Tão simples são os nossos
sonhos,
E quão difíceis são de
concretizar…
Alguns, até impossíveis de acordar.
Tão simples são os nossos
sonhos,
E quão difíceis são de
concretizar…
Alguns, até impossíveis de acordar.
A última coisa que farei é desistir dos meus sonhos; de todos os meus sonhos.
Desistir, nunca.
No lado negro da lua
Onde todas as noites me vou
esconder
Onde escondo este poema
E ele amua,
No lado negro da lua
Onde passo as noites a escrever…
Na companhia desta lareira
em chama,
Na companhia do meu
sofrer.
No lado negro da lua
Onde me vou sentar
Neste pedaço de pedra
cinzenta,
De onde vejo o mar…
E um sorriso pela manhã
que me alimenta…
No lado negro da lua…
Onde tenho todo o meu
sonhar.
30/10/2023
Os sonhos,
Os sonhos são apenas
sombras
Sombras de nada
Dentro da nossa cabeça,
Os sonhos,
São pedacinhos de
silêncio
São noites envergonhadas
Das noites sem destino…
Os sonhos,
Os sonhos são apenas sombras
Palavras que ninguém liga…
E vergonha…
De ter sonhado…
As sombras
Das sombras que a
madrugada assassina.
02/07/2023
Às vezes, penso,
Penso muito, meu amor, às
vezes penso de onde vêm estas imagens que semeio nas telas e em pequenas
folhas,
Às vezes, penso,
Penso muito, meu amor,
De onde vêm todas estas
palavras que escrevo,
De onde vêm todas estas imagens
e todas as palavras,
Às vezes, meu amor, às
vezes sinto o medo…
O medo de que estas
imagens se abracem a mim
E algum idiota me diga
que estou louco…
Mas não será essa loucura
com que nos apelidam…, a melhor forma de sonhar o mundo?
Às vezes, meu amor, às
vezes penso e sonho…
Penso que estou a sonhar,
Muitas vezes sonho que
estou a pensar,
Às vezes penso,
Penso e dizem-me que não
devia pensar, tanto…
Mas penso,
Mas sonho,
Sonho que penso que
nenhuma criança terá fome,
Penso que sonho que
nenhuma mulher será espancada…
E penso, penso muito, meu
amor…
Penso e imagino a
alvorada,
Sonho e penso, quando se
despede de mim o luar…
Penso, meu amor, penso
muito,
Que não devia pensar
tanto,
Penso por que razão todas
estas imagens e palavras fizeram parte das minhas brincadeiras em criança,
Penso, meu amor,
Penso muito, penso que se
despede o dia… e uma infinita madrugada está para regressar,
E abraço a noite, como te
abraço… lentamente…
E penso, e sonho…
E muito lentamente
olho-te e percebo que tens uns olhos lindos…
Gosto de olhar os olhos e
deles receber as estrelas da manhã…
E penso, muito, que não
devia pensar,
Mas penso,
E sonho,
Sonho que penso,
Penso no que sonho…
E alguns dirão; está
louco,
Às vezes, penso,
Penso muito, meu amor, às
vezes penso de onde vêm estas imagens que semeio nas telas e em pequenas
folhas,
Às vezes, penso,
Penso muito meu amor…
Penso que às vezes a
escuridão é uma óptima companhia,
Depois, meu amor, penso…
O que dirá o gladíolo
para a tulipa!
Ou será que estão ambos
quase abraçados…
E nada dizem,
Ou será que dizem?
E eu, penso, penso muito,
meu amor…
Penso que há dias de
chuva loucamente felizes,
E que há dias de sol que
são uma autêntica merda,
E uma criança fica
encantada com um brinquedo…,
Mesmo que não tenha
qualquer valor comercial…
Porque ainda há crianças
que não sabem o significado de brinquedo,
Tive-os, muitos.
