sábado, 19 de abril de 2014

prisões de vento


não percebo a prisão de vento que são os teus braços
quero voar... e não consigo subir à árvore do teu sorriso
planar no teu silêncio
não percebo as andorinhas do teu cabelo
parecem tristes
parecem aquilo que sou quando cessam todas as luzes

não percebo porque sou obrigado a sonhar
quando deveria navegar sobre um Oceano de insónia
não percebo as nuvens cinzentas das montanhas abandonadas
sem vida
sem... sem madrugadas
afinal... nada percebo e nada sei a teu respeito

percebo que vives
percebo que morrerás sem perceberes que eu já percebi... que aquela montanha é apenas uma sombra de olhos cerrados
não percebo os cigarros que vivem como se fossem palavras
palavras que se escrevem em ti
e de palavras será construída a tua lápide
quando acordar o Sol e eu talvez sentado sobre um pedaço de xisto esperando que acordes

não percebo a ausência dos calendários sem janelas
as ruas parecendo um jardim vestido de nus obscuros sons
um baterista esquecido num coreto de aldeia
e tu moves-te como se fosses um pedestal pesadíssimo
granítico
ignóbil cansaço nos teus braços que são uma prisão de vento.


Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 19 de Abril de 2014

se o teu corpo falasse


se o teu corpo fosse apenas uma palavra
uma flor solitária no jardim dos jasmins
uma estátua sem nome
sexo
ou idade...
se o teu corpo fosse a noite enfeitada com lantejoulas e alecrim
desconexo melódico das músicas sem anoitecer
conforme os sonhos da insónia
se o teu corpo fosse uma guitarra
uma bateria prisioneira num quinto andar com janelas para o Tejo...
um cacilheiro em combustão
procurando poemas

inventando livros nas mãos do silêncio
se o teu corpo fosse uma sinfonia de fotografias a preto-e-branco
nua
sexo
ou idade...
se o teu corpo habitasse na ponte do incenso
mergulhada na tristeza de um olhar pintado de verde
nua
sexo
ou... idade
se o teu corpo fosse um livro de ler
a lareira do Inverno recordando a saudade...

se o teu corpo existisse
tivesse vida como a vida das minhas personagens
se ele me dissesse que me amava
se o teu corpo fosse a jangada
a livraria enfeitada com o pó envenenado das sanzalas perdidas no Oceano...
nua
sexo
ou... idade
se o teu corpo falasse
gritasse
- eu estou apaixonada...
e eu acorrentava-me ao teu corpo com o nome de “palavra”...


Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 19 de Abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

candeeiros com braços de prata


quatro bancos em madeira
um jardim em desassossego
três árvores
… duas belas mulheres
uma Primavera
com plátanos de brincar
quatro bancos em madeira
dois corpos em translação
quatro seios em rotação
… e duas belas mulheres
duas mulheres em solidão
quatro bancos em madeira e uma gaivota em papel

um barco com pálpebras de chocolate
um marinheiro vestido de vampiro
duas belas mulheres
e quatro bancos em madeira
percebem na insónia a sinfonia dos candeeiros com braços de prata
um jardim em desassossego
um Oceano desgostoso
triste...
tão triste como os fios de nylon que aprisionam o sexo dos pássaros
uma Primavera inventada pelo poeta dos farrapos amanhecer
senta-se nos quatro bancos em madeira...
… acaricia as duas belas mulheres e as três árvores


Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sexta-feira, 18 de Abril de 2014