26 agosto 2026
09 abril 2024
A cidade proibida
Caminho sobre a cidade em construção
deito-me na ponte do desejo
e acaricio os prédios em ruínas
as ruas de sílaba em sílaba
debaixo das árvores de papel
a cidade
a caminho do infinito
na desordem de acordar
E frio
nas sílabas de sílabas das sílabas
da tua boca engasgada nas palavras
proibidas
e frio do silêncio das flores de cetim
em busca de um abraço
à procura de um beijo
A caminhar
sobre o vento em construção
a cidade
a cidade invisível à janela da tua boca
e frio
nas sílabas
em flores de cetim
a cidade proibida
(Francisco)
15 março 2024
Noite
Sou um estranho que te
olha, quando me estranho em frente a este espelho, quando cerro os olhos, e
vejo-te envergonhada em busca das minhas palavras aleatórias.
Sou um estranho que
chora.
Sou um estranho que te
olha, que me rezem ao ouvido
amo-te,
depois que as cadeiras
que o meu silêncio ilumina, absorvo-me se esta noite termina estrelada.
Mas não existem estrelas,
hoje.
Porque me despeço deste
desenho, deste arvoredo disfarçado de noite,
à janela,
me olho,
e te olho,
absorto,
invisível na dimensão do
universo.
Despeço-me da janela
porque será que as
árvores ainda dormem, quando os primeiros triângulos da madrugada,
vivem na tua mão,
e eu sou um estranho.
Estranhando que a minha
sombra ainda me siga, para cada lugar que me desloque…
Dedico-me a despedir-me
de um estranho, que sabendo eu desta imbecil madrugada que se avizinha,
eu me esconda dentro
desta pedra de insónia.
A vida que eu espero, não
tendo vida, nunca tive uma folha em papel onde escrevesse a minha vida,
Erguer-me desta pedra,
Onde me esqueço da estranheza,
de eu ser um estranho que navega nos teus olhos.
(orgasmo literário)
29 fevereiro 2024
Beijo
Amor
meu amor
vou falar-te de amor
e claro que o amor é um
crocodilo alucinado sem vento nas mãos e sempre disponível para subir às
árvores
que o amor é um poema que
abraça a tua pele
que o amor é quando o teu
cabelo se revolta
e teimosamente
me olha
e claro que o amor é um
poema escrito no vento
é uma palavra que viaja à
velocidade da luz
que o amor são os teus
lábios escondidos
são as tuas mãos em forma
de pistola
apontada ao meu coração
que o amor
meu amor
que o amor são os teus
lábios quando a geada se despede da madrugada
que o amor também é dor
mas também é flor
que o amor são os teus olhos
mergulhados na inocência da manhã
também é chocolate
cafeina
poesia
e literatura
que o amor
meu amor
é uma chávena de palavras
é o lanche
que o amor é o teu corpo
disfarçado de estátua
que também é rio
e desejo
que o amor
meu amor
também pode ser um beijo
Amor
Amor
é dor
amar é o mar
desejar
é escrever
no teu olhar
Amor
é dor
é flor
amor é poema
é cama-poema
é cinema
é literatura
é beijo
é desejo
Amor
amor é lágrima
amor
é sofrer
é estar
é viver
não vivendo
andando
alucinadamente pelo sono
Amor é árvore
árvore em flor
amor é arte
amor é poesia
é melodia
amor é o dia
amor é a noite
amor é estrela
amor é luz
é luar
Amor
és tu.
22 outubro 2023
Mar sonâmbulo
Sonâmbulo mar
Quando o teu feitiço me
abraça
Quando os teus braços me
beijam.
Sonâmbulo mar
Nos lábios de uma barcaça
Das mãos que aleijam
Os teus lábios de amar.
Sonâmbulo mar
Quando o vento
Me traz o teu sorriso
Quando me sento na tua
boca
E perco o juízo
E você fica louca
E você se esconde no meu
pensamento.
