finalmente, eu consegui.
eu vi a luz!
Sou traço na tua face
Sou o círculo
O quadrado
Sou geometria descritiva
Equação desmiolada
Cansada,
Sou a lágrima,
E não sou nada.
Sou o sorriso de luz na
tua face
Sou o silêncio disfarçado
de alegria
Sou o teu poema-mar
Sou a tua poesia
A cada dia
Sou a lágrima de luz,
Nos lábios do luar.
Sou traço na tua face
Sou o círculo de luz com
olhos verdes
Sou o vento
Sou a melodia
Da vida em cada vida
Da minha pouco ou coisa
alguma,
Sou a lágrima de luz,
Na luz do dia.
02/11/2023
Silêncio
Tuas mãos em meu rosto
Tuas mãos abraçadas ao
meu coração
Teus lábios de Agosto
Quando o mar se veste de
canção,
Silêncio
Quando o mar é a luz do
meu amanhecer
E dos teus olhos recebo a
manhã em despedida
Que não se cansa de crescer
Que não tem medo da
partida,
Silêncio
Tuas mãos em meu rosto
Teu sorriso embriagado em
maré diáfana
Meu silêncio desgosto
De ver partir a manhã
profana.
26/10/2023
Flor em tua luz
Cintilante madrugada de
viver
Sempre ausente
Contente
Que mente
O pobre do poeta,
Das manhãs de Inverno
Sempre ausente
O mar da tua mão
Em tua mão sempre ausente
Contente
Sem ninguém o poeta sem
ninguém,
Flor em tua luz
Da luz miserável das
árvores do meu jardim
Nuvem cinzenta
Das tempestades
Nas tempestades
Do inimigo luar,
Flor de luz
Em teu cabelo ausente
Em mim também ausente
Entre quatro paredes
Junto ao mar
Dos lábios de mel
Teus olhos de mar.
01/08/2023
A tarde morre nos teus olhos
Depois de uma sombra de
luz
Roubar o pôr-do-sol
A tarde desaparece
Veste-se de noite
E leva para o mar
Os teus lábios de
Caravela Quinhentista.
O homem está louco
Está maluco
Que a tarde nunca morre
Tão pouco se esconde
Nos teus olhos.
Que sim.
Que não.
Que talvez seja um empate
técnico
Ou outra coisa qualquer
De preferência
Nos teus olhos.
A tarde morre nos teus
olhos
Depois de uma sombra de
luz
Roubar o pôr-do-sol
A tarde desaparece
Veste-se de noite
E leva para o mar
Os teus lábios de
Caravela Quinhentista.
E nunca mais haverá tarde
Nos teus olhos!
23/07/2023
Francisco
Neste pedacinho de luz
Que às vezes se esconde
Se esconde no teu olhar…
Que às vezes brinca
E alimenta o meu olhar…
Neste pedacinho de luz
Onde escrevo o teu nome…
Vêm a mim
(Quando cai a noite sobre
a sombra das minhas mãos…)
Vêm a mim
Todas as estrelas do
silêncio.
Neste pedacinho de luz
Que é ausente
Que é carente
Que ainda não tem nome…
Neste pedacinho de luz
Escondo o teu olhar…
E a paixão em fome.
Neste pedacinho de luz
Deste pequenino pedacinho
de luz
Que sofre quando a
madrugada se abraça à insónia
Quando a insónia me
abraça
E me beija
Neste pedacinho de luz
Ao cair da tarde
Junto ao rio…
A este pequenino
pedacinho de rio…
Que tem nome
Que ama
Que deseja…
E apenas o conheço…
Como o rio luz.
