terça-feira, 15 de agosto de 2017

Palavras em lágrimas


Porque choram as palavras, meu amor!

 

Neste silêncio cubículo guardo o meu corpo embalsamado pelo tempo,

Sinto o abraço das palavras tristes quando as lágrimas da paixão brotam do sorriso sol,

Sento-me no teu colo, beijos incandescentes nos teus lábios em flor…

Me resigno enquanto me é permitido,

Fujo de ti, escondo-me numa esquina de luz em ciúme,

E tenho na mão direita o fogo do teu peito,

A morte vem, oiço-a na montanha branca onde habitam os teus braços cansados,

E sei que as palavras choram, por ti, por mim, meu amor…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15 de Agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

O silêncio dos mortos


Tenho medo da tua imensidão,

Da fúria das tuas mãos quando o vento se agacha no chão…

E pede perdão,

 

Pára,

Escuta o silêncio dos mortos, e dos sonâmbulos abandonados,

Ergue-te e cresce na floresta dos vivos,

Enquanto a cidade se prostitui nos horários nocturnos da madrugada,

Pára,

Escuta o silêncio dos mortos, e dos pássaros envenenados,

E da paixão,

A húmida terra lapidar do desassossego…

 

E crava no peito uma canção,

Abraça o coração…

 

Das falésias adormecidas.

 

Tenho medo da tua imensidão, e dos acrílicos desenhos desgraçados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 13 de Agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

Palavras sós


Palavras!

Enigmas suspensos na madrugada,

O farol avariado, os barcos cerram os olhos, e escondem-se na neblina,

Palavras a arder,

Palavras escritas no fogo da paixão,

Quando a saudade morre devagarinho…

Os poemas despem-se das palavras,

Os livros adormecem sem os poemas,

E o papel amarrotado da tua pele… sedução encantada,

Palavras!

Tristes versos abraçados a tristes noites de Verão,

Sentidos pêsames, a partida para o outro lado do Universo,

E as estrelas amarguradas em fuga para o Infinito,

Verbo,

Os latidos desorganizados dos teus gemidos… quando o rio se suicida nos rochedos,

Em transe,

A ausência delas quando eu sentado espero pela alegria,

Ressequida,

Mortas todas,

As pedras que te atiro…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12 de Agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Calçada imaginária (Ajuda)


Se o mar entrasse pela janela e me levasse…!

 

Fim de tarde,

Começa a noite das camélias enlouquecidas,

Visto-me de mendigo…

E caminho pela cidade abandonada,

 

Se o amor mata… não o sei!

 

Nunca vi ninguém morrer por causa do amor,

É uma treta a saudade dos cavalos selvagens,

Quando poisam sobre a calçada imaginária,

 

Se a morte é felicidade… quero ser infeliz!

 

E morrer ao teu lado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11 de Agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sombras de papel


Minha querida Mirian,

 

 

A pureza dos teus lençóis de prata enganando o meu rosto carcomido pelo teu sorriso,

Recordo os teus beijos aprisionados aos meus,

Quando tínhamos a janela aberta e entrava em nós a fragância do Sol que nos abraçava nocturnamente,

Poisavas o teu cabelo nos meus seios suados pela tristeza da tua partida,

Ouvíamos música, entrelaçávamos os dedos como duas crianças num qualquer jardim,

Brincando com pequeninas pedrinhas de sombra,

Sabes, meu amor,

Deixei de ler os teus versos,

Deixei de abraçar as tuas palavras como fazíamos no Inverno, quando abraçávamos o vento regressado das estátuas de luz,

Deixei de pertencer às tuas coxas desenhadas nos círculos de desejo, ao longe a árvore que nos escondia da tempestade,

Deixei de viver, meu amor,

Apenas finjo caminhar sobre a areia molhada da tua pele…

E ambas sabíamos que um dia tudo terminaria… a trágica morte das nossas sombras de papel.

