra,

Com muito jeitinho, quase como por artes mágicas,

Conseguiu colocar os deditos finos e longos por entre um pequenino buraquinho

E começou a sentir o primeiro frio da sua vida; talvez, o primeiro orgasmo, aquela sensação estranha que se apoderava aos dedos, e aos poucos,

Ao resto do corpo.

O menino, não os seus primeiros desenhos, porque muito tempo antes já os fazia nas paredes dos quarto da sala do corredor,

E um dia, e um dia o diabo do rapaz até queria escrever na carta de condução do pai,

O avô domingos, achava piada, e aproveitava os dias de folga, de quando não andava a puxar um machimbombo pela mão, para dar mais uma demão de tinta, acreditando que um dia,

Um dia isto passa-lhe, o menino, com o inexplicável bafo da sua pequenina boca, que para ele era novo também e não o percebia, começou a desenhar o sol, começo a desenhar círculos, quadrados e olhava a rua quase nua, quase

E perdia-se nos poucos carros que passavam, e pequeninas folhas tão brancas como a lua, fortemente caiam e formavam no pavimento um lençol de flores imaginadas, por ele,

Mais branco do que a areia do Mussulo, mais branco do que o mar, quando da despedida, e mais branco, do que o silêncio.

O menino, sorria de contente, tirou a mão que tinha colocado no vidro, depois, com muito cuidado, a outra mão que tinha no pequeno buraco, aos poucos, porque achou piada, tirou a cabeça e abriu a portada, colou um dos pezitos sobre aquele manto fino e mais belo e mais branco,

Do que a lua quando tão bela, e sentiu-se a ser engolido por uma laje de granito, muito mais velha do que a rua onde tinha nascido.

Era uma vez, um menino, tão parvo, que de contente

Pegou numa caixa vazia, encheu-a com o máximo de flocos que pôde, às vezes, às vezes metia os deditos e espetava-os, e sentia talvez,

O segundo orgasmo da sua vida,

Mas o menino queria mais, dizia ao avô domingos que queria ser artista,

Artista meu filho isso é coisa que se se diga olha pede namoro à filha do tavares,

São dos mais ricos, cá da terra,

Depois retirou os deditos da caixa, e quase como estivesse a ser comandado por uma força externa, poisou-a carinhosamente sobre a braseira,

O menino sorria, corria pela sala que servia de tudo, e que era dividida por cortinados, até que

A braseira, quase num instante único,

Simplesmente, morreu.

Este, este foi talvez o primeiro desgosto do menino,

E só depois, e só depois lhe explicaram que toda aquela plenitude e magia e beleza,

Se apelidava de neve. E que como todas as coisas belas, às vezes, às vezes basta uma pequenina coisinha…

Para despareça para sempre.

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