À espada o meu pertencer,
à lâmina, à bala
Disparada
Este outro ser, ter
Viver, à espada eu
pertencer
E ser.
26/06
05:03
Que a Via Láctea se
aproxima a 600 km/s do chamado “Grande Atractor”,
E claro está que isto,
que isto não interessa para nada.
Ponto. Fim.
À luz da chuva, na luz
dos teus olhos
Do silêncio da tua boca,
submersa na minha boca
Entre
À luz da tua ausência
No infinito
O co-seno do teu rosto,
na penumbra infância
À luz da chuva, na
alegria de uma janela, o grito do livro
À luz da chuva, na luz
dos teus olhos
A noite sem destino, indo
Vaiando o cansaço
Me humilhando sem
preceito, afeito
À luz da chuva, no mar
distante dos teus olhos
A cabeça que me foge, que
se dissipa e levita
Na maré do beijo
No inferno da boca
À luz da chuva, nos teus
olhos luz
À mais profunda sombra do
abismo, sinto-o
Observo-o
E folheio-lhe o sexo
À luz da chuva, na luz
dos teus olhos.
26/06
04:56
O espaço desértico, o vento abstracto
O rio sonâmbulo, o rio
O rio sem rumo, o rio sem
voz
O tempo-espaço, a
curvatura da sombra
Quando o meu corpo, arde
E se afoga no rio
O espaço-tempo, o ecléctico
do desejo, a lua
A equação exponencial sem
solução real
Eu, sem solução, real
Talvez eu pertença ao
conjunto dos números complexos, que tão complexos que o são
Que são, constituídos por
uma parte real e por uma parte imaginaria, do tipo (-i, 2+3i, ou -4i+1)
E o poeta tempo perdeu
com toda esta merda, digamos que:
O espaço desértico, o
vento abstracto
O rio sonâmbulo, o rio
O espaço, não existe
O tempo, não existe e
apenas pertence a cada um, uma pedra, não sabe o que é o tempo
Se está ali sentada há
muito tempo, ou sem tempo o está
E nem conta deu que se
sentou
E se apulou, sempre sem
tempo
Este
E aquele tempo
Acreditava que não
existiam raízes quadradas de números negativos, a não ser, e claro, os nossos amigos
de há pouco, os números complexos, existem raízes quadradas de números
negativos, dir-me-ão
O poeta é um grande
aldrabão, olhe que não
Não
Que não o é
Na vossa calculadora,
sim, o resultado do visor é indeterminado
Quanto ao resultado na
minha calculadora, ela
Mostra-me
Lá está,
O amiguinho do número
complexo,
E quis o gajo que o
descobriu, dizer
Que este número tem uma
parte real e uma outra parte imaginária,
E por aqui ficamos, e
vejamos
Se continuássemos, bom
É extremamente fodido
resolver equações com números complexos, mesmo, e muitas eu resolvi, pela noite
quase silêncio, quando quase em transe, quase com a cabeça sobre papeis e mais papeis
e mais papeis, e mais equações
E sentia a mão da minha
mãe sobre o ombro; calma!
Me despeço,
Com amizade,
O.
25/06
21:35
Há nos teus seios um rio
em sofrimento
No mar arriba que aos
teus olhos vão pertencer
No mar que corre no teu
ventre
Me deito sobre o teu
peito
E oiço a voz do teu sexo
No lento vento de
assobiar
Há nos teus seios um rio
em sofrimento
Tão revolto e tão só
Que às vezes parece a luz
Poisada no prisma dos
teus lábios
Há nos teus seios um
sofrimento em rio
Ao mar o deseja e a ele
pertence
O sabre desvairado na
loucura que vence
O rio em sofrimento
Que beija os teus seios
25/06
08:10
era dia, seria noite
noite dia
seria,
era dia, noite seria
seria dia, seria poesia
noite quase dia,
dia, era e seria quase
dia
noite que me diria
que da noite quase dia
brevemente será dia,
era dia, seria noite
noite dia
seria,
quase dia, esta noite
dia.
25/06
05:47
Na rua cinzenta
Era pimenta
Sabia que a lua tinha
espigas de trigo
Que quando abria a janela
Uma pedra entrava
Uma pedra lhe batia
E do rosto ele sangrava
A cada lágrima do rio
vertida
E o povo o apedrejava
Porque na rua cinzenta
Numa pequenina casa
Lá ele morava
E era pimenta
A jangada de vidro que o
rio atravessava
Na rua cinzenta
Era pimenta
O rio que ele amava
25/06
03:52
Da sanzala do adeus, eu trouxe
o adeus
Que o adeus deus seja o
meu trazer
Que ao final da tarde o
capim seja o adeus
No adeus do meu viver
Arde a sanzala e nem uma
cubata na minha mão
Será o mabeco o mistério
e a falsidade
Que habita no meu coração
Que da sanzala do adeus
deus é a verdade
Sentida e escrita
No húmus destino
De um corpo que levita
De uma sanzala em adeus
que o seja sanzala prometida
À criança e ao menino
E ao segredo da vida.
