07 março 2026

 

Ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite

Sempre me fascinou a noite, ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite, era quase dia depois de sobrevoar o mar das migalhas, junto à ilha, e eu escutava o silêncio nocturno da casa, a casa,

Assim começa um poema de AL Berto, e assim escreve Lobo Antunes, o António

Que a noite dos silêncios, não é mais do que pequenos e silenciados rugidos,

Uma migalha que ficou do jantar da noite passada, tal como ele, eu adorava escutar o ranger dos moveis, quando acordam e desenham na escuridão

Aquele ruido divino

Depois a porta que range, de afiados dentes e tão cansada como eu, hoje

De servir apenas para esconder qualquer coisa, não é para isso que serve uma porta?

Depois, como ela nada tem para fazer do que esconder um compartimento e lá esconder, velharias & outras coisas mais, e também, corpos

E depois do meu corpo rodar trinta e cinco graus no sentido anti-horário, a cama acorda, e ainda sonolenta, finge que ontem ainda era tempo,

E que hoje,

Sem tempo, para ter tempo

E continua a noite, só, descalça, e lá fora outros silêncios ruídos, um automóvel com alguns dias de atraso, acorda a escura rua, depois o camião à procuras de sobras do dia de ontem, depois

Depois um pássaro não em silêncios ruídos, mas em alegres traços na tela da madrugada

Ah, e até o meu corpo, em quantas vezes, range, geme, e semeia sobre a lareira as lágrimas que só as estrelas o sentem, e eu, como sou uma estrela, também o sinto

Mas a noite é mágica, porque é silêncio, porque brevemente será Páscoa, e eu sou Ateu

Acredito no sorriso de um gato, preto, negro cada traço lançado contra o vento, e eu

E eu que sou o poeta, diria que a chuva é quase uma sílaba esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, acolá

Do outro lado do mar, do sítio mais parvo, tão parvo como abastecer o automóvel até que ele vomite gotículas de sémen, acreditando

E eu que sou Ateu, eu acredito

Que um dia vou gostar de gatos, que um dia o meu corpo vai deixar de ranger e de gemer, e ainda

Eu que sou Ateu, acredito

E ainda, este magnifico jerricã, pintado a encarnado desejo e com um poema de um tal de

Deixem lá o poema; e eu que sou Ateu, vou gostar de gatos, como será evidente

E amanhã à tarde, no meu milésimo abastecimento, oferecerei um pequeno e lindo

Jerricã em miniatura, com lantejoulas ao pescoço.

 

07/03/2026, 21:00

estás linda, meu amor

diferente, talvez seja dos teus meus olhos vesgos

oh, sou agora especial, sou banal e burra!

 

não sei, mas hoje estás linda.

 

(e eu mais cansado de que as lâminas de barbear)

 

07/03/2026, 20:33

06 março 2026

A luz do mar

Tenho uma mão de tinta para disfarçar a luz do mar, que ainda ontem éramos dois sonhos de um guarda-chuva, mas

O amor é quase uma hora para o fogo, e a tua boca é a melodia do corpo na despedida da última figueira,

E sinto sobre o meu nome um relógio de sémen que também era só uma pétala de pão na esquina da morte.


Tenho uma mão de tinta, e no teu sexo quero escrever o meu nome, porque o amor é também a luz do meu desejo que o sono esconde no silêncio da tua voz

Tão cansado estou, meu amor, e quase não tenho o fogo para te amar, hoje

Que o cansaço parece ser o dia travestido de dezembro, tão triste, meu amor, este cansaço que desiste do mar e da chuva e da tua boca...


E de te tocar, porque esta minha mão de tinta é o aresto que o livro semeia no teu corpo, e quanto mais cansado me sinto, mais negra é a alegria do meu sol, que o meu nome seja o silêncio da última paragem no toque de uma fotografia,

E lá estou eu suspenso na tarde lápide que também foi a primeira primavera do mar,

E eu sofria no sorriso da tempestade que estava sentada na cama como se o fogo fosse só um pedaço de pedra sobre mim.


Coitado de mim que também fui um soldado, e hoje apenas tenho uma mão de tinta que não tem remetente nem destinatário ou

Éramos dois sonhos de um guarda-chuva acorrentado ao jardim do castelo,

E sempre que vinha o vento, o fogo relógio de te amar dançava na flor do teu olhar, mas hoje, meu amor, é tanto o cansaço que eu vou fazer um outro relógio para te amar.


06/03/2026, 21:39

05 março 2026

O amor

O amor, o fogo que também é silêncio e que hoje pertence ao jardim do mar,
Do amar, mas o fogo não terminou, mas o fogo está pronto para se disfarçar de tinta e escrever no teu corpo,
O amor, o dia que ainda ontem estava sentado no toque de uma mágoa,
Desejar o fogo de tinta para que o teu olhar seja o silêncio da chuva,
E,
E que gemia sentidos pêsames para toda a tarde lápide que ainda está disponível para a viagem,
E partiram para a casa da última paragem do comboio, havia uma lágrima na esquina da morte, e ele partiu
Sem se despedir do teu olhar, no teu sexo, mas
O amor, o fogo que ainda não terminou de crescer, já
Feliz, e o pincelar da tua boca é quase gelo quando o fogo está na flor dos teus seios, nos teus lábios brincam os olhos do mar, e
Que o sono é uma seara que também é quase uma mão, e trazias
Nos cabelos a luz de uma estrela,
O amor, o fogo que também é silêncio e que hoje pertence ao jardim do mar,
Amar.

05/03/2026, 21:26

"Não quero deixar nada, quero ficar inteiro". António Lobo Antunes

 

a última porta antes da noite

inventávamos o sono enquanto ardia a noite no teu nu corpo de cianeto

e toda a luz tinha sido aprisionada por um negro buraco, tão mais escuro, que o negro da tela onde redesenho o teu rosto, e cada pincelada é uma estrela que se apaga, é uma estrela que parte

e leva na sua mão, o silêncio de uma nuvem

 

05/03/2026, 19:09