01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05