Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,
Tantos que nem o sei,
senhor
Tantos são os anos a seu
lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da
sua vida deflagrou,
Sim Horácio, tens razão,
muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto
Não percebi meu amo,
E no entanto, meu querido
Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita
em mim.
Imagina,
Sim meu amo, eu imagino,
Imagina uma linda estrela
e loira poisada na noite,
Consegues tu imaginar,
meu querido Horácio,
Sim, meu amo, sim, e que
é tão linda, meu senhor
Agora se eu te disser que
essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,
Sim, meu senhor, sim
E se eu te disser que
essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e
já morreu há muito tempo,
Consegues tu imaginar,
meu querido Horácio?
Não, meu amo, isso
ultrapassa-me,
Mas é verdade, ela morreu
e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque
veio a mim
Sim, meu senhor, estou
assim a perceber,
Veio até ti à velocidade
de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,
E eu meu senhor, que nem
sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como
Sim Horácio, assim mesmo.
Mas sabes Horácio,
Sim, meu senhor,
Nada disto existe.
Como?
Sim meu fiel amigo. Imagina
que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo
qualquer
Consegues imaginar, meu
fiel amigo?
Sim meu senhor, consigo,
é que…, só mais um pouquinho,
Está bem Horácio, imagina
lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou
de mulher,
Preferia de mulher, eu
preferia
Eu também Horácio, mas
imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha
existo, nunca tenha nascido.
E agora, meu querido
Horácio, o que tens tu a dizer-me?
Francisco
30/04