O que me diria Ulisses se
me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por
uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima
salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,
Às vezes tão sem jeito e
sem gracinha nenhuma.
Olhava o mar de rosto
tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe
trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os
poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante
o dia, tanto faz, pensava ele
Ulisses – Porque choras
pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu
tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…
Ela olhou para Ulisses,
sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,
Pobre e linda mulher - Vai-te
foder meu querido Ulisses.
Ulisses sem saber o que
responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há
sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e
do cornudo.
Chovia, Ulisses sentia no
rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os
seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do
cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e
porque eles eram barcos,
Precisavam de vento e de
mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma
linha descontinua, e finita, e tão faminta
Ulisses – Um barco mais
dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e
quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou
Mas de vento até era a
fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando
ela em lágrimas
Pobre e linda mulher – Eu
aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar
barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha
vida,
Ulisses – Ou quem sabe, o
quadrado de dois barcos,
Pobre e linda mulher – Ou
quem sabe, meu querido, malinhas à porta,
E o som do capim era cada
vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em
busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo
Acordavam os pássaros e
as árvores.
Ulisses já não sabia mais
o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula
que se erguia e fugia, e não mais voltava,
A sanzala toda acordava,
todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos
pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,
Talvez assassinada por
mosquitos, ou outra coisa qualquer,
Pobre e linda mulher – E
mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue
sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela
casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e
Ulisses – hoje sim, hoje vinte
e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo,
e às vezes,
Continuava a Pobre e
linda mulher,
- E também jornais velhos
e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,
Ouvia-se o comboio
perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz
e com olhos verdes, vivia,
A Pobre e linda mulher,
Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,
A não ser,
Sorrisos de chumbo e
alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.
Pobre e linda mulher – sabes,
Ulisses?
Ulisses – Não, diz.
Pobre e linda mulher – Talvez
amanhã seja tarde.
Ulisses encolheu os
ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,
Ulisses – Sei-te lá
mulher!
A espuma começa a ser
dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala,
todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a
ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz
Ulisses - Sei-te lá
mulher!
E ela fingia que o sono
era a saudade.
Francisco.
29/04