29 abril 2026

E ela fingia que o sono era a saudade

O que me diria Ulisses se me encontrasse no meu rotineiro desencontro, nas margens de um rio imaginado por uma agulha, o que me diria Ulisses se me encontrasse na busca de uma lágrima salgada, às vezes tão poeirenta, e apetecível,

Às vezes tão sem jeito e sem gracinha nenhuma.

Olhava o mar de rosto tapado, talvez para se esconder da maré que brevemente chegaria e que lhe trazia, notícias do outra lado da lua, a zona fria e escura, aquela que os poetas odeiam, e que apenas os astronautas visitam, durante a noite, ou durante o dia, tanto faz, pensava ele

Ulisses – Porque choras pobre e linda mulher rainha da floresta dos antigos silêncios da pradaria? Se tu tudo tens, se tu és, e foste, e nasceste, já rainha…

Ela olhou para Ulisses, sorriu, e escreveu no tórrido calor da tarde,

Pobre e linda mulher - Vai-te foder meu querido Ulisses.

Ulisses sem saber o que responder, sem saber onde colocar os braços, escondendo as mãos na algibeira, há sempre alguém que se esconde, o rato do gato e o gato da floresta e do leão, e do cornudo.

Chovia, Ulisses sentia no rosto a rasura de um punhado de locomotivas em direcção ao porto de mar onde os seus amigos e familiares passavam o resto da tarde, embrulhavam o fumo do cigarro num pedaço de néon que do letreiro do bar se espelhava no infinito, e porque eles eram barcos,

Precisavam de vento e de mais vento, até que vinha a noite e cada barco se embrulhava na metáfora de uma linha descontinua, e finita, e tão faminta

Ulisses – Um barco mais dois barcos mais um barquinho muito piqueno, são no fundo todos eles barcos e quatro que é a raiz quadrada de dezasseis barcos, ou

Mas de vento até era a fome, lá fora ouvia-se o tilintar do capim sobre a sombra daquela noite, quando ela em lágrimas

Pobre e linda mulher – Eu aqui a sofrer, quase em morte aleatória, e tu, meu Ulisses, a contar barquinhos, a extrair a raiz quadrada, que quase já não existem barcos na minha vida,

Ulisses – Ou quem sabe, o quadrado de dois barcos,

Pobre e linda mulher – Ou quem sabe, meu querido, malinhas à porta,

E o som do capim era cada vez mais feroz, mais triste e vagabundo, durante a noite parecia migalhas em busca de um pedaço de terra, para passarem a noite, até que manhã cedo

Acordavam os pássaros e as árvores.

Ulisses já não sabia mais o que fazer, pois sempre que chovia, havia do outro lado do rio, uma vírgula que se erguia e fugia, e não mais voltava,

A sanzala toda acordava, todos os habitantes incluindo aqueles que ainda andavam nos testículos dos pais, procuravam em vão a pobre da vírgula,

Talvez assassinada por mosquitos, ou outra coisa qualquer,

Pobre e linda mulher – E mesmo assim sabia que em cada olho desenhado na alvorada, uma lâmina de sangue sobreva e ficava esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, havia de tudo naquela casa, restos de prata do jantar de ontem e de antontem, e

Ulisses – hoje sim, hoje vinte e três barcos, todos eles, ainda com pouca experiência de bombordo e de bordo, e às vezes,

Continuava a Pobre e linda mulher,

- E também jornais velhos e também seringas, e maços de cigarros ausentes, e vazios,

Ouvia-se o comboio perdidamente dentro da gare, ao longe sabíamos que dentro de um círculo de luz e com olhos verdes, vivia,

A Pobre e linda mulher, Ulisses que desde que nascera quase nada tinha feito na puta da vida,

A não ser,

Sorrisos de chumbo e alguns artefactos incógnitos e desmedidos no tempo.

Pobre e linda mulher – sabes, Ulisses?

Ulisses – Não, diz.

Pobre e linda mulher – Talvez amanhã seja tarde.

Ulisses encolheu os ombros, e nada acrescentou à conversa que tinha tido com a Pobre e linda mulher,

Ulisses – Sei-te lá mulher!