Francisco Luís Fontinha
14/06/2023
O corpo
O corpo é apenas um
silêncio
Um segundo-luz
O corpo
É uma imagem
Não consensual
Para uns e tal
Para outros
Nada mal
O corpo
O corpo é uma fachada
Por vezes
Por vezes com estrutura
defeituosa
Assim-assim
E o corpo não passa de um
silêncio
Um pequeno silêncio
Se eu quero conversar
sobre Dostoievski…
Não
Não pergunto ao corpo
Se ele quer conversar
comigo sobre Dostoievski
E claro que o corpo nada
sabe de Dostoievski
(mas acha-se de engraçadinho,
às vezes)
O corpo
O corpo…
(é evidente que o poeta
fala do seu corpo)
O corpo é um pedacinho de
luz
Nos lábios do silêncio
O corpo não fala
O corpo escreve
E masturba-se
O poeta escreve
E o corpo…
É apenas um corpo
Um milímetro quadrado com
massa de um grama…
À velocidade do desejo
O corpo corre
Na luz do silêncio
Tomba
Chora
Grita
O corpo morre
No silêncio que se move
Em círculos de luz
Em quadrados de saudade
O corpo vomita lágrimas de
insónia
E um quintal (unidade de
massa aprox. = 46 Kg) de estupidez
Depois o rio levou os
caixotes
Pouca coisa
Algumas miudezas
E corpos
Corpo de medo
embalsamados…
O corpo
O corpo é apenas um
silêncio
Um segundo-luz
Um abraço desenhado pelo
vento…
O corpo
O corpo é uma jangada
Onde se deita a madrugada
O corpo é tudo…
O corpo
Às vezes
Não é nada.
Francisco
28/05/2023
Do teu corpo
Que abraço
No teu corpo onde escrevo
o sorriso da manhã
E desenho o gemido da
noite
Do teu corpo
Que abraço
No teu corpo
Que beijo
Do corpo
Que enlaço
Em desejo
Neste quarto.
Do teu corpo
Que abraço
Que beijo
E enlaço
No meu corpo
No teu corpo
O desejo
O abraço.
Do teu corpo
Que abraço
No teu corpo onde me
deito
Nesse corpo
Das palavras
Dos desenhos
E dos beijos
Do teu corpo
Esse corpo
Nesse corpo que beijo
O do abraço
O silêncio
Em palavras
Em pequenos gestos…
De pequenos beijos.
Do teu corpo
Que abraço
No teu corpo me endireito
Do teu corpo
O uivo louco da tarde
Do teu corpo
Entre palavras
Entre corpos de luz
Me deito
Me abraço
E beijo
O teu corpo
Do corpo
Do corpo que me seduz.
Do teu corpo
O meu corpo
Enrolado em milhões de estrelas
No meu corpo
Deitadas
Quietinhas…
Quando o teu corpo
No meu corpo
Ferve.
Do teu corpo
O abraço
Quando o teu corpo
No meu braço
Voa
Voa para dentro de mim.
E do teu corpo
O meu corpo
Dois pontos de luz
Duas pequenas esferas de polietileno
Que dançam na noite
Que fervem
Que fervem como os nossos
corpos
E dizem que são felizes
Muito felizes.
Francisco
27/05/2023
Vou abrir todas as cancelas da noite
As visíveis e as
invisíveis
Acendo o luar
E ligo a telefonia
Vou à janela
Abro-a
Puxo de um cigarro
Acendo-o
Estendo o braço
Abro a mão e pego o
primeiro pingo de chuva
Fecho a mão
Encosto-a ao peito
Depois
Beijo o primeiro pingo de
chuva
E chamo o mar
Enquanto o mar não vem a
mim
Sento-me e espero
E o mar começa a entrar no
meu corpo como um rio selvagem
Abraço-o cuidadosamente
para não o magoar
E segredo-lhe baixinho ao
ouvido
- Vem a mim
Depois vieram os barcos
E todos os peixes
E os barcos trouxeram as
nuvens
E os peixes trouxeram a
alegria
E as nuvens trouxeram as
estrelas
Ao fundo da rua
Um transeunte
Olha-me
Eu olho-o
Eu ignoro-o
Depois
Ele ignora-me
Entre nós
Nem palavras
Nem das palavras
Apenas as sombras das
palavras
Vem a mim
Traz as lanternas que
alimentam o sono
E ensina-me a desenhar círculos
de luz
Nas janelas da alvorada
E imagina quantos
silêncios de pedra
Tem esta alvorada
Abre os olhos e planta as
flores no meu peito
Depois
Traz as enxadas com que
vamos capinar
Todo o capim das planícies
Onde às vezes
Deitas a cabeça e
soletras o meu nome
Pego nos círculos de luz
que me ensinaste a desenhar
E coloco-os nas vidraças
da janela
Escrevo o teu nome
E o teu nome
Cresce na lareira
Enquanto o primeiro pingo
de chuva começa a voar
E condenado que está
Fica prisioneiro do teu
olhar.