25/06
03:42
Do mar ao vento
Lento o vento em seu lugar
Vento sem tempo
Do Tejo e de outro mar
Do vento e do alento
Que o vento de outro lugar
Não é o vento lento
Nem é o vento de amar
Do mar ao lento
O vento em seu acordar
Do vento ao mar do mar sem tempo
Quando o fogo é o vento e é o mar
24/06
23:04
Na tua pele corre uma
ribeira desalmada
Da mão tua em punho a espada
Da tua pele a estrela
solar
Das minhas palavras e do
meu sonhar
Na tua pele corre uma
ribeira sem fim
À procura do mar ou à
procura de um jardim
Tantas são as flores da
luz semeada em mim
Em mim sabendo que a luz
é assim
Que a luz me vai envenenar
Entre as montanhas do
viver e o medo do luar
Na tua pele corre uma
ribeira desalmada
No silêncio da minha triste
madrugada
24/06
22:07
O ser o dia nunca o sendo
nem o sentindo, poesia
Erva bravia, vaca louca,
romaria
Montanha apache e
distante da loucura
Que se dispa, que se foda
A árvore e os frutos da
árvore
A abelha que pica e que
pica, e que alérgico eu o sou
Tão alérgico, que incho,
e que me empolgo
Subindo, subindo
Me fodendo, me fodendo
Me erguendo, levando não
levando ou até
As dúzias campânulas da
sorte, as argolas
As cordas
As balas
E as facas
E
Ser o dia nunca o sendo,
sabendo
O alegre ser, nunca o
sendo
Ser
24/06
21:31
será a ausência capaz de
ser, o livro do ênfase milagre
será a ausência capaz de
ser, a tua pele em página poema
no desencontro da cidade
ou numa lareira em chama
será a ausência a tua
cama, sentindo o frio
violento da solidão, será
a ausência o mar
dos teus seios em delírio
no delírio de amar
amar uma mão
será a ausência capaz de
ser, ser sem medo de o ser
ser a alegria do coração
será a ausência capaz de
me dar
palavras para eu te
escrever
e muitos sonhos para eu
te sonhar…?
24/06
21:07
Ontem éramos dois solstícios em contramão
E pertencíamos e éramos a luz do mar
Ontem éramos o luar
Ontem éramos o sonhar
Ontem éramos dois solstícios em contramão
Com medo de amar
24/06
13:49
E se o tempo não existir
E se o tempo apenas
existir no nosso tempo
E se o tempo for apenas
um algoritmo
Ou um poema sem tempo e
em chama
Ou uma erecção
Ou gemido na tua cama
Se o tempo e se o tempo não
existir
E ser o tempo o teu sexo
em lágrimas
E os teus seios um rio
Sem tempo e sem palavras
No tempo de não existir
Sem tempo ou sem lágrimas
24/06
12:51
Às tantas páginas,
lágrimas tantas
Palavras amargas
Noites envenenadas
Às tantas páginas
Lentas e tormentas
As sílabas do poema em
morte
Às tantas e outras
páginas
E lentas e tantas as
palavras
Nas outras páginas
Às páginas tantas
E que tantas foram as
lágrimas
Sobre as palavras e sobre
as páginas amadas
24/06
12:36
Equação que não tem
solução
Não adianta tentar
resolver,
Diria:
Euclides;
Sófocles;
Sócrates;
Pireneu;
Pitágoras;
Einstein:
Ou: ou até eu,
Luís Fontinha,
Vai o vento a passar
Leva na mão outro vento
E outro mar
Sem tempo
Este tempo de amar
Vai o vento em seu esplendor
Vai o vento a passar
À procura de uma flor
Vai o vento a passar
Leva o vento a dor
Na dor de sonhar
Na dor de ser tempo sem
tempo
No tempo de amar do tempo
sem cor
Vai o tempo a passar a
passar o vento.
24/06
12:26
É o último, é o silêncio
E o fim, e o ontem
E a chuva
E a terra
E a mulher vestida de néon
O palhaço que sou
O circo
A roulotte
O cansaço, o último
Sem o desejo
Sem o mar
Sem
É o fim
E o recomeço
E a vontade
Sem apreço
É o destino
É a literatura
É a poesia
No fim
24/06
11:20
As dunas estão serenas
Plumas
Na espuma do olhar
Secretas e madrastas
Palavras já tão gastas
Palavras
Fechaduras
Janelas e outros afins e
olhares
Sins ou nãos
Tudo são palavras já
gastas
Depois a lua e depois o
capim
Que arde
E que sente a voz nua
E ouve o vento
As dunas estão serenas
Plumas
Na espuma do olhar
O amar.
24/06
05:26
Pouco, o nada
O tudo capaz de rasgar a
montanha
Que cada equação
resolvida
É uma rua
É uma estrada
Sem saída,
O tudo ou o nada
A tristeza
A madrugada
O silêncio
E a alvorada
Sem nada,
O cigarro quase cadáver
A minha vida quase um
cigarro
Suspenso no cinzeiro
Suspenso na luz
E no frio
De uma mão,
Mas tudo passa
Mas tudo vai morrer
O tudo
E o nada
A luz
E o meu escrever,
Tudo vai morrer
Acreditando
Acreditando que lá fora
há rios sem nome
Que da janela do quarto
já não se observa o mar
Tudo, nada
Este meu amar.
24/06
05:18
se ao menos existisse a
voz do lume
que sempre que acordasse
pudesse escrever na geada
o nome desta espada
que se crava
no meu peito sem saber
ao menos o nome
sem saber o dia
se ao menos existisse
dentro de mim o grito
ou até o abismo
reflectido na sombra
depois a chuva
depois as flores
depois a voz
e
o
nome do lume
ardume da fome
se ao menos existisse na
voz do lume
um sorriso
ou um nome.
24/06
05:07