Destruía-os…
(dizem que saí ao tio
António, mal recebia um brinquedo destruía-o imediatamente…
E quando lhe perguntavam,
era para ver como era por dentro)
Eu fazia o mesmo,
Tive-os,
Muitos…
Mas muitos não os
tiveram,
E alguns que os tiveram…
Viviam em casas
assombradas;
Felizmente a minha casa
nunca foi assombrada,
E penso.
E sonho,
Sonho muito, meu amor,
Sonho e penso, que fazer
com todas estas imagens…
E sonho que penso,
Quando depois de pensar o
que sonhei…
Nada;
Fecho a janela e hoje não
me apetece mais olhar o mar.
Cansei-me, hoje, meu amor…
cansei-me do mar.
E penso,
E dou comigo a pensar,
Que sonho,
Mas não,
Só poderei estar a
sonhar.
Alijó, 14/05/2023
Francisco Luís Fontinha
Se o vento vier, se o vento me escutar,
Pedirei ao vento …
Tempo,
Pedirei ao vento os olhos
da menina do mar.
Se o vento vier, e
trouxer uma flor
Na eterna flor em teu
cabelo amordaçado,
Deixo nos teus lábios um
recado…
Dos teus lábios de amor.
Se o vento vier, se ele
vier um dia,
Peço ao vento que faça do
meu rio de esperança…
Um rio de poesia,
E que o vento me deixe
viver,
Viver como uma criança,
Uma criança sem sofrer.
Alijó, 24/04/2023
Francisco Luís Fontinha
Deitas a cabeça no meu peito,
E sonhas,
Sonhas que os meus sonhos
se tornem realidade,
Sonhas que eu nunca deixe
de sonhar,
Que nunca deixe de amar,
Deitas a cabeça no meu peito,
E sonhas,
Que o mar da minha
infância,
Um dia,
Um dia nos entre pela
janela,
Que um dia,
Os sonhos de sonhar…
Sejam os sonhos de sonhar,
Deitas a cabeça no meu
peito,
E sonhas,
Sonhas que a madrugada
acorde nos nossos corpos em paixão,
E sonhas,
Sonhas…
Deitas a cabeça no meu peito,
E rezas,
Deitas a cabeça no meu peito,
E pedes protecção Divina,
Que o teu Deus nos
proteja,
Que o teu Deus nunca se
esqueça de nós…
Deitas a cabeça no meu
peito… e sonhas.
Alijó, 23/04/2023
Francisco Luís Fontinha
A espada de luz
Que aos poucos se
alicerça no meu peito
É a chave que a noite me
dá
É a chave que a noite me
tira
A espada de luz
Que invento nos meus
olhos
Será o veneno dos meus
sonhos
Enquanto eu tiver sonhos
Enquanto eu tiver vida,
Enquanto eu tiver noite
Enquanto eu tiver olhos
Enquanto esta espada de
luz tiver vida
Vida própria
Emoções
Cansaços
E desilusões,
Esta pequena espada de luz
Levar-me-á ao silêncio
dos teus olhos
Enquanto os teus olhos
Enquanto esta espada de
luz
Tiverem vida
Enquanto o meu peito
For um pedaço de mármore
abandonado
Um pedaço de mármore sem
memória.
16/04/2023
Francisco Luís Fontinha
Enquanto escrevo, morro, enquanto escrevo, suicido-me na tristeza do poema, enforco-me na agonia de uma tela sem nome, suspensa numa manhã junto ao Tejo, do rio, vêm a mim os tristes cacilheiros, que entre viagens, me trazem o silêncio da despedida,
E despeço-me sem ter de
quem me despedir, apenas me restam meia dúzia de retractos, meia dúzia de
sombras…
E muitas dúzias de
sonhos; morram todos os sonhos.
Morram todos os sonhos e
todos os sonhadores e todos os poetas e todos os pássaros… e que morram também
todas as noites com luar.
E já agora, que morram
todos os cacilheiros e todos os barcos da minha infância.
Puxo do último cigarro. O
veneno que me mantêm vivo e de boa saúde…
Inesperadamente, começo a
odiar todos aqueles que morreram e que amei. Inesperadamente, começo a
odiar-me, começo a odiar as minhas palavras, os meus desenhos… e todos os meus
sonhos.
