05 março 2026
04 dezembro 2024
Sôbolos Rios que Vão (título do livro de A. L. Antunes)
Sôbolos rios que vão, só pedra infinita
na mão, e a água faminta quase sombra e
quase canção
na madrugada palma sincera e destemida
de uma equação.
Gente que sofre e palmilha o amanhecer,
gente a fim
do tecto sanzala de uma lágrima de
escrever, quase palavra quase jardim,
quase, quase que morrer.
Sôbolos rios que vão, são
construções nocturnas na planície sonhar
de um sorriso, se a solidão viver, que traga dentro de si o olhar de uma mulher
ou a flor do teu cabelo…
22 outubro 2022
Instantes num quarto de vento
Meu querido,
Não sei como serias hoje,
tão pouco se gostavas de Proust, e se mergulhaste “Em Busca do Tempo Perdido”
ou “À sombra das Raparigas em Flor”, não sei, se tal como eu, enquanto a noite
desce sobre mim, pensas como seria adormecer no colo de AL Berto ou estares uma
tarde inteira a fumar cigarros com o Lobo Antunes ou como seria o rosto do
Pacheco enquanto esgalhava uma.
Não sei, nem quero saber.
Também não espero pedir-te perdão, porque o que está feito está feito e, se
tivesse de pedir perdão a alguém, pedia-o certamente a mim, evidentemente.
Cansei-me muito, foram
noites intermináveis e sem dormir, foram noites de ti enquanto eu pensava em
mim, e quando percebi que jamais voltaria a ver os pássaros em pequenos voos de
miséria, eis que esses mesmos pássaros voltaram para me atormentar e invadir
novamente as minhas noites; não, meu querido, tu não tens culpa que as nuvens
tenham regressado novamente.
Não sei o que pensaria
Albertine de tudo isto, mas certamente pensaria o mesmo que eu, isto é, não
pensava; talvez um dia percebas porque morreram os jardins da minha vida.
Naquela altura, meu
querido, desconhecia o poder do fogo, porque a lareira onde me abrigava
pertencia às manhãs submersas dos encalhados campos de milho de Carvalhais, e
se pudesse estar sentado naquela pedra cinzenta, e se pudesse enquanto sentado
fumar os meus últimos cigarros da tarde, e se pudesse olhar o Pacheco a esgalhar
uma, à porta de uma qualquer casa de banho de um qualquer bar, acredita meu
querido, fazia-o, mas não o posso fazer.
E como já te disse
anteriormente, sim, cansei-me muito. Sim, chorei imenso. E sim, fui energúmeno
para ti.
Mas… meu querido, como
seria a madrugada se o vento tivesse morrido naquela noite fatídica em que
voaste para o infinito; e talvez um dia, e talvez agora, te diga que foi melhor
o vento não morrer.
Enquanto converso com a
Adelina ou com a Maria Clara, percebo que fui um sacana para ti, mas depois regressam
a mim as lágrimas infindáveis das três tristes serpentes sem cabeça, e quando
converso com a Albertine penso como seriam os teus olhos; possivelmente iguais
aos meus.
Mas os teus olhos um dia
pertencerão às flores em cadáver que brincam no meu jardim, e pensando melhor,
também não quero saber dos teus olhos, nem a cor dos mesmos.
Sabes Swann, tanta gente
a quem tinha de pedir perdão, mas o tempo escoa-se pelas frestas da noite, e
quando percebo que tenho sobre o corpo a espada da tristeza, oiço as vozes
alegres dos monstros das noites em que te sentavas no meu colo enquanto te lia
um poema de AL Berto, e do 14 de Janeiro, hoje, apenas tenho saudade de quando
o mar entrava pela janela, e tu, sonhavas com as marés de silêncio que caiam
sobre a mesa da sala de jantar.
Na algibeira levávamos os
pregos sem cabeça, sem braços, apenas um corpo mortificado e doente, depois, tínhamos
as Pachecadas que alimentavam as nossas tardes depois de voarmos sobre uma cama
de nódoas num qualquer segundo andar, num qualquer quarto, de uma qualquer
cidade.
E sabes, Albertine, depois
da morte apenas ficam as fotografias.
Mas tu não percebes,
claro que nunca vais perceber porque o fizeram; acredita que nem eu percebo
porque não mataram o vento naquela triste madrugada.
Pertenço-te e não te peço
perdão, de qualquer forma, o vento ainda ronda pelos campos de milho de
Carvalhais.
E depois de levar o
almoço à tia Adosinda, ela carinhosamente, dava-me dois e quinhentos ou cinco
escudos, descia a rua, estacionava no Sr. Grifo e mergulhava nas carteiras de
cromos ou nos chocolates.
A tarde separa-se das
tuas mãos e da janela ouvem-se as crianças em pequenas brincadeiras, sobre o
meu peito, poisas a cabeça, e num ápice, tal como o vento que não morreu
naquela madrugada, percebemos que somos instantes, instantes num quarto de
vento.
E não, não te peço
perdão.
Nunca te vou pedir
perdão.
Alijó, 22/10/2022
Francisco Luís Fontinha
(ficção)
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A roulotte inclinada
04 fevereiro 2012
Cacilheiros e gaivotas com cio
Enfeitada de mendigos e miseráveis
E vejo-me sentado junto ao rio
A contar cacilheiros e gaivotas com cio
Também eu mendigo
Sem cio
Miserável diplomado
Escondido nos jardins de Belém
Subo a calçada e desapareço entre os paralelepípedos da miséria
E de um livro do António (Lobo Antunes)
As recordações de Luanda entram-me pela janela da infância
E apalmo as mangueiras e apalpo o mar
E as minhas pernas fraquejam dentro da cidade
E os meus braços enfeitados de mendigos e miseráveis…
Desce a noite sobre a Ajuda
E um mangala sorri aos orgasmos das árvores



