Só aqui fui feliz, só aqui voltarei a ser feliz!
11 dezembro 2024
21 setembro 2023
Regresso
Perguntavam-lhe o que ele queria ser quando fosse grande,
E ele,
Costureiro.
Como ele ainda não sabia
o significado de estilista, respondia que queria fazer vestidos para o chapelhudo,
Criança parva, aquela.
Um dia quando acordou,
olhou pela janela e decidiu que queria ser guardião de barcos, que felizes eles
eram, quando se cruzavam, apitavam e beijavam-se…
O mar agitava-se, às
vezes, outras, outras parecia um lençol de linho deitado sobre a tua pele, até
que descia a noite e levavam-me para o camarote.
Cheirava a Nafta e eu
gostava daquele cheiro, daquele silêncio da meia-sucata, alguns envenenados pelo
tempo, ali parados, parados a olharem-me. Deitava-me. De barriga para o ar, olhava
o tecto e desenhava círculos de luz com o meu olhar,
E ele nem percebia porque
acordavam os mabecos durante a noite a chorar…, quanto mais que ia para Portugal,
para a Metrópole. Raios.
E depois de desenhar os
pequenos círculos de luz, imaginava a lua a descer, a descer, até poisar sobre
a minha cama, pelo óvulo da janela, o mar, o salgado mar das tardes de poesia
junto ao rio, enquanto me deixa ir pela preia-mar e só acordava numa qualquer
pensão recheada de piolhos e afins,
Criança parva, aquela.
Um dia, qualquer dia,
percebeu que valia mais ter ficado no mar.
Era frio. Às vezes, às
vezes o cobertor não dava para os três, e mesmo assim, queria fazer vestidos
para o chapelhudo, descia a calçada, e virando à direita, aterrava num qualquer
aeródromo com cadeiras de ferro, e mesas de ferro. Ficava ali até acordar o dia…
até o dia se fartar de mim.
Um dia, qualquer dia,
quando se ia deitar descobriu que queria ser o silêncio,
Já sei o que quero ser
quando for grande,
Quero ser o silêncio.
E eu expliquei-lhe que
nunca poderia ser o silêncio porque ninguém pode ser o silêncio e que o
silêncio é quando Deus está… em silêncio.
Não percebeu, o miúdo.
Parvo, este miúdo.
Aos olhos da neve sou um
pedaço de alegria embebida em quadradinhos de ausência, já aos olhos dele,
Criança, parva.
Criança, parva.
O rio fartava-se dele,
pedia-lhe desculpa, despedia-se e só ao outro dia, por volta das onze é que
regressava, eu, lá, esperando que ele voltasse.
Talvez me pagasse o
almoço.
Olhava-o, pedia-lhe um
cigarro, e conservávamos sobre coisas banais, coisas simples, coisas de mim e de
para um rio; o cobertor parecia uma folha de papel vegetal, e sentia os meus
ossos em pequenos rangeres como gonzos loucos sitiados e revoltados numa
qualquer clinica psiquiátrica.
Durante muito tempo
acreditava que tinha deixado lá o sono em detrimento de trazer outras quaisquer
bugigangas. Depois um parvalhão ofereceu-me um par de botas, pesadas,
pesadíssimas como chumbo. Chorei.
À meia-noite ouvia o sino
e acreditava que ao outro dia, um qualquer dia, todos os pássaros seriam
livres.
Todos.
Estilista.
Quero ser estilista.
21/09/2023
10 junho 2023
As estrelas das minhas mãos
Vou por aí, andando e
pensando, quando me dizem que não devia pensar, porque um tolo não pensa,
porque quem pensa, é um tolo pensante…
Vou, vou andando e por aí…
ao som de Black Magic Women,
Vou por aí, andando e
pensando, pensando e voando… e enquanto voo, eu penso, penso que se não
existisse a gravidade, que se diga, não era grave, no entanto, eu penso,
Que não precisava de asas
para voar, não, nada disso, penso que…
Em tanta coisa que penso,
Mas penso.
