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24 abril 2025
01 abril 2025
Há muitos anos, tínhamos um aquário na cozinha. Depois, a minha mãe chateou-se com os peixes, e deixamos de ter o aquário.
Comecei a sentir a falta do aquário, mas com o tempo, como tudo na vida, deixei de pensar nele, e de o ver.
Agora na mudança de casa encontrei o aquário. E cá está ele pronto a ter peixes e a funcionar…, e vai fazer-me bem todas as manhãs dar de comer aos peixes.
Só que em Alijó não há peixes de aquário à venda.
29 agosto 2013
A cidade dos embebidos marinheiros
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foto de: A&M ART and Photos
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És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu
meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de
champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava
na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no
leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem,
deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e
finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos
vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos
vidros da pequena janela
Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,
Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a
ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante
grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza,
e confesso que
Não gosto, e detesto,
Que entre em mim a noite mendiga, travestida,
enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam
lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano
da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que
Não gosto, e detesto,
Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os
espelhos me olhem e me ordenem
Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,
Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,
Olha lá pá...
Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de
esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e
não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não
precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos
da rua contígua que agora utilizam como cobertores
Cantigas, lérias... olha agora cobertores...
Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,
Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,
Olha lá pá...
Não, não gosto, e detesto,
(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu
meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de
champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava
na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no
leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem,
deitávamos-lo)
Lembras-te de mim, miúda?
Provavelmente já não te lembras do pintor que
trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do
muro da solidão, eras tão nova, que
Não, não gosto,
Que confesso,
Que
Lembras?
Que foi a última vez que tive na mão o beijo da
cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos
teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei
Ainda gostas de mim?
Gostar, o que é gostar?
Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de
preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou
Cantigas, lérias... olha agora cobertores...
Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,
Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,
Olha lá pá...
… ou
É triste
É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo
aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois
chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue
da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...
Ou...
Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves
prestações... e sem juros.
(Não revisto . Ficção)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013
04 agosto 2013
Um tonto peixe procurando o amor debaixo das algas
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foto de: A&M ART and Photos
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Lias-me nos esconderijos de cartão
quando a varanda voava sobre os olhos
dos telhados de vidro
lias-me no reflexo do espelho vadio que
habitava nas tuas mãos
e quando pegavas em mim
folheavas-me como se estivesses a
saborear a manga adormecida
e acabada de ser escrita,
Lias-me como se eu fosse
sou
talvez... um pássaro apaixonado pelo
vento
e pelas árvores comestíveis dos
jardins da insónia
lias-me e eu não percebia que tinha
palavras em mim
dentro do meu esqueleto de papel,
Lias-me como um tonto peixe procurando
o amor debaixo das algas
e de verso em verso
descíamos as escadas da dor
embebia-te e embrulhava-te nas canções
clandestinas dos rochedos de amar
vivíamos parecendo flores em plástico
que as doiradas abelhas comiam... e
deixavas de pertencer à minha biblioteca,
Morrias
ardias na fogueira dos cigarros
infestados pelas malditas ratazanas que habitavam a caserna tuas
coxas...
morrias e lias-me como se não
existisse amanhecer
madrugada
palavras reescritas nos teus silêncios
seios com desenhos por pintar
e imagens escurecidas e inabitáveis
nas nossas vidas...
(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
06 julho 2013
Terei em mim as sobejadas tuas lágrimas?
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foto: A&M ART and Photos
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Terei em mim as sobejadas tuas
lágrimas?
E as tuas algas, meu amor,
como conseguem elas sobreviver sem as
minha mãos...
sem o meu olhar,
terei em mim as algemas flutuantes do
silêncio
quando apareces no espelho da noite
e começas a cantar
sorrindo,
Sou uma gota de água salgada
que voa nas clarabóias do teu doce
cabelo
sou uma gaivota disfarçada de gota de
água...
que te ama quando deitas a tua cabeça
no meu peito confeccionado com as pobres pétalas
do xisto laminado da paixão,
O amor dispara palavras contra os uivos
meninos da cidade dos abismos
sentavas-te nos corredores da noite
como se fosses uma árvore
uma menina vestida de árvore
como as tuas algas e os teus peixes e a
rosa que deixaste no interior de um velho livro...
o amor disfarça-se de madrugada
e assim, nós, os eternos amantes,
dormimos parecendo pássaros envenenados pelo cacimbo,
(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha
01 janeiro 2013
Quando lhe perguntavam a quantos graus ferve um
ângulo recto, ela respondia A noventa graus senhora professora, e
Gemidos,
Finos gemidos, burros, e burras,
Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças
isostáticas, e muitas, muitas
Flores, gemidos, finos burros, e burras, depois, vi
o sol desaparecer do cubículo de trapos onde nos escondíamos,
depois, vi as nuvens transformarem-se em pedaços de papel, alguns
com rugas no rosto, outros, de faces límpidas, absorvidos pela
miudinha chuva
Pareciam-me
Sim, tinham mas não era igual à nossa,
pareciam-me, peixes com olhos verdes, peixes de cebolada, peixes de
escabeche, peixes, peixes, e
Peixes,
Desciam, e subiam, as escadas, sobre nós,
esquisitos, com pele não igual à nossa, diferente, com a pele igual
a
Peixes,
Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças
isostáticas, e muitas, muitas mãos com sabor a amêndoa torrada,
regressava o chocolate, regressavas com os miúdos, subias, descias,
as finas
Escadas
Gemidos,
As finas vozes que mal se ouviam, ele, ela, os dois
pareciam um telhado sem telhas, ele, ela, os dois pareciam uma árvore
sem ramos, uma árvore sem folhas, um comboio
Fantasma entre os socalcos do Douro,
Obrigado pela recordação, gemidos, ele, ela, os
dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões incompletas,
ele, ela, os dois pareciam
Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,
E subiam as escadas, desciam, escondíamos-nos
dentro dos travesseiros da insónia, peixes, quase sempre, peixes com
braços, quase sempre, peixes com pernas, quase sempre
Gemidos,
Peixes,
Quase sempre
Eu faço por menos carinho, Sim Sim, Você me ama
amor?
Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com
pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre
Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos, e
sobre nós eles esquisitos, e sobre nós escamas, pareciam peixes com
pernas, peixes com braços, peixes com uma cabeça de xisto, grande,
muito grande, peixes com mãos semelhantes a um alicate de corte,
escamas, pareciam-me e não eram, montanhas vestidas com caixas de
cartão que sobejaram das últimas compras em Paris, peixes
Pareciam-me
E não eram,
Pareciam-me
E não eram,
Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com
pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre
Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,
E não eram, obrigado pela recordação, gemidos,
ele, ela, os dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões
incompletas, ele, ela, os dois pareciam
E não eram
Peixes.
(texto de ficção não revisto)
@Francisco Luís Fontinha
Alijó
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