27 março 2026

a razão,

a verdade, o sabor do vento

quando a saudade é um pedacinho de luz, imensa, distante

do último grito da madrugada, apagam-se todas as luzes da noite, acorda alguém, que espera os baraços de outro alguém…

e o dia é apenas um rio descendo a montanha

 

27/01/2026, 08:27

26 março 2026

Aprendi a voar cedo, cerrava os olhos, fincava os pezinhos no torrão de fogo, que há pouco era lama, e

Aprendi a voar cedo, cerrava os olhos, fincava os pezinhos nos torrões de fogo, que há pouco eram lama, e

Braços da minha mãe, ela

Abraçava-me sempre como se fosse o último abraço, e no entanto

Eu cerrava os olhinhos, e

Colo da minha mãe

Em criança acreditava que era louco, podia lá ser

Cerrava os olhinhos, e

Novamente braços da minha mãe

 

Os meninos que brincavam comigo,

Oh, pode lá ser

E ainda hoje, cerro os olhinhos, finco os pezinhos no chão térreo do meu destino,

E

Colo da minha mãe,

Sinto-lhe a mão, tão trémula, tão cansada

Que hoje faria setenta e nove anos, e sinto o seu toque, e o seu olhar

E os meninos que brincam comigo, oh, pode lá ser,

 

E isto, é

Cerro os olhinhos, finco os pezinhos ao chão térreo da página de um livro, e

Estou no colo da minha mãe

E oiço os meninos que brincavam comigo, louco

Louco,

E tolo,

E sempre que chovia

Uma pequena sílaba, abria a janela, e ele, voava sobre sob uma geada de estrelas.

 

Alijó, 26/03/2026, 21:33

o perfume

o perfume, o sentir a incandescência de um olhar

camuflado pela espuma e brancura, o perfume sentenciado

e acorrentado, à fogueira, e ao lume

no ciúme

 

e na morte que os vai separar, o perfume, o dizer

e deixar numa página solta, as migalhas que restaram do poema

na misturada argamassa de tinta e pão

e algumas pétalas

 

e em desespero, a mão

em busca da fragrância, do silêncio, e da voz

que poisa no meu corpo

e rasga a milha pele

 

o perfume, o ciúme, em brando lume

e sei que quando regressar a noite, muito mais logo

eu pareça uma vírgula, estonteante, e torta

e surda, como uma porta

 

26/03/2026, 18:05

O amor é

O amor é uma gaivota entre os parêntesis do desejo,

É um fio de sonhar na vida de uma abelha, 

É o mel dos teus lábios, 

Quando tudo está na quinta dimensão de um olhar 


26/03/2026 

é noite nos meus braços, meu amor

é noite nos meus braços, meu amor

incessantemente, vou esperar o teu acordar

nos meu olhos, no meu olhar

tu, meu amor, que deste jardim és a flor

 

a noite, disfarçada de lençol lunar

te ver erguer, sentir no meu rosto o teu corpo quase maresia

todo ele, poesia

porque tu, meu amor, és o meu mar

 

e a terra e todo o chover

e quando do teu acordar, a janela se vai abrir

e te virei, feliz, a correr

 

e talvez, a brincar

ah meu amor, se o teu sorrir

não fosse só o meu sonhar…

 

Alijó, 26/03/2026, 02:52

25 março 2026

sinto o teu desejar-me nas minhas mãos, enquanto leio, percebo

sinto o teu desejar-me nas minhas mãos, enquanto leio, percebo

o importante te ter, e te sentir

e te tocar,

hoje, meu amor, já ouvi o cuco-canoro

já tinha saudades da primavera, meu amor

tudo sorri, as plantas começam a crescer,

parecem crianças no recreio da escola, e até a luz

é mais luz

 

e a noite está mais alegre, veem-se as estrelas, o luar

é um rio ao redor dos teus seios, meu amor

e eu, com tanta coisa na cabeça, e quando quase tudo arde,

eu, eu nada, como o álvaro de campos, sento-me e leio

e escrevo, e desenho, e penso

que não devia pensar, e um dia

ao acordar

zás

 

zarpar, erguer a âncora deste navio, ir

para onde o vento me levar (ao preço que está o gasóleo, este navio só daqui sai, ao sabor do vento)

caso contrário fica acorrentado, é melhor assim

melhor ainda, do que andar por aí a fingir

olhe que o gasóleo simples fode-lhe o motor todo,

é mais barato, pois claro, filho da puta

tens um navio que quase voa, e queres poupar na palha

se te fosses foder quase engenheiro francisco.

 

Alijó, 25/03/2026, 23:00

O que dizem os teus olhos

O que dizem os teus olhos, que não me canso de te perguntar

Talvez nada me queiram dizer

Talvez seja só o meu sonhar

E o desejo de te querer

Mas, adorava saber o que dizem os teus olhos!


