Faleceu aos 89 anos, Vera
Kundera, viúva de Milan Kundera.
15 setembro 2024
12 julho 2023
Milan Kundera, até sempre…
Foi através do
meu grande amigo Luís Grifo que na minha juventude comecei a ler Milan Kundera.
Foi uma paixão à
primeira que me acompanhou até hoje.
Fico triste em
saber que Kundera acaba de falecer.
Fica a obra e a
saudade das conversas que tive com amigos sobre Milan Kundera.
03 maio 2023
O poeta dos sonhos
Dormíamos na copa das árvores.
Regressava a noite,
O Alfredo, sonolento,
encostava-se ao interruptor do silêncio…
E segundos depois, acordavam
todas as estrelas.
Meia-dúzia de putas…
Desciam a rua e encostavam-se
a Cais do Sodré,
Regressava o vento lá dos
lados do Tejo,
Depois, descíamos da copa
das árvores,
Desenhávamos um abraço na
doce manhã…
Fumávamos um cigarro,
E nada,
E nada vezes nada,
O zero medo quando os
planetas machos procuram os planetas fêmeas,
Da varanda, a linda
serpente embrulhada nos braços do Alfredo,
E tínhamos medo, e sempre
que olhávamos o Tejo,
Um petroleiro com fome poisava
em nós…
E acabava sempre, mas
sempre, nas algibeiras da insónia.
Dias depois, o Alfredo…
PUM.
Dizem que por desgostos
de amor,
Pegou no revolver…
E zás,
Um tiro nos cornos e
dizem,
Dizem que ganhou um par
de asas,
Asas,
Ou talvez cornos,
Já nem sei…
Passou tanto tempo, meu
amor,
Tanto tempo escondido
dentro daquele pedaço de silêncio,
E há tanto tempo que o
Alfredo deu o tiro nos cornos…
Pedia-lhe perdão,
E ela,
Nada,
Zero vezes zero…
O zero primeiro milagre
dos tristes embondeiros,
Ouvíamos os mabecos
esfomeados em busca de sexo,
Num dos bolsos da gabardine,
O isqueiro,
E no outro…
A pedra e o livro das
mortalhas,
E sabíamos, e sabíamos
que brevemente,
Estávamos nos braços de um
do outro,
Erguia-se da cadeira,
olhava cada livro estacionado na biblioteca…
Depois, depois segredava-me…
Não gosto de ti.
Que se foda, pensava eu,
e pensava bem,
E pensam bem todos
aqueles que pensam.
Porque pensam.
Porque estão bem,
E quando tudo está bem…
Não se muda uma palavra ao
poema.
Eu lia-lhe AL Berto no sorriso
de um pedacinho de sémen,
E ela gostava tanto dos
poemas de AL Berto…
Que eu, rapaz nada
ciumento,
Sentia os meus primeiros
capítulos de ciúme;
Os poemas de AL Berto.
Regressava a noite nos
lábios da coruja,
Ele nunca soube o significado
de ser amado…
Ele nunca soube o
significado de ser desejado…
E, no entanto, ele amava
todos os barcos do oceano,
E, no entanto, ele
morreu, sem que todos os barcos do Oceano soubessem.
Despia-a na lentidão de
Milan Kundera,
Acariciava-lhe os lábios
entre os pequenos destinos de luar,
Começava a escrever no
seu corpo todas as palavras que tinha recolhido durante a noite…
Mas como sempre, ela,
horas depois, evaporava-se e depois de entrar na neblina sobre o Tejo…
Coitado do Alfredo,
Coitado,
Um tiro nos cornos…
E um par de asas em camurça.
Eu desenhava nas frestas
da parede em gesso, junto a um crucifixo,
Todos os seus gemidos,
Todos os seus beijos,
Desenhava nas frestas da
parede em gesso,
A paixão e o amor,
E enquanto fodíamos,
Cada um de nós pertencia
ao sorriso da lua,
Ela dizia que queria ser
bióloga,
Eu…
Quanto a mim,
Nada.
Quero lá eu ser isto e
aquilo ou aqueloutro…
Para que quero eu um
carro com tantos cavalos?
