26 março 2025
20 setembro 2023
Cidade perdida
Não sei se me perdoarás de todas as merdas que te fiz
Mas era difícil ser
diferente
Sempre fui diferente
Para ti
Não
(a merda de um filho
nunca cheira mal…, disseste-me tantas vezes…)
Não e talvez sim
Quem sabe
Um dia
Eu voarei,
Sobre o teu cabelo
ausente
No esplendor branco
invisível
Que quando nascia o sol
Brilhava como uma rocha
de mármore cinzento…
Depois…
Depois contávamos estórias
de mentira
Eu, prometia-te
Tu, que estavas muito bem
Eu, mentia-te e que
estava tudo bem
Tu, mentias-me que estava
tudo bem
Quando
Nada
Nada estava bem.
Ausente sempre o fui
De mim
De ti
De todos
De toas as coisas
visíveis e invisíveis…
Aí está
DEUS…
O teu deus
Pequenino
Mesquinho
Arrogante
Sim
Sim
Quando chovia… corríamos
em direcção ao capim.
E éramos felizes
Felizes
(e falta-te aquele toque
feminino da beleza)
O capim
Morreu com o estilhaço de
uma granada
Tu
Estás no teu altar-mor e
que não passas de uma foto
Nada mais do que isso
E eu
Procuro aquela cidade
A cidade do encanto
Do cheiro
Da terra quando cheirava
a terra…
Queimada.
Não sei se me perdoarás
E tão pouco estou
preocupado
Se perdoaste ou não perdoaste
De toda as merdas que te
fiz
Quero lá saber de Santa
Apolónia
Do Cais do Sodré
(e agora marchava)
Em direcção ao nada
À cidade perdida
No espaço
Na algibeira de um transeunte
Ausente
Sem ninguém…
E no entanto
Tudo perdoaste.
Tudo.
Coitado do magala
Escreve lágrimas em
cartas sem remetente
Fotografa com o olhar
todos os barcos que entram e saem da barra
E fuma compulsivamente
qualquer coisa esquisita
E sabes?
Não interessa
Tu sabes tudo,
Um dia
Eu voarei,
Sobre o teu cabelo
ausente
No esplendor branco
invisível
Que quando nascia o sol
Brilhava como uma rocha
de mármore cinzento…
20/09/2023
Luís
18 junho 2023
Tratado filosófico do [Matrafoines]
Do tudo,
O nada…
Quando o tudo é um
conjunto de pontos coloridos,
Que marcham sobre o
pavimento laminado de uma recta infinita…
E quando o nada,
O nada não é mais do que uma
equação complexa,
Muito mais complexa do
que as equações diferenciais do terceiro grau…
Que o professor Mário
Abrantes nos falava,
Dessas,
Dessas não tinha eu medo…
Agora das outras…!
Querem-me fazer acreditar
Que do nada,
Do perfeito vazio…
Alguma coisa pode acordar…
Não,
Não poderá ser,
Nunca.
Acredito em tudo,
Acredito que toda a
matéria do Universo se expandiu,
Antes explodiu…
Que até provavelmente Adão
tenha dado a sua melhor queca…
Com a adorada Eva…
Mas do nada,
Do nada acordar alguma
coisa?
Não…
Nasci para ser rico e
lindo.
Rico sei sou,
Apesar de ainda não ter
encontrado a fonte monetária em que os meus pais investiram…
Já procurei em algumas,
Em Euros ainda não
procurei,
Não vai adiantar…
Porque quando nasci ainda
não existiam…
Talvez mais logo procure
nos [Matrafoines],
Isto é,
A moeda oficial de Marte…
Quem sabe?
Diziam-me que o meu pai
era pintas…
Quem sabe,
Quem sabe se o sol nasça
sem olhos,
Ou a lua…
Quem sabe se logo a lua
apareça sem lábios…
Ou as estrelas,
Ou as estrelas sem
ninguém,
Quando do perfeito juízo
Acorda uma pequena
borboleta.
O sono eleva-se sobre a
coroa invisível da saudade,
E diga-se que esta…
Que esta também pertence
às equações complexas…
Mas que fazer,
Quando uma fotografia
morre…
Passa a ser o nada,
A ausência…
E depois,
E depois querem-me fazer
acreditar…
Que deste pequeno nada…
Um dia,
Biliões de dias depois…
Acorde alguma coisa…
Que quer ser tudo…
E que nunca foi nada.
Não,
Não posso acreditar.
Mesmo assim, desenho
sobre estes pontos coloridos que marcham sobre uma recta infinita…
Que apelidaram de tudo,
Desenho sobre estes
pontos coloridos o beijo,
Quando a mãe beija o
filho…
E o filho…
Por mais que procure a mãe
para a beijar…
Nunca a encontrará…
Porque também ela,
Também ela pertence ao
nada.
