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12 maio 2024
19 maio 2015
Os teus braços
Os
teus braços aqui ao lado,
Parecem
serpentes esfomeadas
Esperando
as palavras da noite,
Ambos
sabemos que as palavras não regressarão nunca,
Como
nós,
Impossível
regressarmos de onde partimos,
Complicada
Esta
vida de marinheiro sem embarcação,
Complicada
Esta
vida de transeunte sem cidade,
Ou
livro, ou cais…
Para
aportarmos,
Falta-nos
tudo
E
tudo temos,
As
crateras e os peixes,
O
silêncio e a madrugada,
Embriagados
destinos
Com
sabor a nada,
E
os teus braços
Mesmo
aqui ao lado,
Serenos,
Deitados…
Ouvindo
os apitos dos comboios encurvados no Douro,
O
rio
Sofre,
O
rio
Sente
Os
teus braços…
Nos
meus braços
Afogados.
Francisco
Luís Fontinha – Alijó
Terça-feira,
19 de Maio de 2015
30 abril 2014
cigarros do nada
havia em ti pérolas
de naftalina
eu pensava que o mar
era só meu
e o egoísmo
alimentava-me e fazia com que as minhas asas de amanhecer...
ardessem
como o cigarro que
fumo e suspenso na janela com vista para os patamares do Douro
o rio entranhava-se
em pedacinhos de dor
sofrimento
e algumas lágrimas
invisíveis... poucas... voavam como gaivotas sem nome
descubro o amor numa
solitária videira
a paixão numa
triste pedra em granito... perdida na rua
à espera do
silêncio na esquina sem transeuntes
e oiço as palmeiras
com sombras de doirado anoitecer.
Francisco Luís
Fontinha – Alijó
Quarta-feira, 30 de
Abril de 2014
23 setembro 2013
Porta de entrada – cessaram as fechaduras do teu coração de vidro
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foto de: A&M ART and Photos
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há tanto silêncio nos lábios de um
rio
há dor insignificante nos braços de
um drogado
há pétalas cansadas nos guindastes
dos teus olhos
pérfidas madrugadas
poemas e velhas canções
há janelas de onde nada consegue
sobreviver como as ratazanas de esgoto
escadas sem corrimão de acesso ao
sótão da insónia
há poetas e aprendizes de poetas
e eu
eu nem uma porta de entrada consigo ser
nem uma simples fechadura consigo abrir
e este coração é louco entre
palavras e sensações
memórias
histórias
canções perdidas nos teus seios de
capim...
há tanto silêncio nos lábios de um
rio
que sinto medo de morrer
partir
morrer e não saber como são os
socalcos depois de a chuva cair
partir
sem o saber
livremente voando sobre ti em desenhos
quadrados de um colorido beijo
há tanto silêncio
sobre o caixão invisível que embrulha
a minha paixão de esferovite...
(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013
18 setembro 2013
“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”
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|
foto de: A&M ART and Photos
|
Poderia perceber a tua ausência, e mesmo assim,
acredito nas planícies do teu olhar mergulhado em espuma e corações
amarrotados, que vivem, que fingem viver dentro de algibeiras com
janelas de porcelana, opacas, tristes muralhas para que me seja
proibido
Olhares-me,
Habito num castelo sem escadas, muros, flechas com
ponta de aço, e nem gaivotas me visitam, amo e sei que sou amada,
choro e percebo que sou chorada, desejo e sei que sou desejada, e das
tristes muralhas para que me seja proibido sonhar, oiço as tuas
palavras contra os cortinados de vento, rodopiando em redor do meu
corpo, suspenso, levitando como uma espada de aço no peito de um
soldado,
Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e
perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália
plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu
Deixas-te de existir, vives não sabendo viver,
comes, bebes, e esperas o regresso do mar que nunca ninguém nos
garantiu que existia, que ninguém dos nossos presente garante ter
visto, e no entanto, esperamos, temos esperança que desçam das
sílabas mórbidas das flores comestíveis...
Olhares-me
Apareçam os tão desejados muros com alicerces de
prata, o xisto revestido e desenhado como se de um vestido se
tratasse, e os pássaros, esses imbecis... comem às mãos das
costureiras que travestem agulhas e dedais antes de cair a noite
Sobre mim?
Olhar-te... cansa-me!
Beijares-me?
“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar
a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto
De mim?
Não, não... chegava-me apenas a tua sombras
disforme, envenenada pelos espelhos das montanhas adormecidas, na
tela misturam-se cores abstractas, imagens fotográficas voam sobre
um velho rio com cabelo branco, um planeta poderia chamar-se de “Uva
Moscatel” e o meu próximo negócio vai ser precisamente vender
lotes de terreno na Lua, assim
De mim?
