30 abril 2026

Se Deus quisesse

E ficávamos ausentes no silêncio dos outros olhares

Se Deus quisesse

Tínhamos o espaço-tempo no toque de uma fotografia

Sem quase tempo

Sem muita alegria.

 

Se Deus quisesse tínhamos asas

E outros adornos e de todos os lugares

Se Deus quisesse

Se ele não se importasse

Eu fazia o favor de ir buscar as palavras

E as semear na esquina da morte.

 

Se Deus quisesse eu até poderia ter mais um só pouquinho de sorte

Se Deus quisesse tínhamos asas

E dançávamos sobre a geada

Se Deus quisesse não morriam crianças

Nem as flores que Deus plantou

Nem contra mim pedras lançadas.

 

Francisco

30/04

29 abril 2026

o cubo de vidro

ao centro o cubo de vidro

três janelas em vidro tem o cubo, o cubo de vidro

tem uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

o universo

em reversão e sem nexo,

 

outro cubo, outro verso sem verso

sem sexo

ao centro, a cama, em cima da cama um círculo, nu, tão nu

como o cubo de vidro

com três janelas em vidro, e uma porta,

 

tão escuro está o corpo em lhe tocar, a verdade

é que o cubo é a vontade do fragúes, confidente

e obediente

e contente

porque na terrinha já tem o continente,

 

depois vem a sopeira com os cupões e com os talões

ele é desconto, ele desencanto e ele é mergulhar

tão fundo e de tão longe que ele veio

no alento

no destino alheio,

 

mas o vento, esse

o vento não quer saber do centro, nem quer saber do cubo

e tão pouco das três janela em vidro

e de uma porta, e a porta dá acesso a uma outra porta, depois um corredor, tão infinito como o é

a ausência de uma abraço, sentindo o escuro do dia, quando a noite é sempre dia.

 

Francisco

29/04

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E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04

Uma laranja vaginal na esquina manhã

Uma laranja vaginal na esquina manhã

Ou na luz do clitóris

O sorriso da tempestade

Que toda contente se esconde

Da bruma primavera dos olivais


A laranja é quase gelo

No silêncio dos outros dias

Quando o fogo quer ser poesia

E o poeta

Um corpo de tinta


Deitado sobre a secretária

Cada gomo da laranja é lua

Escuridão do último luar

E da laranja ficou apenas a solidão

E a vontade de partir.

29/04

era apenas uma espada de chuva

era apenas uma espada de chuva

cravada na terra lavrada

era só um pássaro que voava sobre o mar

sem saber o nome daquela chuva

que há pouco tinha acordado

 

e se tinha lançado contra o silêncio de uma planta

era só uma criança que brincava

na poça charco da sombra

era só o capim assobiando

sobre o tecto da sanzala

 

era só uma bala

uma espingardada desajeitada

que só sabia disparar palavras

contra as vidraças do amanhecer

era só um livro

 

era só um sítio húmido para viver

era só uma saudade e uma árvore

era só a montanha nua e triste e singela

que corria sobre o rio

que o era

 

às vezes uma lâmina de fogo e dor

era só o padeiro a tocar à porta

anunciando outro dia

dizendo à ardósia da noite

que tudo era só um sonho e poesia.

 

29/04

28 abril 2026

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há poetas nos versos sem graça

Entre versos

Ao pescoço gravatas

De mirra e de incenso


Já não há paciência para este louco Deus

Já não há estrelas no céu

E os rios deixaram de para o mar correr

Para depois morrer

Na sebenta de uma pétala


Já não há palavras para escrever

Já não há portas para arrombar

Já não há livros nos meus livros

Quando os meus livros ainda sabiam cantar

E sonhar


Já não há janelas para abrir

Cigarros para fumar

Já não há lareira ou fogo a arder

Já não há música a tocar;

Assim já posso partir!


28/04