26 junho 2026

Não foste apenas um olhar, não foste só O desejar

Não foste apenas um olhar, não foste só

O desejar

E o mar,

Não foste apenas um silêncio, ou o amar

Não foste apenas o te querer, e o te beijar

 

Não foste apenas a vontade de te abraçar, e sentir

Não foste apenas um desvaneio disperso

Não foste apenas um poema ou um verso

Não te queria apenas como aventura

Mas te queria como te queria, como eu te queria

 

Não foste apenas o meu sonhar, no impossível te desejar

Não foste apenas um livro, ou a pétala do meu acordar

Não foste apenas o mar, não foste apenas a vontade de fazer coisas, impossíveis coisas de realizar

Não foste apenas a minha primavera, no teu simples olhar

Não foste apenas… um desejar.

 

26/06
12:12

À espada o meu pertencer, à lâmina, à bala

Disparada

Este outro ser, ter

Viver, à espada eu pertencer

 

E ser.

 

26/06
05:03

Via Láctea

Que a Via Láctea se aproxima a 600 km/s do chamado “Grande Atractor”,

E claro está que isto, que isto não interessa para nada.

 

Ponto. Fim.

 

À luz da chuva, na luz dos teus olhos

Do silêncio da tua boca, submersa na minha boca

Entre

À luz da tua ausência

No infinito

 

O co-seno do teu rosto, na penumbra infância

À luz da chuva, na alegria de uma janela, o grito do livro

À luz da chuva, na luz dos teus olhos

A noite sem destino, indo

Vaiando o cansaço

 

Me humilhando sem preceito, afeito

À luz da chuva, no mar distante dos teus olhos

A cabeça que me foge, que se dissipa e levita

Na maré do beijo

No inferno da boca

 

À luz da chuva, nos teus olhos luz

À mais profunda sombra do abismo, sinto-o

Observo-o

E folheio-lhe o sexo

À luz da chuva, na luz dos teus olhos.

 

26/06
04:56

25 junho 2026

O espaço desértico, o vento abstracto

O espaço desértico, o vento abstracto

O rio sonâmbulo, o rio

O rio sem rumo, o rio sem voz

O tempo-espaço, a curvatura da sombra

Quando o meu corpo, arde

E se afoga no rio

 

O espaço-tempo, o ecléctico do desejo, a lua

A equação exponencial sem solução real

Eu, sem solução, real

Talvez eu pertença ao conjunto dos números complexos, que tão complexos que o são

Que são, constituídos por uma parte real e por uma parte imaginaria, do tipo (-i, 2+3i, ou -4i+1)

E o poeta tempo perdeu com toda esta merda, digamos que:

O espaço desértico, o vento abstracto

O rio sonâmbulo, o rio

 

O espaço, não existe

O tempo, não existe e apenas pertence a cada um, uma pedra, não sabe o que é o tempo

Se está ali sentada há muito tempo, ou sem tempo o está

E nem conta deu que se sentou

E se apulou, sempre sem tempo

Este

E aquele tempo

 

Acreditava que não existiam raízes quadradas de números negativos, a não ser, e claro, os nossos amigos de há pouco, os números complexos, existem raízes quadradas de números negativos, dir-me-ão

O poeta é um grande aldrabão, olhe que não

Não

Que não o é

 

Na vossa calculadora, sim, o resultado do visor é indeterminado

Quanto ao resultado na minha calculadora, ela

Mostra-me

Lá está,

O amiguinho do número complexo,

E quis o gajo que o descobriu, dizer

Que este número tem uma parte real e uma outra parte imaginária,

 

E por aqui ficamos, e vejamos

Se continuássemos, bom

É extremamente fodido resolver equações com números complexos, mesmo, e muitas eu resolvi, pela noite quase silêncio, quando quase em transe, quase com a cabeça sobre papeis e mais papeis e mais papeis, e mais equações

 

E sentia a mão da minha mãe sobre o ombro; calma!

 

Me despeço,

Com amizade,

 

O.

