sábado, 9 de novembro de 2013

Quem imaginava?

foto de: A&M ART and Photos

Quem imaginava que a uma mesa de café, recheada de senhoras donzelas... uma delas me observava, uma delas me desenhava nas sombras alegres dos jardins invisíveis do Outono em construção, oiço o PLANETA 3, e imagino-a sentada num granítico banco de jardim, em frente ao café da esquina e ela
Ela olha-me como se eu fosse o espelho da criação ingénua dos livros ainda não escritos, percebo agora que não estou só, percebo agora que me guiam, que me
Desenham nas paredes do vizinho AL Berto? E ela? Ela vagueia entre as searas imagináveis dos campos em papel de parede, há chávenas de café com pequenas migalhas de sílabas que sobejaram das conversas, algumas delas, das conversas
Sem sentido?
Os olhos, os lábios, as vogais impregnadas nos versos escritos nas mãos do desejo, imagino-me vestido de branco e correndo junto às amoreiras em flor, e chorando junto aos candeeiros das noites com conservas em lata, quem
Quem imaginava?
Que a uma mesa de café, os óculos superficiais nas testa dele... e aos poucos deslizavam até aterrarem nos olhos das flores com pétalas de paixão, sou eu, a minha fotografia sofre, a minha fotografia... morre? Não, não percebo
Sem sentido? Desenham nas paredes do vizinho AL Berto? E ela? Ela vagueia nas pálpebras dos telhados em colmo, havia nuvens de prata e sonhos de plátano, havia um recreio onde habitava um pinheiro ranhoso, doente, com bicos mínimos que depois de poisarem nos nossos corpos...
A paixão das palavras submersas nos seios dela, havia vidros e dos vidros espelhos e dos espelhos
Cacos?
Eu, um imbecil que para o futebol parecia uma formiga correndo dentro de um corredor de açúcar, sem jeito, e de pontaria desafinada, e claro
Os vidros escacados, e claro
A paixão?
À mesa do café, a saudade da presença das conversas em melodias com parecerias ínfimas e das sandes de queijo o molho de tomate a olhar os óculos de sol dele, atrofiados, incrédulo, redondo como uma bola de cacos e folheados em pedaços de xisto com cebola, havia também uma mão onde brincavam beijos afogados em berços de porcelana, eu também acreditava nas mesas de café, nos cinzeiros e nos cigarros, e
Os vidros escacados, e claro
A paixão?
Os cacos da vizinha do vizinho
AL Berto?
Os poemas dele quando se entranham nos corpos nossos, somo vampiros vestidos de esqueletos, uns de vidro, outros de saudade, e outros
Paixão?
E outros vestidos de paixão com pequenos adornos de suor às línguas tímidas dos silêncios em sôfregos olhos quando descem-lhe os óculos de sol, cerram-se as pálpebras, cerram-se as manhãs sem cortinados na janela e cerram-se os pedaços em madeira da lareira da sala
Fazíamos amor à mesa do café e tomávamos café sobre um divã de complexos orgasmos, sou assim, sou um
Desalinhado?
Não, não vizinho...
AL Berto?
Os vidros escacados, e claro
A paixão?
Os cacos da vizinha do vizinho
AL Berto?
Os teus livros em mim como as minhas palavras nela,
Sabendo eu que amanhã todas as ruas da tua cidade ficarão ofendidas com os meus olhos, e daqui em diante
Nunca mais agrestes guindastes sobre barcos de papel,
Sabendo que tu
À mesa do café embrulhada em coisas, e coisas das coisas com sabor a coisas... as coisas de ti e escritas no teu corpo.


(não revisto – ficção)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 9 de Novembro de 2013

a vida de viver a vida sem a vida

foto de: A&M ART and Photos

viver sem saber o que é viver
viver a vida
mas que a vida se despede aos poucos de quem vive
a vida não vida vivendo acreditando que a vida...
a vida é viver sem saber o que é viver
ama-se a vida
e esquecemos-nos de quem nos ama sem a vida
vivendo
crescendo a vida dentro de nós
e longe da vida
a vida que nos espera quando formos apenas pó e pedacinhos de osso sem sabor
sem palavras de viver

a vida
a vida que se vive no meu corpo é um cansaço sem vida
viver sem saber que vivendo se vive... o que é viver...

o que é a vida.


(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 9 de Novembro de 2013

abstractos objectos dentro do meu peito

foto de: A&M ART and Photos

em todas as coisas belas fui mestre das tempestades de zinco que habitavam a cidade do nada
adormeci debaixo das sombras pedestres dos castanheiros
vivi em vãos de escada
sorri
e chorei
em todas as coisas belas...
me senti embebido nas lâminas de azoto que vagueavam os alicerces dos muros invisíveis
e descobri que o amor
e descobri que a noite
sorri
e chorei
são abstractos objectos dentro do meu peito

pinto desejos nas nuvens de algodão que descem as paredes do Inverno
olho-me no espelho do rio
sinto-te em mim apaixonada por palavras minhas
servem apenas os espantalhos de pano
como as ervas daninhas dos campos de milho de Carvalhais...
abraçadas aos espigueiros da saudade

dizem que sou esquisito
que tenho mau feitio
que sou
como o amor
e a noite
objecto abstracto
sem sorrisos
sem âncoras de aço fundeadas no cais das tempestades de zinco
dizem que sou parvo
dizem que sou... esquisito e de mau feitio...
sorri e chorei
são abstractos objectos dentro do meu peito


(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 9 de Novembro de 2013