Sempre me fascinou a
noite, ouvir eu o sentia, quando ouvia os segredos da noite, era quase dia
depois de sobrevoar o mar das migalhas, junto à ilha, e eu escutava o silêncio
nocturno da casa, a casa,
Assim começa um poema de
AL Berto, e assim escreve Lobo Antunes, o António
Que a noite dos
silêncios, não é mais do que pequenos e silenciados rugidos,
Uma migalha que ficou do
jantar da noite passada, tal como ele, eu adorava escutar o ranger dos moveis,
quando acordam e desenham na escuridão
Aquele ruido divino
Depois a porta que range,
de afiados dentes e tão cansada como eu, hoje
De servir apenas para
esconder qualquer coisa, não é para isso que serve uma porta?
Depois, como ela nada tem
para fazer do que esconder um compartimento e lá esconder, velharias &
outras coisas mais, e também, corpos
E depois do meu corpo
rodar trinta e cinco graus no sentido anti-horário, a cama acorda, e ainda
sonolenta, finge que ontem ainda era tempo,
E que hoje,
Sem tempo, para ter tempo
E continua a noite, só,
descalça, e lá fora outros silêncios ruídos, um automóvel com alguns dias de
atraso, acorda a escura rua, depois o camião à procuras de sobras do dia de
ontem, depois
Depois um pássaro não em
silêncios ruídos, mas em alegres traços na tela da madrugada
Ah, e até o meu corpo, em
quantas vezes, range, geme, e semeia sobre a lareira as lágrimas que só as
estrelas o sentem, e eu, como sou uma estrela, também o sinto
Mas a noite é mágica,
porque é silêncio, porque brevemente será Páscoa, e eu sou Ateu
Acredito no sorriso de um
gato, preto, negro cada traço lançado contra o vento, e eu
E eu que sou o poeta,
diria que a chuva é quase uma sílaba esquecida sobre a mesa-de-cabeceira, acolá
Do outro lado do mar, do
sítio mais parvo, tão parvo como abastecer o automóvel até que ele vomite gotículas
de sémen, acreditando
E eu que sou Ateu, eu
acredito
Que um dia vou gostar de
gatos, que um dia o meu corpo vai deixar de ranger e de gemer, e ainda
Eu que sou Ateu, acredito
E ainda, este magnifico jerricã,
pintado a encarnado desejo e com um poema de um tal de
Deixem lá o poema; e eu
que sou Ateu, vou gostar de gatos, como será evidente
E amanhã à tarde, no meu
milésimo abastecimento, oferecerei um pequeno e lindo
Jerricã em miniatura, com
lantejoulas ao pescoço.
07/03/2026, 21:00
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