 

25/06
21:35

Não adianta escrever

Para quem não nos lê, ou vê

Não adianta ser

Ser o quê?

 

Se nada eu sou, se nada eu fui.

 

25/06
21:15

Há nos teus seios um rio em sofrimento

Há nos teus seios um rio em sofrimento

No mar arriba que aos teus olhos vão pertencer

No mar que corre no teu ventre

Me deito sobre o teu peito

E oiço a voz do teu sexo

 

No lento vento de assobiar

Há nos teus seios um rio em sofrimento

Tão revolto e tão só

Que às vezes parece a luz

Poisada no prisma dos teus lábios

 

Há nos teus seios um sofrimento em rio

Ao mar o deseja e a ele pertence

O sabre desvairado na loucura que vence

O rio em sofrimento

Que beija os teus seios

 

25/06
08:10

era dia, seria noite

era dia, seria noite

noite dia

seria,

 

era dia, noite seria

seria dia, seria poesia

noite quase dia,

 

dia, era e seria quase dia

noite que me diria

que da noite quase dia

brevemente será dia,

 

era dia, seria noite

noite dia

seria,

 

quase dia, esta noite dia.

 

25/06
05:47

Na rua cinzenta

Na rua cinzenta

Era pimenta

Sabia que a lua tinha espigas de trigo

Que quando abria a janela

Uma pedra entrava

Uma pedra lhe batia

 

E do rosto ele sangrava

A cada lágrima do rio vertida

E o povo o apedrejava

Porque na rua cinzenta

Numa pequenina casa

Lá ele morava

E era pimenta

 

A jangada de vidro que o rio atravessava

Na rua cinzenta

Era pimenta

O rio que ele amava

 

25/06
03:52

Da sanzala do adeus

Da sanzala do adeus, eu trouxe o adeus

Que o adeus deus seja o meu trazer

Que ao final da tarde o capim seja o adeus

No adeus do meu viver

 

Arde a sanzala e nem uma cubata na minha mão

Será o mabeco o mistério e a falsidade

Que habita no meu coração

Que da sanzala do adeus deus é a verdade

 

Sentida e escrita

No húmus destino

De um corpo que levita

 

De uma sanzala em adeus que o seja sanzala prometida

À criança e ao menino

E ao segredo da vida.

 

25/06
03:42

24 junho 2026

Do mar ao vento

Do mar ao vento 

Lento o vento em seu lugar 

Vento sem tempo 

Do Tejo e de outro mar 


Do vento e do alento 

Que o vento de outro lugar 

Não é o vento lento 

Nem é o vento de amar 


Do mar ao lento 

O vento em seu acordar 

Do vento ao mar do mar sem tempo 

Quando o fogo é o vento e é o mar 


24/06

23:04

Na tua pele corre uma ribeira desalmada

Na tua pele corre uma ribeira desalmada

Da mão tua em punho a espada

Da tua pele a estrela solar

Das minhas palavras e do meu sonhar

 

Na tua pele corre uma ribeira sem fim

À procura do mar ou à procura de um jardim

Tantas são as flores da luz semeada em mim

Em mim sabendo que a luz é assim

 

Que a luz me vai envenenar

Entre as montanhas do viver e o medo do luar

Na tua pele corre uma ribeira desalmada

No silêncio da minha triste madrugada

 

24/06
22:07

O alegre ser, nunca o sendo Ser

O ser o dia nunca o sendo nem o sentindo, poesia

Erva bravia, vaca louca, romaria

Montanha apache e distante da loucura

Que se dispa, que se foda

A árvore e os frutos da árvore

A abelha que pica e que pica, e que alérgico eu o sou

Tão alérgico, que incho, e que me empolgo

Subindo, subindo

Me fodendo, me fodendo

 

Me erguendo, levando não levando ou até

As dúzias campânulas da sorte, as argolas

As cordas

As balas

E as facas

E

Ser o dia nunca o sendo, sabendo

O alegre ser, nunca o sendo

Ser

 

24/06
21:31

ausência

será a ausência capaz de ser, o livro do ênfase milagre

será a ausência capaz de ser, a tua pele em página poema

no desencontro da cidade

ou numa lareira em chama

 

será a ausência a tua cama, sentindo o frio

violento da solidão, será a ausência o mar

dos teus seios em delírio

no delírio de amar

 

amar uma mão

será a ausência capaz de ser, ser sem medo de o ser

ser a alegria do coração

 

será a ausência capaz de me dar

palavras para eu te escrever

e muitos sonhos para eu te sonhar…?

