O covarde nunca diz o que pensa
A sentença do condenado é dura de roer
Quando no santo altar
Dorme outro covarde que pensa,
Pensa alguma coisa ser
E o covarde se esconde no silêncio
E do covarde se ouve
Que nada tem para dizer.
assustado viva o gato
aurélio
do telhado invisível do
abismo
ele escutava a primeira
canção do amanhecer
e fumava e sonhava que um
dia iria ser
nada
o que poderia ser um dia
um gato
um gato ausente e um gato
quase doente
mas aurélio não o queria
saber
todas as noites no
telhado
o gato aurélio escutava a
primeira canção do amanhecer
todas as noites ele
acreditava
ele não dormia
porque aurélio o sabia
e o sentia
que um dia ele seria
gente.
Francisco
02/05
Vamos fingir.
Fingimos então que somos
flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e
triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me
escondo, depois vou à janela, peço socorro
Socorro, socorro,
Tenho uma primavera
dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser
Ler os astros pela
madrugada.
Meia-lua e meia-luz,
pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe
perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma
pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.
Cada barco, o mais
estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do
mar, uma gaivota
Tenho medo, Ricardo
Uma gaivota escrevia no
silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão
querida
Sabes?
Não o sei, dizia-me
sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o
sabia, e fartinho estava eu de o saber,
Que ela o sabia.
Vamos fingir, que o sono
é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,
Que o sol seja deus, e
que deus o queira, quem o sabe.
Que um dia,
Tão pequenina, e tão
querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas
Sempre que apago a luz,
sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos
que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?
Vamos fingir.
Francisco
01/05
Este corpo que me foge
Se cansa da vida patética
e fria
Que cada degrau subido
É uma ribeira desenfreada
Magra
Que lia
Na primeira sílaba do
pecado
A solidão
De uma mão
E o eterno corpo cansado,
Que este corpo deixou de
me pertencer
Quase sem vida
Quase sem vontade de
caminhar ou correr ou viver
Que este corpo vagabundo
É a sinfonia sem prazer
Quando a lua é a maresia
E o verbo é foder
Que este corpo é uma velharia
Sem cromados
E janelas eléctricas,
Que este corpo depois de
cremado será cinza
O húmus que fortalecerá a
razão inversa
Do sofrer
Descer
E subir
E me deitar
No chão húmido da minha
aldeia
Que este corpo me chateia
Até que um dia eu consiga
erguer da alvorada
A semente de um novo dia.
Francisco
01/05
O sono lembra histórias
de brincar,
E sabe, sabe tudo sobre o
esconderijo onde habita o temido destino, e o prometido,
Destinado a ser um
pêndulo, talvez o de Foucault ou outro pêndulo qualquer,
Há sempre um fio, sempre
invisível ao tempo, entre dois pontos de luz, o negro, e o silêncio
E tem a espada na mão
como se fosse uma serpente, ou o trigo,
Que depois é o pão.
Mas o sono tudo sabe
sobre a noite,
Só o sono consegue
inverter as imagens do dia
E as transformar em
outras palavras, semeadas na algibeira da tarde, uns dirão que é poesia,
Outros que nada é,
E outros,
Que a loucura é a distância
entre o pénis e a lua.
Eu? Eu nada,
Nunca entendi o sono, nem
a falange da madrugada,
Nunca fui marinheiro, e
de barco andei meio mundo,
Convencido que as almas
são moedas de oiro
Dentro da barcaça, dentro
da íris
Que sempre acorda, depois
do sono.
Francisco
01/05
Meu querido Horácio, meu escudeiro e fiel amigo, há quantos anos tomas tu conta de mim,
Tantos que nem o sei,
senhor
Tantos são os anos a seu
lado, e sempre, e sempre pronto para extinguir cada incêndio que ao longo da
sua vida deflagrou,
Sim Horácio, tens razão,
muitos são os anos, muitos de tantas coisas que o podiam ser, e no entanto
Não percebi meu amo,
E no entanto, meu querido
Horácio e não é para tu perceberes, o tempo, deus, nada disso existe, acredita
em mim.
Imagina,
Sim meu amo, eu imagino,
Imagina uma linda estrela
e loira poisada na noite,
Consegues tu imaginar,
meu querido Horácio,
Sim, meu amo, sim, e que
é tão linda, meu senhor
Agora se eu te disser que
essa linda e loira estrela que observas, tu e eu, poisada na noite,
Sim, meu senhor, sim
E se eu te disser que
essa linda e loira estrela poisada na noite, ela, na verdade, já não existe e
já morreu há muito tempo,
Consegues tu imaginar,
meu querido Horácio?
Não, meu amo, isso
ultrapassa-me,
Mas é verdade, ela morreu
e só agora é possível ver o seu olhar, e os seus lábios, porque veio a ti, porque
veio a mim
Sim, meu senhor, estou
assim a perceber,
Veio até ti à velocidade
de trezentos mil quilómetros por segundo, isto é, à velocidade da luz,
E eu meu senhor, que nem
sabia que a luz tinha velocidade, assim como os tractores, assim como
Sim Horácio, assim mesmo.
Mas sabes Horácio,
Sim, meu senhor,
Nada disto existe.
Como?
Sim meu fiel amigo. Imagina
que tudo isto, isto é tudo, à tua volta, é uma realidade inventada, um algoritmo
qualquer
Consegues imaginar, meu
fiel amigo?
Sim meu senhor, consigo,
é que…, só mais um pouquinho,
Está bem Horácio, imagina
lentamente, sobre a espuma do mar, um corpo, qualquer, quer seja de homem, ou
de mulher,
Preferia de mulher, eu
preferia
Eu também Horácio, mas
imagina que esse corpo, qualquer que ele seja, ou tenha sido, nunca tenha
existo, nunca tenha nascido.
E agora, meu querido
Horácio, o que tens tu a dizer-me?
Francisco
30/04
quando já quase nada faz
sentido
sentir o vento devido
mergulhado no ónus
endividado e tímido
nos confins da ausência
programada
e desejada como que o
delírio
fosse dinheiro
e eu de tão rico estar
porque passo os dias a
delirar
e passo as noites a
escrever
e a desenhar
e a sentir
o vento regressar
e a primavera a chorar
e a saliva sobre a pele
escaldante de uma lágrima
que de tão cansada estar
adormece no meu rosto
e o acaricia
e lhe toca
e eu sei que não estou só
nem louco.
Francisco
30/04