E que sim, que avencem as
tropas de Santarém em direcção ao Terreiro do Paço,
Sentava-me e pensava, e
contava todos os cacilheiros que invadiam os meus olhos, meu Deus, eram tantos
e tantas…
Para a frente,
E para trás,
Uns eram cegos, outros
eram lindos… e outras,
Outras pareciam uma
pequena bolha numa mísera folha de alumio, no entanto, muito depois, o AL,
perceba-se, símbolo químico do alumínio, em criança…
Sabíamos na ponta da
língua qual era o símbolo químico da navalha,
K2ou3,
As tropas de Santarém
estão a fazer a aproximação ao Terreiro do paço, e eu, e eu aqui sentado em
frente ao Terreiro do Paço, como se fosse uma criança com cabelos compridos e
loiros…
Nada de bom tenho,
pensava, do pouco que me sobeja, não me sinto… digamos, discriminado,
Tenho mais sonhos
sonhados do que a maioria de todos estes cacilheiros, e mesmo assim, querem que
eu seja…
Deus.
Raio.
E se Deus quiser, um dia,
qualquer dia, tanto me faz… o dia, desde que seja de noite, com luar, sem luar…
As tropas começam a
desenhar sorrisos nos lábios da noite, eu tinha ficado por aquelas bandas,
talvez tivesse adormecido num qualquer banco de jardim, não seria a primeira
vez,
E a bolha, como os
cacilheiros, dançava nas mãos de uma criança, que não gostava que as acácias
chorassem,
Mas elas, teimosamente,
Choravam.
Vou por aí, andando e
pensando, quando me dizem que não devia pensar, porque um tolo não pensa,
porque quem pensa, é um tolo pensante…
E tanto as tropas como
eu, estávamos a cagarmo-nos para o tolo, se pensava ou não pensava, se fodia ou
não fodia, e a maior parte das vezes, era fodido,
Escrevia cartas durante a
noite, para a noite. Eles e elas e os cacilheiros…
Indiferentes que eu
tivesse dormido num banco de jardim.
Erguia-me, olhava-me no
espelho da manhã, desenhava com um lápis de cor um pequeno sorriso na mão, e
voava…
Quando nos teus braços,
já as tropas de Santarém colocavam as algemas nos teus lábios,
Um baixote, muito baixo e
muito gordo, que agora é proibido de dizer e de escrever,
Mas claro, eles querem
que eu me foda, e claro também, eu, eu quero que eles se fodam,
Nomeadamente quando esse
mesmo baixinho e gordo das tropas de Santarém informa a madrugada,
Alô, comando territorial
do sono,
Lisboa é nossa.
Bravo, bravo…
Que sim. Que felizes eles
estavam…
E eu, dormia num banco de
um qualquer jardim da cidade dos sonhos.
Abraçava o Tejo, o Tejo
abraçava-me, e sabíamos que numa qualquer manhã daquela Primavera… morreria a
insónia.
Por aqui, cacilheiro
número três mil e oitocentos, calça quarenta e quatro,
E na boca,
Na boca esconde um pedaço
de sargaço.
Somos muitos, ouvia-os, e
mesmo assim, não aconteceu nada…
Vou por aí, outras vezes
por aqui, e de tolo em tolo, tínhamos tomado a cidade dos sonhos e toda a cidade
era apenas nossa,
Não acreditava em
janelas, não acredito em Deus,
E às vezes, converso com
Deus…
E que não devia pensar, e
que sou um tolo pensante, penso,
Penso como apareceu toda
a matéria do Universo, toda ela concentrada num pequeno espaço como o da cabeça
de um alfinete, e claro, eu acredito…
Eu acredito.
No entanto, o tolo que
pensa, pensa
Quem colocou toda a
matéria do Universo dentro daquele pequenino espaço do tamanho do da cabeça de
um alfinete?
Claro que não foi Deus,
porque naquela altura, certamente
Andaria muito ocupado.
Mas penso.
E admitindo que numa
qualquer tarde, enquanto Deus se deliciava com o seu cigarro, ele, ele
resolvesse colocar nesse mesmo pequenino espaço do tamanho do da cabeça de um
alfinete,
Toda a matéria,
Será?
E toda a matéria, de onde
veio?
Das mãos das tropas de Santarém
que agora mesmo tomaram Lisboa aos cacilheiros,
Que porra.
O alfinete de tanto
esperar, dizem que Deus é tão perfeito e ao mesmo tempo,
Muito vagaroso,
Diferente
De preguiçoso,
O desgraçado do alfinete,
espirrou… um grande espirro…
E voilà,
E definitivamente
É criado o Universo,
Há bebidas grátis, há
porco no espeto…
Claro que as coisas
menores,
Aos poucos,
Foram crescendo no
arvoredo da tarde.
Por aqui, por aí,
Os tolos que pensam, são
os mesmos tolos que Deus enviou para Marte.
