O meu pai faria hoje 86
anos. Que saudade!
01 outubro 2024
23 julho 2023
Retracto
Olho o teu retracto
E olha…
Quem diria
Estás com muito bom
aspecto
E até pare que os anos
não passaram por ti.
Olho o teu retracto.
Escondo no teu retracto,
o meu retracto
Um qualquer
Pode ser no Mussulo
Pode ser aqui
Ou ali.
Olho o teu retracto
E olha…
Quem diria
Parece que os anos se
esquecem de ti
E se lembram de mim.
Olho o teu retracto
E confesso-te
Que começo a odiar o teu
retracto
E todos os meus
retractos.
Olho o teu retracto
E não vejo nada
Nem um sorriso disfarçado
Tão pouco
Os segredos da madrugada.
Olho o teu retracto
E vejo o meu rosto
abraçado a um baloiço
E enquanto me transmites
a força necessária para eu voar…
Eu olho o teu retracto
E no teu retracto
Escuto os silêncios do
mar.
23/07/2023
Luís
19 julho 2023
Machimbombo de esperança
Somos o quê, pai,
Morremos de quê, pai,
Somos o que nos vestem,
E do pouco que sobra, o
quê, pai,
Quando um machimbombo de
esperança brincava no teu olhar,
E de quê,
Somos o quê, pai,
Somos a Lentidão de
Kundera?
Ou a piquena dos chocolates…
Do poema A Tabacaria do
senhor Álvaro de Campos,
E de quê, pai,
Os chocolates.
No entanto,
Eu,
Tu,
Ele,
Ela,
Nós…
Todos mentíamos,
Tu mentias-me,
Eu mentia-te,
Ela desconfiava,
Menos uma mentira,
E o quê, pai,
O que somos, pai,
Somos o pão,
Somos o poema,
Somos a poesia,
E, no entanto,
Eu mentia-te…
E tu tinhas a perfeita consciência
que estavas a ser aldrabado,
O teu filho, malabarista,
artista e poeta…
Inventava estórias no teu
sorriso,
Falso sorriso,
E depois,
E de quê, pai,
E esqueci-me do perfume
das tuas acácias…
Somos o quê, pai,
Somos átomos que pensam,
Átomos que amam,
Que morrem…
E nascem,
E de quê, pai, o que
somos, pai,
Depois, durante a noite,
desenhava o teu cabelo, com o meu olhar…
E era lindo…!
Eu ficava esquecido numa
cadeira fantasma,
Mais cansado do que tu,
pois tu estavas com uma grande pedrada de morfina, e feliz,
Tu falavas-me de
pássaros,
Eu, inventava pássaros,
Perguntavas-me se era
dia,
Noite…
Depois arrependias-te…
Deixa lá, tanto faz… não
tenho pressa,
Nem eu, o quê, tinha
pressa,
De quê, pai, o quê…
Que somos.
19/07/2023
04 janeiro 2023
Os barcos da minha vida
A vida
A minha vida
É uma tela
Uma tela que herdei das
mãos de Deus
E que aos poucos
Fui pincelando,
Com cores,
Com riscos,
Com olhares
E cheiros,
Com o silêncio do mar,
(Deus, criador do céu e
da terra, do mar e dos pássaros, das árvores e da paixão, tudo, dizem, Deus
criou)
E a primeira paixão
De que me lembro
Foi a paixão dos barcos,
Barcos que o meu pai me
levava a ver
Todos os fins-de-semana
Ao porto de Luanda,
Pequeno que eu era
E amedrontado com todo aquele
tamanho
E esplendor
(a minha mão muito
agarrada à mão dele)
Deliciava-me
Deliciava-me com os
cheiros a Nafta
Deliciava-me com os olhos
dos barcos
E com os braços dos
barcos
Que quando regressava a
casa
Sentava-me debaixo das
mangueiras
E sonhava em beijar e
abraçar
(todos aqueles barcos),
E da tela da minha vida
Que nunca consegui
terminar
Porque está sempre em
construção
Hoje mais parece um barco
(entre portos e marés,
entre o ontem, o hoje e o amanhã)
Um barco que às vezes
sorri
Outras
Outras vezes que chora
Um barco sem nome
Como a tela da vida
(porque todos os barcos
têm um nome)
E corre calçada abaixo
E corre calçada acima,
Lembro-me muito bem
Em criança
De puxar um barco pelas
ruas
E rua acima
E rua abaixo
Lá andava eu
O menino que trocou os
calções
Por roupas muito pesadas
Por calçado muito pesado
E fartei-me deste mar
E fartei-me desta pobre
maré…
E voltando à minha vida,
A vida
A minha vida
É uma tela
Uma tela que herdei das
mãos de Deus
E que aos poucos
Fui pincelando,
Algumas vezes
Pincelei-a de alegria
Muitas mais vezes
Pincelei-a de tristeza
Mas como sou daltónico
Não importam as cores da
tela da minha vida
(se são de cor alegria ou
se são de cor tristeza),
(e voltando aos barcos
porque a minha vida é pouco interessante)
E enquanto os olhava
Nunca imaginava
Nem sonhava
Um dia
Qualquer dia
Brincar dozes dias
Ou dormir doze noites
Nos braços de um barco,
Mas brinquei,
E dormi,
E hoje acredito se este
enorme paquete tivesse naufragado
Isso sim
Hoje seria o menino dos
calções mais alegre de todas as sanzalas de prata,
E a minha pobre mãe
Acreditava que Deus
estava do nosso lado
Que era nosso aliado,
(como ela estava tão
enganada)
Como ela estava enganada.
Alijó, 04/01/2023
Francisco Luís Fontinha
08 novembro 2020
Uma equação de fé, no teu peito.
O fim de tarde, minha
querida.
A cidade vomita palavras
abstractas que só a tempestade sabe prenunciar.
As flores poisadas na tua
lápide parecem lágrimas de pássaros esquecidos nas árvores de ontem,
Procuro por um corpo,
nada encontro e, apenas uma esquina de luz, longe, bem longe, acorda das
sombras onde te deitas.
Vai distante o teu olhar
de bom dia pela manhã,
Erguem-se as abelhas da
colmeia colorida pelo silêncio da despedida,
Um SIM, um NÃO, ou… um
apenas talvez,
Se deita no teu peito.
Visito-te todos os dias,
Conversamos,
Falamos sobre poesia,
Pintura,
Falamos das tardes
inquietas de Luanda… ao final do dia.
Nada me falta, minha
querida.
Tenho tudo e, nada tenho.
Não me apetece abrir a
ponta de entrada, para este cubículo desorganizado, entre livros e rochedos,
mesmo assim, nunca consegui, depois de te despedires de mim, olhar o mar.
Abro a janela, o mar longínquo
deseja-me como um louco e, ainda hoje, minha querida, tenho medo da (lhá).
Um pilar de areia cai
sobre a calçada.
Lágrimas de papel vivem
disfarçadas no teu rosto; hoje, não choras.
O sangue invisível que
corria nas tuas veias, hoje, é apenas uma fina lagoa azul suspensa na tarde,
nada mais, minha querida, nada mais…
Hoje és apenas uma
equação de fé que deambula pela casa descalça;
O medo.
Amanhã, quem sabe, “O fim
de tarde, minha querida”.
Francisco Luís Fontinha
Alijó, 08/11/2020
26 janeiro 2014
… e todos os sábados existe uma amoreira por beijar...
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foto de: A&M ART and Photos
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