 

Beijos

 

 

 

Viviane

Alijó, 10 de Agosto de 2017

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Uma vida em separado


O Diabo no corpo,

O ressequido esquiço da vaidade suspensa na noite,

A dor emagrecida prisioneira ao esqueleto de vidro,

O mar escalfado e esquecido na escuridão,

Barcos argamassados pela tua mão…

Ao deitar, três drageias e uma colher de xarope,

Um copo de uísque voa entre quatro paredes sem janelas,

Visto-me,

Fujo de casa com um livro na mão,

Nunca mais regressarei,

Serei um fugitivo nato, um homem sem casaco, nu…

Em direcção aos rochedos da morte,

Quero esquecer tudo, mas as tuas mãos recordam-me a dor,

E o sofrido corpo,

Domingo, Segunda-feira cá em casa, uma vida em separado, e mergulhado nos papéis da saudade,

Fujo,

Vou-me separar dos livros e dos pincéis,

Queimar todas as telas…

E sentar-me junto à janela…

E esquecer-te.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 9 de Agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Os beijos da alegria


O que eu quero não o sei,

Sei que nada quero,

Sei que nada tenho,

Querer-te assim, perdida no deserto da seda…

O que eu quero, o que eu não queria,

Ter,

Não sofrer…

O dia,

Cansado de viver,

Sinto em ti as palavras da morte,

Mas a morte é indefinida,

Tímida,

E triste,

Não resiste,

Mas existe,

Na palma da tua mão,

O que eu quero…

Queria…

Sentia na face os beijos da alegria,

Finalmente a noite,

Sentida em pleno dia,

Sofrido,

Como sempre…

Em cada luar teu.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8 de Agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Viagem ao Inferno


Vai até à escuridão dos dias falidos,

Vai, corre enquanto a noite não regressa e te leve…

Vai até ao rio ver as gaivotas,

Os candeeiros devolutos abraçados aos barcos ancorados,

Vai, vai até à maré e finge que está tudo bem,

Está sol,

Tens as minhas palavras na mão…

Vai, vai até à revolta dos meninos que brincam na rua,

E nunca digas que estás triste,

E nunca digas que amanhã não estás cá…

Vai…

Vai e volta quando te apetecer regressar…

Mas nunca digas não.

Vai…

Vai e abraça-me,

Até que a saudade nos separe.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 6 de Agosto de 2017

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Bilhetes de infância


Perguntei ao flamingo se reconhecia a minha voz,

Escrevi-lhe bilhetes de infância sonorizados com nuvens envergonhadas,

Senti nele a tristeza das horas junto ao rio,

Permiti-me abraçá-lo, permiti-me acariciá-lo…

E daí nasceu um poema, palavras dispersas na madrugada por nascer,

Morreram os poemas, morreram as palavras…

Morreram os flamingos amigos do flamingo,

E, e eu fiquei só,

Tão só como as noites de Inverno.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 2 de Agosto de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A janela com vista para o mar


Uma janela com vista para o mar,

O barco da despedida espera-me, e brevemente estarei nos teus braços,

Um livro recheado de imagens a preto-e-branco,

Renasce na tua mão. Posso manuseá-lo, mas perco os desenhos imaginados pelo louco autor das searas imaginárias,

Enquanto o trigo se despede da planície…

 

Eu brinco com o teu olhar escondido na sombra das árvores.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Defuntos cigarros


Pergunto aos defuntos cigarros meus onde está o vazio,

Esta simples forma de viver acorrentado à cidade adormecida,

A doença aproxima-se,

Esconde-se no fumo,

E desaparece na madrugada,

 

O corpo range,

Evapora-se na tridimensional poesia da tarde,

O livro morre,

De tanto viver a saudade,

 

Pergunto-me… porquê?

 

Naves espaciais poisadas no meu quintal,

Homens pequenos,

Fumam cigarros emagrecidos pela geada,

Apetece-me fugir com eles,

Libertar-me destas correntes de aço,

E nunca mais regressar aos teus braços.

 

Defuntos cigarros,

Nas mãos calejadas pela caneta…

 

Palavras enroladas no vento…

 