Ou então
Melhor ainda,
Melhor de que lotes de terreno na Lua? Não, Não
consigo deslumbrar...
Podias vender garrafas com o ar de Trás-os-montes,
Melhor ainda,
Podias vender garrafas com o ar do Douro Vinhateiro,
“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar
a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto
De mim?
De ti e das tintas acrílicas para preencher as
imagens a preto-e-branco das fotografias que suicidam árvores antes
de cair a noite e de se evaporar a tarde, na Feira da Ladra?
Saem três garrafas de ar de “Trás-os-Montes”,
Com certeza, minha adorada senhora, é para já...
deseja factura?
Não?
Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e
perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália
plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu,
olhares-me e entenderes que sou, fui, e serei
Esquelético?
Não, não minha querida,
Às vezes sinto-me uma mesa de uma sala de jantar, à
minha volta, imensos parvalhões sentados em cadeiras forradas a pele
de crocodilo, apetecia-me prender-lhes as pernas com uma corda e
atirá-los pela janela, ouvia-os caírem sobre os rochedos da
madrugada, partia-se uma das garrafas com ar do “Douro Vinhateiro”
e
Quanto custa?
São vinte e cinco euros, vinte e cinco
deslumbrantes euros, e se o desejarem
Autografadas?
Claro, não problema...
“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar
a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto
De mim?
De ti?
Claro, não problema...
(Ficção – Não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013
Labels:
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Texto,
Uvas Moscatel,
vinho do porto
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5070 Alijó, Portugal
28 julho 2013
Não estou em casa, hoje...
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foto de: A&M ART and Photos
|
Esquilos, nozes em vozes, mamilos denegridos,
absortos, lábios lânguidos, corpos absolutamente sós, como eles, e
como nós, os vizinhos quando lhe batiam à porta em maciça madeira,
ele, ainda embriagado pela poesia não escrita, escondia-se,
fazia-se... morria, não percebendo depois, que tudo era a fingir,
acordava, voltava a dormir, deixou de sorrir, deixou de viver, não
queria passear-se pelas cansadas margens de um doente rio, vivia-se,
e ia-se vivendo, não sabendo, nunca, o horário penumbro das
amendoeiras em flor,
Descia-se,
Subia-se,
E chorava-se,
Esquilos vaidosos roendo nozes de brincar, fantasia,
histórias ao almoçar, sobre uma pequena mesa, de pedra, no quintal,
uma árvore e um pássaro, preto, bico amarelo,
Melro?
Melro, talvez, porque não?
Inchados, os pilares de areia que seguram as amarras
das tristes varandas com murchas flores, ao longe, a praia, o
silêncio, o corredio de machimbombos vomitando sonhos adormecidos
entre o Baleizão e o Mussulo, batiam-me à maciça madeira porta,
eu, eu escondia-me, ou simplesmente berrava
Não estou em casa, hoje,
E eles, elas, acreditavam..., tão parvos, e
continuava fingindo dormir, quando na verdade, eu, eu estava morto,
desde criança, morri, recordo-me vagamente, tinha alguns poucos, não
muitos, seis anos de vida, lembro-me como se fosse hoje, era
Setembro, brevemente começavam as vindimas
O que são vindimas, pai?
É o apanhar das uvas...
Uvas, o que vão uvas, pai?
Não percebia que as videiras
Pai, sim filho, o que são videiras?
Não percebia que as videiras davam uvas, que
existiam cachos, e lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, quase,
quase começavam as vindimas, e lembro-me, morri, depois,
embrulharam-me num lençol de água salgada, permaneci assim cerca de
vinte e oito dias, era Outubro, caiam as folhas das árvores, e eu,
eu perguntava-me porque caiam as folhas das árvores,
O que são vindimas, pai?
É o apanhar das uvas...
Uvas, o que vão uvas, pai?
Não percebia que as videiras
Pai, sim filho, o que são videiras?
E pela primeira e última vez, eu, eu tive vergonha
de perguntar ao meu pai
Pai, porque caem as folhas das árvores?
Eu tive vergonha de perguntar ao meu pai se esta
terra era para sempre ou apenas para eu brincar, e começaram as
chuvas, e o frio, a geada e a neve, e eu, eu morto, fui ficando, fui
ficando... embrulhado num lençol de água salgada.