22/10/2023
13 outubro 2023
Sábado
Sábado
Meu amor
Sábado vou desenhar-te
Junto à ribeira,
Sábado vou escrever-te
Enquanto a lua está
desgovernada,
Sábado
Meu amor
Sábado vou lançar ao rio
Esta fogueira,
Sábado
Meu amor
Vou desenhar os teus
olhos
E esperar
Que acorde
A madrugada.
Sábado
Meu amor
Sábado vou pedir ao teu
cabelo
Que me empreste o vento,
Meu amor
Sábado
Vou esconder-me no teu
pensamento…
Meu amor
Sábado
Sábado vou amar-te
Como quem ama uma flor,
Sábado vou contemplar-te
Como quem contempla uma
flor…
Sábado
Meu amor…
Sábado vou reler este
poema
E pedir
Que sábado
Acordem nos teus lábios
O sabor da chuva
E o silêncio da manhã…
Sábado
Meu amor
Sábado vou desenhar-te
Junto à ribeira…
Sábado
Meu amor
Sábado vou escrever-te
E abraçar-me ao mar
Que não tendo sabedoria
Tem artimanha…
Tem estrelas coloridas,
Sábado
Meu amor
Sábado vou subir à
montanha
E gritar
Que no próximo sábado
Meu amor
Eu seja uma pedra
cinzenta…
Junto à ribeira
Onde vou desenhar-te…
13/10/2023
28 setembro 2023
Agricultor
Semeio as minhas palavras
No curvilíneo teu corpo
Madrugada em desalinho
Neste pequeno leito em
linho
Meu doce grama de saudade
Semeio as minhas palavras
Dentro de ti
Em ti
Madrugada
Sentido rio que se
esconde em tua mão deserta
Liberta do meu pulso
Da caneta que te escreve
E inventa nos teus seios…
O beijo.
Semeio em ti doce
madrugada
As alegres
E as tristes
Minhas amargas palavras
Meus poemas em teus
lábios
Quando me beijas e eu
sinto a frescura da manhã
Em fuga
E se esconde na fogueira
do silêncio…
Invento em ti a enxada
Que desbrava a terra
ensanguentada
Das guerras
Da fome
Do infeliz desejo que
queria ser…
O sonho
No sonho de escrever nos
teus lábios
Todas as equações que o
corpo absorve
E come
E lambe…
Toda a tua pele de
saudade.
Semeio as minhas palavras
no teu púbis
E à janela do nosso
quarto
Ele que nos olha
Que nos sente
E mente…
Ele…
O agricultor de palavras
Da enxada
Do livro prateado
Sobre a
mesinha-de-cabeceira…
E no entanto
Semeio-te com as minhas
palavras
Na tua pele
Nos teus lábios
Na tua boca.
E eu
E eu sou o louco
O que pensa muito
O que não devia pensar
Pensando que te desejo
dentro deste livro secreto
Que deixo sobre o aparador
Ao deitar
Meia drageia de saudade
E no entanto
Escrevo em ti de ti o que
que preciso de escrever
Do amar
Do que me amas e não
devias amar
Porque sou apenas um
agricultor
Um agricultor de palavras.
28/09/2023
27 setembro 2023
Sonho desejar-te no sonho
Sonho-te em constante amar-te desejo
Sonho-te inventando
noites sem dormir
Sonho-te desejando-te
desejar-te
Nos meus braços
Ao lado do meu livro de
poemas,
Sonho-te em constante
amor-beijo
Que brinca nos caniçais
Que brinca na tua sombra
De sonhar-te amar e amar
desejando
Que também tu me sonhes,
Que também tu me desejes
desejando
Que me sonhas
Que me desejas nos teus
secretos sonhos
Sonho-te na vergonha do
poema
Quando ele acredita que
te sonha,
Que também ele te deseja
tanto ou mais do que eu…
Sonhando-te
Desejando-te
Neste sonho em papel
Deste sonho mergulhado na
ausência,
Sonho-te enquanto te
sonho
Que te beijo
E desenho na tua boca
O silêncio nocturno dos
pássaros sem nome…
Que te sonho tanto… que
te sonho tanto e fico com fome.
