30 abril 2026

soldado

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

no degredo e na canseira de estar vivo

era só o juncal e a proeza de ser

soldado magro e de pouca riqueza

 

que tinha sobre a mesa

o sabre e a espingarda

que sempre tinha sido soldado

soldado em brasa

 

teve casa

teve o mar

e a escuridão dos dias de nada ser

e de viver

 

na espuma de uma lágrima

ah também foi o luar

e teve dentro dele a luz divina

era só o medo disfarçado de húmus sitiado

 

quando a ausência é a alegria do pobre

que teve uma sebenta nos tempos de encantar

serpentes e outros animais

depois de soldado foi capa dos jornais

 

e também foi o diabo

vestido de sôfrego amanhecer

que de tudo aquilo que foi

o que lhe deu mais prazer

 

foi ter sido um pobre diabo

que foi feliz quando soldado

que teve um rio do tamanho do universo

e muito frio no regresso.

 

Francisco

30/04