25/03/2026, 12:29

incendiar o teu sorrir quando a noite, a noite

incendiar o teu sorrir quando a noite, a noite

é a página de uma estrela, de um outro lugar

que eu te pertenço, que o sinto enquanto o amar

se despe, e se deita

 

e se entranha dentro de ti, incendiar o teu sorrir

sabendo que a primavera do teu cabelo, espera a minha mão

que será o vento, e o teu desejar

que transforma o sono de um outro lugar

 

em viagem em contramão, te tocar

e acariciar os teus lábios, e dos meus lábios

saberás a cor de cada poema, na tela dos teus seios

ou simplesmente, tu, deitada, nua, sobre uma cama de espuma

 

talvez cansada, exausta, com medo da escuridão

e de mim, e de mim

que vou incendiar o teu sorrir quando a noite, a noite

é a página de uma estrela

 

Alijó, 25/03/2026, 06:41

24 março 2026

Samba para você

Samba para você, deusa da última figueira que ficou sentada no silêncio dos olhos do mar,

Se eu soubesse, a que horas é o pincelar da tua voz nos lábios do vento,

Eu abria a janela, chamava todos os barcos que ainda ontem eram a tarde no toque de uma fotografia,

E dizia a todos os pássaros e passageiros deste navio, que

Por um fio, o rio


Será o esconderijo do meu navio, naufragado

Samba para você, meu amor, que o sono é uma seara de desejo que não tem remetente, e ele sofre

E ele mente, e a chuva será a primavera

Da primeira pedra, lançada na flor do teu sexo

Semente, socalcos entre os teus seios,

Vértice do atlântico salgado, não

Ainda não terminou o circo


24/03/2026, 22:25

Princesa do luar

O que ainda está vivo, o que sobrou do mar

Onde rabisquei os meus poemas acreditando

Que, ainda assim, mas

A tarde desceu ao rés-do-chão e a luz já estava sentada na tua mão

Depois, a água da última sílaba quase espuma


Depois, a minha língua de tinta saboreando a tua pele

E cada letra escrita em ti e

Apenas para ti, e não sei o que ainda está vivo, o que sobrou do mar

No mar onde te escondes, princesa do luar

Que seduz o fogo que deixei no silêncio dos teus olhos


24/03/2026, 21:47

e imagino os teus seios, sobre o meu peito em busca da minha boca, faminta

 

a música, calma

com alma, na ardente viagem

as águas estão tão límpidas, serenas

como estão os ramos das árvores, que quase

não se mexem, que quase

dormem

 

e as palavras fluem como pedacinhos de chocolate, em pequeninas rotações, dentro da boca

e sinto a tua língua e o pequenino quadradinho de chocolate

na esfinge manhã do meu silêncio

e mesmo assim, a música encanta-me

e imagino os teus seios, sobre o meu peito

em busca da minha boca, faminta

 

Alijó, 24/03/2026, 18:44

desenho de francisco fontinha

23 março 2026

Espero o barco que me vai levar, trazer a mim o fogo que deixei

Espero o barco que me vai levar, trazer a mim o fogo que deixei

Nos olhos de outros meninos

Encontrar-me com o dia, deitar-me sobre as pedras do mar

E escrever no cacimbo a melódica serpente que pertence aos lábios do vento


Como fui feliz, descalço, quase nu, e nunca

Me diziam de que cor era a saudade, afinal

A saudade sempre foi azul, triste

Como os barcos que por mim passam


E passaram tantos, mentiras, veleiros de novos mares

O azedume árduo, semelhante ao pôr-do-sol

Uma bandeira, à janela

Se tantas pedrinhas tem uma parede


Na alvenaria pedra, miséria a distância,

Entre um beijo

E uma mão, na palavra do senhor

Ámen.


23/03/2026, 21:39

francisco fontinha - Alijó


a vida não me pertence, e não entende

a vida não me pertence, e não entende

que o círculo é o destino do quadrado

quando foge do abismo

quando acorda, e logo a seguir

morre,

e se transforma na divindade de um sorriso.

 

mais um dia, outro dia, cópias de antigos dias

se a rua é um arguilheiro de uma espada lançada sobre a calçada, se todos fossemos ausentes, não

a vida não me pertence, e me vence

me quer acorrentado a cada sombra, desenhada

na algibeira de um palhaço, fino

tão fino como o fio que me prende, à vida.

 

já é quase sol, e a vida desliza sobre os carris do rochedo encarnado,

coitado, se foi o soldado

que disparou contra a vida, se foi o soldado

numa outra vida, quando se travestia de petroleiro

e dançava sobre a mesa-de-cabeceira, ela sim

com vida…

 

Alijó, 23/03/2026, 06:44

22 março 2026

Leituras


E agora, que tudo foi, foi

E agora,

Que tudo foi, foi

Silêncio quadrado num corpo quase espuma, ouviram

Da bruma primavera, as sílabas da manhã, não

Rua do mar, lote trinta e três, vinte e sete

Que divide por nove árvores em papel cromado, de terceiras núpcias, o círculo,

O egoísmo de uma fotografia.


E agora,

Que tudo foi, vem

Se esconde uma vírgula na minha cama, oiço os orgasmos dos pássaros, quando madrugada,

Rezo que nunca mais seja dia,

E agora, talvez

Esta noite seja sempre noite.


22/03/2026, 22:22


laranja

naquele tempo era o verbo, hoje

naquele tempo era o verbo, hoje

é a foda,

naquele tempo, foi o silêncio,

hoje, é o silêncio

 

naquele tempo era o triciclo com assento em madeira,

daquele tempo, morreu a madeira

e fodeu-se o ferro, que hoje

outro tempo, é sucata, ó vizinha,

 

ainda é daquele tempo?

 

Alijó, 23/03/2026 – 15:27

desenho de francisco fontinha

 

Aqui, às vezes me escondo

Partilhando tristezas, alegrias

 

Com as páginas de um livro, no mais puro silêncio