E até hoje,
Ainda não regressaram,
nem regressarão mais.
Para concluir, senhor
professor, diria que toda a matéria que existe no Universo veio do nada,
Portanto,
Do nada,
Um pouco de anda,
Poderá nascer tudo,
Acredita nisso, Francisco?
Acredito, professor,
acredito…
E há quem duvida de toda
a beleza criada por Deus…
E há quem duvide da existência
de Deus.
Francisco Luís
Terreiro Paço, 10/06/1013
(ficção)
25 maio 2023
O poeta de Deus
(feliz dia de África)
Não sei,
Não sei como será o
Inverno
No Inferno,
Não o sei…
Mas… quem o saberá?
Farto-me de escrever
poemas a Deus…
E Deus está literalmente
a cagar-se para mim,
Não me importo,
Quero lá eu saber de
Deus,
Tal como ele,
Quer lá Deus saber de um tal
de Fontinha…
Não o sei,
Quem o saberá…
Vocês sabem como será o
Inverno no Inferno?
E de um tal de Inferno
disfarçado de Inverno?
Não, não me interessa…
Em criança, até um determinado
período da minha vida…
E que vida,
Meu Deus,
Que rica vida eu tive…
Não sabia o significado
de Inverno.
E era muito feliz!
Muito mesmo…
Tão feliz que…
No meu Inverno,
Trazia os meus calções e
as minhas sandálias de couro…
Que couro, meu Deus,
Que calções…
E quer lá saber Deus dos
calções e das sandálias…
Deus,
Deus passa todo o seu
tempo a escrever poesia…
Entre calções,
Tão feliz que fui…
Muito feliz,
E do meu Inverno,
Que Inverno,
Aquele meu Inferno,
De aprender o significado
de Inverno…
Quando eu…
Tudo esqueci,
As sandálias, os malditos
dos calções, o Mussulo, tudo,
Tudo mesmo.
Durante muitos anos,
Muitos mesmos,
Queria perguntar ao meu
pai porque choravam as acácias da minha infância…
E tudo,
Já não me lembrava de
nada…
Apenas…
Machimbombo…
Que coisa, esta, do
Inverno ser Inferno…
E Deus, o poeta, ser tudo…
Tudo o que não fui,
Tudo o que não quero ser,
Ser o quê…
Mais um, por aí…?
E chorei.
E chorei sem perceber que
chorava…
Que apenas me recordava,
De ter chorado,
Não porque me apetecesse
chorar…
Mas chorava,
Tinha medo de me perder,
E um dia, perdi-me, por
aí…
Um dia, meu Deus…
Um dia…
Chorava porque tinha
frio,
Chorava porque tinha
medo,
Chorava porque me sentia
só…
Qualquer coisa que nasceu
comigo, não me pertencia…
Tinha morrido,
E até hoje,
Hoje… nada,
Até hoje não sei a coisa
que morreu,
E que até hoje,
Não consigo dizer que
coisa é essa…
E se não há coisa,
Não haverá cadáver,
Nem haverá crime…
(peço desculpa pela ausência,
mas assuntos do foro privado chamavam-me)
A minha mãe,
Coitada da minha mãe…
Tal como eu,
Também ela chorou muito…
Muito…
Éramos assim…
Como deslocados,
Ausentes de corpo e alma,
Não,
Nunca acreditei na
existência da alma…
Nunca.
A minha mãe,
Coitada da minha mãe…
Eu chorava,
E eu sabia que a minha
mãe chorava porque eu chorava…
Éramos ausentados,
Deslocados da terra e do
primeiro pigmento de cor…
Abraçava-me a ela,
E ela mentindo-me,
dizia-me… um dia, um dia meu filho…
Um dia tudo vai melhorar…
Um dia,
Um dia cairá chuva na
minha mão,
Um dia,
Um dia…
Não sei,
Não sei como será o
Inverno
No Inferno,
Não o sei…
Mas… quem o saberá?
Farto-me de escrever
poemas a Deus…
E Deus está literalmente
a cagar-se para mim,
Não me importo,
Quero lá eu saber de
Deus,
Tal como ele,
Quer lá Deus saber de um tal
de Fontinha…
Ou do Inverno no Inferno,
Do Inferno a infernar o
Inverno…
Quer lá ele saber…
A não ser…
Que Deus seja accionista
do Inverno e credor do Inferno…
Ó pá,
Deus é comunista…!
