foto de: A&M ART and Photos
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O pormenor emblemático do corpo composto por luz,
pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece
um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto,
socalcos, montanhas... e nas veias, o rio
O Douro?
O sorriso das madames com plumas desiguais sobre os
ombros sombreados pelas nuvens que a noite constrói depois de todas,
ou apenas uma ou outra, luzes de néon vomitarem as palavras
encravadas nas montras da cidade, oiço-te vaguear como uma gaivota
ferida, doente, oiço-te mergulhar no meu Douro que odeio,
confesso... que sempre odiei, vivi para ser uma cidade, com bares,
ruas e ruelas, travestis, putas, e donzelas... o Douro enerva-me,
desiludiu-me quando o encontrei pela primeira vez... como me
desiludiram algumas das mulheres que eu tive
(como desiludiste algumas das mulheres que tiveste)
Como me desiludiram algumas das calçadas empedradas
com acesso ao rio, outro rio, um rio com vida, um rio com esqueleto
de marinheiro, em cio
O Douro?
A ponte iluminava-se, a ponte voava sobre os espaços
exíguos da minha cabeça, acordava com pequenas grandes tonturas,
acordava a fumar cigarros proibidos e deitava-me a fumar
Cigarros proibidos?
O Douro enerva-me, desculpem-me, mas amo a cidade do
Tejo, amo a ponte, os charros que fumei enquanto choramingava... e
depois caía num qualquer bar em Cais do Sodré, depois era
madrugada, deambulava pelas ruas mais profundas, mais escuras,
mais... mais amadas em mim, depois cambaleava, tropeçava no
paralelepípedo e vomitava sons inaudíveis dos carris frios, tão
frios como o teu corpo de menina enquanto descia Setembro sobre uma
sombra em Trás-os-Montes, odeio-te sabendo que sou prisioneiro de
ti, odeio-te sabendo que só serei livre quando
Pegar na tua mão, acariciar-la como se fosse a
folha de um dos livros do António Lobo Antunes, ou um dos pares de
luvas de lã que tive em miúdo, depois deixei de sentir frio porque
as minhas mãos transformaram-se em rochas, pedaços de granito, eles
também gélidos, eles também... sós, depois vieram os olhos verdes
que a pouco e pouco ficaram sem cor, hoje são daltónicos e precisam
de lentes para ler as tuas palavras das tuas cartas que eu te
reenviei... e hoje, hoje sinto saudades
Da cidade do Tejo,
A ponte iluminada balançava quando o vento vinha
para me levar e sempre que me preparava para partir, não partia, um
carro de brincar iluminava a ruela dos candeeiros mortos,
movimentava-se por quatro pilhas de um volt e meio, redopiava em
círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras
palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é
mentira, ilusão, despedida,
Saudades?
Do Tejo,
Dizer desejo-te é mentira, ilusão, despedida,
Saudades?
Do Tejo,
(dedico esta música a todos os meus amigos)
Amigos? Quais amigos... dás-te conta que não tens
amigos, e que se vivesses na cidade do Tejo não tinhas um cão com
catorze anos, caquéctico, rabugento... mas engraçado, porque só
ele percebe porque choro, quando choro...
(qual é a frase?)
O pormenor emblemático do corpo composto por luz,
pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece
um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto,
socalcos, montanhas... e nas veias, o rio, a heroína em ebulição
sentia-se e no tombar das árvores doidas, como sonâmbulos corpos
emagrecidos havia sempre alguém que não regressava,
(ai a frase... a frase...)
O Douro?
A límpida água dos sonhos e da esperança voltam à
panela de pressão e evaporam-se nas avenidas encantadas dos
guindastes com braços em aço e lábios em pergaminho,
Hoje temos beijos,
(quer uma ajudinha... senhor Francisco?)
Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que
isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na
boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer
amo-te é mentira, ilusão, despedida,
Saudades?
Do Tejo,
(diga comigo senhor Francisco... “Com os voos
nocturnos da menina Amélia a sobremesa adormece sobre a
mesa-de-cabeceira”)
Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que
isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na
boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer
amo-te é mentira, ilusão, despedida,
Saudades?
Do Tejo,
E dizer amo-te é pura loucura, desilusão... sei lá
que mais...
(à escolha)
E diziam-me que aqui existiam verdejantes barcos com
asas em porcelana... pode lá ser...
E é, e é... é assim desde que partiste...
(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 21 de Dezembro de 2013
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