E depois que sim,
Que sou um parvalhão,
Assim-e-assado,
Mais cozido do que
passado,
Abro a janela…
E do nada…
Do nada… aparece na minha
mão o primeiro capitulo da solidão.
Afinal…
Afinal do nada pode
sempre acordar alguma coisa…
Francisco Luís Fontinha
18/06/2023
23 maio 2023
Palavra de amar
Da palavra,
Esta palavra que me
abandona,
Daquela palavra que vive
dentro da angústia…
E se esconde neste
pedacinho de silêncio,
Da palavra,
O corpo mergulhado na luz…
Dentro de mim,
Entre círculos de sono
E túneis de vento.
Da palavra que escrevo
À palavra que grito,
Da palavra que sonho…
Há uma palavra no meu
olhar,
Uma pequena palavra…
É a palavra de amar;
Amar esta palavra: mãe.
Bragança, 23/05/2203
Francisco Luís Fontinha
05 maio 2023
Mãe de mulher
Que todas elas
Têm nas mãos a singela madrugada,
Têm no sorriso, às vezes,
as lágrimas deixadas pelo luar…
No final da noite estão cansadas…
Cansadas de lutar,
Cansadas de gritar,
Que todas elas
São mulheres… e são mães
em flor de mar,
Que todas elas são tempestades,
Que todas elas…
São os poemas
E depois… são saudades.
Alijó, 05/05/2023
Francisco Luís Fontinha
30 abril 2023
Mãe
(acrílico s/tela. 70cm x
100cm. Francisco Luís Fontinha – Alijó)
Procurava o silêncio no
teu cabelo
(enquanto este não voou
para o mar)
Procurava o silêncio nas
tuas mãos enceradas
Pelas metáteses das
madrugadas,
Procura nas estrelas
A tua voz cansada
Da tua voz em delírio
Enquanto eu rezava,
Sim, mãe
Enquanto eu rezava que
partisses brevemente
Porque o silêncio que eu
procurava
No teu cabelo…
Aos poucos…
Lentamente…
No inferno se
transformava
(esse teu cabelo, mãe…
que voou para o mar),
Procurava
Em ti…
O silêncio que me
faltava,
Procurava…
Procurava…
Procurava no teu cabelo
As tardes em brincadeira
Quando jogávamos às
escondidas
Ou…
Ou quando me construías papagaios
em papel
Coloridos,
Procura no teu cabelo
As estrelas e o mar do
Mussulo
Ou apenas…
O teu forte abraço,
E eu
Não me cansava,
Nunca me cansei de ti…
E de procurar…
No teu cabelo…
O silêncio
E o cheiro do mar,
Procurava no teu cabelo
As cidades perdidas da
minha infância
O cheiro da terra
queimada
Depois da chuva…
Ai o que eu procurava…
Procurava no teu cabelo
O medo da despedida
Sem que eu soubesse…
O significado de
despedida
Mas eu não me cansava…
E procurava
Em ti
O silêncio que me
faltava,
E sabes
Quão feliz fiquei
Quando me disseram…
(Quando a minha voz rouca
Das noites sem dormir…)
Do outro lado…
Me disseram que tinhas
acabado de partir…
E confesso-te
Mãe…
Tão feliz que fiquei…
Tão feliz…
Todo o teu sofrimento…
Tinha-se vestido de
saudade…
E eu…
Desenhei um sorriso do
tamanho do Universo
E deixei de procurar.
Alijó, 30/04/2023
Francisco Luís Fontinha
18 abril 2023
O menino do poeta
Dilacerado corpo
Que dormes no Oceano de
espuma
Corpo enforcado pelo luar
da madrugada
Sentado nesta pedra fria
e escura
E que no tempo se afunda.
Corpo coitado
Coitado dele…
Coitado do silêncio
E das tristes tardes
junto ao rio
Coitado
Coitado do poeta
E do menino do poeta…
Coitado do menino em
fastio
Perdido nas esplanadas da
insónia.
Corpo cansado
Às voltas
Que não voltam
Das voltas que nascem no
horizonte
Coitado do menino
Do menino do poeta
Coitada da montanha
triste e só…
Coitada… coitada da avó e
da neta.
Corpo dilacerado
Quando se esconde nas
catacumbas de um falso sorriso
Corpo meu
Corpo sem juízo…
Pó
Poeira do meu corpo
Corpo teu…
Do teu que não tenho
O meu próprio corpo.
Duzentos e seis ossos
Alguns gramas de carne
putrefacta
Carne do meu corpo
Do meu corpo
Que corpo?