27/09/2023
26 setembro 2023
Despedida
Despeço-me dos teus olhos
Sem saber se os voltarei
a desenhar
Nos lábios da manhã,
Despeço-me dos teus
lábios
Sem saber se os meus
lábios,
Um dia.
Sem saber se os meus
lábios um dia vão escrever nos teus lábios…
Amo-te.
26/09/2023
21 setembro 2023
Pedacinho de silêncio
Porque te escondes num
pedacinho de silêncio,
E não,
No meu olhar,
Porque te escondes nos
lábios da manhã
Desenhando sorrisos na
lua,
Porque te escondes nas
primeiras palavras da manhã…
Sem perceberes
Que as palavras que escondes…
São as palavras que te
escrevo.
Porque te escondes num
pedacinho de vidro,
Na página de um livro,
Nos olhos de um poema…
Porque te escondes, musa,
Quando o dia, quando o
dia sem o teu sorriso…
É um dia perfeitamente
estúpido,
Sem sentido.
Porque te escondes num
pedacinho de silêncio
E não,
No meu olhar,
Porque te escondes Princesa
da poesia,
Porque te escondes dos
meus poemas,
Porque te escondes,
Nesse pedacinho de
silêncio,
E não…
No mar do meu olhar.
21/09/2023
(desenho de fontinha)
23 agosto 2023
Neve
Cai a neve, meu amor,
Nos teus olhos de Primavera adormecida,
Cai a neve,
Nesta manhã perfumada,
Desta manhã prometida,
Cai a neve, meu amor,
No silêncio dos teus lábios,
Nas palavras que a tua mão me escreve…
Cai a neve, meu amor,
Da mais pura brancura,
Nos teus olhos de ternura,
Dos teus olhos em flor,
Cai a neve, meu amor,
Em teu cabelo de vento,
Neve, neve meu amor,
Da neve que habita o meu pensamento.
20 agosto 2023
Musseques da minha infância
Podia amar-te enquanto o vento
Leva o que restou da
minha vida
Podia odiar-te enquanto o
vento me traz novamente à vida
Podia ser eu
Podia não ser eu
Podia amar-te enquanto a
Primavera se saboreia com as cerejas dos teus lábios
Podia ser
Podia ser ontem
Ontem podia ser hoje
Hoje podia ser amar-te
Enquanto as cerejas dos
teus lábios
São sanzalas de prata
No olhar pincelado de
encarnado
Dos musseques da minha
infância
Podia amar-te nas fases lunares
E não lunares
Das estrelas comestíveis e
não comestíveis
Podia amar-te enquanto o
vento me traz o que me levou
E me leva tudo aquilo que
não quis ter
Podia amar-te dentro
deste livro
Neste poema
Nesta cama
Podia amar-te e odiar-te
enquanto a chuva se despede de mim
E eu
Dela
Depois….
Depois posso amar-te
enquanto o vento me traz aquilo que me roubou
Daquilo
Muito pouco
Que me sobejou
Alijó, 20/08/2023
Francisco
14 agosto 2023
Mar nos teus olhos luar
Dá-me a tua mão
Meu amor
Dá-me a tua mão e vamos
desenhar
O sol na areia fina do
mar,
Dá-me a tua mão
Meu amor
Dá-me a tua mão e vamos
escrever
O silêncio da lua nas
mãos do mar,
Dá-me a tua mão
Meu amor
Dá-me a tua mão e vamos
brincar
Com as flores do meu
jardim… nos lábios do mar.
14/08/2023
Francisco
09 agosto 2023
(sem título)
Um filho
É o primeiro Sol do teu
dia
É a primeira Lua da tua
noite,
Um filho
É o poema da tua vida
É poesia,
Um filho
É o mar do teu silêncio
É o silêncio da tua mão,
Quando lhe afagas o
rosto,
Um filho
É a paixão,
O amor da tua vida.
