Era uma vez um menino, era tão cedo, que ainda hoje
Acorda cedo, era uma vez
um menino, encostou a cabeça aos poucos vidros que restavam da portada, uma das
mãozitas encostou-a a um dos vidros, e a outra,
Com muito jeitinho, quase
como por artes mágicas,
Conseguiu colocar os
deditos finos e longos por entre um pequenino buraquinho
E começou a sentir o
primeiro frio da sua vida; talvez, o primeiro orgasmo, aquela sensação estranha
que se apoderava aos dedos, e aos poucos,
Ao resto do corpo.
O menino, não os seus primeiros
desenhos, porque muito tempo antes já os fazia nas paredes dos quarto da sala
do corredor,
E um dia, e um dia o diabo
do rapaz até queria escrever na carta de condução do pai,
O avô domingos, achava
piada, e aproveitava os dias de folga, de quando não andava a puxar um machimbombo
pela mão, para dar mais uma demão de tinta, acreditando que um dia,
Um dia isto passa-lhe, o
menino, com o inexplicável bafo da sua pequenina boca, que para ele era novo
também e não o percebia, começou a desenhar o sol, começo a desenhar círculos, quadrados
e olhava a rua quase nua, quase
E perdia-se nos poucos
carros que passavam, e pequeninas folhas tão brancas como a lua, fortemente
caiam e formavam no pavimento um lençol de flores imaginadas, por ele,
Mais branco do que a
areia do Mussulo, mais branco do que o mar, quando da despedida, e mais branco,
do que o silêncio.
O menino, sorria de
contente, tirou a mão que tinha colocado no vidro, depois, com muito cuidado, a
outra mão que tinha no pequeno buraco, aos poucos, porque achou piada, tirou a
cabeça e abriu a portada, colou um dos pezitos sobre aquele manto fino e mais belo
e mais branco,
Do que a lua quando tão
bela, e sentiu-se a ser engolido por uma laje de granito, muito mais velha do
que a rua onde tinha nascido.
Era uma vez, um menino,
tão parvo, que de contente
Pegou numa caixa vazia,
encheu-a com o máximo de flocos que pôde, às vezes, às vezes metia os deditos e
espetava-os, e sentia talvez,
O segundo orgasmo da sua
vida,
Mas o menino queria mais,
dizia ao avô domingos que queria ser artista,
Artista meu filho isso é
coisa que se se diga olha pede namoro à filha do tavares,
São dos mais ricos, cá da
terra,
Depois retirou os deditos
da caixa, e quase como estivesse a ser comandado por uma força externa, poisou-a
carinhosamente sobre a braseira,
O menino sorria, corria
pela sala que servia de tudo, e que era dividida por cortinados, até que
A braseira, quase num
instante único,
Simplesmente, morreu.
Este, este foi talvez o primeiro
desgosto do menino,
E só depois, e só depois
lhe explicaram que toda aquela plenitude e magia e beleza,
Se apelidava de neve. E que
como todas as coisas belas, às vezes, às vezes basta uma pequenina coisinha…
Para despareça para
sempre.
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