A espuma começa a ser dia, e depois de ser dia, os pássaros e as árvores e o capim e a sanzala, todos, mergulhavam numa bruma cinzenta de quase nada, e mesmo assim, sobre a ponte ainda se ouvia a voz de Ulisses, a voz

Ulisses - Sei-te lá mulher!

E ela fingia que o sono era a saudade.

 

Francisco.

29/04

Uma laranja vaginal na esquina manhã

Uma laranja vaginal na esquina manhã

Ou na luz do clitóris

O sorriso da tempestade

Que toda contente se esconde

Da bruma primavera dos olivais


A laranja é quase gelo

No silêncio dos outros dias

Quando o fogo quer ser poesia

E o poeta

Um corpo de tinta


Deitado sobre a secretária

Cada gomo da laranja é lua

Escuridão do último luar

E da laranja ficou apenas a solidão

E a vontade de partir.

29/04

era apenas uma espada de chuva

era apenas uma espada de chuva

cravada na terra lavrada

era só um pássaro que voava sobre o mar

sem saber o nome daquela chuva

que há pouco tinha acordado

 

e se tinha lançado contra o silêncio de uma planta

era só uma criança que brincava

na poça charco da sombra

era só o capim assobiando

sobre o tecto da sanzala

 

era só uma bala

uma espingardada desajeitada

que só sabia disparar palavras

contra as vidraças do amanhecer

era só um livro

 

era só um sítio húmido para viver

era só uma saudade e uma árvore

era só a montanha nua e triste e singela

que corria sobre o rio

que o era

 

às vezes uma lâmina de fogo e dor

era só o padeiro a tocar à porta

anunciando outro dia

dizendo à ardósia da noite

que tudo era só um sonho e poesia.

 

29/04

28 abril 2026

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há poetas nos versos sem graça

Entre versos

Ao pescoço gravatas

De mirra e de incenso


Já não há paciência para este louco Deus

Já não há estrelas no céu

E os rios deixaram de para o mar correr

Para depois morrer

Na sebenta de uma pétala


Já não há palavras para escrever

Já não há portas para arrombar

Já não há livros nos meus livros

Quando os meus livros ainda sabiam cantar

E sonhar


Já não há janelas para abrir

Cigarros para fumar

Já não há lareira ou fogo a arder

Já não há música a tocar;

Assim já posso partir!


28/04

12 abril 2026

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida, na amnésia repartida entre o frio, entre a vida e a morte, e uma estrela em delírio

que quase nada existe, em tudo aquilo que existe

e que resiste

e que persiste

na canção de uma lágrima

entre as espadas de uma mão e a mão empunhando uma espada em contramão

 

já nada quase a alegria de sentir e de ver, cada flor a crescer

cada flor a sorrir, e a brincar

que tanto escuro está, se o dia fosse só uma linha recta

e erecta, sem fim

quando quase o fim da vida

pertence à razão de acreditar

 

já nada quase o ser e o ter, o sentir, ter de esquecer

cada estrada palmilhada, cada estrada invertida

longínqua, e sofrida

que a vida á e só uma avenida, sem a saída

que a tristeza é o inverno

e o inferno a beleza

 

12/04/2026, 13:12

nunca tive tempo, andei sempre e sempre sempre dentro do vento

nunca tive tempo, andei sempre e sempre

sempre dentro do vento

e sempre, eu, sem tempo

há tanto tempo, que apenas sinto o corredor cada vez mais ínfimo e pequenino

há quanto tempo, eu te espero, meu destino

há quanto tempo, que fiquei sem tempo, e perdido no vento

ai se o tempo, sentisse aquilo que sinto (sento)

eu tinha tempo, tanto tempo

para quê?

se o tempo é de borla e é deus que o dá, dizem-no

oh,

e para que quero eu tempo, se pouco ou nada, tenho

para fazer neste tempo

se ao menos o tempo soubesse quanto ainda resta ao tempo,

 

para deixar de ser tempo, e ser apenas vento.

 

12/04/2026, 05:52