Deus não é nem nunca será
capitalista…
Veremos, um dia…
Um dia, um dia veremos.
Francisco
25/05/2023
02 maio 2023
Do outro lado da rua
São as flores do meu jardim, são as palavras em flor, que semeio no meu jardim, são as flores do meu jardim e as palavras em flor que semeio no meu jardim as responsáveis pelo aprisionamento do teu sono, e tudo isto,
E tudo isto enquanto a
terra não se cansa de girar, gira e é tão gira e é tão bela, a terra ou o meu
jardim ou outra coisa qualquer…, gira em torno de um eixo imaginário, roda à
velocidade de trinta quilómetros por segundo,
E, no entanto,
As flores do meu jardim e
as palavras que semeio no meu jardim, estão lá, quietinhas, e o teu sono,
Escondido na minha mão,
Depois, depois pego no
sono, coloco-o cuidadosamente nos teus lábios de mel, olho-te, olho-te da mesma
maneira que olho o mar…
Em pequenos silêncios,
No teu cabelo, os
maravilhosos barcos em papel colorido, e depois de poisar o sono nos teus
lábios de mel, afago o mar do teu cabelo, separo os barcos rapazes dos barcos
raparigas, e espero,
Espero que acorde o
pôr-do-sol.
Desenhas um sorriso na
alvorada, uma âncora de néon que não me deixa construir todos os meus papagaios
em papel que ainda me faltam construir, e são tantos, ainda, meu Deus… tantos
papagaios em papel,
Da janela nada virá. Nem
regressa o vento das tempestades de silêncio, nem regressam as papoilas da
clareira, nem tão pouco, vê tu, meu amor, nem tão pouco regressarão as
primeiras lágrimas da madrugada,
E se eu pudesse,
O sono sorri-me,
O teu sono, claro,
O teu sono sorri-me, eu
sorrio-lhe, e o filho de ambos,
Sorri,
E das suas gargalhadas, vejo
o meu sono e o sono dela e o sono de ambos, todos, em busca de um pedacinho de
mar (e de outro sono) com odor a desejo, a música, a música bloqueia-nos as
mãos, e momentaneamente, e momentaneamente é impossível escrever um abraço na
janela do prazer, os cigarros vão matar-me, mas pensando bem, tudo nos mata,
até porque todos nós nascemos para morrer,
E uns morrem mais
depressa de que outros, mas o que interessa,
Todos morrerão, como
morreram as minhas sandálias em couro que usava na minha infância, em Luanda.
O barco, cansado, um
barco rapaz, salta do mar do teu cabelo e deita-se junto a nós, aos nossos pés,
ainda seguras o pedacinho de sono nos teus lábios de mel e em breve uma nova
alvorada nascerá com as palavras semeadas no meu jardim, gosto deste quadro,
gosto deste quadro que não me canso de o olhar a que dei o nome de paixão,
O barco, o barco rapaz,
coitado dele, o barco, o barco rapaz, sabe que brevemente todos os buracos
negros deixarão de ser negros (não será esta uma forma de racismo? Buracos
negros…) tantos, olha tantos…
E são tão belos e mágicos
e tudo o mais, todos os buracos negros do Universo, e vê tu, meu amor, dizem
que existe no Universo quarenta quintilhões de buracos negros, meu amor,
quarenta quintilhões…
(nem o vizinho do segundo
esquerdo com o seu berbequim faria tantos)
E, no entanto, guerreamos
por milímetros de terra em comparação com o tamanho de todos estes buracos
negros e o próprio tamanho do Universo, vês, vês agora porque penso tanto?
Da terra virá, um dia, ou
talvez já cá esteja, o nosso Salvador; tudo isto, tudo, para te dizer, que
talvez nessa altura já não exista cá nada,
Nem flores, nem poesia,
nem tão pouco o silêncio, olha
E nem o dia…
Quem diria,
Que um dia,
Qualquer dia…
Ele virá nos salvar,
Mas… salvar o quê? Quando
tudo já desapareceu…
Deitava-me no chão, no
chão da minha infância, depois, de barriga para o ar, olhava a copa das
mangueiras e sonhava,
Sonhava, escrevia,
desenhava… e tudo apenas com um simples olhar, o avô Domingos
Luisinho.
E eu, nada.
Luisinho coisa alguma,
pois chamo-me Francisco, fui baptizado e meço um metro e setenta e cinco centímetros,
(diga-se que o meu avô
Domingos era a pessoa mais teimosa que eu conheci em toda a minha vida),
E quando me olho no
espelho
Eu, nada.