 

24/06
21:07

Ontem

Ontem éramos dois solstícios em contramão 

E pertencíamos e éramos a luz do mar 

Ontem éramos o luar 

Ontem éramos o sonhar 

Ontem éramos dois solstícios em contramão 

Com medo de amar 


24/06

13:49

E se o tempo não existir

E se o tempo não existir

E se o tempo apenas existir no nosso tempo

E se o tempo for apenas um algoritmo

Ou um poema sem tempo e em chama

 

Ou uma erecção

Ou gemido na tua cama

Se o tempo e se o tempo não existir

E ser o tempo o teu sexo em lágrimas

 

E os teus seios um rio

Sem tempo e sem palavras

No tempo de não existir

Sem tempo ou sem lágrimas

 

24/06
12:51

Às tantas páginas, lágrimas tantas

Às tantas páginas, lágrimas tantas

Palavras amargas

Noites envenenadas

Às tantas páginas

 

Lentas e tormentas

As sílabas do poema em morte

Às tantas e outras páginas

E lentas e tantas as palavras

 

Nas outras páginas

Às páginas tantas

E que tantas foram as lágrimas

Sobre as palavras e sobre as páginas amadas

 

24/06
12:36

Equação

Equação que não tem solução

Não adianta tentar resolver,

 

Diria:

 

Euclides;

Sófocles;

Sócrates;

Pireneu;

Pitágoras;

Einstein:

 

Ou: ou até eu,

 

Luís Fontinha,

 

Vai o vento a passar

Leva na mão outro vento

E outro mar

Sem tempo

 

Este tempo de amar

Vai o vento em seu esplendor

Vai o vento a passar

À procura de uma flor

 

Vai o vento a passar

Leva o vento a dor

Na dor de sonhar

 

Na dor de ser tempo sem tempo

No tempo de amar do tempo sem cor

Vai o tempo a passar a passar o vento.

 

24/06
12:26

É o último, é o silêncio

É o último, é o silêncio

E o fim, e o ontem

E a chuva

E a terra

 

E a mulher vestida de néon

O palhaço que sou

O circo

A roulotte

 

O cansaço, o último

Sem o desejo

Sem o mar

Sem

 

É o fim

E o recomeço

E a vontade

Sem apreço

 

É o destino

É a literatura

É a poesia

No fim

 

24/06
11:20

As dunas

As dunas estão serenas

Plumas

Na espuma do olhar

 

Secretas e madrastas

Palavras já tão gastas

Palavras

Fechaduras

Janelas e outros afins e olhares

 

Sins ou nãos

Tudo são palavras já gastas

Depois a lua e depois o capim

Que arde

E que sente a voz nua

E ouve o vento

 

As dunas estão serenas

Plumas

Na espuma do olhar

 

O amar.

 

24/06
05:26

Pouco, o nada

Pouco, o nada

O tudo capaz de rasgar a montanha

Que cada equação resolvida

É uma rua

É uma estrada

Sem saída,

 

O tudo ou o nada

A tristeza

A madrugada

O silêncio

E a alvorada

Sem nada,

 

O cigarro quase cadáver

A minha vida quase um cigarro

Suspenso no cinzeiro

Suspenso na luz

E no frio

De uma mão,

 

Mas tudo passa

Mas tudo vai morrer

O tudo

E o nada

A luz

E o meu escrever,

 

Tudo vai morrer

Acreditando

Acreditando que lá fora há rios sem nome

Que da janela do quarto já não se observa o mar

Tudo, nada

Este meu amar.

 

24/06
05:18