(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
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14 julho 2013
Sítios com sabor a ardósia da tarde
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foto de: A&M ART and Photos
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Um pouco de silêncio não faz mal a ninguém,
segredavas-me quando nos sentávamos sobre a pedra de xisto junto ao
rio, e ficávamos, apenas sós, e olhávamos um para o outro,
inventávamos desenhos, porque são mais belos que as palavras, e
assim, apenas nós, permanecíamos um em frente ao outro, de olhos
verdes para olhos castanhos, sem palavras, sem cortinados de fumo,
sem geometria descritiva, que às vezes, poucas, utilizávamos para
transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o
eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo,
percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a
montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos
tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para
o Porto..., e adormecíamos como duas crianças no colo da inocência,
não percebi que chorasses, e sabia que a tua tristeza era real,
estava viva dentro de ti, eras como uma seara de trigo suspensa no
vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, a ninguém como
éramos espelhos côncavos dos jardins de Belém, ouvíamos o assobio
do rio em todos os finais de tarde, hoje, o mesmo silêncio, o mesmo
decalque do último final de tarde, o cheiro do teu corpo que sobejou
e permanece intacto nos arbustos perto do rio, e recordamos os sítios
com sabor a ardósia da tarde, a nossa tarde
Choviam-nos sílabas recheadas com marinheiros
embriagados, dizias que amavas todos os peixes, percebi por não ser
eu um peixe... que não me amavas,
Tu és diferente,
Porquê, perguntava-te,
Respondias-me que adormecíamos como duas crianças
no colo da inocência, não percebi que chorasses, e sabia que a tua
tristeza era real, estava viva dentro de ti, eras como uma seara de
trigo suspensa no vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, e
corações enublados avançavam pelas trincheiras do desejo, gemias
quando lias os poemas de AL Berto, como se estivesses a ser penetrada
por um vulcão de pétalas pintadas de encarnado,
Eu que era diferente,
Porquê?
AL Berto, sorria-nos enquanto inventávamos posições
sobre o colchão manchado de tinta permanente de uma velha caneta de
sexo,
Havia em nós,
O quê?
Havia em nós sítios de areias brancas, palmeiras,
ao longe, machimbombos rosnavam quando o avô Domingos com um cordel
os puxava pelas ruas, depois chegava a casa, cansado, abraçava-me e
tombava sobre a cama, como um sonâmbulo depois de passear-se pelos
rochosos sexos de sal que era cuspido pelo mar do Mussulo até que
uma criança, ele, em pequenas rotações, cambaleava e experimentava
o estado de embriaguez de algumas plantas, flores, pedras...
Que às vezes, poucas, utilizávamos para
transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o
eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo,
percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a
montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos
tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para
o Porto..., e adormecíamos nos braços da tarde, éramos loucos,
diziam-nos..., loucos porque amávamos os corpos nus que dormiam
dentro dce nós,
Porquê?
O quê? Gemias quando lias os poemas de AL Berto,
como se estivesses a ser penetrada por um vulcão de pétalas
pintadas de encarnado,
Eu que era diferente,
Porquê?
(ficção não revisto)
@Francisco Luís Fontinha
28 junho 2013
Um rio encostado aos seios desnudos da montanha
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foto: A&M ART and Photos
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Nada me apetece, nada me interessa, o sono chora
dentro de mim como um rio encostado aos seios desnudos da montanha
com corpo de socalco, uns míseros carris de aço contornam a barriga
de pele lisa e perfumada, as videiras conversam com as mãos de xisto
de homens e mulheres, alguns, filhos da montanha, herdaram-na dos
avós, passaram a pertencer aos pais e dos filhos pertencerão, um
dia, e se esse dia chegar, um comboio desgovernado roçará o sexo na
água morna e serena do Douro antes do pôr-do-sol,
Nada me interessa, dizes tu, desiludido com as
nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as
cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se
sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver
sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e
sempre
O calendário
E sempre a olhar os dias preenchidos com pequenas
cruzes, depois de terminarem, novas cruzes, novos círculos, até que
a noite seja noite, até que o dia morra dentro da garganta do mar,
O calendário submete-se aos critérios do crocodilo
com dentes de marfim, tão velho, tão velho que se perdeu na idade,
tão velho que nem o próprio luar se recorda do seu nascimento, e
sempre, sempre pronto a resmungar com as letras de caligrafia antiga
que vivem nas fotografias do álbum que trouxemos de Angola, e tão
velho, tão velho como as lágrimas do amor...