Baptizado, tu?
Sim eu, sim…
Tenho as fotografias…
Olha… eu também tenho
fotografias da lua
E?
E nunca fui à Lua.
O avô Domingos
escondia-se entre os machimbombos, e eu
Eu, nada.
Sentado no chão a
imaginar como poderia construir um jardim de silêncio no cabelo da minha mãe,
Mas, confesso, que até
hoje, não fui capaz de construir esse jardim de silêncio no cabelo da minha
mãe,
Acabou por perder o cabelo,
levado pelo vento numa noite de luar…
Para o meu mar,
Não estou arrependido,
não.
E enquanto podia estar a
beijar-te loucamente, enquanto podia escrever no teu corpo todos os poemas que
ainda não escrevi,
Penso.
Mas penso em quê?
E quando descobrirem que
afinal Deus, o todo-poderoso, criador do céu e da terra e dos buracos negros (quarenta
quintilhões de buracos negros), é afinal uma mulher?
Silêncio na sala,
Ai e tal,
Não gostaram,
Quando pensavam que Deus
era homem, tinha tesão, e, no entanto, como poderia um homem desenhar e criar
A mulher…
Nenhum homem conseguiria
desenhar e criar a mulher, poder podia, mas com tanta perfeição,
Não, não podia.
E de agora em diante,
Deus é uma mulher,
Porque apenas a mulher
consegue de um pedacinho de nada, pouca coisa minúscula em comparação com os quarenta
quintilhões de buracos negros que existem no Universo ou com os cerca de duzentos
a quatrocentos biliões de estrelas existentes na nossa galáxia,
E, no entanto,
De um pequeno pedacinho,
um quase nada de nada, acorda na tela da vida, o mais belo ser, de tudo e de
todos e de todo o Universo,
O seu filho.
Filho, filha, que brincou,
que passava tardes inteiras a rabiscar na parte esquerda do útero, pequenos
círculos, pequenos quadrados, alguns números e letras,
E eu que o diga,
Passei lá tardes
infinitas…
Como o Universo?
Como tudo na vida, meu
amor.
O avô Domingos, sentado
numa cadeira, porque tinha sofrido um grave acidente e uva muletas, eu,
rapazote irrequieto e pior de que o Diabo, segundo a minha mãe, roubava-lhe as
muletas e corria, corria, corria…
Até que…
Não tinha mais quintal
para correr,
Luisinho. Luisinho.
E eu, nada.
Não é comigo.
O meu nome é Francisco.
Como sempre.
A alvorada ergue-se no
mar do teu cabelo, os poucos barcos que ainda restam, um barco rapaz e dois
barcos raparigas, olham-te, como eu te olho, e o desejo de ambos é o mesmo,
Luisinho.
Nada.
Depois, espalho o sono
nos teus lábios de mel, muito devagarinho, em silêncio, até que adormeces na
minha mão,
E sei que Deus, afinal, é
É uma mulher.
Só poderá ser uma mulher…
Alijó, 02/05/2023
Francisco Luís Fontinha
29 abril 2023
O menino dos calções e das estrelas em papel
Vou contar-te uma história.
Uma história?
Sim, uma história…
Há muitos anos,
Muitos?
Sim, muito, muitos…
Havia um menino, o menino
dos calções, que desenhava no mar barcos em papel e tinha no tecto onde dormia,
estrelas, estrelas que falavam,
Que fixe, estrelas que
falavam!
As estrelas falam?
Nem todas, estas sim.
O menino passava as
tardes debaixo da sombra das mangueiras a sonhar, sonhava que um dia, um
qualquer dia, voava, que um qualquer dia todo o mar era só dele, sonhava,
sonhava muito,
O que é sonhar?
Sonhar…
Sonhar é vestir-se de
pássaro, e
Voar.
Sonhar é vestir-se de
pássaro e voar sobre a cidade, quando a cidade, toda a cidade, está escondida
no cacimbo, sonhar é vestir-se de pássaro e voar em cada manhã que acorda,
quando o sono já dorme,
Também posso vestir-me de
pássaro e voar?
Sim, claro, claro que sim…
e deves.
Um dia, o menino dos
calções e das estrelas em papel, um qualquer dia, descobriu uma caixinha muito
pequenina, muito
Muito, muito?
