era apenas uma espada de
chuva
cravada na terra lavrada
era só um pássaro que
voava sobre o mar
sem saber o nome daquela
chuva
que há pouco tinha
acordado
e se tinha lançado contra
o silêncio de uma planta
era só uma criança que
brincava
na poça charco da sombra
era só o capim assobiando
sobre o tecto da sanzala
era só uma bala
uma espingardada
desajeitada
que só sabia disparar
palavras
contra as vidraças do
amanhecer
era só um livro
era só um sítio húmido
para viver
era só uma saudade e uma
árvore
era só a montanha nua e
triste e singela
que corria sobre o rio
que o era
às vezes uma lâmina de
fogo e dor
era só o padeiro a tocar
à porta
anunciando outro dia
dizendo à ardósia da
noite
que tudo era só um sonho
e poesia.
29/04