Alijó, 07/12/2022
Francisco Luís Fontinha
Trazias-me o sono envenenado
Que a noite lançava nas
pequenas esquinas de luz
E não sabias que dentro
de mim
Uma radiografia de
insónia
Gritava na madrugada
Depois
Abria a janela onde podia
ver as lágrimas do poema
E percebia que dos teus
olhos
Uma mão invisível me
tocava
Como tocam as flores nas
rugas do sol
Pegava nas pedras
ausentes que a calçada
Me atirava
Pegava nas palavras que
da tua mão se erguiam
Sobre o meu corpo
Em putrefacção nos
libertados ossos do mar
E a morte já me pertencia
O medo
Quando as lâminas do
desejo
Se abraçam aos meus
braços em suicídio
Quando um pequeno barco
zarpa dos teus lábios
Trazias-me o sono
O derradeiro veneno que
lanças nas águas envergonhadas
E das tristes paredes da
cidade em combustão
Um espelho suspenso na manhã
Cortava-me a cabeça e
vinha a mim o medo do regresso
Alijó, 13/11/2022
Francisco Luís Fontinha
Pegava-te na mão
E voava sobre as
sombreadas sombras das velhas mangueiras,
Pegava-te na mão
E escrevia nos teus olhos
O poema madrugada,
Enquanto o meu pai,
Também ele,
Me pegava na mão,
Os três,
Em pedacinhos de silêncio,
Corríamos como loucos
Em busca do mar
E dos barcos em papel,
Pegava-te não,
Pegavas-me na mão
Sem perceberes que um dia
Pertencerias às
fotografias a preto e branco
Que brincam sobre a minha
secretária,
Pego num livro
E imagino-te sentado no
jardim
A semear cigarros,
Pegava-te na mão
E abraçava-te e tu
abraçavas-me
E ele abraçava-me,
Como hoje me abraça
enquanto durmo dentro deste sonho.
Alijó, 3/11/2022
Francisco Luís Fontinha
Bebo
Fumo as tuas palavras
Desenho círculos de luz
Nas janelas do teu olhar
E abraço-te
Fumo
Bebo as tuas silenciadas
palavras
E sento-me dentro do teu
peito
Oiço as flores
Que tens nos teus lábios
sonâmbulos
Fumo
Bebo
E canso-me de olhar as
horas neste velho relógio
Em ruínas
Encharcado de água
Fumo e bebo
Alimento-me do mar
Enquanto todos os peixes
voam
E fumam
E bebem
Depois
Fico confuso
Já não sei se bebo as
tuas palavras
Ou se fumo as tuas lágrimas
Ou se ambas
Enquanto os cortinados destas
frestas
Encantam-se com as
sombras daquele rio
Daquele mar em rebuliço
Onde se escondem os meus
barcos
Onde fingem os meus
livros
Fumo
Bebo as tuas palavras
Beijo-te e imagino o
paquete amar
A entrar no meu peito
Fico imóvel
Em silêncio
Como vivem em silêncio
As nuvens da minha
infância
Bebo
Fumo as tuas lágrimas
Penso nas palavras do teu
cigarro
Pergunto-me se realmente
tive infância
Ou se estar vivo
É fumar as tuas palavras
Ou beber as tuas lágrimas
E um vazio de luz
Poisa nos meus ombros
E fumo
E bebo as tuas lágrimas
em palavras
E canto
Fumo
Bebo a tua voz de
amendoeira em flor
Que habita nas ausentadas
noites
Onde me esqueço
E cambei-o o meu corpo
Fumo
Bebo os teus beijos
Pegos nos teus cigarros
E olho as pobres marés de
Outono
Fumo bebo e quando me
abraças percebo que acordaste como acordam as acácias (nuas)
Alijó, 28/10/2022
Francisco Luís Fontinha