30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

a lágrima

quando já quase nada faz sentido

sentir o vento devido

mergulhado no ónus endividado e tímido

nos confins da ausência programada

 

e desejada como que o delírio

fosse dinheiro

e eu de tão rico estar

porque passo os dias a delirar

 

e passo as noites a escrever

e a desenhar

e a sentir

o vento regressar

 

e a primavera a chorar

e a saliva sobre a pele escaldante de uma lágrima

que de tão cansada estar

adormece no meu rosto

 

e o acaricia

e lhe toca

e eu sei que não estou só

nem louco.

 

Francisco

30/04

soldado

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

no degredo e na canseira de estar vivo

era só o juncal e a proeza de ser

soldado magro e de pouca riqueza

 

que tinha sobre a mesa

o sabre e a espingarda

que sempre tinha sido soldado

soldado em brasa

 

teve casa

teve o mar

e a escuridão dos dias de nada ser

e de viver

 

na espuma de uma lágrima

ah também foi o luar

e teve dentro dele a luz divina

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

 

quando a ausência é a alegria do pobre

que teve uma sebenta nos tempos de encantar

serpentes e outros animais

depois de soldado foi capa dos jornais

 

e também foi o diabo

vestido de sôfrego amanhecer

que de tudo aquilo que foi

o que lhe deu mais prazer

 

foi ter sido um pobre diabo

que foi feliz quando soldado

que teve um rio do tamanho do universo

e muito frio no regresso.

 

Francisco

30/04

Se Deus quisesse

E ficávamos ausentes no silêncio dos outros olhares

Se Deus quisesse

Tínhamos o espaço-tempo no toque de uma fotografia

Sem quase tempo

Sem muita alegria.

 

Se Deus quisesse tínhamos asas

E outros adornos e de todos os lugares

Se Deus quisesse

Se ele não se importasse

Eu fazia o favor de ir buscar as palavras

E as semear na esquina da morte.

 

Se Deus quisesse eu até poderia ter mais um só pouquinho de sorte

Se Deus quisesse tínhamos asas

E dançávamos sobre a geada

Se Deus quisesse não morriam crianças

Nem as flores que Deus plantou

Nem contra mim pedras lançadas.

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

o cubo de vidro

ao centro o cubo de vidro

três janelas em vidro tem o cubo, o cubo de vidro

tem uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

o universo

em reversão e sem nexo,

 

outro cubo, outro verso sem verso

sem sexo

ao centro, a cama, em cima da cama um círculo, nu, tão nu

como o cubo de vidro

com três janelas em vidro, e uma porta,

 

tão escuro está o corpo em lhe tocar, a verdade

é que o cubo é a vontade do fragúes, confidente

e obediente

e contente

porque na terrinha já tem o continente,

 

depois vem a sopeira com os cupões e com os talões

ele é desconto, ele desencanto e ele é mergulhar

tão fundo e de tão longe que ele veio

no alento

no destino alheio,

 

mas o vento, esse

o vento não quer saber do centro, nem quer saber do cubo

e tão pouco das três janela em vidro

e de uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

a ausência de uma abraço, sentindo o escuro do dia, quando a noite é sempre dia.

 

Francisco

29/04

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E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04