Nada me apetece, oiço o grito desesperado do
finalmente só, oiço a alegria das tardes antes de terminarem, mesmo
antes da menina Andreia acender todas as luzes do silêncio, a
musicalidade, a poesia, o reviver de sonhos esquecidos num fita de
dezasseis milímetros, imagens, vultos passeando-se junto a umas
pedras de nome
Albertina, Joana e Joaquina,
Três lindas flores, três belas montanhas,
encalhadas entre um rio louco e um par de carris envelhecidos,
encurvados, às vezes chorando porque as dores são intensas, as
dores do cansaço, as dores da desilusão, as dores da vida quando
deixou de existir vida nesta terra, as dores da solidão, quando
entre multidões
Estamos sós, diz-me ela antes de baixar o estore e
desligar o interruptor dos queixumes, das dores quando as dores não
são físicas, quando as dores são dores, inventadas pelas noites
intermináveis, pelas noites doentes com dores não dores
Albertina, Joana e Joaquina,
Três meninas, três sonhos, três jardins com três
lagos, e onde brincam... três patos,
Quando entre multidões os esqueletos vadios
confundem-se com as dores de não dores, quando entre multidões os
dentes de marfim dele, deixam de lhe pertencer, quando os pássaros
que voam dentro da cidade, cai a noite e todos eles, sem excepção,
entram casa adentro, poisam sobre os arbustos que vivem na sala de
jantar, um dia, tão velho, que me esqueci dele no velho calendário,
um dia pareceu-me ouvir-lhe algumas palavras, poucas, escrevia-as tal
como as ouvi, e ainda hoje, depois de muitos anos, tão velho,
coitado, pergunto-me
Porquê?
Albertina, Joana e Joaquina,
Três patos, três pontes, e três barcos, tão...
tão velhos como o teu corpo de seda
Pergunto-me,
Tão velhos como o teu corpo de seda, tão velhos
como nós, e se te perguntar – Quem somos nós? - percebes que não
somos ninguém, percebes que não somos papel, percebes que não
somos palavras, percebes que não somos dias, noites, desilusões ou
sonhos, percebes...
Que não somos nada,
Pergunto-te
Porquê?
E
Albertina, Joana e Joaquina, tão velhas, também
elas, tal como nós... não o sabem, ou não querem falar,
Porque ainda existem palmeiras no largo em paralelos
graníticos do tempo em que sabíamos quem éramos, sonhos, percebes?
E
Albertina cerrou os olhos como o fizeram todas as
pálpebras da cidade esquecida no centro da montanha,
“nada me interessa, dizes tu, desiludido com as
nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as
cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se
sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver
sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e
sempre
O calendário”,
No centro da montanha em púbis de cereja.
(e o calendário arde encostado à parede das tuas
coxas de areia)
(ficção não revisto)
@Francisco Luís Fontinha
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16 janeiro 2013
Histórias de açúcar
( )
Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem
rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho,
falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono
e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos
com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras
poeticamente afáveis, belas, nuas
Nas horas de sentido único de uma rua sem saída,
ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos
olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua
Doce tua,
Inventava-te histórias
Não verdadeiras,
Histórias de crianças que nasceram em Luanda,
histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de
papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do
silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de
tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros
da paixão
(e confesso que detesto conversar e inventar
histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das
ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das
cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e
confesso, que detesto)
Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão
(e confesso)
Que detesto os lábios, a boca, os olhos
(e confesso)
Que todas as histórias que te inventei não
verdadeiras, falsas, que detesto
(e confesso)
Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como
choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino
tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e
entranhava-se no Douro, e chorei
(e confesso)
A primeira vez que vi socalcos.
(texto de ficção não revisto)
@Francisco Luís Fontinha
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05 abril 2012
Menino sem tino
Desejo-me de barco em barco
De rocha em rocha
Desejo-me sobre a copa de uma árvore
Onde me prende uma mesa de madeira
Sobre a mesa de madeira caldo de cebola
E trigo de Favaios
Desejo-me dentro do Porto
Vinho que dá vida
Que do porto nada tem
E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres
De rocha em rocha
De barco em barco
Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida
E dispo-me sobre a mesa de um bar
(já o fiz
E voltarei a fazê-lo)
Alguns de vós dizem
Coitadinho do louco
Que fumou de tudo um pouco
Coitadinho
Desempregado
Desamado
Desgraçadinho
Desejo-me sobre a copa de uma árvore
De rocha em rocha
De calhau em calhau
Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas
Que dançam sobre a mesa de um bar
Sem lareira sem literatura
Apenas um bar com muitas gajas
E um copo de silêncio sobre o balcão
Coitadinho
Do menino
Sem tino.
De rocha em rocha
Desejo-me sobre a copa de uma árvore
Onde me prende uma mesa de madeira
Sobre a mesa de madeira caldo de cebola
E trigo de Favaios
Desejo-me dentro do Porto
Vinho que dá vida
Que do porto nada tem
E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres
De rocha em rocha
De barco em barco
Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida
E dispo-me sobre a mesa de um bar
(já o fiz
E voltarei a fazê-lo)
Alguns de vós dizem
Coitadinho do louco
Que fumou de tudo um pouco
Coitadinho
Desempregado
Desamado
Desgraçadinho
Desejo-me sobre a copa de uma árvore
De rocha em rocha
De calhau em calhau
Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas
Que dançam sobre a mesa de um bar
Sem lareira sem literatura
Apenas um bar com muitas gajas
E um copo de silêncio sobre o balcão
Coitadinho
Do menino
Sem tino.
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