01 maio 2026

Corpo

Este corpo que me foge

Se cansa da vida patética e fria

Que cada degrau subido

É uma ribeira desenfreada

Magra

Que lia

Na primeira sílaba do pecado

A solidão

De uma mão

E o eterno corpo cansado,

 

Que este corpo deixou de me pertencer

Quase sem vida

Quase sem vontade de caminhar ou correr ou viver

Que este corpo vagabundo

É a sinfonia sem prazer

Quando a lua é a maresia

E o verbo é foder

Que este corpo é uma velharia

Sem cromados

E janelas eléctricas,

 

Que este corpo depois de cremado será cinza

O húmus que fortalecerá a razão inversa

Do sofrer

Descer

E subir

E me deitar

No chão húmido da minha aldeia

Que este corpo me chateia

Até que um dia eu consiga erguer da alvorada

A semente de um novo dia.

 

Francisco

01/05