02 fevereiro 2026

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima

há-de ser, depois foi apenas um pequeno desejo, um longo silêncio

depois apeou-se a lareira, e eu fiquei com frio

despido na maré de um olhar

depois deixei de ter mar, depois

 

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima, e do cansaço, as pedras lançadas, as veias quase em água, descendo o sangue às profundezas de um sorriso

depois, fiquei louco, depois fui aprisionado a um pequenino raio de sol

 

e há-de vencer a luz, e há-de crescer

na minha mão confusa, na minha mão tão trémula como trémulo foi o meu sonhar, em sonhar um sonho vestido de noite

quando ainda, havia na claridade, um poema em construção

e uma secretária entupida e recheada, de livros

 

e de folhas secas, folhas que sobejaram de uma árvore, que foi tempestade e que hoje

e que hoje é amor

e é a cama que me aquece, e abraça, e me toca

quando o meu corpo, despido, e despedido

se enforca, e se demora, numa vertida lágrima, e que o sono

seja novamente a tua mão, no meu peito

 

02/02/2026, 06:10