02 maio 2026

O covarde nunca diz o que pensa

A sentença do condenado é dura de roer

Quando no santo altar

Dorme outro covarde que pensa,

Pensa alguma coisa ser

E o covarde se esconde no silêncio

E do covarde se ouve

Que nada tem para dizer.

o gato aurélio

assustado viva o gato aurélio

do telhado invisível do abismo

ele escutava a primeira canção do amanhecer

e fumava e sonhava que um dia iria ser

 

nada

o que poderia ser um dia

um gato

um gato ausente e um gato quase doente

 

mas aurélio não o queria saber

todas as noites no telhado

o gato aurélio escutava a primeira canção do amanhecer

todas as noites ele acreditava

 

ele não dormia

porque aurélio o sabia

e o sentia

que um dia ele seria gente.

 

Francisco

02/05

01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05

Corpo

Este corpo que me foge

Se cansa da vida patética e fria

Que cada degrau subido

É uma ribeira desenfreada

Magra

Que lia

Na primeira sílaba do pecado

A solidão

De uma mão

E o eterno corpo cansado,

 

Que este corpo deixou de me pertencer

Quase sem vida

Quase sem vontade de caminhar ou correr ou viver

Que este corpo vagabundo

É a sinfonia sem prazer

Quando a lua é a maresia

E o verbo é foder

Que este corpo é uma velharia

Sem cromados

E janelas eléctricas,

 

Que este corpo depois de cremado será cinza

O húmus que fortalecerá a razão inversa

Do sofrer

Descer

E subir

E me deitar

No chão húmido da minha aldeia

Que este corpo me chateia

Até que um dia eu consiga erguer da alvorada

A semente de um novo dia.

 

Francisco

01/05

O sono

O sono lembra histórias de brincar,

E sabe, sabe tudo sobre o esconderijo onde habita o temido destino, e o prometido,

Destinado a ser um pêndulo, talvez o de Foucault ou outro pêndulo qualquer,

Há sempre um fio, sempre invisível ao tempo, entre dois pontos de luz, o negro, e o silêncio

E tem a espada na mão como se fosse uma serpente, ou o trigo,

Que depois é o pão.

 

Mas o sono tudo sabe sobre a noite,

Só o sono consegue inverter as imagens do dia

E as transformar em outras palavras, semeadas na algibeira da tarde, uns dirão que é poesia,

Outros que nada é,

E outros,

Que a loucura é a distância entre o pénis e a lua.

 

Eu? Eu nada,

Nunca entendi o sono, nem a falange da madrugada,

Nunca fui marinheiro, e de barco andei meio mundo,

Convencido que as almas são moedas de oiro

Dentro da barcaça, dentro da íris

Que sempre acorda, depois do sono.

 

Francisco

01/05

30 abril 2026

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,

Tantos que nem o sei, senhor

Tantos são os anos a seu lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da sua vida deflagrou,

Sim Horácio, tens razão, muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto

Não percebi meu amo,

E no entanto, meu querido Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita em mim.

Imagina,

Sim meu amo, eu imagino,

Imagina uma linda estrela e loira poisada na noite,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio,

Sim, meu amo, sim, e que é tão linda, meu senhor

Agora se eu te disser que essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,

Sim, meu senhor, sim

E se eu te disser que essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e já morreu há muito tempo,

Consegues tu imaginar, meu querido Horácio?

Não, meu amo, isso ultrapassa-me,

Mas é verdade, ela morreu e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque veio a mim

Sim, meu senhor, estou assim a perceber,

Veio até ti à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,

E eu meu senhor, que nem sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como

Sim Horácio, assim mesmo.

Mas sabes Horácio,

Sim, meu senhor,

Nada disto existe.

Como?

Sim meu fiel amigo. Imagina que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo qualquer

Consegues imaginar, meu fiel amigo?

Sim meu senhor, consigo, é que…, só mais um pouquinho,

Está bem Horácio, imagina lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou de mulher,

Preferia de mulher, eu preferia

Eu também Horácio, mas imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha existo, nunca tenha nascido.

E agora, meu querido Horácio, o que tens tu a dizer-me?

 

Francisco

30/04

a lágrima

quando já quase nada faz sentido

sentir o vento devido

mergulhado no ónus endividado e tímido

nos confins da ausência programada

 

e desejada como que o delírio

fosse dinheiro

e eu de tão rico estar

porque passo os dias a delirar

 

e passo as noites a escrever

e a desenhar

e a sentir

o vento regressar

 

e a primavera a chorar

e a saliva sobre a pele escaldante de uma lágrima

que de tão cansada estar

adormece no meu rosto

 

e o acaricia

e lhe toca

e eu sei que não estou só

nem louco.

 

Francisco

30/04