Que raio de corpo
Precisa desta carne
Poeirenta
Bolorenta
Em decomposição lenta…
Sentado aqui
Descalço ali
Olhando o mar em declínio
Sem barcos
Nem marés
Nem bonés…
Cabeças ao vento
Cabelo prisioneiro das
nuvens encarnadas
Ai que silêncio me escuta
Em pedaços de areia
Em pedaços de cicuta.
Dilacerado corpo
Sem corpo para venda
Palavras
Palavras
De que o meu corpo se
alimenta
E bebe a cicuta
E não se lamenta…
Da tristeza das flores
Do sorriso dos pássaros…
E das abelhas
Que nem são flores
Nem são pássaros
Mas são abelhas em flor.
E chove dentro do meu
corpo
E as janelas do meu corpo
Estão encerradas
São lâminas de saudade…
São lágrimas.
E chove nas tuas mãos
Menina do mar
Menina dos lábios de mel…
E das abelhas
Que nem são flores
Nem são pássaros
Nem papagaios de papel
Coloridos
Que uma mãe construía para
o menino
O menino do poeta
Do poeta menino
Em calções…
Puxando um triciclo com
assento em madeira
E volante de sonhos.
Dilacerado corpo
Este corpo que invento
todas as manhãs
Deste corpo que cuido
quando me deito
Neste corpo onde habitam
tantos outros corpos
E não me queixo das
estrelas
Nem dos barcos de
esferovite…
Corpo em poema
Da cama em poesia
Ao corpo sem corpo
Ao corpo de cada dia.
Depois tenho os gonzos
das portas do meu olhar…
Todas…
Todas dilaceradas
Dilacerado corpo
Dos volantes e das vielas
Porcas e parafusos
Fusos
Sei-te lá que mais exista
dentro deste meu pobre corpo
Depois oiço um pequeno
gemido
Um enorme grito de
revolta
A Terra não se cansa de
girar
O cão do vizinho não pára
de ladrar…
E tudo é pó
E tudo se transformará em
poeira
E o ontem não volta.
Alijó, 18/04/2023
Francisco Luís Fontinha
04 janeiro 2023
Os barcos da minha vida
A vida
A minha vida
É uma tela
Uma tela que herdei das
mãos de Deus
E que aos poucos
Fui pincelando,
Com cores,
Com riscos,
Com olhares
E cheiros,
Com o silêncio do mar,
(Deus, criador do céu e
da terra, do mar e dos pássaros, das árvores e da paixão, tudo, dizem, Deus
criou)
E a primeira paixão
De que me lembro
Foi a paixão dos barcos,
Barcos que o meu pai me
levava a ver
Todos os fins-de-semana
Ao porto de Luanda,
Pequeno que eu era
E amedrontado com todo aquele
tamanho
E esplendor
(a minha mão muito
agarrada à mão dele)
Deliciava-me
Deliciava-me com os
cheiros a Nafta
Deliciava-me com os olhos
dos barcos
E com os braços dos
barcos
Que quando regressava a
casa
Sentava-me debaixo das
mangueiras
E sonhava em beijar e
abraçar
(todos aqueles barcos),
E da tela da minha vida
Que nunca consegui
terminar
Porque está sempre em
construção
Hoje mais parece um barco
(entre portos e marés,
entre o ontem, o hoje e o amanhã)
Um barco que às vezes
sorri
Outras
Outras vezes que chora
Um barco sem nome
Como a tela da vida
(porque todos os barcos
têm um nome)
E corre calçada abaixo
E corre calçada acima,
Lembro-me muito bem
Em criança
De puxar um barco pelas
ruas
E rua acima
E rua abaixo
Lá andava eu
O menino que trocou os
calções
Por roupas muito pesadas
Por calçado muito pesado
E fartei-me deste mar
E fartei-me desta pobre
maré…
E voltando à minha vida,
A vida
A minha vida
É uma tela
Uma tela que herdei das
mãos de Deus
E que aos poucos
Fui pincelando,
Algumas vezes
Pincelei-a de alegria
Muitas mais vezes
Pincelei-a de tristeza
Mas como sou daltónico
Não importam as cores da
tela da minha vida
(se são de cor alegria ou
se são de cor tristeza),
(e voltando aos barcos
porque a minha vida é pouco interessante)
E enquanto os olhava
Nunca imaginava
Nem sonhava
Um dia
Qualquer dia
Brincar dozes dias
Ou dormir doze noites
Nos braços de um barco,
Mas brinquei,
E dormi,
E hoje acredito se este
enorme paquete tivesse naufragado
Isso sim
Hoje seria o menino dos
calções mais alegre de todas as sanzalas de prata,
E a minha pobre mãe
Acreditava que Deus
estava do nosso lado
Que era nosso aliado,
(como ela estava tão
enganada)
Como ela estava enganada.
Alijó, 04/01/2023
Francisco Luís Fontinha