Palavras mortas na noite.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31 de Julho de 2017

domingo, 30 de julho de 2017

Os barcos da solidão


Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,

Um raio de luz desce e poisa-lhe na mão amachucada pela alvorada,

O silêncio frio da despedida…

Quando o Tejo se esconde na madrugada,

Os barcos da solidão, cansados de esperar pela partida,

Uma casa abandonada, recheada de flores adormecidas,

Canções de amor, palavras esquecidas…

Não mão do escritor,

Sempre tive sonhos,

Viver sobre o mar da esperança,

Levantar bem alto o levante sofrido da escuridão…

Quando criança,

Pegava num pedaço de papel…

E escrevia-te, não percebendo que não existias…

Amanhã nova caminhada,

Amanhã nova estória…

Ensanguentada,

Liberta da memória,

E dos pilares de areia da saudade,

Nos olhos, a penumbra pomba adormecida,

Vive-se vivendo na tentativa de partir…

E nada deixar sobre a mesa… sobre a mesa sofrida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30 de Julho de 2017

sábado, 29 de julho de 2017

Terra sangrenta


Terra sangrenta onde habito,

E vivem comigo as gaivotas do amanhecer,

Terra salgada, repito…

Das palavras de escrever,

Sentindo, os semáforos do silêncio madrugar…

Saltitando de mar em mar,

E chorar,

Terra maldita, e recheada de pragas e gafanhotos,

Meninos marotos,

Que brincam na aldeia,

Leio livros, escrevo nos livros que leio… e à ceia

Levanto os cortinados que me aprisionam ao teu ser,

Terra sangrenta,

Que me alimenta,

E me mata ao nascer do Sol…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29 de Julho de 2017



29-11-1938 / 29-07-2015


sexta-feira, 28 de julho de 2017



Há dois anos, enquanto te despedias da vida, desenhei este quarto. Estava sentado ao teu lado, olhava-te e percebia que ainda respiravas…, hoje, não consigo perceber este desenho nem porque o fiz.

Apenas sentia o teu corpo prisioneiro como um rochedo ao mar… e algumas horas depois, viajaste em direcção ao luar.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Julho / 27-07-2017


Todos morreram…

O pai,

A mãe…

E todos os sonhos da seara longa,

Lá longe uma porta líquida evapora-se

E no centro da casa um poço absorve toda a tristeza,

 

O cansaço também cansa a solidão,

A solidão dos dias,

Das noites…

E de todas as madrugadas.

 

Todos morreram…

 

E a noite levou-a para outro lugar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Esquina de Luz


Regressa o passado,

De longe recebo a última réstia de sombra,

O filme que vivi…

Voltará?

Sem paciência com as palavras,

Sem vontade de sorrir…

Se voltar…, cá estarei firme…

Como sempre…

Como sempre,

Firme e de pedra.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26/07/2017

terça-feira, 25 de julho de 2017

A janela esfomeada


Uma janela esfomeada

Virada para o mar,

O cansado dia prisioneiro na janela virada para o mar,

Uma janela esfomeada

Na luminosidade obscura da cidade,

Entra um barco em soluços,

Embriagado pelo sal,

Uma janela esfomeada

Na sombra das árvores do quintal,

Um pássaro vestido de janela…

Procurando o cortinado do anoitecer,

A prenda,

O segredo de hoje,

Os indignados de ontem…

Com a notícia de hoje,

O prego enferrujado no “CU” de Judas…

Longe de mim,

Perto de ti…

Uma janela esfomeada

Sem coração,

Recheada de beijos,

Abraços…

E o carrasco enforcado na janela esfomeada,

Virada para o mar…

Termina o Sol,

Nasce a noite nos socalcos do cansaço…

E vai-se vivendo ouvindo as tuas palavras vãs…

O anão,

O eterno anão a “cagar” no deserto.

FIM.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Julho de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A fuga


Parto feliz.

Deixo tudo nas tuas mãos, os velhos papeis, os livros… e a minha sombra.

Para onde vou, nada disso necessito…, apenas preciso de paz.

A fuga, depois da alvorada… para além do rio,

Uma caravela com velas de sonho,

Um pedacinho de solidão…

E lá vou eu, eu, feliz…

Parto feliz.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Julho de 2017

domingo, 23 de julho de 2017

O fantasma do fim de tarde


Batem à porta,

Não vou abrir…

Nada espero, ninguém me espera…

Neste fim de tarde junto à janela.

Sentado.

Não me levanto,

Olho o relógio e são dezoito horas,

Tempo necessário para ir à doca e abraçar-me ao barco dos teus braços,

Batem à porta.

O silêncio constrói-se em mim com uma cabana na montanha,

Sinto o mar dentro do meu corpo indefeso,

Quando regressa o pôr-do-sol…

Batem à porta,

Não vou abrir…

Nada espero…

A não ser ficar aqui sentado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Julho de 2017