09/08/2023
07 agosto 2023
Prisão de feras
Esta prisão de esferas
De esperas
De encontros
E desencontros
Esta prisão de feras
Acorrentadas ao
gradeamento
Da solidão
Esta prisão
De meras
Nuvens de espuma,
Na bruma
Cidade que o Diabo abençoou
Desta pobre cidade
Sem cabeça para pensar
Sem pensar enquanto a
cabeça
Anda
Gira à volta do sol,
O dó
O pequeno dó
Da dor
Em dor
Ele
Completamente
Só
Doente
E ausente,
Doí-lhe o dente
Que já não sente
A paixão
Que era ardente
E ardeu
Na fogueira
Junto ao rio “um dia será”
E antes de adormecer
Toma drageias em forma de
cigarros,
Dorme docemente
O menino
Nos braços de sua amada,
Dorme
Docemente dorme docemente
O clitóris do desejo
Quando de um beijo
O menino e sua ausente
Amada que sente,
A porta
Abre-se
A janela encerra-se para
sempre
Um gaiato vende mortalhas
e afins…
E o cacilheiro que eu
tinha de apanhar
Engasgou-se
Cento e doze em acção
E morreu
Enfarte
Enfarte de coração,
Estaria apaixonado
Pergunto eu
Pois segundo o meu
professor de TH
O coração é a bomba mais perfeita
que existe…
… e não foi construída
pelo homem,
Dá que pensar, professor.
Então
O que é a paixão?
Se o coração é uma bomba,
Será a paixão um fluido?
E o amor?
Uma válvula
Qualquer coisa como um
pequeno vedante
Uma porca
Um parafuso
Um fio eléctrico
E o raio do homem sem
fuso
E sei lá eu… o meu nome,
O eléctrico
Avança
Rio acima
Agacha-se quando passa
debaixo da ponte
Olha-a
(que linda estrutura)
Como se contemplasse o
último sorriso do paraíso
E sem juízo
É agora maquinista da CP,
Um apito
Acorda do teu peito
Uma voz rouca com uma
placa de identificação na lapela…
Grita-me
Olho-a
E odeio-a
Depois
Sempre aquele maldito rio
Que umas vezes o apelido
de paixão
E outras
Muitas outras
De ranhoso
Incrédulo às mãos de Deus
Criador do parafuso
E da porca
E da broca
Que fura
A porta
E da outra porta,
Perco-me nesta prisão de
esferas
De esperas
De espermas
De encontros
E desencontros
Esta prisão de feras
Acorrentadas ao
gradeamento
Da solidão
Esta prisão
De meras
Nuvens de espuma,
Umas
Com cor e coração
E outras
Sem cor
Com comichão
Ergue-se
O morto desta cidade de
enganos
Deste paraíso invisível
Onde se escondem as
segundas-feiras da semana anterior,
E uma equipa de
engenheiros…
Projecta as terças-feiras
das próximas semanas,
Partindo do principio
Eles
Que a Terra não deixa de
rodar
Que pare repentinamente
Travões ABS
Caso contrário
Adeus terças-feiras das
próximas semanas,
Esta prisão de esferas
De esperas
De encontros
Espermas
E desencontros
Esta prisão de feras
E se eu pudesse escolher…
(se me pedissem para eu
escolher “algo em que eu me pudesse transformar”, certamente, sem dúvida,
queria ser um electrão)
Sou então
Um electrão
Prisioneiro de esferas
De encontros
E desencontros
Esta prisão de feras
Eu
O electrão
Com velocidade de
aproximadamente trezentos mil quilómetros por segundo
Contra a parede
Fodeu-se o poeta,
O artista,
E todo o resto da cidade
dos enganos,
Deita-se,
Dorme,
Deixa de saber quem é.
À meia-noite
Levanta-se
Grita
De pé;
(esta prisão de feras
Acorrentadas ao
gradeamento
Da solidão
Esta prisão
De meras
Nuvens de espuma).
07/08/2023
Francisco