Nem tenho terreno onde os
deixar durante a noite a pastar…
O relógio tinha-se
esquecido de nós,
O marido dela estava de regresso
do outro lado da rua,
E eu,
E eu tinha de apanhar o
cacilheiro para o primeiro beliche que encontrasse,
Corria, corria e pensava
como poderia um dia desenhar nas nuvens a primeira lágrima da manhã,
Mas como sempre, não o consegui;
decididamente não sei desenhar lágrimas,
Não sei o que é uma nuvem…
E o relógio, sorria-me.
Amanhã é sábado, meu
amor.
E depois?
O que me interessa a mim,
A mim,
Se amanhã é sábado,
Se ontem foi quinta-feira…
Ou se daqui a uns dias
será terça-feira,
Se estamos em Janeiro ou
em Outubro…
Ou no Natal.
Mas amanhã é sábado, meu
amor,
Pois,
Pois,
E o Alfredo que se foda,
Pensas que vou deixá-lo sozinho
com uma bala nos cornos?
Amanhã é sábado, meu amor…
Não. Os meus amigos são
os meus amigos. E tive-os bons…
E eu vou começar a
escrever-te cartas.
Olha, cartas de amor,
Com as palavras de um transeunte
das noites de Alcântara…
Terra à vista,
Barcos na algibeira,
O comboio não pegou hoje,
Deve estar constipado,
meu amor,
Só pode estar constipado.
Tantas flores, meu amor,
Tantas flores que
lançámos da janela,
E hoje tratam-nos como
dois viciados da poesia de AL Berto…
Dos jardins de Belém,
Quando da noite…
Regressavam os Mercedes Topo
de Gama,
(CD),
E eu, meu amor,
E eu apontava num pequeno
caderninho…
Todas as matrículas do
sono.
Dias antes de o meu pai
morrer,
Enquanto retirávamos a
documentação para posteriormente entregar à agência funerária…
Eu, acreditas meu amor,
Eu estava lá; eu e a
minha avó Valentina.
Que coisa estranha, meu
amor…
Quantos anos eu andei
dentro daquela carteira.
Quantos anos…
Quantas noites...
Quantos dias e horas e
minutos e segundos e milésimos de segundo…
E eu, meu amor,
E eu nem carteira uso…
E eu, e eu nem um filho tenho
para deixar o seu retracto dentro de uma carteira que não uso,
Que não tenho,
Que nunca tive
E que nunca terei.
Abraçava-te sabendo que
depois de percorreres a ponte…
Te lançarias para o rio.
Mas eu, o covarde de
sempre…
Nada,
Eu, nada.
Deixei-te morrer.
Deixei morrer os teus
poemas e as palavras dos teus poemas…
Hoje, meu amor,
Hoje sou um velho sentado
numa pedra cinzenta,
Fumo os cigarros da
angustia e da puta que os pariu…
Desenho barcos na areia
das tuas coxas…
Escrevo poema no sorriso
dos teus seios…
E sei que um dia,
Qualquer dia,
Dentro do dia,
Depois de ser dia…
Morrerei…
E vão dizer,
Sim, meu amor,
Vão dizer que naquela
pedra cinzenta,
Naquela pedra de ninguém…
Era a pedra onde se
sentava o poeta dos sonhos.
Alijó, 03/05/2023
Francisco Luís Fontinha
23 março 2014
Que estou vivo, que estou vivo sem o saber
27 abril 2012
Sonhos risíveis – Amores impossíveis
amores risíveis (o livro dos amores risíveis, Milan Kundera)
palavras dispersas
no papel achatado pela solidão da manhã
sonhos parvos em cabeças parvas
letras
muitas letras e palavras
coisas sem nexo
sonhos
impossíveis
amores risíveis
sexta-feira sem sol
e chove
e coisas dentro de mim
e coisas...
… sonhos
sexta-feira
sem livros
sem letras
sem palavras
na algibeira
sonhos impossíveis
sem palavras
sem letras
amores risíveis
amantes complexos
em quartos caquécticos
coisas
muitas coisas
muitas coisas suspensas na parede
muitas coisas suspensas na parede da solidão
antes de terminar o dia.