Sim… muito pequena, e
nesse dia, um qualquer dia, tentou abrir a caixinha, tentou, tentou… até que
consegui,
O que tinha a caixinha?
Olha… um coração,
Um coração?
O que é um coração?
Bem…
Para mim, que estudo
engenharia mecânica e que nunca serei engenheiro, o coração é uma bomba, apenas
isso, uma bomba que não se cansa de trabalhar, noite e dia, dia e noite, até
que um dia, qualquer dia, pára. Para outros, o coração é amor,
O menino pegou com muito jeitinho
no coração, olhou-o como se olham as flores, com muito cuidado (olha, nunca
trates mal as flores)
Porquê?
Porque as flores também
sofrem… e precisam de amor e carinho, tal como as estrelas que falavam e que brincavam
todas as noites no quarto do menino dos calções e das estrelas em papel,
E enquanto o menino fazia
festinhas no coração, este… este sorriu-lhe e disse-lhe
Olha, gosto muito de ti.
O menino não queria
acreditar, e desde então, até hoje, o menino tinha sonhos, vestir-se de pássaro
e voar…
O menino acreditava, que
um dia, um qualquer dia, o mar lhe entraria pela janela, e o levava para muito
longe, onde outros meninos, também eles com calções e que tinham estrelas em
papel no tecto do quarto e que também elas, como as do outro menino falavam, seria
sempre o menino dos calções,
E hoje, ainda é o menino
dos calções?
Não, não…
Com os anos, o menino
deixou de se vestir de pássaro e de voar…
E a cidade que se
escondia dentro do cacimbo?
Está lá…
Está lá, muito longe… tal
como as asas do menino dos calções e das estrelas em papel.
Nunca deixes de te
vestires de pássaro e voar…
Alijó, 29/04/2023
Francisco Luís Fontinha
18 abril 2023
Janela da minha infância
Desta janela
Oiço o mar da minha
infância
Desta janela oiço os
pássaros da minha infância
Desta janela
Brinco com os meninos da
minha infância,
Através desta janela
Regressam a mim os
cheiros
Os sonhos
E todos os cheiros da
minha infância…
E desta janela… toco nos
papagaios em papel da minha infância.
Bragança
18/04/2023
Francisco
24 março 2023
As faúlhas da madrugada
Caem sobre mim as faúlhas da madrugada
Canfora manhã adormecida
Caem sobre mim as espadas
afiadas da solidão…
Enquanto a dor se veste
de alegria
Esqueleto desventrado
Bebo o cálice do veneno
Bebo as lágrimas da
existência
E estar vivo… parece uma
cansada tarde junto ao rio
Oiço-te entre pedaços de
néon
E avenidas sem nome
Avenidas da minha
infância
Que apenas dormiam na
minha mão
Caem sobre mim as metáforas
do texto não escrito
Nas imagens de um negro
quadro
Pincelado de tristeza
E oiço os gritos da morte
E oiço os gritos de
alegria da morte
Tão feliz… que ela é
Veste-se de cinzento
E faz-se passear de
limousine encarnada
Veado selvagem
Pedacinho de mar
Das esplanadas em luar
E volto a ouvir a voz do
silêncio
E volto a ouvir a voz
rouca da escuridão
A noite traz os
petroleiros da insónia
A noite traz nas mãos os
incêndios nocturnos de uma alma embriagada…
E depois
E depois poisa em mim a
nuvem doente
Das metástases que apenas
um corpo invisível compreende
E felizes aqueles que
transportam em si
As metástases do
sofrimento
Quando esperam no
corredor
O regresso da esperança
de voarem
Na esperança de uma
leveza indefinida
Indiferente à vida
Indiferente à dor
Caem sobre mim as faúlhas
da madrugada
Canfora manhã adormecida
Quando dos lábios da
alvorada
Vêm a mim as árvores
acorrentadas
Os pássaros voam sem
perceberem que lá fora
Uma menina
Come os chocolates da
inocência
E eu
Aprisionado nuns calções
Procuro as primeiras lágrimas
da manhã
Que habitam junto ao
capim
Abro a janela
Vou à janela
Puxo de um cigarro…
E lanço-me em busca do
espelho onde me escondi em criança
E estatelo-me no chão
frio da infância
Um triciclo com assento
em madeira… entre lágrimas e suspiros
E eu acreditando que um
dia
Um dia…
Qualquer dia
No outro dia
Hoje
Amanhã… o sofrimento se transformará
em silêncio.
Alijó, 24/03/2023
Francisco