Enquanto escrevo, morro.
Suicido-me na tristeza do
poema, enforco-me na agonia de uma tela sem nome como todas as minhas telas,
sem nome.
De que serve um nome?
Alijó, 24/03/2023
Francisco
Os sonhos são uma (merda) segredava ele aos pincelados pingos de chuva da manhã,
Depois, sentava-se na
primeira sombra que encontrava e…
Esperava que o tempo se
escoasse sobre os ombros.
Do outro lado da rua,
junto à montra onde se passeavam espantalhos e pequenos monstros, um silêncio
de sono veio até ele, olho-o e
Tombou no seu peito.
Das sílabas da carne ao
desejo de fugir foi apenas um espasmo, ergueu-se da pedra onde tinha ficado
esquecido vários dias, porque ao que parece ninguém reclamou a sua falta, e
começou a correr em direcção aos rochedos de onde se podiam ver as primeiras
lágrimas da manhã.
Um sorriso iluminou-o,
Era o sorriso de sua mãe,
Que voava por aquelas
bandas, sem perceber porque razão o filho corria, corria apressadamente para
tais rochedos.
Chegado aos rochedos, recordou
a infância difícil, recordou todas as fotografias que já tinha rasgado e
posteriormente lançado à lareira os pedacinhos que se amontoavam sobre a
secretária, escreveu uma carta sem remetente, que tempos depois, alguém
descobriu no bolso de um velho casaco que tinha ficado esquecido num barco
aportado junto ao cais e em adiantado estado de decomposição,
O corpo morre, apodrece…
Pó, meu querido filho.
Brevemente serás pó.
E como tudo na vida,
apenas pó,
Os sonhos sonhados e os
sonhos não sonhados; poeira sobre um manto de lágrimas à espera do vento,
E quando acorda o vento,
O Santo Sepulcro da
infâmia acorda, senta-se junto à lareira e…
E dizem que ele estava
feliz.
Tão feliz, tão feliz…
Que lançou-se dos
rochedos e há quem acredite que ainda hoje voa sobre os plátanos e as acácias,
Lâminas do cansaço
Procuras-me dentro deste
pequeno cubo em vidro
Onde semeei as primeiras
letras do alfabeto,
Procuras-me junto aos
bares de uma Lisboa desencaixotada,
Triste memória,
Triste e ancorada,
Procuras-me enquanto o
sono
Desce do primeiro
silêncio em luar,
Olhas-me,
Olhas-me e acreditas que
estou vivo,
Mas olha que não,
Que não,
Que não tenho sonhos,
Barcos para brincar,
Procuras-me nas estantes…
Talvez penses que me
escondo dentro de um pequeno grande livro,
De poesia seria o
desejado,
Mas começo a odiar a
poesia,
As palavras,
E o dia…
Os sonhos são uma (merda)
segredava ele aos pincelados pingos de chuva da manhã,
Depois, sentava-se na
primeira sombra que encontrava e…
E o sono eterno
apoderava-se dele,
Como a miséria,
Como a reencarnação do
Diabo travestido de flor;
A mais bela flor do
Universo.
Alijó, 03/03/2023
Francisco Luís Fontinha
(ficção)
Dos braços desta ribeira
Recebo a voz do silêncio,
Nos braços desta ribeira
Vêm a mim as semeadas
palavras
Que na voz do silêncio
Acordam as madrugadas,
Dos braços desta ribeira,
Ribeira que corre nas
minhas veias,
Dos braços desta ribeira
Que em círculos brinca na
minha mão,
Vou procurar a manhã que
acorda,
Na manhã que mergulha na
montanha…
Nos braços desta ribeira,
Ribeira das noites em
luar,
Regressam a mim os
sonhos,
Os sonhos de sonhar.
Alijó, 19/01/2023
Francisco Luís Fontinha
Uma criança pode ser tudo o que quiser; basta sonhar.
Eu menino
Eu criança
Eu sonhava
Sonhava com coisas
Coisas esquisitas
Coisas sem nexo
Sonhos invisíveis
Sonhos sonhados
Sonhos,
Coisas sonhadas
Coisas
Sons que me entravam
pelas frestas da manhã
E cheiros que eu
coleccionava nas mãos,
Sonhos
Malditos sonhos de sonhar
Que eu
Eu criança
Eu menino
Eu sonhava
Sonhava com sonhos que
sendo sonhos não eram sonhos,
Sonhava com merdas
Merdas que hoje são os
meus sonhos
Sonhos de merda
Coisas esquisitas,
Coisas de merda
Os sonhos
A vida de um sonhador
Sonhar que vive
Dentro da morte de um
sonho,
O frio
A chuva dentro do frio
Em cio
As tardes junto à Torre,
O rio
Naquele maldito rio
Onde habitam esqueletos
Onde brincavam as
crianças
As crianças que sonhavam,
Por isso
Eu menino
Eu criança
Eu sem sonhos,
Sonhava
Gritava
Sonhava com barcos em
papel
Sonhava ser pedra
Alicate
Martelo
(para foder a cabeça a
alguns)
Sonhos
Que sonhava
E morreram
Nos sonhos
De uma madrugada,
Os apitos
O clitóris disfarçado de
sombra
Entre um sonho
O outro sonho
E a vindima,
Mais um dia
Mais um ano
Com sonhos
Sem sonhos
Destes tristes sonhos de
menino,
(Uma criança pode ser
tudo o que quiser; basta sonhar.)
Sonhar o quê?
Sonhos
Sem sonhos neste taxímetro
a que apelidam de vida
Vida de sonho
Ou o sonho da vida,
Feliz aquele que não
sonha
Feliz o menino que nunca
sonhou
Sonhou feliz no sonho
Quando do sonho
Uma árvore se levantou
E gritou;
Que se fodam os sonhos
E que se fodam os sonhos
de sonhar,
Há quem sonhe em morrer
E não consegue matar-se,
Mata-se uma
Duas
Mata-se três…
Três horas da madrugada,
E no final
Está vivo,
Está a sonhar
Que morto
Sonhou
De morto se levantou,
E ajoelha-se no altar
Não sonha
Mas reza
Ergue as mãos a Deus
Pelo sonho sonhado
Estar morto
Assassinado
Estar vivo
Escrevendo poemas…
Escrevendo poemas
enquanto a vida me deixar
Por aqui
Por ali
Por aí,
Sonhar.
Alijó, 16/01/2023
Francisco Luís Fontinha
Os sonhos são pedacinhos de rocha
Suspensos num rio sem
nome,
São pequenas janelas gradeadas
Com fotografia para o
inferno,
Os sonhos são papel
Amarrotado,
Os sonhos são silêncios,
São… rios sem nome,
Os sonhos são enxadas em
revolta,
São um calendário de
equações diferencias,
Os sonhos são
papel-higiénico,
São a flor parvalhona que
um parvalhão aprisiona na lapela,
São cordas de nylon,
São corpos mutilados pela
guerra,
Os sonhos são janelas
gradeadas,
São sótãos,
Filhos, filhas, mar, ar,
nada…
Os sonhos são solidão,
São madrugadas,
São noites sem destino,
Os sonhos são as
crianças,
Uns tem-nas, outros…
Inventam o sono na
alvorada,
Os sonhos são as abelhas,
Porque os sonhos são
pedacinhos de rocha…
Alijó, 23/09/2022
Francisco Luís Fontinha
Não desistas,
Enquanto o vento te leva
para o mar,
Não desistas e,
Não te deixes ofuscar
pelo luar,
Não desistas de voar,
Amar,
Brincar,
Beijar…
Não desistas das palavras
Que escreves no céu
nocturno do sonho,
Não desistas das canções
de embalar e,
Que os teus pais te
ensinaram…
Não desistas das tardes
límpidas junto ao rio,
Não desistas de observar
as montanhas e,
Todas as pedras.
Não desistas, não desistas
de sonhar.
Alijó, 06/04/2022
Francisco Luís Fontinha